IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • QUEM SERÁ?

    Segundo o "Expresso", José Manuel dos Santos, cronista do dito, ganhou o prémio da Sociedade de Língua Portuguesa "pela alta qualidade da escrita"… "sensibilidade", "humor", "riqueza humana e cultural invulgares"…

    Estou de acordo. A tal sociedade, do alto da sua alta competência, por certo deve ter escolhido bem.

    O problema é a minha ignorância. É que jamais ouvi falar do senhor José Manuel dos Santos, eu, que compro o "Expresso" todas as semanas. Descrente de mim próprio, lá fui vasculhar as páginas das duas últimas edições do citado plumitivo, à procura do homem. Vasculhei, vasculhei… e não encontrei nada. "Procurar horas a fio dentro de mim, e não encontrar ninguém", era um sonho de Rainer Maria Rilke. Sendo mais modesto, procuro no "Expresso". E não encontro nenhum José Manuel dos Santos.

    Quem será, afinal, o senhor Santos? Se algum dos meus leitores souber, agradeço informe, a fim de que me não venha a convencer que o fulano é algum ectoplasma que aparece ao dr. Balsemão, em sonhos, cheio de humor, de sensibilidade, de riqueza humana, etc.

     

    António Borges de Carvalho
  • UMA BESTA

    Com incontida alegria, o Diário de Notícias titulava, em 8 de Fevereiro: Iraque – Rebeldes abatem quinto helicóptero americano.

    A notícia em si não interessa lá muito: é o corta-e-cola do que diz uma agência qualquer.

    Interessante é verificar que, para o jornalista, ou a jornalista do DN (um tal, ou uma tal, Cadi Fernandes), os terroristas, os integristas, os fundamentalistas, passaram a honrados “rebeldes”, só faltando dizer que são heróicos freedom fighters que se opõem a um governo que, apesar de democráticamente eleito, não passa de um fantoche às ordens dos americanos.

    Mas não é tudo. A notícia é ilustrada por uma fotografia de uns prisioneiros do governo iraquiano, à qual corresponde esta comovente legenda: Dezenas de “suspeitos” foram detidos no âmbito do novo plano de segurança lançado na capital iraquiana. Assim. Os suspeitos estão entre aspas, o que quer dizer que, na opinião do redactor da “notícia”, os indivíduos não fizeram mal a ninguém, nem são suspeitos de coisíssima nenhuma: há é uns canalhas que, a soldo do imperialismo, prendem indescriminadamente cidadãos impolutos, sendo as bombas e os assassinatos justíssimas acções que ninguém pode, em boa justiça, ser suspeito de ter praticado.

    Ora digam lá se o Cadi (ou a Cadi) não é uma besta!

     

    António Borges de Carvalho
  • CHINESICES III

    A primeira página do Diário de Notícias da passada sexta-feira era dominada por uma fotografia do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), acompanhado por quatro indivíduos (gorilas, bufos, idiotas úteis?), a fazer jogging nas ruas de Xangai. Uma idioteira como outra qualquer, com a importância de uma idioteira como outra qualquer. Até aqui, tudo bem.

    O pior é que Sua Excelência envergava uma camisola azul escura, a qual exibia, a branco, sobre o peito (não o o peito ilustre lusitano, mas o peito do senhor Pinto de Sousa – Sócrates), um enorme emblema da "ADIDAS". Sim, meus amigos, da "ADIDAS". Não da NIKE. Nem sequer da SONAE, ou do BES, ou da PT. Da "ADIDAS". Nem mais.

    Das duas uma. Ou o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é pago para fazer publicidade à "ADIDAS", o que parece impróprio do lugar que ocupa e o devia fazer cair do poleiro a título imediato e incondicional, ou não é pago por ninguém e, nesse caso… é parvo, o que, pela ordem natural das coisas, devia ter as mesmas consequências.

    Escrevo isto no Sábado, dia seguinte ao da publicação da fotografia. Tenho aqui os dois semanários "de referência", e o habitual Diário de Notícias de hoje. Nenhum fala do assunto. Ontem, vi dois telejornais. Nada disseram. Nicles. O que demonstra que a chamada "comunicação social", à semelhança do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), ou é paga para não falar do assunto, ou é tão parva quanto ele.

     

    António Borges de Carvalho
  • SOMOS OS MAIORES!

    Os portugueses estão habitudaos a levar na cabeça com estatísticas. Somos os menos produtivos, os menos instruídos, os mais pobres, estamos abaixo da Grécia, da Eslovénia, dentro em pouco já nem aos calcanhares da Chéquia chegamos, a Eslováquia já vai à frente, dentro de dois ou três anos seremos os mais ridiculamente atrazados de toda a UE.

    Nem tudo, porém, são desgraças, a roer-nos a autoestima. Há coisas em que estamos entre os grandes, os maiores, os mais ricos! Veja-se o que se passa, e é um mero exemplo, com os preços da gasolina. Somos o terceiro da Europa, a contar de cima! No que se refere aos combustíveis em geral os nossos preços sobem mais que na Europa! A descida do preço do petróleo levou a descidas dos preços da gasolina em vinte e um países da UE. Só quatro, no mesmo período os aumentaram. Desses quatro, somos o segundo! No que à carga fiscal sobre a gasolina diz respeito, somos o sexto dos vinte e cinco! No gasóleo, infelizmente, somos mais modestos, ocupando só o décimo lugar.

    E ainda há quem diga que não somos os maiores! Profetas da desgraça, velhos do Restelo, forças de bloqueio!

     

    Por todo o mundo, nas mais distintas universidades, nos mais exigentes think tanks, não há já quem se não debruce, com veneradora admiração, sobre o case study mais successful deste princípio de século: a receita socrapífia para o relançamento social e o desenvolvimento económico. Como segue:

    – Aumentar tantos impostos quanto impostos houver para aumentar, e tanto quanto aumentar se puder;

    – Manter a despeza do Estado em níveis pelo menos não inferiores aos do costume;

    – Inventar défices altos, para poder dizer que se desce os reais;

    – Cortar nas reformas e nos medicamentos para os velhos;

    – Fechar maternidades para não aumentar o número de cidadãos;

    – Abrir clínicas de aborto com a mesma finalidade;

    – Prometer obras faraónicas que entretenham o pagode e façam correr umas massas para certo pessoal.

