Aqui há tempos, uns senhores do Grupo Espírito Santo viram o seu escritório invadido pela Judiciária, que se apoderou de papeladas várias e de material informático de diversa ordem. Ao mesmo tempo, os jornais, a televisão e a Quercus vociferavam as mais rasgadas aleivosias contra os ditos e contra o governo (o anterior, pois claro), porque uns terão arrancado, outro autorizado, o arranque de uns sobreiros lá para a outra banda. Bem podiam os senhores do GES protestar que estavam autorizados a fazê-lo, que tinham plantado não sei quantos sobreiros mais, etc. A coisa estava em marcha. Não a investigação propriamente dita, que essa, depois do show, parou, mas a fama de abusadores e criminosos que os senhores do GES já tinham devidamente escarrapachada nos media.
Perguntarão VExas. a que propósito vem esta requentada história.
Tem a sua lógica, vão ver.
Segundo os jornais, os camaradas socialistas vão arrancar entre 2.500 e 5.400 sobreiros para preparar o terreno para o aeroporto da OTA. Quer dizer, o que era um crime, se feito pelo GES, passa a imperiosa necessidade e a benesse eco-económica se for levado a cabo, multiplicado por n, pelo (ex)bolchevista Lino. E, se atentarmos na “precisão” da informação prestada pelas autoridades socréfias – “entre” 2.500 e 5.400!!! – teremos a noção do “rigor” que está a ser usado pela (des)governação nacional.
Mas, para além dos sobreiros, o que veio a lume revela contornos que bradam aos céus. Ora vejamos:
É do senso comum que um aeroporto deve ser construído numa zona plana, bem drenada, e sem obstáculos de maior. É o caso de Orly, de Heathrow, de Roissy, etc. Nesta matéria, o aeroporto da OTA é exemplar.
Para além do arranque dos 5.400 (ou 2.500, ou…), vai ser preciso:
a) Deitar abaixo duas colinas, com uma movimentação de 47.281.219m3 de terras (veja-se, neste caso, a precisão), 42 milhões que mudam de sítio e 5 que vão não se sabe para onde;
b) Desviar um rio;
c) Alargar o leito de dois,
d) Mudar(!!!) o leito de cheia que o local é hoje para outro sítio qualquer;
e) Revestir leitos com betão…;
E mais. Só para preparar o terreno, é preciso;
f) Desmatar e decapar 11.000.000m2;
g) Desviar 60 a 120 (veja-se, mais uma vez, o rigor da coisa) quilómetros de linhas de alta tensão;
h) Remover nove a dez quilómetros de gasoduto;
i) Substituir oito a dez quilómetros de condutas de água;
j) Encerrar e desmantelar uma base militar, que ninguém sabe para onde vai, nem se deixou de ser necessária.
Se somarmos a este rol de agressões a necessidade de construir acessos inacreditáveis, que vão de auto-estradas a desvios do traçado do TGV, não sei se caberemos no horror que sentimos.
Olhemos à nossa volta.
Não há, próximo de Lisboa, planícies?
Não há, próximo de Lisboa, planícies onde não passem tantas infraestruturas?
Não há, próximo de Lisboa, planícies que estejam perto de vias de comunicação já existentes?
Tem alguma lógica construir um aeroporto a uma tão grande distância da capital, mais longe que os de qualquer outra capital europeia?
Tem alguma racionalidade fazê-lo numa zona alagada, indiscutivelmente imprópria para o efeito?
Tem sim senhor. Tem lógica e tem racionalidade. A lógica e a racionalidade habituais aos ditadores, mas imprópria de democratas. Quando tudo falha – a economia, as finanças, a educação, a justiça… é preciso atirar areia à cara dos cidadãos, considerados como idiotas úteis. A Ota é a areia de Pinto de Sousa (Sócrates).
Como a imagem que cultiva é a do homem convencido, decidido, capaz de levar a sua em frente, ou corremos com ele na primeira oportunidade, ou nos arriscamos a juntar a Ota às SCUTS e a Foz-Côa, e a ficar mais umas décadas a pagar a paranóia socialista.
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário