IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


UM JARRETA

 

No meu tempo de menino do liceu, os professores de português ensinavam umas coisas aos rapazinhos. Bem sei que utilizavam em demasia a “técnica” da ponteirada no toutiço, mas não fiquei com nenhum stress pós-traumático por causa disso. Tempos que já lá vão.

Não sei o que se passou com as gerações seguintes, mas desconfio que, quem sabe se por falta do ponteiro, as coisas mudaram. Se eu dissesse que o lápis era “em” madeira, o professor perguntava: onde? Eu não percebia. E ele: sim, seu palerma, onde é a madeira, na porcalhota? E eu lá percebia que a preposição era “de” e não “em”. Hoje não há quem não diga, quem não escreva, que o fio é “em” ouro ou que a Bic é “em” plástico. O ponteiro funcionava para quem dissesse “antes prefiro” ou “parece-me a mim”, ou “eu parece-me”, ou equivalente. Perdeu-se por completo a noção de pleonasmo. O sujeito indeterminado era, como em qualquer língua latina, da terceira pessoa do singular: “vendem-se” andares é o pontapé mais comum, vulgar e bem aceite como tantos outros. A regra perdeu-se por completo, hoje o verbo a concordar com o complemento direto é comum brutalidade. Os infinitvos precedidos de preposição nunca se conjugavam: foram à bilheteira para “comprarem” os bilhetes. Olaré. As palavras graves eram graves, as exdrúxulas exdrúxulas. Não era permitido dizer “priúdo” em vez de período. Nem pensar em dizer “púrque” em vez de porque. Nem dizer “pêla” em vez de pela (p’la) ou “pêlo” em vez de pelo (p’lo). Nem “póssamos” em vez de possamos. E por aí fora.

Você não precisa de andar na rua para ouvir estas coisas. Ouve-as na rádio, na TV, lê-as nos jornais e até em livros de escritores da moda.

Há também quem exagere, e ao mais alto nível. Olhem o chamado primeiro-ministro a dizer “produtidade” em vez de produtividade, “precaridade” em vez de precariedade, ou escrever “tive” em vez de estive.

A língua, mercê do acordo ortográfico, “enriqueceu” com mais três letras no alfabeto: w, y e k. Ninguém explicou para que precisamos delas, mas… mas o quê? Para nossa vergonha, os africanos borrifam no acordo . É um serviço que nos prestam, já que, para burros, chegamos. Abrasileiramos o portugês. Felizmente, é defendido em África.

Há para aí faculdades de letras, filólogos, doutores, “cientistas” da língua, professores aos pontapés a fazer e manifestos e manifestações por tudo e por nada. Todos bem pagos e incensados. Antes não os houvesse.

 

Conclusão: sou um jarreta que, ou não acompanha o “progresso”, ou anda com o pé trocado.

Quem manda é o mainstream. O resto é conversa.

 

18.01.18



5 respostas a “UM JARRETA”

  1. Avatar de António Leite de Castro
    António Leite de Castro

    Uma senhora deputada escreveu: “não tenho por hábito fazer sensura, mas não tulero insultos. Bloquiarei o autor”. Foi logo promovida a Secretária de Estado pelo chefe Costa.Quarenta anos depois, a ignorância e incompetência chegaram aos topos da administração.

    1. Pf. diga-me quem é a ilustre senhora, a fim de a contemplar com um comentário apropriado!

  2. Avatar de António Leite de Castro
    António Leite de Castro

    Catarina Marcelino, ex-Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade.Procure no google: ” erros ortográficos de Deputada do PS”

  3. Discutimos aqui o “vendem-se”, que será talvez o mais polémico, mas acabei por dar-lhe razão. Creio que o seu caro Alberto Gonçalves, que escreve bem, também alinha no vendem-se, comprarem, etc. Entre a ignorância, a preguiça e a geração SMS, já mal reparamos. Acrescento outro caso. Há imensa gente que não parece distinguir, na 1ª pessoa do plural e nos verbos acabados em “ar”, o presente do pretérito perfeito. Nós não jantámos juntos: jantamos juntos. Não importa ter acontecido há 3 meses. Não encontrámos o Malaquias: encontramos. Não falámos: falamos, mesmo que tenha sido em 1978. São incapazes de dizer o “á”. Deve ser mais uma importação brasuca.

    1. Tem toda a razão no que respeita ao Alberto Gonçalves. O mesmo diria, por exemplo, do génio literário que é António Lobo Antunes. E de tantos outros com responsabilidades.Aliás, se for à “obra” da dona Edite Estrela, é capaz de por lá encontrar a defesa de muita asneira.

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