     

    Somos os maiores, ó gente!

     

    António Borges de Carvalho
  • TOME NOTA

    1. Mais uma extraordinária benesse que que V. Exª deve à política socrapífia: os certificados de aforro são a mais mal paga de todas as componentes da dívida pública.

    Quer dizer: o estado socrapífio paga a qualquer credor, seja ele quem for, juros mais altos do que os que paga aos cidadãos do seu país. É o socialismo numa das suas mais comoventes realizações!

     

    2. O apoio ao arrendamento jóvem levou um boléo de cinquenta por cento. Melhor que nada, dirão os socrapífios. Ou seja, vale mais partir uma perna que as duas.

     

    António Borges de Carvalho
  • O GOVERNO VAI AOS SALDOS

    O governo que temos acaba de publicar um longo decreto sobre o ingente problema dos saldos. Julgo que a iniciativa deve fazer parte do Simplopliploplex, ou das "reformas" prometidas, ou coisa que o valha. Confesso que fiquei banzo. Eu, ignorante e estúpido, que julgava que os saldos eram uma iniciativa dos comerciantes para escoar stocks! Nem pensar. Os saldos são uma actividade regulada, regulamentada, espartilhada no tempo, de tantos de tal a tantos de tal. O governo que temos cria, ou "clarifica" as extraordinárias diferenças conceptuais entre saldos, promoções e outras inicitivas dos comerciantes. Não, meus senhores, os saldos não são uma manifestação de liberdade das pessoas de vender e comprar em condições especias. Nem sequer se pode saldar o que se quiser, mas só determinado tipo de colecções, devidamente controladas pelo Estado. E ai de quem prevaricar! As coimas são às dezenas!

     

    Há muitas maneiras de desacreditar a Democracia. Uma delas, e bem eficaz, é a diarreia regulamentadora de quem não sabe governar.

     

    António Borges de Carvalho
  • BENESSES

    Pinto de Sousa (Sócrates) foi recebido, no aeroporto de Pequim, por um subsecretário de estado do governo do partido comunista chinês. Dizem alguns mal intencionados que se tratava do nº 1427 da hierarquia dos olhos em bico. O nosso amado grande timoneiro foi, assim, logo à chegada, posto ao nível.

     

    Dando de barato este pormenor, atenhamo-nos às boas notícias que da China chegam. Perante o olhar embevecido do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), Sua Excelência um tal Pinho, ministro do que soe chamar-se governo, descansou os habitantes do Cataio: podeis vir, ó gentes! Podeis vir, que nós somos baratos, os mais baratos, os mais miseráveis, os mais merdosos de todos os europeus! Ficareis com os olhos ainda mais em bico quando virdes que a malta dá o rabinho por oito tostões! Vinde! Abrimos os braços às lojas que vendem os dejectos das vossas fábricas de inutilidades! Comemos, e comeremos ainda mais, em todos os restaurantes porcalhões que quiserem abrir! Fornecer-lhes-emos a mão de obra mais barata do continente! Vinde, ó amados investidores!

    Que inteligente que eu sou, dizia o Pinho, à noite, na suite do hotel, a ver-se ao espelho, que máquina, que génio! E babava-se de orgulho, dançando a conga diante do maravilhado Pinto de Sousa (Sócrates).

     

    Entretanto, por cá, sentia-se a preocupação do Pinto de Sousa (Sócrates) com os que não tiveram a dita de ir com ele à China.

    O novíssimo e inteligentíssimo brinde que nos deixou para que nos pudéssemos entreter durante a sua ausência vem hoje no Diário de Notícias, em bem merecida manchete: “Pensionistas vão pagar mais por vários medicamentos”. E lá vem a lista: tudo produtos que os velhotes usam às toneladas para compensar os estragos da idade. O estado socréfio vai apurar mais um balúrdio. Para além da poupança imediata nos subsídios, os velhos passam a morrer mais cedo, ganhando-se uma pipa de massa com as reformas que deixa de se pagar (os mortos não têm direito a pensão, terá o homem pensado, num golpe de génio), quem sabe se para dar aos chineses quando descobrirem que as promessas do Pinho ficam aquém do desejado.

     

    E vamos ter o instituto Confúcio! Boa! Confuciemo-nos uns aos outros!

    E mais. O nosso grande timoneiro vai passar a extraditar chineses e vice-versa! E até já há vinte e cinco (vinte e cinco!) portugueses na China!

    Sursum corda! Gaudeamus! Gratiae agamus tibi! Olaré.

     

    António Borges de Carvalho

     

    Apostilha

    Por que raio é que não se deixam ficar lá pela China? Há lá muito mais velhinhos do que cá.

     
  • Sim ou Não

    Publiquei, em 2001, um livrinho, de seu título “O Presidente de Nenhum Português”. Entre outras matérias, nele falava sobre o referendo. Não um referendo específico, mas o referendo em geral, enquanto instituto jurídico. Procurava demonstrar a sua natureza anti-democrática, mais precisamente defender a opinião de que se trata de intolerável entorse à democracia representativa, a única que Democracia considero.

    O referendo é uma forma de desresponsabilizar os eleitos, atirando decisões que lhes são próprias para as costas dos eleitores. Com a agravante de cortar as pernas aos eleitos seguintes, no que diz respeito à sua legitimidade para alterar regras por referendo estabelecidas.

    Uma explicação mais profunda desta opinião não cabe nem no espaço nem no espírito de um blogue. Mas talvez valha a pena dizer alguma coisa sobre o molho de nabiças em que os eleitores estão outra vez metidos a propósito do aborto.

     

    É pública e notoriamente evidente que a esmagadora maioria dos portugueses, ou não sabe como há-de votar, ou se recusa a exprimir opinião sobre o assunto. O que quer dizer que intui que, se elegeu um parlamento, o fez na legítima presunção de estava a entregar a alguém a tarefa de decidir sobre o assunto, guardando-se o direito aceitar serenamente o legislado, de contra ele protestar e, sobretudo, de vir a eleger quem decisão contrária possa vir a tomar.

    No primeiro referendo, ganhou o não. Esse não amarrou o legislador, sendo que só por novo referendo é, politicamente, possível alterar a lei de que a actual maioria parlamentar não gosta. Se ganhar o sim, será preciso esperar por outra maioria, com diferente opinião, que promova outro referendo, ou que algum movimento de opinião o motive, nos termos constitucionais. Se ganhar o não, o mesmo se passará. O que quer dizer que, nesta matéria, os representantes do povo ficam ad aeternum com a capitis deminutio que o referendo provoca, o que é uma entorse grave ao princípio da alternância.

     

    É claro que isto não pode deixar estar na origem da monumental campanha de aldrabices a que vimos assistindo.

    Do lado do sim, propagandeia-se a “despenalização”. Falso. A verdade é que o que pretendem é que tal despenalização se verifique até às dez semanas de gestação, continuando, nas semanas seguintes, a ser crime. Ninguém, em boa lógica, poderá achar que um aborto realizado no septugéssimo dia de gestação não é crime e, ao mesmo tempo, defender que, se a senhora perder o combóio e o fizer ao septuagéssimo primeiro vai para a cadeia. O que o sim, substancialmente, propõe, é a criminalização do aborto após as dez semanas. Com a agravante de que, ganhando o sim, deixa de haver qualquer sombra de justificação para a actual permissividade judicial em relação às mulheres que abortam. Ganhando o sim, os “estabelecimentos autorizados” a abortar nas primeiras dez semanas ficarão, implicitamente, proibidos de o fazer depois das dez semanas, pelo que o aborto clandestino (outra arma que o sim passa a vida a brandir) continuará a fazer o seu glorioso caminho sem que nada o possa estancar. O cinismo do sim é revoltante.

    Do lado do não, revoltante é a incoerência. Uma vez que não é possível estabelecer a partir de que momento o ser que cresce na barriga da mãe é pessoa humana, ou sujeito de direitos, alternativa não resta que não seja a de considerar que o é a partir da fecundação. Se assim é, e parece sê-lo para os partidários do não, o aborto é sempre crime. Ora os partidários do não tecem as mais rebuscadas considerações sobre o que poderíamos chamar a perdoabilidade do aborto, sem cuidar, sequer, de estabelecer o limite temporal que os seus adversários pudicamente adiantam. Encabeçados por figuras da mais alta responsabilidade (por exemplo o Cardeal Policarpo) e da mais rebuscada irresponsabilidade (como o comentador Rebelo de Sousa), desdobram-se em teses de “compreensão” e de “humanismo”, na essência significando que o aborto é um crime que, ao contrário dos demais, a sociedade não tem o direito de punir. Há nuances, reconheço, nas posições do não. Mas a incoerência lá fica. Quem se ativer ao tipo de argumentos expendidos por este sector, será levado, se for coerente, a votar sim. Pela muito simples razão de que, se se é contra o aborto, mais valerá que ele seja punido quando praticado após as dez semanas do que deixá-lo num limbo de tolerância até aos nove meses.

     

    Há dias, travei o diálogo que segue com um meu conhecido:

    – Se votares, votas sim ou não?

    – Voto sim.

    – Porquê?

    – Porque costumo votar à esquerda. Como, grosso modo, a esquerda é pelo sim…

    É um critério respeitável. Aplica-se, direitinho, aos eleitores de direita. Pois que votem não, se é desse lado que costumam votar.

    Um critério utilíssimo para todos os que, à esquerda e à direita, não são capazes de se entender com o assunto, estão perdidos na floresta de enganos em que os meteram e se sentem irritados pelo logro.

     

    Uma nota final. Ontem, num daqueles debates da RTP liderados por uma senhora inacreditavelmente mal vestida, lá estavam os representantes dos dois exércitos, batendo-se como animais ferozes. Muito bem, batam-se à vontade.

    O problema é que a esmagadora maioria dos portugueses não estava representada: os que não vão votar e os que não sabem como fazê-lo. Alguém que fosse capaz de denunciar as falácias com que os guerreiros se atacaram.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • Pontos nos iis

    Punhamos os pontos nos is nesta história da Câmara Municipal.

     

    Há dois problemas:

     

    a)      O criado por uma armadilha policial montada pelos irmãos Fernandes para desgraça de um pato bravo de Braga;

    b)      O levantado por um dos Fernandes e por mais algumas “forças vivas” sobre alegados prejuízos causados à Câmara pela troca dos terrenos do Parque Mayer pelos da Feira Popular.

     

    O da alínea a) segue os seus trâmites. Pela ordem natural das coisas o pato bravo irá parar à choça, os bufos serão incensados até à exaustão pelas boas almas da “informação”. Para já, não há outros comentários a fazer.

     

    Quanto ao da alínea b) haverá que lembrar:

    1. O negócio foi feito pela coligação PSD/CDS (era Santana Lopes Primeiro Ministro) com o acordo e o aplauso do PS e do BE, gente que, agora, sob a velha/nova e verrinosíssima batuta do impossível João Soares, se apressa a tirar o cavalinho da chuva;

    2. O negócio foi provocado pelo veto do Presidente Sampaio ao casino no Parque Mayer. Sampaio esse que nem precisa de tirar o cavalo da chuva porque tanto ele como o cavalo se encontram a bom recato;

    3. Não há, nem da parte do Fernandes, nem da do BE, nem da do PS, qualquer sombra de legitimidade para pôr em causa um procedimento que aprovaram e aplaudiram.

     

    NB.

