Não sei se chore, se ria.
Depois de o PS ter entrado como um leão a defender o inalienável direito do chamado ministro das finanças de mendigar borlas a Sua Excelência o Presidente Vieira, o intolerável Lacão avançou com uma proposta fantástica: os deputados e outros titulares de cargos políticos não podem pedir tais favores, nem aceitá-los sem pedir!
Então, e os direitos do Centeno? Será isto uma clivagem na geringonça? Ou é só fumaça, ou é de gargalhada.
Há mais. O BE, dono, como é sabido da “moral” pública, acha que quem tiver profissão, quem trabalhar e ganhar bem a sua vida, não pode ser deputado. Só os que, indo para o parlamento, ganhem mais lá do que ganhavam cá fora, estarão habilitados a representar o povo. Juízes em causa própria, os BE’s, todos eles sem nenhuma conexão com a vida real, acham que os outros, se a têm, devem abandoná-la. Caso contrário, têm que abandonar tudo para se dedicar ao serviço da Nação. A vingar esta brilhante ideia, para além de todos os defeitos que há na escolha dos candidatos, teremos mais um: só poderão candidatar-se os inúteis, os funcionários públicos, os trabalhadores não qualificados, isto é, quem ganhar mais na assembleia do que ganhava cá fora. Excluídos ficam todos os profissionais que tenham alguma valia.
Para quem se queixa, com alguma razão, da inutilidade de muitos deputados, ministros, etc., nada melhor que baixar ainda mais o nível dos nossos representantes. Quem for advogado, deixa de o ser durante o mandato. Quem for gestor, deixa de gerir. Quem for empresário, abandona a empresa. Quem for bem pago, passa a ganhar menos. Quem for rico, isto é, quem tiver rendimentos superiores a 3.000 euros por mês, não tem direito a candidatar-se, a não ser que os abandone. Quem, apesar de se sujeitar aos ditames do BE, aceitar ser eleito, quando, quatro anos depois, voltar à “peluda”, não terá clientes, nem emprego, ou estará estagnado na sua vida, ultrapassado pelos outros, etc. A não ser, é claro, que seja funcionário público e suba por antiguidade… Bonito. Lamentável.
Mas… o Lacão e o BE não ficam por aqui. Fica vedada aceitação de convites que, se pagos, custem mais que 150 euros. É claro que se trata de convites de entidades privadas. Se for de entidades públicas, a coisa muda de figura. Compreende-se: as entidades privadas põem em causa a independência dos políticos (leia-se, corrompem-nos obrigatoriamente); as públicas estão acima de qualquer suspeita. Quem aceitar convites de entidades públicas, sejam quais forem, nacionais ou estrangeiras, é, por definição, incorruptível. A sacrossanta coisa pública não tem qualquer capacidade de “influenciar” seja quem for, muito menos os políticos. A lista das angelicais entidades públicas, segundo a proposta, é longa, pormenorizada, sem excepções imagináveis.
E as ofertas? Aqui a coisa fia muito fino. Ofertas até 150 euros (acompanhadas de factura comprovativa?) podem ser aceites. Acima disso, se a sua recusa puder ser considerada “uma quebra de consideração pelo ofertante”, não há problema. Assim, se alguém der um Ferrari a um político ameaçando cortar relações em caso de não aceitação, venha de lá o carrinho!
Estas tão inteligentes medidas, diga-se, ainda estão “em estudo” numa comissão qualquer.
Por um lado, é a presunção da culpa no seu mais alto esplendor. Mas, e aqui é que bate o ponto, vem tão bem embrulhada que os “juízes” de cada caso são os próprios.
Veda-se a intervenção judicial em nome da “transparência”. Todos os que tenham “contacto” com privado são suspeitos. Os que, efectivamente, prevariquem, só faltam ao código de conduta.
17.1.18