IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • ENGENHARIA SALARIAL

    Vejam estas, a ver se percebem a lógica socréfia:

     

    Um funcionário público recebe uns suplementos

    São abolidos os suplementos.

    O funcionário continua a receber o mesmo.

     

    Os funcionários são reclassificados.

    Passam automaticamente para a categoria inferior.

    Ficam a ganhar o mesmo.

     

    ABC

  • PARANÓIAS (Apostilha)

    Segundo o Engº Arménio Matias, vai ser preciso movimentar oitenta milhões de metros cúbicos de terra para preparar o terreno para o aeroporto da Ota.

    O Irritado pede desculpa por ter dito que eram só quarenta e sete milhões.

     

    Segundo o mesmo senhor, Rio Frio foi abandonado, como opção para o novo aeroporto, porque seria preciso abater uns milhares de sobreiros. Um esclarecimento importante, na medida em que aprofunda o que dissemos em “Paranóias”.

    Adianto uma explicação eco- socialístico-socréfia: os sobreiros a abater na Ota são descartáveis, porque dão bolota castanha. Os sobreiros que seria preciso abater em Rio Frio são indispensáveis, porque dão bolota castanha. Não é, ó Lino?

     

    O Campo de tiro de Alcochete (alternativa adiantada por alguns ignaros) não serve, porque é plano, e não tem sobreiros. A Ota é óptima, porque é montanhosa e tem sobreiros. Não é, ó Lino?

     

    O Irritado está cada vez mais impertinente, não está? Pelo menos é o que dizem alguns comentadores da área socrapífia. Aqui ficam os meus agradecimentos.

     

    António Borges de Carvalho
  • ANEDOTA

    Esta não assino, porque não é minha. Contaram-ma como sendo verdade. Não sei se é, se não é. Mas que tem graça, humor, espírito, finura, lá isso tem.

    Aí vai:

    Numa entrevista, após várias questões, perguntaram ao Dr. Alberto João:

    – E o aborto? O que acha do aborto?

    – Governa muito mal!

  • PARANÓIAS

    Aqui há tempos, uns senhores do Grupo Espírito Santo viram o seu escritório invadido pela Judiciária, que se apoderou de papeladas várias e de material informático de diversa ordem. Ao mesmo tempo, os jornais, a televisão e a Quercus vociferavam as mais rasgadas aleivosias contra os ditos e contra o governo (o anterior, pois claro), porque uns terão arrancado, outro autorizado, o arranque de uns sobreiros lá para a outra banda. Bem podiam os senhores do GES protestar que estavam autorizados a fazê-lo, que tinham plantado não sei quantos sobreiros mais, etc. A coisa estava em marcha. Não a investigação propriamente dita, que essa, depois do show, parou, mas a fama de abusadores e criminosos que os senhores do GES já tinham devidamente escarrapachada nos media.

     

    Perguntarão VExas. a que propósito vem esta requentada história.

    Tem a sua lógica, vão ver.

    Segundo os jornais, os camaradas socialistas vão arrancar entre 2.500 e 5.400 sobreiros para preparar o terreno para o aeroporto da OTA. Quer dizer, o que era um crime, se feito pelo GES, passa a imperiosa necessidade e a benesse eco-económica se for levado a cabo, multiplicado por n, pelo (ex)bolchevista Lino. E, se atentarmos na “precisão” da informação prestada pelas autoridades socréfias – “entre” 2.500 e 5.400!!! – teremos a noção do “rigor” que está a ser usado pela (des)governação nacional.

     

    Mas, para além dos sobreiros, o que veio a lume revela contornos que bradam aos céus. Ora vejamos:

    É do senso comum que um aeroporto deve ser construído numa zona plana, bem drenada, e sem obstáculos de maior. É o caso de Orly, de Heathrow, de Roissy, etc. Nesta matéria, o aeroporto da OTA é exemplar.

    Para além do arranque dos 5.400 (ou 2.500, ou…), vai ser preciso:

    a) Deitar abaixo duas colinas, com uma movimentação de 47.281.219m3 de terras (veja-se, neste caso, a precisão), 42 milhões que mudam de sítio e 5 que vão não se sabe para onde;

    b) Desviar um rio;

    c) Alargar o leito de dois,

    d) Mudar(!!!) o leito de cheia que o local é hoje para outro sítio qualquer;

    e) Revestir leitos com betão…;

    E mais. Só para preparar o terreno, é preciso;   

    f) Desmatar e decapar 11.000.000m2;

    g) Desviar 60 a 120 (veja-se, mais uma vez, o rigor da coisa) quilómetros de linhas de alta tensão;

    h) Remover nove a dez quilómetros de gasoduto;

    i) Substituir oito a dez quilómetros de condutas de água;

    j) Encerrar e desmantelar uma base militar, que ninguém sabe para onde vai, nem se deixou de ser necessária.

    Se somarmos a este rol de agressões a necessidade de construir acessos inacreditáveis, que vão de auto-estradas a desvios do traçado do TGV, não sei se caberemos no horror que sentimos.

     

    Olhemos à nossa volta.

    Não há, próximo de Lisboa, planícies?

    Não há, próximo de Lisboa, planícies onde não passem tantas infraestruturas?

    Não há, próximo de Lisboa, planícies que estejam perto de vias de comunicação já existentes?

    Tem alguma lógica construir um aeroporto a uma tão grande distância da capital, mais longe que os de qualquer outra capital europeia?

    Tem alguma racionalidade fazê-lo numa zona alagada, indiscutivelmente imprópria para o efeito?

    Tem sim senhor. Tem lógica e tem racionalidade. A lógica e a racionalidade habituais aos ditadores, mas imprópria de democratas. Quando tudo falha – a economia, as finanças, a educação, a justiça… é preciso atirar areia à cara dos cidadãos, considerados como idiotas úteis. A Ota é a areia de Pinto de Sousa (Sócrates).

    Como a imagem que cultiva é a do homem convencido, decidido, capaz de levar a sua em frente, ou corremos com ele na primeira oportunidade, ou nos arriscamos a juntar a Ota às SCUTS e a Foz-Côa, e a ficar mais umas décadas a pagar a paranóia socialista.

     

    António Borges de Carvalho
  • GRANDES SACRIPANTAS

    Um tal Nuno Santos, fulano importantíssimo na RTP, veio acusar os historiadores que protestaram contra a hedionda aldrabice dos “Grandes Portugueses”, de querer “impedir os outros de ter uma opinião”.

    Para a RTP, é óptimo, legítimo, de serviço público, pedir às pessoas que se pronunciam sobre qualquer português, de Dom Afonso Henriques a Cristiano Ronaldo.

    Se queriam fazer um concurso deste tipo, é evidentíssimo que o mais elementar bom senso levaria a limitar os “elegíveis” àqueles para ao quais já houvesse passado o tempo necessário para se ter uma perspectiva histórica, sem com eles misturar os que são ainda objecto de subjectividade, de paixão e de clubismo.

    Não o fizeram. O resultado foi que, do fundo dos sentimentos reprimidos pelas circunstâncias e da militância partidária, surgiram os fantasmas de Salazar e de Cunhal. Os saudosos de Salazar aproveitaram para tentar demonstrar que o homem ainda está no coração de muita gente, o que é natural, público e, a partir de agora, notório. Os comunistas e apaniguados, mais que não seja por disciplina, quiseram aproveitar a oportunidade para tentar demonstrar essa inverdade absoluta que é a admiração nacional por um fulano que, declarada e activamente, quis mergulhar o país numa hedionda ditadura.