    1.Como o Irritado tem vindo a sublinhar, o Fernandes é, de todos os lisboetas vivos, o que  mais prejuízos causou à CML, mais que não seja através da paralização das obras do túnel do Marquês.

    2. O Irritado acha intolerável que, em aberta atitude de traição àquilo a que se julgaria ser fiéis, um tal Meneses e o intriguista Sousa clamem pelo terramoto (queda de Marques Mendes, eleições para a CML…) no PSD, ambos de língua de fora, à espera do chupa-chupa. T’arrenego!

     

    António Borges de Carvalho

  • DO AQUECIMENTO GLOBAL

    Os meus ouvidos iam estourando de terror. Então não é que o senhor Relvas (grande dirigente e educador das massas do PSD), perante os olhares embevecidos do senhor Carvalho (grande dirigente e educador das massas do PC) e da senhora não sei quantas (aquela que tem enormes dificuldades para pronunciar a palavra Borges), declarou aos sete ventos que, dentro de dez anos, as águas do mar estarão seis metros acima do seu actual nível?

    Vinha o dislate a propósito de um estudo terrorista ontem publicitado nos jornais. É evidente que, por muito terrorista que o dito estudo seja, em parte alguma afirma, ou justifica, as sábias palavras do senhor Relvas. O senhor Relvas tresleu a notícia, e resolveu exagerar, achando que lhe ficava a matar. E ficava. O senhor Carvalho e a senhora não sei quantas acharam muito bem. Quem são eles para desdizer uma afirmação que, tão competentemente, contribui para o pavor das pessoas?

     

    O estudo é muito interessante. Sobretudo porque, depois de vastas considerações sobre as alterações climáticas, declara, num assomo de bom senso, que “nenhum cientista arrisca a 100% dizer que o clima está a mudar”.

    Pois é. Tanto pode estar como não estar. Entretanto, vai-se dizendo coisas e ganhando algum.

    A Terra já aqueceu e já arrefeceu uma data de vezes nos últimos trinta milhões de anos. Já houve não sei quantas glaciações e desglaciações. Tudo isto se passou sem que houvesse CO2, CFC’s, buraco de ozono, muito menos bodes expiatóros de eleição como os Estados Unidos da América, a indústria europeia, as centrais porcalhonas da Rússia, o Fiat 500 do Zé…

    Os registos de temperaturas exitentes e fiáveis terão pouco mais de um século, o que, na vida da Terra, nem um nanosegundo será. Nestes termos, terão as  afirmações dos terroristas “científicos” alguma sombra de fiabilidade? Deixo a pergunta.

     

    Nos EUA – horroroso poluidor, o maior – não há buraco no ozono. No deserto do Saará, há. Ainda não se lembraram de culpar os peidos dos camelos, mas lá chegarão.

    O problema, minhas senhoras e meus senhores, é que as terríficas ideias e previsões dos Relvas e apaniguados fazem correr triliões de dólares pelo mundo inteiro, fazem o senhor Gore ganhar milhões a vender documentários, enchem os bolsos e/ou os egos a centenas de milhar de fulanos que militam em organizações ditas ecologistas.

     

    Ao mesmo tempo, no mundo, há milhões de seres humanos sem condições ecológicas para viver.

    Ao mesmo tempo, por cá, ninguém liga aos problemas reais que afectam as pessoas, as celuloses sem filtros que nos dão cabo das ventas, as pocilgas e os curtumes enchem os rios de merda, a vizinha do lado que põe o lixo no patamar, os pombinhos dos jardins que propagam infecções, as sargetas entupidas onde só passam ratazanas…

     

    Preciso é ir chateando, ameaçando, infundindo nos espíritos as mais rebuscadas inquietações, os mais repenicados medos. Dá imenso dinheiro, é politicamente correcto, e fica bem aos novos salvadores da Humanidade. 

     

    António Borges de Carvalho
  • PROCURADORES

    A tendência para a asneira parece ter tomado, em definitivo, assento nas nossas magistraturas.

    O PGR que já lá vai não perdia uma apariçãozinha perante os chamados media. Ele era entrevistas, declarações, comunicados, sei lá. Acabou, como é de timbre, por passar vida a meter o pé na argola. Havia fugas de matérias em segredo de justiça todos os dias. O homem não se continha, ou deixava que os outros se não contivessem. Tenho pena, uma vez que toda a gente diz que é um homem sério e sabedor. Não resistia, e pronto.

    O PGR que temos vai pelo mesmo caminho, como o Irritado já teve ocasião de, duas vezes, sublinhar. Estando ainda no princípio do mandato, pode ser que perceba e se contenha. A ver vamos.

    A Procuradora Morgado passou anos a matraquear as pessoas na televisão, atirando ao vento acusações das mais variadas naturezas, sem jamais dizer a quem se referia. Puzeram-na no galarim, ou seja, deram-lhe umas batatas quentes para descascar. Muito bem, agora é que vamos ver o que vale a senhora. O bichinho da publicidade, porém, já começou a mordê-la. Os despachos já aparecem na Internet, a pôr em causa a disciplina da organização. A senhora, em vez de guardar a independência e a discrição, aparece em sessões de propaganda do PS.

    Uma outra senhora, cujo nome não tenho a honra de ter na memória, mas que é nem mais nem menos que a juíz do Tribunal Constitucional (aquele que tem lá há dois anos, sem decidir, a questão da criancinha disputada por gregos e troianos) que relatou o parecer e desempatou a decisão sobre o referendo do aborto, faz questão de aparecer na mesma sessão do PS, a defender o dito aborto. O que, pelo menos, nos diz que quem escreveu o relatório e o votou não foi um juiz independente, com critérios técnicos e constitucionais, mas uma cidadã interessada em dar, à luz das suas convicções pessoais, determinado destino à decisão a tomar.

     

    É nisto que estamos. Enquanto os agentes da Justiça não perceberem a dignidade do seu múnus, não serão os Parlamentos, os Governos ou as Leis quem endireitará as coisas.

     

    António Borges de Carvalho
  • FUTUROLOGIA

    Há dias fui à Câmara Municipal de Lisboa tratar de um assunto. Mandaram-me comprar um documento. A coisa foi relativamente rápida, e eficiente q.b.

    Para passar um recibo, a menina pediu-me o número fiscal. Escreveu-o no computador. A máquina escarrou um papel.

    – Aqui tem o seu recibinho, senhor Carvalho.

    Fiquei banzo.

    – Como é que sabe o meu nome, se não mo perguntou?

    – Hi, hi, basta pôr o número, e já está.

    Na verdade, o recibo tinha o nome completo, a morada, etc.

    Calculo que, se menina tivesse carregado em mais algum botão, a máquina cuspiria uma certidão narrativa completa de registo de nascimento, dois ou três extractos bancários, a lista do património, o registo criminal, as últimas multas do estacionamento, a cor das cuecas da mulher-a-dias…

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    Lá para 2025, ou antes, um fulano baterá à porta do Zé da Silva.

    – Sou número 777888999 da FS, Fiscalidade Socrévia.

    – B…B… Bom dia. Faça o favor de entrar.

    – Você é o 333444555?

    – O senhor Fiscal desculpe, mas não compreendi.

    – Eu repito, mas não abuse da minha paciência. Você é o 333444555?

    O Silva tem uma inspiração. Mete a mão ao bolso, tira um papelinho…

    – De facto, senhor Fiscal, o meu número de contribuinte é o 333444555.

    – Não é número de contribuinte, é o número, e pronto. Não há outro.

    – Com certeza, desculpe, faz favor de dizer.

    – No dia 3 de Maio, você foi à Câmara Municipal e comprou uns papéis.

    – Exactamente, senhor Fiscal.

    – Com que intuito?

    – Bom, eu queria pedir autorização para fazer umas alterações…

    – Alterações?

    – …

    – Alterações?

    – …

    – Pois, não tem resposta, era o que eu pensava, com que então alterações!

    – Bem… pois… eu…

    – Não sabe que não é permitido alterar a ordem estabelecida? Bom, adiante. Pagou através da conta nº 111222333, do BOP, não é verdade?

    – Foi foi.

    – E onde é que foi buscar o dinheiro?

    – Bem, os meus rendimentos…

    – Ah! Tem rendimentos! Bem me parecia. Aliás, não se iluda, consta da base de dados. Vamos investigar em pormenor.

    – Qual base de dados?

    – É aconselhável não me faltar ao respeito, muito menos às Instituições. Qual base de dados? Então você não sabe que há só uma?

    – De facto…

    – Adiante. Pediu recibo?

    – Pois, bem, é o procedimento normal, não é?

    – Concedo. E para que é que quer o recibo?

    – Bom, eu, não é, enfim, as minhas contas…

    – Aposto que quer deduzir os trinta Euros nos impostos.

    – Bem, se for possível…

    – Ouça lá, ó 333444555, você acha que eu sou parvo, ou quê?

    – Eu, senhor fiscal, eu não acho nada.

    – Pois pois, evasão e fraude fiscal. É o que você tem intenção de fazer.

    – Eu… eu sou um sujeito cumpridor!

    – Sujeito? Você não sabe que sujeito já não existe? Agora diz-se agente hermeniosético concomitante alternativo e homosincrético, conforme imposição da TLEBS. Não aprendeu isso na escola básica? É analfabeto?

    – Bom… eu…

    – Evasão e fraude. Crime, percebe? Você é um criminoso.

    – Mas…

    – Não precisa de dizer mais nada. Quem diz sou eu

    O 777888999 rapa do PDA e pica notas.

    – É só clicar aqui. A coisa vai direitinha ao procurador. De acordo com o Simplopliploplex, dentro de vinte e quatro horas está num campo de reeducação. É o tempo que tem para se despedir da família. Adeus.

     

    A esperança que resta ao Zé da Silva é que o 777888999 aceite uma gorgeta para desclicar o clique. Mas isso não faz parte da história, para não alimentar boatos.

     

    António Borges de Carvalho

    EM TEMPO

    “1984” era uma brincadeira de crianças.

     

  • Tiros no pé

    Quando o senhor Melo (se é com dois èles, peço desculpa) disse uns piropos ao senhor Portas, num jantar qualquer, será que passou pela cabeça de alguém que a história fosse dar no que deu?

    Então o que o senhor Castro tinha a fazer não era associar-se à justa homenagem prestada pelo presidente do grupo parlamentar ao seu antececessor?

    Ai, estes políticos! Parecem principiantes.

    Então aquele salzinho (há quem lhe chame cinismo, mas não tem razão), não é o que dá cor à política? E a inteligência, onde anda?

    Que pena!

     

    António Borges de Carvalho
  • Chinesices

    Em doce e profícuo ambiente do que poderíamos chamar “concorrência institucional”, o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) tomou a mui sábia e nobre decisão de ir à China.

    A coisa foi devidamente propagandeada. Para a opinião pública, era óbvio que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) não podia ficar atrás de SEPIIIRPPDAACS. Se Sua Excelência ia à Índia, pois eu, terá declarado o insigne senhor, eu vou à China, que a China é que bom!

    Os áulicos, embevecidos, escutaram as palavras esclarecidas do chefe. As chancelarias, prenhes de justificado entusiasmo, trabalharam freneticamente na preparação do evento. Adjuntos, assessores, conselheiros, chefes de gabinete, dedicaram-se, quarenta e oito horas por dia, ao assunto. Contactaram os empresários do costume (se SEPIIIRPPDAACS levar cinquenta à Índia, eu levarei cinquenta e um à China!). E mais. Levarei a cultura! Seis séculos de história não se tratam sem cultura. Venham os do costume, e mais três. Foram preparados tratados, acordos, protocolos, declarações de intenções, reuniões, seminários, contactos, entrevistas. Foram concebidas declarações de elevado alcance nacional e internacional a ser subscritas com a necessária pompa. Vamos a Pekim! Vamos a Xangai! Vamos a Macau! Vamos ao Rai-ki-part! Do lado da imprensa estavam já penteadas sete meninas que seguiriam em missão de intervenções laudatórias em horário nobre.

