IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


FUTUROLOGIA

Há dias fui à Câmara Municipal de Lisboa tratar de um assunto. Mandaram-me comprar um documento. A coisa foi relativamente rápida, e eficiente q.b.

Para passar um recibo, a menina pediu-me o número fiscal. Escreveu-o no computador. A máquina escarrou um papel.

– Aqui tem o seu recibinho, senhor Carvalho.

Fiquei banzo.

– Como é que sabe o meu nome, se não mo perguntou?

– Hi, hi, basta pôr o número, e já está.

Na verdade, o recibo tinha o nome completo, a morada, etc.

Calculo que, se menina tivesse carregado em mais algum botão, a máquina cuspiria uma certidão narrativa completa de registo de nascimento, dois ou três extractos bancários, a lista do património, o registo criminal, as últimas multas do estacionamento, a cor das cuecas da mulher-a-dias…

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Lá para 2025, ou antes, um fulano baterá à porta do Zé da Silva.

– Sou número 777888999 da FS, Fiscalidade Socrévia.

– B…B… Bom dia. Faça o favor de entrar.

– Você é o 333444555?

– O senhor Fiscal desculpe, mas não compreendi.

– Eu repito, mas não abuse da minha paciência. Você é o 333444555?

O Silva tem uma inspiração. Mete a mão ao bolso, tira um papelinho…

– De facto, senhor Fiscal, o meu número de contribuinte é o 333444555.

– Não é número de contribuinte, é o número, e pronto. Não há outro.

– Com certeza, desculpe, faz favor de dizer.

– No dia 3 de Maio, você foi à Câmara Municipal e comprou uns papéis.

– Exactamente, senhor Fiscal.

– Com que intuito?

– Bom, eu queria pedir autorização para fazer umas alterações…

– Alterações?

– …

– Alterações?

– …

– Pois, não tem resposta, era o que eu pensava, com que então alterações!

– Bem… pois… eu…

– Não sabe que não é permitido alterar a ordem estabelecida? Bom, adiante. Pagou através da conta nº 111222333, do BOP, não é verdade?

– Foi foi.

– E onde é que foi buscar o dinheiro?

– Bem, os meus rendimentos…

– Ah! Tem rendimentos! Bem me parecia. Aliás, não se iluda, consta da base de dados. Vamos investigar em pormenor.

– Qual base de dados?

– É aconselhável não me faltar ao respeito, muito menos às Instituições. Qual base de dados? Então você não sabe que há só uma?

– De facto…

– Adiante. Pediu recibo?

– Pois, bem, é o procedimento normal, não é?

– Concedo. E para que é que quer o recibo?

– Bom, eu, não é, enfim, as minhas contas…

– Aposto que quer deduzir os trinta Euros nos impostos.

– Bem, se for possível…

– Ouça lá, ó 333444555, você acha que eu sou parvo, ou quê?

– Eu, senhor fiscal, eu não acho nada.

– Pois pois, evasão e fraude fiscal. É o que você tem intenção de fazer.

– Eu… eu sou um sujeito cumpridor!

– Sujeito? Você não sabe que sujeito já não existe? Agora diz-se agente hermeniosético concomitante alternativo e homosincrético, conforme imposição da TLEBS. Não aprendeu isso na escola básica? É analfabeto?

– Bom… eu…

– Evasão e fraude. Crime, percebe? Você é um criminoso.

– Mas…

– Não precisa de dizer mais nada. Quem diz sou eu

O 777888999 rapa do PDA e pica notas.

– É só clicar aqui. A coisa vai direitinha ao procurador. De acordo com o Simplopliploplex, dentro de vinte e quatro horas está num campo de reeducação. É o tempo que tem para se despedir da família. Adeus.

 

A esperança que resta ao Zé da Silva é que o 777888999 aceite uma gorgeta para desclicar o clique. Mas isso não faz parte da história, para não alimentar boatos.

 

António Borges de Carvalho

EM TEMPO

“1984” era uma brincadeira de crianças.

 



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