    A esmagadora maioria dos portugueses borrifou no assunto, dada a estupidez do que lhes era pedido. Honra lhe seja por isso.

     

    O serviço público da RTP chegou aos píncaros do abuso e da desvergonha na segunda fase da aldrabice. Sem o mínimo respeito pelas pessoas que tinha levado a votar, meteu no mesmo saco dez portugueses (alegadamente os mais votados), baralhou, e tornou a dar. Isto é, contradizendo o próprio sistema que montara, a RTP torna secreto o número de votos recebidos, e “classifica” por igual os votados. O voto, desta vez, não foi secreto (as chamadas telefónicas dos votantes são identificáveis), mas foi-o o seu resultado. Ninguém sabe quantos votos recebeu quem. E não há uma única “autoridade”, das inúmeras que pululam por aí, que tenha exprimido a mais pequena indignação a este respeito! O novo conceito de voto secreto, inventado pela RTP, devia passar automaticamante ao Guiness da asneira, da aldrabice e da patacoada.

     

    Bem pelo contrário, quem protesta é apodado pela RTP de querer calar os outros, impedindo-os de exprimir a sua opinião. A RTP não reconhece que atirou para a praça pública um processo viciado desde o princípio, nem que usou e abusou dos infelizes que se deixaram arrastar por ele.

    A RTP não reconhece que lançou uma paródia absurda, uma maneira de apalhaçar a História, e uma escapatória para ódios e malquerenças recalcados. Antes se dedica a insultar quem protesta.

     

    Grande Português, o tal Nuno Santos!

     

    A coisa vai seguir o seu caminho. O Irritado cospe no assunto e não voltará a perder tempo com ele.

     

    António Borges de Carvalho
  • SARKOZICES

    A confirmar as impressões, as previsões e as opiniões do Irritado (passe a imodéstia), o senhor Sarkozy, em matéria de política externa, afina, com pequenas nuances, pelo diapasão da dona Segolène. 

    * 

    O Presidente Kenedy, já lá vai um ror de anos, desafiou a Europa a não ser mais a parceira passiva da NATO. Lançou a doutrina do European pilar of NATO. Em duas palavras, a ideia era a de que a Europa deveria abandonar a sua posição de "protectorado militar" dos EUA, e tornar-se um parceiro do mesmo nível, com responsabilidades similares e uma voz própria. Passados vinte anos do fim da II Guerra Mundial, parecia a Kenedy que já não se justificava a posição europeia de deixar os grandes problemas à guarda do chapéu de chuva americano, antes devendo a Europa tomar uma posição pro-activa (como se diz agora) na defesa comum do espaço euro-atlântico.

    A Europa respondeu com o seu habitual nim, e tudo ficou na mesma. Inventores de uma "independência" impossível e irracional, os franceses, que já tinham retirado as suas forças da Aliança, foram os campeões da oposição à doutrina Kenedy. O desafio, ou o apelo, de Kenedy, continuou, de uma forma ou de outra, a ser repetido ao longo de décadas. Com a mesma resposta.

     

    Os resultados desta postura são conhecidos. Os europeus, que só se lembram dos EUA quando deles precisam para fins próprios, deixaram-se arrastar, atrazar, desarmar.

    As coisas funcionaram enquanto durou a guerra fria. A partir daí, passou a viver-se com uma única super-potência. Só que a Europa, por vontade própria, não participa, nem em pé de igualdade – que era o que Kenedy almejava – nem em pé nenhum, do poder com super-potência. Ficou de fora. Os EUA actuam como entendem, às vezes dão satisfações, mas não “têm que” as dar, na Europa, seja a quem for. A Europa, ou parte dela, pode não estar de acordo, mas perdeu a oportunidade de, para além da semântica diplomática, ter voz activa, ou "pesada", em questões que, directa ou indirectamente, lhe dizem respeito. Os EUA, por seu lado, não se sentem na obrigação de ouvir, ou depender das opiniões de um parceiro que, tendo sido instado a pôr-se de par com eles, a rejeitou.

    E, no entanto, a carência europeia em termos de defesa mantem-se e assume inquietantes contornos. Quando toma decisões bélicas, não pode deixar de pedir meios aos EUA – caso do Kosovo, por exemplo – mas, ou lhes nega solidariedade quando a pedem, ou nem sequer é ouvida, por não mais para tal ser credível.

     

    *

     

    É nesta floresta de falta de senso, ou como campeã dela, que se insere a política francesa. Pior. É nesta floresta de mau senso, que a política francesa vai continuar, ganhe Segô, ganhe Sarkô.

    De mão dada com a sua rival, diz o ilustre senhor que quer “uma França livre, uma Europa livre (eu leio uma Europa livre sob a hegemónica batuta francesa). “Peço – continua o artista – por isso, aos nossos amigos americanos que nos deixem livres, livres para sermos seus amigos, pois amizade não é submissão”.

     

    Gostaria de perguntar ao senhor Sarkozy:

     

    a)      Quando é que os americanos “obrigaram” a França, ou a Europa a fazer fosse o que fosse?

    b)      Em que momento é que a França não foi “livre” para dizer que não aos americanos?

    c)      Quando é que os americanos deixaram de ajudar a França, ou a Europa? Na II Guerra Mundial? No affaire da ex-Jugoslávia?

    d)      Os americanos impediram a França de se desligar dos seus compromissos militares no seio da NATO?

    e)      Alguma vez os americanos “tutelaram”, ou quiseram tutelar a França nas suas decisões?

    f)        Alguma vez, em momentos graves, falharam os americanos na sua solidariedade para com a França?

    g)      O libertador sangue americano em solo francês já secou?

    h)      Tem a França (ou a Europa) autonomia militar para dispensar o auxílio americano em tempo de crise?

    i)        A França sente-se, ou sente a Europa “submetida” aos EUA? Em quê?

    j)        Não é por exclusiva culpa da Europa, e principalmente da França, contra a vontade americana, que a Europa e a França se encontram na situação de atrazo que lhes provoca permanente dependência da América?

    k)      Não são declarações como as citadas o que pode justificar que os americanos, numa próxima oportunidade, digam aos europeus que se amanhem quando o problema for só deles?

     

    Se o senhor Sarkozy – e a senhora Ségolène – respondessem a estas perguntas com alguma honestidade, facilmente concluiriam que andam a dizer asneiras, e a prejudicar-nos a todos.

    Mas, como o Irritado não se tem cansado de repetir, a política externa francesa, à esquerda e à direita, é sempre a mesma: a da estúpida e contraproducente graaaaannndeur de la Fraaaannnceeee.

     

    António Borges de Carvalho
  • CARTA ABERTA

    Excelentíssima Senhora Dona Judite de Sousa

     

    Venho pedir-lhe ajuda. Na minha idade, certos estados de alma podem ter consequências dramáticas, até letais. A coisa é extremamente perigosa.

    Quando vejo uma das suas entrevistas, dá-me um nervoso de tal ordem que até os pelinhos de debaixo dos braços se encarquilham todos. Sinto suores frios, apodera-se de mim uma agressividade surda, tenho vontade de a matar. Pode crer que só não a matei já (o que seria grave porque me poriam na cadeia sem atender às razões que me assistem), porque a senhora é de plasma.

    Às vezes penso que o melhor seria deitar o aparelho pela janela fora, em sinal de incontrolável protesto. Não o faço por que a coisa é cara, não se pode comprar todas as semanas.

    A minha mulher fica aflita, coitada, cheia de razão, quando vê um fuminho azulado a sair-me dos ouvidos, sinal claro de que a senhora me pôs as meninges a arder. Aqui há tempos até ligou para o 112 em vez de chamar os bombeiros. Um drama familiar que a senhora podia, se quisesse, evitar. 

     

    É para a sua boa vontade, para a sua nobreza de alma, para os seus sentimentos e princípios cívicos que venho apelar, certo de que não deixará de compreender a minha angústia e satisfará o meu pedido de socorro. Não queira ser responsável por alguma pataleta que me dê ao reprimir as ânsias, podendo até fazer-me partir desta antes de tempo.

    Não lhe será difícil, vai ver.

    Para que fique ciente do que há a fazer, procurarei explicar as causas profundas do meu drama.

    Os seus entrevistados, às vezes, são pessoas cujas opiniões me interessaria ouvir. A nossa tão querida RTP passa dias e dias a anunciar as suas actividades. Eu acabo por ficar à espera, não de si, confesso, mas dos seus pobres entrevistados. À hora aprazada, sento-me na sala, a poltrona é confortável, acendo um cigarrinho, beberrico uma bebidinha. Quando a função começa, vejo-me na desesperada situação de ver o "meu" entrevistado esbracejar, em sentido figurado, claro, por não lhe ser permitido exprimir seja que opinião for. Assim que começa a falar, a senhora interrompe, a fim de expender as suas próprias opiniões. Perdoar-me-á a ingratidão, mas devo dizer que as suas opiniões não me interessam nada, nadinha mesmo.

    É frustrante, como compreenderá, chegar ao fim da entrevista e ficar esclarecido quanto ao que a senhora pensa e completamente a zero sobre o que opina o entrevistado, coitado, que passou uma hora a querer dizer coisas e a senhora sem deixar. Acresce que a senhora tem um pendor natural, eventualmente legítimo, para o fait divers, para a intriguinha, para a patacoada boateira, para a afirmação petulante, ou seja, para o que não interessa. A senhora deve achar-se importantíssima (quem sou eu para duvidar que o seja?) quando consegue atrapalhar as pessoas, como quem diz: querias dizer coisas, não é?, ora vai-te lixar que, aqui, quem manda sou eu!

     

    Na Quinta-feira, o desgraçado do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi vítima indefesa da sua competência profissional. Aliás, a senhora resolveu tratá-lo por "senhor engenheiro" em vez de por "senhor Presidente", com certeza para fazer entender às pessoas que, na sua douta opinião, o senhor já não merece, ou já não devia, ser Presidente. Como de costume, o homem viu-se à rasca para conseguir dizer duas seguidas. Em boa verdade, julgo que nunca tal lhe foi permitido. Por mais que aos lisboetas interessasse saber o que a CML anda a fazer, a senhora não permitiu que o homem falasse a tal respeito, uma vez que adquirido considerava que a Câmara não faz nada. É a sua verdade, talvez  a última verdade, e a senhora não deve achar legítimo que outras se lhe oponham.

    Bem vista a entrevista, passe a rima, a senhora gastou mais de noventa por cento do tempo a falar de processos, de intrigas, de desavenças, de perseguições, de disse-que-disse, de tudo o que, com certeza, a excita, deixando meia dúzia de minutos para coisas mais interessantes, e sempre sem deixar o homem dizer o que, suponho, tinha para dizer, com algum interesse para os lisboetas.

     

    Enfim, minha senhora, é por estas razões – o caso do Presidente da CML não é mais que um exemplo – que me arrisco a ver os meus dias encurtados, a televisão escavacada, ou a minha mulher viciada em Lexotan.

     

    Há-de compreender o meu grito de socorro. Se quiser ter a enorme bondade de me ser agradável, humildemente lhe recomendo que veja umas entrevistas na CNN, na BBC, ou até (céus!) na TF1, a fim de enriquecer os seus conhecimentos profissionais e de dar algum sossego aos dias que me restam.

     

    Desde já gostaria de deixar expressa a minha antecipada quão profunda gratidão pelo que, por mim, quiser fazer.

     

    De Vossa Excelência, minha senhora

     

    Atento, Venerador e Obrigado

     

    António Borges de Carvalho
  • HORRORES

    1. Os políticos, e certos altos funcionários, são obrigados a declarar bens e rendimentos, seus movimentos e situações, ao Tribunal Constitucional. Os dados arquivados são públicos, estando à disposição dos cidadãos para consulta.

     

    Reza a moral vigente que os atingidos por esta medida não devem ser objecto de privilégios especiais em virtude dos cargos que ocupam ou para que foram eleitos.

    Sempre fui contra isto. Acho que o simples facto de se ser eleito, ou escolhido para certas posições é, de si, um legitimíssimo privilégio. Acho que, para o bom desempenho das respectivas funções, necessário é que a tais pessoas seja dada uma série de privilégios, quer dizer, de vantagens de que o comum dos cidadãos não disfruta. Com toda a justiça.

     

    Recusar privilégios é uma coisa, que não aceito mas posso fazer um esforço por compreender. Atribuí-los pela negativa, que é o que a Lei faz, outra coisa é, e completamente diferente. Se o que se pretende é afastar pessoas da vida política e das responsabilidades públicas em geral, não há melhor solução do que fazê-las inferiores às demais, tornando-as a priori suspeitos das mais refinadas tropelias e pondo a sua vida pessoal à mercê de todo o bicho-careta.

    Admitiria, não concordando, a obrigatoriedade das declarações, se elas ficassem à guarda do Tribunal. Poderiam ser usadas, para fins judiciais ou judiciários, e só para isso, quando suspeitas houvesse de malfeitorias praticadas por algum dos declarantes. Opinião pessoal, politicamente incorrecta e contra a moral vigente. Esqueça-se.

     

    Demos, pois, de barato, que está certa a obrigatoriedade e a natureza pública das declarações, nada impedindo o cidadão comum que se interesse pela vida dos outros de consultar os processos relativos a cada um dos atingidos, mesmo que para tal não tenha outro motivo que o de mórbida curiosidade.

     

    Quando um jornal, como o Diário de Notícias (eventuamente vítima da sua nova, e interina, direcção), escarrapacha, em brutais manchetes, nas primeiras páginas do caderno principal e do de economia, os negócos privados e pessoais do Governador e demais Administradores do Banco de Portugal, estamos perante o quê? Curiosidade mórbida? Repugnante comercialismo? Entorse aos mais elementares princípios de vida em sociedade? Inveja? Intenção de provocar inveja? Brutal falta de respeito pelas pessoas? “Frete”  feito a alguém?

    A resposta é: de tudo um pouco, com certeza. A mais horrível miséria moral que imaginar se possa, vertida em letra de forma e dada a conhecer a toda a gente.

     

    Mais horrível ainda é que tudo se passa na mais estrita legalidade. As declarações são públicas, podem utlizar-se como se quiser, como se fossem certidão de conservatória, escritura, registo, cartaz.

    Não colhe o argumento de que “quem não deve não teme”. O facto de “não dever” é pressuposto que a todos se aplica, até prova em contrário. “Não dever” não implica, antes pelo contrário, que seja tornado público, muito menos comunicado a todos, o que cada um faz ou deixa de fazer ao que é seu.

    A Lei é imoral, injusta, repugnante. A moral vigente é imoral, injusta, repugnante. Pior ainda é o Diário de Notícias quando faz o que fez.

     

     2. O “Expresso” de 17 de Fevereiro parangonava “PGR investiga Patrick Monteiro de Barros”.

    Em 24 de Fevereiro, o director do suplemento de economia do mesmo jornal, um senhor que usa exibir-se de papillon, alegando “reacções” que considera inadequadas à coisa, vem fazer o panegírico da investigação jornalística em geral, e da que conduziu à citada manchete em particular.

     

    O senhor Barros é suspeito de crime, única razão que justifica uma investigação da PGR. É o que a manchete diz. O demais escrito pode ser esclarecedor, mas é palha.

    É claro que, da “explicação” produzida pelo senhor do papillon em 24.02, facilmente se pode concluir que o senhor Barros usou um relatório de um corrector para informar uma operação de bolsa. O que é, rigorosamente, o que todos os investidores fazem. Se tal relatório foi, ou não, motivado por informações ilegais, é coisa que se poderá investigar. Ou seja, o senhor Barros só será “culpado”, ou “suspeito”, se tiver sido ele a “encomendar” o relatório. Portanto, o primeiro “suspeito”, se o houver, é o corrector. O senhor Barros virá, se vier, a seguir.

    O que o “Expresso” de 17.02 faz é lançar aos quatro ventos a suspeita sobre o senhor Barros. Por mero sensacionalismo, ou por razões que podem ter a ver com lutas intestinas e recados de investidores rivais? Não é voz corrente que o “Expresso” é, desde sempre, o melhor jornal de recados da nossa praça?

     

    O efeito almejado, e conseguido, é lançar lama sobre o senhor Barros, lama de que se não livrará, uma vez que a manchete lá está, e de lá se não pode tirar.

    Com que intenção? Bom, quanto a isso, o melhor é perguntar ao exibicioniosta do papillon.

     

    António Borges de Carvalho
  • O TEXUGO TERRORISTA II

    Há dias – não sei se se lembram – sob o título "O Texugo Terrorista", aqui deixei o que penso do senhor Al Gore e das suas ameaças e negócios.

    Quanto às ameaças, o dr. Cutileiro vem informar-nos, no "Expresso" de 24.02, que o aumento de seis metros que, no parecer do fulano, se verificará no nível do mar nos anos mais próximos, se situará, segundo os cientistas do Painel Inter-Governamental para as Mudanças Climáticas, entre os 38 e os 59 centímetros no final do séulo XXI.

    Eu não dizia?

    Quanto aos negócios, o mesmo jornal, num alarde de coerência, lança um concurso qualquer cujo prémio será um bilhete para a próxima conferência do reputado artista, no valor de € 1.200,00 – duzentos e quarenta contitos!!! – verba que esportulará cada um dos bem pensantes que for, sedento de horrores, ouvi-lo ejacular medos e ameaças.

    Eu não dizia?

     

    Um conselho de amigo: por quatro ou cinco euros vê-se o Rocky Balboa, que é muito mais interessante, muito mais verdadeiro e não ameaça ninguém.

     

    António Borges de Carvalho 
  • CALINADAS

    No programa que a distinta RTP 1, generosamente, dedica à língua portuguesa, não raro é ouvir-se pontapés na gramática, alguns de descasca pessegueiro.

    Não resisto a referir um, que me parece particularmente interessante.

    O senhor Infante, pedante, impante de gramática sapiência, informou-nos sobre a existência de um provérbio que, na sua ilustre boca, reza assim:

    As nádegas não prestam, o que prestam são as pernas. Gosto requintado, como vêm.

    Assim. Nem mais nem menos: o que prestam são as pernas (!!!???!!!).

    O homem o disse e o repetiu. A menina, lá por trás, o disse e o repetiu. É esta a qualidade linguística dos fulanos que são pagos (com o nosso dinheiro) para nos ensinar a falar e a escrever.

    O "Concurso de Língua Portuguesa" do "Expresso" não anda muito longe disto. Não perde pela demora, mas fica para outro post.

     

    António Borges de Carvalho
  • DO SUCESSO DO AUTORITARISMO

    Rezam as crónicas que o Partido Socialista continua em alta, apesar dos socréfios desmandos.

     

    Passados dois anos de voracidade fiscal e de ineficácia económica, a situação pode resumir-se mais ou menos como segue:

    – Os impostos – quase todos – aumentaram, e não pouco;

    – As prestações sociais baixaram;

    – A cobertura nacional dos serviços de saúde encolheu;

    – O investimento desce ininterruptamente;

    – O consumo interno está nos seus piores dias;

    – A construção em baixa está;

    – A despeza do Estado aumentou;

    – O défice das contas públicas subiu de 2,9% do PIB em 2004 (confirmado pelo Eurostat) para 4,6% (previsão do governo) em 2006;

    – Os bancos pagam ao estrangeiro, em juros, 10% do PIB;

    – O desemprego atingiu o seu valor mais elevado desde… 1986;

    – A dívida do Estado subiu 6% de 2005 para 2006, situando-se perto dos 72% do PIB (€108.000.000.000);

    – O "avanço tecnológico", objectivo de bandeira de Pinto de Sousa (Sócrates) e, mais tarde, de SEPIIIRPPDAACS, é dos mais baixos da Europa em geral, e o mais baixo da "velha" Europa;

    – As exportações são, virtualmente, o único indicador positivo, mas têm por base o enriquecimento de terceiros, não o nosso.

     

    Shortly: tudo o que do Governo depende se cifra em desgraça.

     

    Acresce que, em campanha eleitoral, o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) tinha garantido, entre outras maravilhas:

    – Que os impostos não subiriam;

    – Que a protecção social melhoraria;

    – Que o SNS proguediria;

    – Que o investimento na economia aumentaria;

    – Que o consumo interno, como motor e consequência do progresso económico, aumentaria;

    – Que a construção… bem, a este respeito não sei se houve promessas (a OTA e o TGV não constavam, foram inventadas à posteriori para consumo dos papalvos);

    – Que a despeza do Estado seria cortada;

    – Que o défice das contas públicas diminuiria;

    – Que o endividanento externo desceria;

    – Que seriam criados cento e cinquenta mil postos de trabalho;

    – Que o avanço tecnológico seria uma realidade.

     

    Shortly: O Primeiro ministro aldrabou o eleitorado, consciente e propositadamente, para ganhar as eleições.

     

    No entanto, apesar do brutal insucesso da sua política, apesar das mais que evidentes aldrabices, o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) e o PS continuam em alta.

     

    Vale a pena pensar dois minutos a este respeito.

     

    Nos últimos tempos, temos sido surpreendidos com os resultados dessoutra inenarrável aldrabice que é o concurso "O Melhor Português de Sempre".

    À cabeça, dois políticos que se caracterizavam pelo autoritarismo.

    De comum com Salazar e Cunhal, mas também com Cavaco (actual PIIIRP) e Sá Carneiro, Pinto de Sousa (Sócrates) tem a postura autoritária que agrada à Grei. Os portugueses, à esquerda e à direita, "amam" os que neles mandam, ou se propõem mandar, sem dar satisfações. Suponho ser esta a razão que leva às sondagens favoráveis ao PS e ao seu chefe. A mesma que põe Salazar e Cunhal no topo do estúpido concurso.

    É evidente que há diferenças abissais entre os políticos acima elencados. Antes de mais, há os que são autoritários porque têm autoridade, como Sá Carneiro, e os que têm autoridade porque usam autoritariamente o poder de que dispõem, como Cunhal ou Pinto de Sousa (Sócrates). Há os que exercem autoridade porque gozam legitimidade política, como Pinto de Sousa (Sócrates) – não quer dizer que tenham legitimidade moral para a exercer como a exercem ou para enganar as pessoas – e há os que a exercem sem preocupações de legitimidade, como Salazar.

    Todos, porém, de uma forma ou de outra, gozam da admiração dos portugueses. Pinto de Sousa está em alta nas sondagens porque não dá satisfações, porque mantem os seus ministros como o pastor mantem as ovelhas, ou seja, em boa ordem e ao empurrão. A malta prefere quem mande, mesmo que mande mal.

    O problema não será dos portugueses tout court, uma vez que uma informal mas generalizada "conspiração informativa" os mantem desinformados. Pinto de Sousa (Sócrates) caíu no goto da "informação" mas não lhe fez tosse. A "informação" não o denuncia, não o critica, não o persegue, faça ele o que fizer. A "informação" percebeu que o fulano tinha condições para ficar, por isso intui que o melhor é calar.

    Assim, em parte porque é sua tendência, em parte porque é para tal empurrada, um larga maioria de portugueses acaba por adoptar a posição do "quanto mais me bates mais gosto de ti". Masoquismo fadista, ausência de sentido crítico, fatalismo congénito? Sei lá.

     

    A política socréfia, ao contrário do que por aí se propagandeia, é claramente uma política socialista, no caso socialista de esquerda. Política em que as prioridades são elencadas segundo os interesses de uma entidade colossal com a qual o diálogo é difícil, ou impossível – o Estado, e não segundo os interesses de cada um dos que deveriam ser objecto da política – os cidadãos. Política cujo objectivo não é libertar, mas submeter. Política em que os sacrifícios de todos não são feitos em favor do futuro de cada um, mas se subordinam à estabilidade e ao "sucesso" da superestrutura estatal, única sede em que a esquerda se sente bem.

     

    E, no entanto, o "povo" que não é de esquerda, liderado por chefes políticos sem garra, sem ideias e sem autoridade, e "informado" por uma subservientíssima "comunicação social", é levado, e aceita, a asserção de que Pinto de Sousa (Sócrates) está a governar "à direita". Nada mais falso, nada mais enganador.

    Pinto de Sousa (Sócrates) comanda o governo mais esquerdóide que Portugal conheceu desde o 25 de Novembro de 1975. Os chefes (chefinhos) da direita deixam correr a falácia que consiste em acreditar que os esquerdóides socraticóides estão a tomar as medidas que eles gostariam de tomar. Sem uma palavra, sem um grito de indignação, sem uma clara denúncia. Ora bolas.

     

    Tempos virão depois destes tempos, dizem os que, como eu, não querem desesperar, mas que não têm outra coisa a que se agarrar senão à esperança de que o tempo trate do assunto.

     

    António Borges de Carvalho
  • ELOGIO DO ANONIMATO

    Tenho sido acusado por alguns dos meus leitores de dizer mal de tudo, de ser um verrinoso e impenitente crítico de coisas que, vejam lá, toda a gente elogia.

    A fim de contrariar estas bem intencionadas observações, apresento-me hoje numa postura encomiástica. Que diabo, se calhar os meus amigos têm razão: do que há bem a dizer, que se diga, ou seja, que eu o diga.

     

    Tenho à minha frente um número do “Jornal de Negócios” que, na secção “Opinião dos Leitores”, insere extractos de dois escritos, um assinado por Zenónico, outro por o presidente. Os textos reproduzidos, que refectem a bestialidade e a ignorância, tanto do Zenónico como do o presidente, não são dignos de referência.

    Mas é-o a magnífica postura do jornal em causa, que publica as opiniões em que, eventualmente, a sua ideologia se refecte, tendo o extremoso cuidado de o fazer a coberto de merecido anonimato.

    Assistimos, na generalidade da imprensa, a esta prática, tão merecedora de admiração e respeito. Ele é os Blogs com nomes electrónicos que não correspondem a nada, por conseguinte anónimos, ele é os Zenónicos e os o presidente, a dar-nos, por todos os lados, esta reconfortante sensação de liberdade que consiste em poder dizer o que nos vier à cabeça sem que tenhamos que assumir qualquer responsabilidade, sem que seja quem for nos possa chamar a atenção, criticar, condenar ou elogiar por isso. Trata-se, sem sombra de dúvida, do desenvolvimento do nosso livre arbítrio, coisa que nos enriquece e nos faz sentir mais jóvens, mais actuantes, mais interventores, mais integrados na democracia participativa, mais influentes, mais realizados, mais socréfios.

    Para orgulho e felicidade de todos nós, lemos por aí que, por mor de uma denúncia anónima, o procurador A ou o polícia B deram início a uma investigação profunda sobre a vida do senhor C. Lemos por aí que o computador do senhor D foi assaltado pela polícia porque um denunciante anónimo disse que havia horríveis crimes no disco duro.

    Há que saudar, com a maior alegria, esta evolução das formas de actuação dos poderes públicos, cientes de que estamos agora muito mais bem defendidos contra abusos vários susceptíveis de perturbar o nosso sossego.

     

    Ah! Como é reconfortante esta sensação de poder! Se não gostarmos de um tipo qualquer, um chato que nos incomoda, que nos perturba, bastar-nos-á mandar a quem de direito uma cartinha anónima para que o canalha se veja investigado, assaltado pela polícia, metido nos varais! É tão bom, não é? Se o tipo não for tão irritante assim, sempre haverá uma hipótese mais moderada: chateá-los através de um blog, onde assinamos Zenónico, ou coisa do género, ou de mandar um email para o Jornal de Negócios, ou equivalente, a comunicar ao mundo as nossas zenónicas opiniões.

     

    É, ou não, de elogiar o novíssimo sistema? Acho que sim. Aqui fica, para que conste, o testemunho da minha mais profunda consideração.

    E não venham acusar-me outra vez de dizer mal de tudo e mais alguma coisa.

     

    António Borges de Carvalho
  • ROYALICES

    Na segunda-feira de Carnaval estava este vosso criado repastelado num quarto com vista para o mar, em Biarritz (“cólidade” de vida, pois então!), quando surge, na TF1, a dona Segolène a responder às perguntas de um painel de citoyens.

    Tive a pachorra de ouvir aquilo quase até ao fim.

     

    A senhora é finória, não se atrapalha, e lá vai respondendo, ou seja, virando e revirando, diante da rapaziada, uma bem estudada cassette. Nada de especialmente novo no que disse. O povo blá blá blá, o terceiro mundo que é preciso ajudar de outra maneira (qual?), os rapazinhos que queimam carros são uns gajos porreiríssimos que é preciso “integrar”, o ministro do interior é um burro, a République a que é preciso dar uma vida nova, pó pó pó, a semana das 35 horas logo se vê, está tudo no meu programa tá tá tá, e por aí fora. Sá a vi à rasquinha quando lhe perguntaram qual era o tacho que daria ao seu compagnon, senhor Hollande, se fosse eleita. A tais alhos respondeu com bogalhos. Fazia lembrar o senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

     

    Na minha qualidade de estrangeiro, só me entusiasmei quando a senhora se pôs a falar da grandeur de la France, com o tom gaulista do costume: la graaaaandeur de la Fraaaaance. A senhora foi lapidar: a) Dar à Fraaaaaance a grandeza “global” que “lhe cabe”, b) Pôr a Fraaaaaance a mandar na União Europeia, como lhe compete, c) Tratar os Estados à distância, sem contemplações, nem acordos, nem subserviências, nem lideranças.

     

    Não faço comentários. Deixo estas modestas impressões à consideração de quem as ler. Presumo que, a este respeito, o senhor Sarko dirá mais ou menos o mesmo.

     

    António Borges de Carvalho
  • GRANDE MULHER!

    A CML está debaixo de fogo. Nunca deixou de o estar desde o dia em que o dr. Santana Lopes a conquistou. A esquerda, agora com a preciosa colaboração da dona Maria José (que encanto!), sempre foi, por um lado, adepta da terra queimada e, por outro, nunca aceitou que outrem a ultrapassasse, já que se acha dona do sistema.

    Agora, porém, fia mais fino, dada a fraqueza dos atacados e a falta de escrúpulos dos atacantes. O prof. Carmona não tem lá grande jeito para a política, abandonou uma data de gente boa pelo caminho, rodeou-se de nabos e de inexperientes, acabando por ter, para além do senhor Marques Mendes, poucos que o defendam dentro do próprio PSD. A alcateia, por seu lado, ganhou um chefe capaz de tudo, inspirado nessa extraordinária amálgama de virtuosas criaturas que começa no senhor Louçã e acaba no inefável Ribeiro Telles com dois èles.

    A ver vamos o resultado final da perseguição.

     

    O que me traz é um dos episódios da guerra. Uns senhores, administradores da EPUL, receberam umas massas a título de prémio de produtividade, ou coisa que o valha. Acossados, acusados, enxovalhados, apressaram-se a devolver o taco, implicitamente confessando que não tinham legitimidade para o ter recebido.

    Todos? Não. Todos menos a dona Eduarda Napoleão, qual aldeia gaulesa a resistir ao invasor.

    Não devo nada à dita senhora. Pelo contrário, precisei uma vez de falar com ela, como vereadora da Câmara. Esperei dois meses para ser recebido. Os cinco minutos que, imperialmente, me concedeu, resultaram em nada. Népias. Jamais recebi resposta. O que queria demonstrar-lhe que não devia acontecer já aconteceu.

    Sou, por isso, de uma intocável isenção quando elogio a posição que tomou. A senhora acha, provavelmente com razão, que o prémio recebido era merecido, e não o devolve nem dá satisfações à alcateia. Grande mulher!  

     

    António Borges de Carvalho
  • FUUROLOGIA II

    Com a pompa e a circunstância que presença do Exmº Senhor Pinto de Sousa (Sócrates) confere a tudo o que goza de tal e tão augusta presença, foi lançado, numa ilha atlântica, o Novo Cartão do Cidadão. Sursum corda!

    Uma menina e um velhote, em representação de todos nós, foram contemplados com mais esta inequívoca demonstração do que é o Portugal  socréfio, moderno, tecnológico, avançado, precursor, prafrentex, simplex, olarex.

    O dito cartão contém, para já, os dados do BI, do NIF, da SS e do US. Dentro em pouco, incluirá, outrossim, o Cartão de eleitor.

    Sob a mesma epígrafe, publiquei, em Janeiro, as minhas observações sobre o facto de, no computador da CML, se encontrarem, sem minha autorização, uma série de dados sobre a minha pessoa, provenientes do computador das Finanças.

    Longe estava de pensar que aquilo era só uma espécie de aperitivo para o genial Cartão do Cidadão. A coisa, porém, fazia o seu caminho muito mais depressa do que eu pensava.

    Dentro em pouco, o nosso cartãozinho terá o que o Exmº Senhor Pinto de Sousa (Sócrates) entender: a carta de condução, as multas de estacionamento, o sinalzinho das costas, as compras com o Multibanco, a continha de depósitos à ordem, a renda da casa, o número de sócio do Benfica, as compras e vendas de acções, as passagens na Via Verde, e tudo o mais que ao Pinto de Sousa (Sócrates), aos procuradores da República, aos agentes da judite, aos fiscais de impostos, aos fabricantes de cartas anónimas, e quejandos, possa vir a interessar. À la limite, se é que há limites para estas arrancadas, a feliz menina dos Açores poderá ver incluídas no inefável cartãozinho as medidas da anca e do peitinho, simplexisando uma candidatura a miss Portugal, o velhote lá terá as medidas do caixão, poupando imenso tempo à Servilusa, e assim por diante. As distintas autoridades poderão saber a data e a hora a que V.Exª comprou a última caixinha de Viagra ou de pílula do dia seguinte, tudo com uma simplexidade ultramoderna, rápida e sem desmentido possível.

    O Big Brother é uma pobre criancinha ao pé disto tudo, uma ilusão libertária de um escritor de outros tempos. A protecção de dados pessoais será, a breve prazo, um obsoleto resquício de práticas medievais.

    Enfim, aí temos o socialismo na sua mais requintada expressão.

    E há, segundo vejo por aí, uma data de gente a gostar da coisa! Valha-me São Pancrácio, santinho que não conheço mas com quem simpatizo imenso.

     

    António Borges de Carvalho
  • NO RESCALDO DO REFERENDO

    Eleitores – 8.832.628

    Votantes – 3.851.613

    Brancos – 48.185

    Nulos – 26297

    Sim – 2.238.053

    Não – 1.539.078

     

    Números são números. 25,34% dos eleitores portugueses determinaram que o aborto passa a ser livre, se executado pelo Estado ou por quem o Estado autorizar, até às dez semanas de gestação, a pedido da mulher, não tendo o pai da criança, mesmo que a senhora seja casada, qualquer sombra de voto na matéria.

    Trata-se de mais ou menos o mesmo número de eleitores que pôs o dr. Sampaio em Belém. Ninguém negará a legitimidade da coisa. Está feito.

    17,42% opuzeram-se à decisão. 57,24% ou não puzeram lá os pés, ou borrifaram no assunto por outras formas: ao todo, 5.055.434 de não-me-macem-com-essa-história, em 8.832.628.

    Primeira observação: para quê o referendo? Que ganho de legitimidade se obteve? Se se resolvesse o assunto por via parlamentar, com certeza se obteria maIs, ou seja, mais portugueses estariam representados no Sim e no Não parlamentares do que no Sim e no Não referendários. Com a virtual virtude, passe a expressão, de, vinda outra maioria, os portugueses, através dos seus representantes, poderem resolver o assunto de outra maneira.