    Enfim, a iniciativa foi publicitada com o profissionalismo e a eficácia em que o governo, honra lhe seja, é especialista.

     

    E… eis senão quando este pobre escriba é informado, numa local com dez linhas a uma coluna do Diário de Notícias que o governo chinês afirma que “não está ainda decidida a data da visita que o gabinete de (Pinto de Sousa) Sócrates anunciou  para de 30 de Janeiro a 4 de Fevereiro”. Meu Deus! O Minstério dos Negócios Estrangeiros chinês diz mais: que só “tem conhecimento dos preparativos”. São Pancrácio! Os tipos nem sequer confirmam o convite! Será?

     

    Bom, não sejamos tão críticos, ou tão mal dizentes como é costume. Tudo isto pode ser perfeitamente natural. Não se esqueçam de que os chineses escrevem nuns caracteres indecifráveis e falam uma língua arrevesadíssima. É óbvia a possibilidade de ter havido um erro na interpretação de algum telegrama vindo de Pequim, escrito em mandarim, ou em cantonês, não acham?.

    Terão sido os intelectuais da rua da Imprensa quem leu o dito telegrama? Ou foram os das Necessidades? Diz-se que a rapaziada vai andar à trolha por causa disto. Consta que a Betandwin vai abrir uma página especial para apostas a este respeito.

    Ou então, então a coisa é mais grave. Se não foi engano na leitura dos telegramas, trata-se de uma inominável ofensa, caso para SEPIIIRPPDAACS convocar o CSDN para deliberar sobre se devemos declarar guerra à China.

    Terceira, e última hipótese: o problema é que Pinto de Sousa (Sócrates), na sua histeria propagandística, se precipitou, anunciando ou mandando anunciar um ovo que estava ainda no aconchego da cloaca da galinha. Neste caso, haverá que perguntar:

    – Que havemos nós de fazer ao senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?

    Sei a resposta, mas não digo.

     

    António Borges de Carvalho

     

    EM TEMPO

     

    O que referi sobre o publicado no DN referia-se à edição de ontem. Hoje, o mesmo jornal dedica ao assunto três quartos de página, a cinco colunas. Os esclarecimentos do jornal poderiam levar a uma re-edição do Post. Porém, bem vistas as coisas, melhor será não lhe mexer. A não ser acrescentando que as más línguas do costume dizem que o adiamento, sine die, da visita de Pinto de Sousa (Sócrates) à China se ficou a dever a uma afirmação de SEPIIIRPPDAACS que, em síntese, terá dito que a Índia é que é bom, porque é uma democracia. Isto terá irritado os sino-camaradas e provocado a bronca.

    Malhas que o império tece. A cooperação estratégica jaz morta ou arrefece ?

     

    NOTA

     

    Coitado do senhor Amado! O homem até é simpático. Não merece, reconheço, tanta desgraça. O ezebolá acusa-o de hediondos crimes. A dona Ana Gomes ainda o odeia mais que o ezebolá. Só faltavam os chineses para lhe moer o juízo. Daqui, sinceramente, lhe desejo que se safe. Do ezeblá, da dona Ana, dos chineses e, já agora, do senhor Pinto de Sousa(Sócrates):

     

    ABC

     

     

    APOSTILHA

     

    Hoje de manhã, recebi de um maldizente (t’arrenego!) a seguinte mensagem:

     

    Quer começar o dia bem disposto?

    Ligue o computador e crie um ficheiro – um ficheiro qualquer, word, powerpoint, qualquer coisa serve.
    Titule-o
    José Sócrates.
    Agora clique em cima do ficheiro e arraste-o para o lixo.
    O computador vai perguntar: «Quer mesmo deitar
    José Sócrates para o lixo?»
    Responda: «Sim»

     
  • Perguntas incorrectas

    Algumas perguntas eventualmente incorrectas, à atenção do senhor V.J.Silva e quejandos:

     

    – Um voo cuja aterragem ou descolagem num ou de um aeroporto é autorizada por quem de direito é um voo clandestino?

    – Nos aeroportos onde, devidamente autorizados, aterram aviões, é de norma declarar os nomes dos passageiros?

    – É de norma exigir a declaração das razões porque tais passageiros viajam em tais aviões?

    – É legítimo impedir ou fiscalizar os voos de aparelhos de um país aliado, num aeroporto com servidões e facilidades militares de tal país, devidamente contratadas e pagas, tudo no âmbito e a coberto de legítimos tratados?

    – É culpa dos países onde aterram ou levantam aeronaves de um país amigo e aliado se, em tais meios, são, alegadamente, transportados cidadãos que, em face da Lei do país que exerce soberania sobre o aeroporto, o não deviam ser?

    – Tem o Parlamento Europeu poderes judiciários?

    – Têm os deputados de um país autoridade moral para pôr em causa os interesses e os compromissos externos do país que os elegeu, sobretudo em nome de interesses de terceiros?

    – Quem tudo faz para escamotear o problema de fundo (o terrorismo) obrando outrossim para fazer divergir dele as preocupações da opinião pública, não é, objectivamente, um aliado do inimigo?

     

    À consideração do povo.

     

    António Borges de Carvalho
  • A moral dos moralistas

    A troca dos terrenos do Parque Mayer pelos da Feira Popular foi, há uns dois ou três anos, objecto de terríveis manobras. O Engenheiro Carmona lá conseguiu, à custa de muito jeitinho, convencer o PS a aprovar a coisa, nos termos que o PS exigia. Parecia que tudo estava resolvido. Eis senão quando entra em cena o notável moralista Fernandes. Desata aos gritos que a Câmara tinha ficado prejudicada, e que isto e que aquilo.

