Há dias fui à Câmara Municipal de Lisboa tratar de um assunto. Mandaram-me comprar um documento. A coisa foi relativamente rápida, e eficiente q.b.
Para passar um recibo, a menina pediu-me o número fiscal. Escreveu-o no computador. A máquina escarrou um papel.
– Aqui tem o seu recibinho, senhor Carvalho.
Fiquei banzo.
– Como é que sabe o meu nome, se não mo perguntou?
– Hi, hi, basta pôr o número, e já está.
Na verdade, o recibo tinha o nome completo, a morada, etc.
Calculo que, se menina tivesse carregado em mais algum botão, a máquina cuspiria uma certidão narrativa completa de registo de nascimento, dois ou três extractos bancários, a lista do património, o registo criminal, as últimas multas do estacionamento, a cor das cuecas da mulher-a-dias…
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Lá para 2025, ou antes, um fulano baterá à porta do Zé da Silva.
– Sou número 777888999 da FS, Fiscalidade Socrévia.
– B…B… Bom dia. Faça o favor de entrar.
– Você é o 333444555?
– O senhor Fiscal desculpe, mas não compreendi.
– Eu repito, mas não abuse da minha paciência. Você é o 333444555?
O Silva tem uma inspiração. Mete a mão ao bolso, tira um papelinho…
– De facto, senhor Fiscal, o meu número de contribuinte é o 333444555.
– Não é número de contribuinte, é o número, e pronto. Não há outro.
– Com certeza, desculpe, faz favor de dizer.
– No dia 3 de Maio, você foi à Câmara Municipal e comprou uns papéis.
– Exactamente, senhor Fiscal.
– Com que intuito?
– Bom, eu queria pedir autorização para fazer umas alterações…
– Alterações?
– …
– Alterações?
– …
– Pois, não tem resposta, era o que eu pensava, com que então alterações!
– Bem… pois… eu…
– Não sabe que não é permitido alterar a ordem estabelecida? Bom, adiante. Pagou através da conta nº 111222333, do BOP, não é verdade?
– Foi foi.
– E onde é que foi buscar o dinheiro?
– Bem, os meus rendimentos…
– Ah! Tem rendimentos! Bem me parecia. Aliás, não se iluda, consta da base de dados. Vamos investigar em pormenor.
– Qual base de dados?
– É aconselhável não me faltar ao respeito, muito menos às Instituições. Qual base de dados? Então você não sabe que há só uma?
– De facto…
– Adiante. Pediu recibo?
– Pois, bem, é o procedimento normal, não é?
– Concedo. E para que é que quer o recibo?
– Bom, eu, não é, enfim, as minhas contas…
– Aposto que quer deduzir os trinta Euros nos impostos.
– Bem, se for possível…
– Ouça lá, ó 333444555, você acha que eu sou parvo, ou quê?
– Eu, senhor fiscal, eu não acho nada.
– Pois pois, evasão e fraude fiscal. É o que você tem intenção de fazer.
– Eu… eu sou um sujeito cumpridor!
– Sujeito? Você não sabe que sujeito já não existe? Agora diz-se agente hermeniosético concomitante alternativo e homosincrético, conforme imposição da TLEBS. Não aprendeu isso na escola básica? É analfabeto?
– Bom… eu…
– Evasão e fraude. Crime, percebe? Você é um criminoso.
– Mas…
– Não precisa de dizer mais nada. Quem diz sou eu
O 777888999 rapa do PDA e pica notas.
– É só clicar aqui. A coisa vai direitinha ao procurador. De acordo com o Simplopliploplex, dentro de vinte e quatro horas está num campo de reeducação. É o tempo que tem para se despedir da família. Adeus.
A esperança que resta ao Zé da Silva é que o 777888999 aceite uma gorgeta para desclicar o clique. Mas isso não faz parte da história, para não alimentar boatos.
António Borges de Carvalho
EM TEMPO
“1984” era uma brincadeira de crianças.

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