    Donde se prova que o referendo é um instrumento perigoso e, na medida em que “amarra” os decisores futuros, objectivamente anti-democrático.

     

    Feita a condenação do referendo em geral, o que reconheço ser discutível, vale a pena dizer umas palavrinhas sobre esta consulta em particular.

    Não sei se foi o ambiente de engano, de mentira, de falsidade que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) introduziu na nossa vida política o que motivou a “atmosfera” deste referendo. Talvez não. Talvez o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) não seja, excepcionalmente, o culpado.

    A verdade, porém, é que todos fomos enganados. Os que votaram Sim e os que votaram Não. Os primeiros, por julgar que estavam a descriminalizar uma coisa que, afinal, criminalizavam.

    Os segundos, porque funcionaram como idiotas úteis, isto é, votaram numa coisa em que ninguém estava interessado, a começar pelos próprios líderes do Não, que meteram os eleitores numa floresta de enganos.

     

    Vejamos:

     

    A partir daqui, o aborto é “despenalizado” até às dez semanas. Primeira verificação: o aborto não é “descriminalizado”, é desculpado até às dez semanas, continuando crime, penalizado a partir daí*. Não se sab sequer, o que vai acontecer aos abortos realizados mais tarde, e que a lei em vigor já despenalizava.

    A “caridosa bonomia” dos tribunais em relação a quem aborta deixou de ter fundamento, uma vez que, ou a lógica é uma batata ou ganhou força a penalização a partir das dez semanas. Pelo que as meninas e senhoras que se distraírem e abortarem depois das dez semanas passam a ir para a cadeia, coisa que antes, à tort ou à raison, não acontecia. Quem votou Sim, ou o fez de pé atrás, o que será o caso da classe política empenhada no assunto, ou foi enganado.

    Os partidários do Não foram metidos na mais extraordinária campanha que se possa imaginar. Os habituais “defensores da vida”, afinal, não o eram tanto quanto isso. Passaram toda a campanha a dizer “não mas”. A este respeito, tudo se sintetiza, e simboliza, nas posições malabaristas do Prof. Sousa, aliás magnífica e esmagadoramente retratado pelo Gato Fedorento no que é, na minha opinião, o mais fabuloso sketch de todos os tempos da televisão portuguesa – e do youtube. A incoerência não pagou. Os que, sinceramente, eram pelo Não, foram de tal maneira confundidos pelos líderes da campanha que, ou foram votar Sim (vale a pena votar Não quando os que deveriam ser os principais defensores de tal opção passaram meses a tergiversar sobre o assunto?), ou mantiveram a suficiente coerência até ao fim, contra os ventos e as marés que, do seu próprio lado, lhes baralhavam a consciência.

     

    No fundo, é simples.

    O Sim queria “perdoar”. Chamem-lhe “despenalizar”, se quiserem. Substancialmente, é indiferente. Continua a ser crime, mas sem pena.

    O Não queria que não houvesse “despenalização”. Mas que ninguém viesse, por isso, a ser condenado. Onde está a diferença? Venha o mais truta e responda.

    A única diferença é que o Sim, desculpabilizando, oferece higiene à coisa. O Não insiste na culpabilização, implicitamente mantendo des-higienazanda uma coisa que dizia perdoar.

    Então, mais que não seja por questões de higiene, ainda bem que ganhou o Sim.

    Os tipos do Sim invectivaram os do Não por defenderem o absurdo de um crime sem pena, que é exactamente o que eles próprios faziam.

    Ou seja, todos andaram a enganar o povo.

     

    Os tipos do Não, em vez de ser fiéis aos seus princípios (se há ser humano após a concepção, então o aborto é homicídio desde o primeiro dia), andaram a ceder às exigências do Sim, dizendo que era crime mas que não queriam saber disso para nada. Ora bolas. É evidente que estas confusões, lançadas no espírito das pessoas pelas maluquices do Prof. Sousa** e quejandos, acabaram por fazer ganhar o Sim, e por larga margem.

     

    De um lado e de outro, o que houve foi uma monumental mistificação, uma despudorada ausência de escrúpulos, uma saca de aldrabices. Não admira que a genuinidade do referendo (de todos os referendos) tenha ficado em causa.

     

    António Borges de Carvalho

     

     

    * O texto proposto para a lei que se seguirá ao referendo corrobora esta afirmação: “Não é punível a interrupção voluntária da gravidez efectuada por médico ou sob sua direcção, em estabelecimento oficial ou oficialmente reconhecido, com o consentimento da mulher grávida (…), a pedido ma mulher, nas primeiras dez semanas de gravidez, para preservação de sua integridade moral, dignidade social ou maternidade consciente.” (a pobreza do português é do texto, não minha).

    ** O prof. Sousa é pública e notoriamente perito em jogos circences. Nunca ganhou nada com isso, mas insiste. E há quem continue a dar-lhe crédito, e tempo de antena!
  • A HOSPITALIDADE NACIONAL

    Aqui há uns anos, era primeiro ministro o senhor Barroso e ministro dos negócios estrangeiros um tal Cruz, houve uma bronca monumental nas intâncias da diplomacia europeia porque, por causa de uma conferência qualquer que se ia realizar no Porto, o nosso governo resolveu dar visto de entrada ao sanguinário ditador da Bielorrússia, fulano que, dados os atropelos do seu regime, estava impedido de entrar em qualquer país da UE.

    A coisa parece não ter servido de lição. O governo que hoje temos está a tratar de fazer passar as nossas fronteiras o ditador do Zimbabué, indivíduo que tem motivado, por acção que não por omissão, matanças, assaltos armados, legiões de expropriados e expulsos, que não respeita, antes persegue, os seus opositores políticos, que lançou o seu país, outrora próspero, na mais radical miséria, que dá mostras de brutal radical racismo, que já foi expulso do Comonwelth e que é persona non grata em todo o mundo civilizado.

    O argumento é o de que vamos receber por cá, lá para o fim do ano, uma cimeira EU-África, e que a África, coitadinha, não ficaria bem representada se tal criminoso não viesse, com as honras de Estado que lhe são devidas. Além disso, opina o governo, poderia haver alguns países africanos, apoiantes do canalha, que não viessem sem ele. Não importa, sequer, ao dito governo, que haja países da UE (com o Reino Unido à frente) que possam deixar de cá vir se o fulano se apresentar ao serviço. O que importa, segundo parece, é esta “grandeza de alma” de a todos receber, como se todos merecessem ser recebidos e mesmo que isso desrespeite compromissos tomados, e assinados, em nome de todos nós.

    Mais um serviço que vamos ficar a dever ao senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?. A ver vamos.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • A INTELIGÊNCIA E OS TERRAMOTOS

    O distintíssimo Serviço de Protecção Civil, no acrisolado cumprimento da sua nobre missão, veio informar o respeitável público sobre as providências a tomar em caso de terramoto. Aqui as reproduzo, no intuito de servir os meus leitores:

     

    a) Abrigue-se no vão de uma porta interior;

    b) Abrigue-se no canto da sala, caso não tenha vãos de porta à disposição;

    c) Se não tiver vãos de porta nem cantos ali à mão, meta-se debaixo da mesa ou debaixo da cama;

    d) Esteja atento à queda de vidros e outros materiais que costumam cair nos vãos de porta, nos cantos da sala e debaixo das mesas e das camas;

    e) Se quiser dar o fora, não se precipite, nem vá pelas escadas, que são frágeis;

    f) Muito menos deverá utilizar os elevadores, que têm o péssimo hábito de encravar nestas ocasiões;

    g) Se estiver na rua afaste-se dos edifícios e dos postes de electricidade, dirija-se antes a um espaço amplo, onde aquelas facilities não usam despenhar-se;

    h) Tenha o cuidado de não interferir com o tráfego;

    i) Quando acabar o sismo, corte a luz e o gaz, para não provocar incêndios;

    j) A seguir, ligue o rádio para ouvir as recomendações da Protecção Civil.

     

    Tire as devidas conclusões:

     

    k) A última coisa que deve fazer é ligar o rádio, depois de se ter metido no vão da porta, ou debaixo da mesa, ou debaixo da cama e, sobretudo, não esqueça, depois de ter desligado a luz, o que implica ter sempre à disposição um rádio a pilhas. Se não for possuidor de tal instrumento, está feito;

    l) Se lhe der na cabeça sair de casa, não o faça, nem pelas escadas, nem pelo elevador. Atire-se da janela abaixo, que é mais rápido e que, se o prédio for alto, é remédio santo e virtualmente indolor;

    m) Se morar em Alfama, ou na Lapa, por exemplo, e resolver sair de casa, após saltar pela janela deve dirigir-se ao Campo Grande, que é um espaço aberto e com poucos candeeiros;

    n) No caso precedente, é favor não se precipitar, vá devagar, atento aos semáforos e às ordens da PSP;

    n) Para prevenção dos incêndios, deve desligar a electricidade e o gaz, mas só depois da acabar o sismo, uma vez que tudo indica que o terramoto terá a amabilidade de não os provocar enquanto estiver em acção.

     

    António Borges de Carvalho
  • O TEXUGO TERRORISTA

    Rechonchudo, adiposo, a ressumar salsichas fritas por todos os poros, bacon, ovos mexidos, feijão encarnado e panquecas, cabelame empastelado de grease, com ar de suíno na engorda, cara de peido contido, o senhor Al Gore veio até nós com a sua mensagem terrorista, já convertida em filme e livro, e espalhada pelo mundo em mais de mil conferências.

    A nata do politicamente correcto fez questão de estar presente. Até o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) o recebeu com pompa e circunstância. A imprensa incensou o fulano, não esquecendo sublinhar que se deslocava num Lexus de super luxo, mas com propulsão híbrida, pois então, que, em matéria de CO2, no que respeita ao senhor Gore, só os descuidos intestinais são inevitáveis.

    O nacional-saloiismo regurgitou orgulho por tão ilustre visita, as meninges a arder de extasiada contemplação. Até os que ficaram à porta, (o dr. Júdice, por exemplo), gulosos como os meninos pobres do Dickens a olhar as lojas de brinquedos, se babavam na mira do santuário onde ecoava a apocalíptica mensagem,.

    O fulano já disse, repetiu e re-repetiu, urbi et orbe, a sua ilustre cassette, pelo que não vale a pena voltar a opinar sobre a substância da mesma (cf. "Do Aquecimento Global", post de 23 de Janeiro).

     

    Duas afirmações do adiposo camone são, no entanto, de reter:

    a) "A crise climática é uma oportunidade", disse ele. Ai não que não é. Já lá vão mil conferências, dizem os panegiristas. A avaliar pelo custo da que foi "oferecida" aos zelotas cá do sítio (€ 200.000), o homem já "movimentou " duzentos milhões de euros, só em conferências. Se uns modestíssimos dez por cento forem creditados na sua conta, vinte milhões já lá cantam. Acrescentando os lucros do "documentário", fácil é concluir que os otários já devem ter entrado com outro tanto. Resta o livro. Consta que vai nos sete milhões de exemplares. A uma média de preço, por defeito, de quinze euros cada um, se o adiposo receber dez por cento de direitos de autor, mais dez milhõezitos é canja.

    É evidente que o homem tem carradas de razão quando diz que o terrorismo ambiental é "uma oportunidade". Pudera!

     

    b) Cá no síto, os donos da razão perguntaram ao homem porque é que o inenarrável George W. Bush, uma besta quadrada, não tinha querido ratificar o Protocolo de Quioto. Fugindo-lhe a boca para a verdade, o fulano respondeu que, à data da assinatura da coisa pelo Presidente Clinton, havia um único senador, dos sessenta e sete necessários, que estaria disposto a votar a ratificação. Não valia, sequer, a pena pôr o assunto ao Congresso. A assinatura do protocolo pelo presidente Clinton terá sido um gesto bonito, mas inconsequente.

    É evidente que os donos da razão continuarão a invectivar o Bush por condenar à morte o planeta em que vivemos. Mas valeu a pena a visita do gorducho, mais que não seja para que, pelo menos os meus leitores, fiquem cientes da verdade.

     

    António Borges de Carvalho
  • QUE PENA!

    Como é fácil de calcular, não tenho o senhor Mário Soares em grande conta. O que não me impede de reconhecer que, em certos momentos, tomou atitudes e decisões que foram ao encontro dos nossos interesses colectivos e que obstaram a consequências muito negativas para Portugal.

    Numa manifestação daquilo a que alguns chamarão grandeza de alma, e a que eu chamarei pragmatismo, ou bom senso, Soares opôs-se à caça às bruxas, isto é, soube contribuir para estancar tendências, manifestas em certos sectores, para a perseguição dos apoiantes do regime do Estado Novo. Achou, e bem, que, para que Portugal pudesse conhecer alguma paz interna, era preciso pôr uma pedra sobre certas matérias que o entusiasmo da mudança poderia levar longe demais.

    Tiro-lhe o chapéu por isso. Há momentos em que a justiça em relação ao futuro se deve sobrepôr à que ao passado se refere.

     

    Para borrar esta pintura, o senhor Soares, no patético estrebuchar da sua vida política, perdeu o sentido da medida das coisas. O senhor Soares é, nem mais nem menos que uma das "personalidades internacionais" que apoiam a "Comissão da Verdade", organização que, sob a alta inspiração do senhor Sapateiro e seus sequazes, vai investigar a repressão havida em Espanha depois da guerra civil. Não se trata, como, a contrario sensu, o nome poderia indicar, de uma investigação histórica isenta e desinteressada, mas da criação de uma entidade, politicamente inspirada, destinada a anatemizar atitudes e condenar pessoas por actos eventualmente praticados há sessenta anos, ou mais, ressuscitando ódios e malquerenças que uma Espanha democrática e tolerante há muito esqueceu. Trata-se de um erro de palmatória, próprio de pides e torquemadas, destinado a dividir os espanhóis em bons e maus, só que os bons de hoje serão os maus de ontem, e vice-versa.

     

    É triste que a idade e o vício da notoriadade levem o senhor Soares a esquecer a tolerância e o bem senso que, em cartas matérias, caracterizaram positivamente a sua vida.

     

    António Borges de Carvalho