    Não faço ideia de quem tem razão. A natural antipatia que nutro pelos moralistas em geral, e pelo Fernandes em particular, leva-me a pensar que quem tem razão é a Câmara, mas não vou além disso. Como lisboeta, o que me interessa é o que vejo: o Parque Mayer na mesma, vítima inocente das embirrações do dr. Sampaio, a Feira Popular na mesma, uma lástima, uma vergonha, uma chaga aberta no coração da cidade.

     

    O Vereador Fernandes já deu, com a história do Túnel do Marquês, esclarecimentos suficientes para se perceber que se considera acima da própria moralidade que defende, isto é, que não se acha obrigado a acatar as regras cujo cumprimento pretende impingir aos demais. Liderou uma acção popular que levou à paralização das obras, causou à Câmara prejuízos de muitos milhões e, quando a sua idiota pretensão foi chumbada pelos tribunais, com trânsito em julgado, não teve, para com quem vai pagar o prejuízo (todos nós), uma palavra de desculpa, inda menos pôs a si próprio o problema de lhe competir, pelo menos moralmente, indemnizar a autarquia pelas consequências da improcedente providência cautelar a que deu origem.

    Para mim, quanto à moralidade do Vereador Fernandes, estamos conversados. Impiedoso polícia das alegadas malfeitorias de terceiros, não é capaz de olhar para o espelho e ver as suas.

     

    Voltando ao caso do Parque Mayer/Feira Popular, temos agora a questão – grande triunfo do Vereador Fernandes! – da tentativa de corrupção de que diz que foi alvo.

    Consideremos que tem razão. O senhor Névoa, patrão de uma tal Braga Parques, ofereceu-lhe a módica quantia de duzentos mil euros, em notas, para não chatear mais. O senhor Névoa é culpado de corrupção activa, na forma tentada. Em princípio, julgada a coisa, vai parar com os ossos à cadeia.

    Até aqui, tudo bem. Ou tudo mal.

     

    Tendo por base as descrições dos jornais, vejamos o que se passou. É mais ou menos assim:

    a) O senhor Névoa terá sugerido ao irmão do Vereador Fernandes que estaria na disposição de entrar com uns tostões para calar o Vereador (ou terá o irmão do Vereador Fernandes sugerido ao senhor Névoa que sugerisse o que sugeriu? – eis uma legítma dúvida que gostaria de ver esclarecida);

    b) O irmão do Vereador Fernandes não disse que não, bem pelo contrário, dispôs-se a "negociar";

    c) Foi ter com o mano, e acertaram uma estratégia;

    d) Depois, foram à Judiciária e, em frutuosa colaboração, foi montada uma operação tecnológica para, numa série de telefonemas, ou reuniões, discutir a forma, o conteúdo, a origem, os procedimentos para a consumação do acto, isto é, do pagamento da gorgeta;

    e) Os irmãos Fernandes e os seus colegas da Judiciária foram arrastando a coisa até ficar de posse do que consideraram suficiente para o passo seguinte;

    f) Munidos dos resultados da operação – sobretudo, julgo, gravações de conversas – os irmãos Fernandes trataram de acusar o senhor Névoa;

    g) O Ministério Público aceitou como prova os elementos avançados pelos irmãos Fernandes em colaboração com a Judiciária e deduziu a competente ausação.

     

    Lido o acontecido com olhos de ler, o que se passou, e passará, é assim:

    1. O promotor, para acelerar o desbloqueamento dos seus projectos imobiliários nos terrenos da Feira Popular, estava disposto, ou foi levado a estar disposto, a pagar uma quantia ao bloqueador;

    2. Feita a sugestão, o bloqueador não a recusou liminarmente, como parece que seria sua elementaríssima obrigação;

    3. Pelo contrário, em associação com um irmão, e com a colaboração da PJ, tratou de incentivar a prática do crime, aliciando o potencial criminoso a cometê-lo;

    4. O aliciado deixou-se arrastar, negociando com os aliciadores os termos e condições para a prática do crime;

    5. Os aliciadores muniram-se das provas necessárias ao lançamento da acusação;

    6. O objecto passivo da corrupção, com a acusação feita, já obteve e vai continuar a obter inúmeras vantagens e benefícios, pelo menos de ordem política – tempo de antena, espaço informativo, consideração pública, prestígio “moral”, etc.

    7. O aliciado vai pagar com a liberdade o facto ter intenção de cometer um crime, o que em si crime é, ou de se ter deixado aliciar para poder vir a cometer o crime que, na verdade, tinha ou teve intenção de cometer.

     

    E aqui temos como um tipo que não paga, nem sequer fala em pagar o que deve à cidade pelos prejuízos que lhe causou, se dá ao luxo de conquistar, em magno alarde de policial vocação, fama e proveito político e social à custa de um fulano cujos “serviços” não recusou quando devia, isto é, quando lhe foram propostos.

     

    Uma última dúvida, ou estranheza: como é possível que um sabichão como senhor Névoa, óbvio conhecedor da cultivadíssima fama do objecto da tentativa de corrupção, se meteu numa alhada destas? Quem aliciou quem em primeiro lugar? Não estaremos, ab initio, perante uma armadilha? Se sim, as armadilhas são legítimas? Ou serão próprias de bérias, görings, anas, coelhos, silvas pais e outros impolutos benfeitores da Humanidade?

     

    António Borges de Carvalho
  • O futuro da Dona Ana

    Durante o consulado, no PS, do senhor Ferro Rodrigues, ficaram célebres as tiradas malucas da dona Ana Gomes. Cada cavadela cada minhoca. O homem lá foi aguentando os desmandos oratórios da senhora, por ignorância dos assuntos, por ingenuidade ou por solidariedade esquerdista.

    O partido (já não sei quem mandava nessa altura), aterrorizado com tanta maluquice, tratou de a mandar, na primeira oportunidade, para longe. E lá a temos no Parlamento Europeu.

    Possuída de histérico furor anti-americano, a senhora tratou de arranjar um factotum. Nada melhor que o senhor Coelho, sedento de fama e pletórico de ignorância.

    Mas, a partir de certa altura, o factotum deixou de dar conta do recado. Dona Ana queria mais. E vai de fazer investigações privadas – em talento policial faz inveja à CIA, desatar aos tiros contra o governo (do partido dela!) e contra o país que tal governo, para mal dos nossos pecados, representa. O dr. Amado, coitado, até já teve um ataque cadíaco (daqui lhe desejo as melhoras), mas ninguém sabe onde a senhora vai parar.

    O mais certo é que, no fim do mandato, o PS se desfaça da sua preciosa colaboração. A senhora voltará, paulatina e triunfalmente, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde um brilhante futuro está à sua espera. Isto de função pública, apesar de tudo, continua a dar.

     

    António Borges de Carvalho
  • Descarrilhações

    O inenarrável Carrilho continua a dar que falar. Desta, resolveu dar com os pés à Câmara de Lisboa, alegando que as suas ingentíssimas tarefas como deputado o impedem de dar à vereação a luz intensa da sua nobre cooperação. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém ouviu o que o pesporrentíssimo fulano anda a fazer no Parlamento. Só a petulância do homem poderá, julgo, considerá-lo indispensável e utilíssimo. Ou então… ou então o que aconteceu foi que os pêésses, seus ilustres camaradas na vereação, se fartaram dele em definitivo e lhe deram um pontapé no coiso: vai chatear outro! Há quem diga, parece que com foros de verdade, que esta versão está mais perto da verdade do que a da indispensabilidade parlamentar do senhor. Aliás, os jornais do fim de semana dão já a entender que o deputado Martins (chege de fila do PS na AR, que anda às turras com o respectivo presidente) não tem interesse de maior nas prestações parlamentares do camarada Carrilho. Pudera! O homem, a chatear, é uma máquina!

    De qualquer maneira, a defecção em apreço é uma boa notícia para os alfacinhas. Um chato, um convencidão que se vai embora, é sempre uma boa notícia.

    O pior… o pior é o resto, isto é, o pior são os figurões que por lá ficam, e que já andam à cacetada uns aos outros, a ver quem vai mandar no grupúsculo. Um saco de gatos de morrer a rir. Há um tal Gaioso que não larga a coisa, apesar de já ter sido corrido pelos colegas, até do gabinete que lhe tinham dado no palácio. Alega que era o número dois da lista e que, por isso, quem passa a mandar é ele. A seguir, vem um tal Baptista, conhecido pelo homem do cachecol – um tipo que, de Setembro a Junho, ostenta, qual bandeira de personalidade, um cachecol de lã encarnado, ou bordeaux, não sei bem. O cachecol constitui a principal característica do homem. De resto, que se saiba, nunca fez nada que se visse. Um outro artista, já há dias contemplado numa irritação, escreve feixar em vez de fechar e é especialista em bocas e em manobras intestinas, no partido, na assembleia, na câmara e na maçonaria. Lá se vai safando. Dos restantes, nem pela negativa a história reza.

    Uma novela a seguir com prazer. O "Gato Fedrorento", ao pé destes tipos, não tem piada nenhuma.

     

    António Borges de Carvalho
  • A Verdade do dr. Sampaio

    Aquela senhora do esgar elíptico que trabalha na RTP e costuma interromper as pessoas a meio do raciocínio perguntou ao dr. Sampaio se era verdade que tinha decidido dissolver a Asembleia poucas horas depois de ter dito ao dr. Santana Lopes que não o faria.

    O dr. Sampaio respondeu que se tartava de “um processo global”, que o dr. Santana Lopes terá errado em certas interpretações, e que, de qualquer maneira, o assunto “não tem interesse nenhum”. Ou seja, e passe a expressão, o dr. Sampaio fugiu com o rabinho à seringa.

    O acto político mais violento jamais praticado por um Presidente da III República, na opinião do dr. Sampaio, seu autor, “não tem interesse nenhum”. Está-se mesmo a ver, não está?

    Há os que pensam (com carradíssimas de razão) que se tratou de um golpe de estado constitucional. Há os que pensam que talvez. Há os que pensam que nem por isso. O dr. Sampaio pensa que o assunto não interessa nada a ninguém.

    Há momentos em que a verdade salta aos olhos de toda a gente. E a verdade, neste caso, de certeza certezinha, não é a confessadamente inexistente verdade do dr. Sampaio.

     

    Antóno Borges de Carvalho
  • Da (in)dignidade da III República

     

    Num artigo muito bem explicadinho, o professor Fausto de Quadros, português de origem goesa, vem dizer-nos o que se poderá resumir como segue:

     

    a)      A ocupação de Goa pela pela União Indiana foi um acto ilegal em face do direito internacional, devidamente julgado, com sentença transitada;

    b)      Os habituais acérrimos defensores do tal direito internacional (Timor, Sérvia, Iraque…) esquecem-se dele quando se trata de defender Portugal e os seus cidadãos de origem goesa;

    c)      O esquecimento é de tal ordem que, mesmo quando o Governo do Estado de Goa se confessa disposto a restituir aos portugueses os bens que lhes confiscou, a III República Portuguesa assobia para o ar e não mexe uma palha a tal respeito.

     

    Ou seja:

    A III República Portuguesa que, quando se trata de futebol, enche a boca das gentes com os republicanos “Heróis do Mar”, abomina Portugal e o seu passado quando a defesa dos interesses dos seus cidadãos está em causa.

    A III República Portuguesa fez uma barulheira dos diabos com o caso de Timor, mas cala, envergonhada e cobarde, a questão de Goa, em si rigorosamente igual: ocupação do território – ilegal e ilegítima em face do direito internacional – por uma potência estrangeira.

    A III República Portuguesa apressou-se, em 1974, a declarar Macau “território chinês”, coisa que os próprios chineses jamais tinham reivindicado, bem pelo contrário – v.g. dicurso do senhor Mao Tsé Tung em 1966.

     

    E não vale a pena dizer mais nada. Ou nos vale o São Pancrácio, ou não há nada que nos valha.

     

    Antóno Borges de Carvalho