IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • ALIA JACTA EST

     

    Fazendo jus à nobre tarefa a que se dedicou,  o doutíssimo Tribunal Constitucional, em mais uma clara demonstração de amor à Pátria, declarou (sem apelo possível) inconstitucional o corte nas pensões que o governo queria instaurar com o fim de cumprir as obrigações internacionais que os desmandos de outros determinaram.

    Nas palavras do dito tribunal, tal chumbo ficou a dever-se à absoluta necessidade de respeitar “o princípio da confiança”, conforme expresso no artigo 2º da Constituição. Consultado tal artigo, verifica-se não constar dele tal princípio. O que quer dizer que, na falta de melhor, se criou um “princípio”, até agora não expresso, mas que o distinto órgão de soberania considerará implícito. O que quer dizer que a Constituição é interpretada a la carte, isto é, quando se quer chegar a uma conclusão política, considera-se implícito o que se revelar útil para “justificar” a decisão. É assim deitado para o caixote do lixo o princípio da certeza jurídica, coisa que, convindo, parece que o TC revoga a seu bel prazer.

    Interessante também  é verificar que o “princípio da proporcionalidade”, esse expresso, não se aplica ao caso, pelo menos  no glorioso parecer do TC… e com certeza para grande desgosto do doutor Cavaco, que quereria servir-se dele para defender a sua querida pensãozinha.

     

    Muita gente ficará contente com a decisão, julgando que o ano de 2014, afinal, vai ser porreiro.

    O problema deste tipo de ilusão é ser ilusão.

    Os jornais, especializados e generalistas, europeus, americanos e patagónios, são unânimes sobre o que vai acontecer: os impostos vão aumentar, os juros vão dar pulos de corça pela escada acima, o “ajustamento” vai falhar, a confiança internacional vai morrer, os mercados vão fechar-se em copas, as próximas emissões de dívida vão ser um flop, os objectivos próximos do país não vão ser atingidos, etc.. Como é evidente, os parvos que agora estão contentes vão pagar mais caro do que as previsões mais pessimistas podiam levar a pensar. O pior é que os outros também, pensionistas incluídos.

     

    A pataratocracia provinciana que anima tantas almas continuará a tecer loas ao TC. O nosso pântano é tão intelectual como financeiro. Ou mais.

     

    20.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • SOARES 84

    “Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a

    única coisa a fazer é apertar o cinto”.

    DN, 27 de Maio de 1984

    “Não se fazem omeletas sem ovos. Evidentemente teremos de

    partir alguns”.

    DN, 01 de Maio de 1984

    “Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que

    estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço

    feito por este governo.”

    JN, 28 de Abril de 1984

    “Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos

    reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política

    que está a ser seguida é a necessária para Portugal”

    JN, 28 de Abril de 1984

    “Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos

    nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível”

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a

    aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós”

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus

    meios e recursos”.

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o

    abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”.

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das

    empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre

    jogo das empresas e dos trabalhadores (…). O Estado só deve

    garantir o subsídio de desemprego”

    JN, 28 de Abril de 1984

    “O que sucede é que uma empresa quando entra em falência…

    deve pura e simplesmente falir. (…) Só uma concepção estatal e

    colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa

    responsabilidade.”

    JN, 28 de Abril de 1984

    “Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a

    política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o

    controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos

    ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais

    caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”.

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das

    Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos

    impostos”.

    1ª Página, 6 de Dezembro de 1983

    “Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho

    nem salários”.

    DN, 19 de Fevereiro de 1984

    “A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com

    menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende

    representar”

    RTP, 1 de Junho de 1984

    “A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à

    democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem

    completamente falsa.”

    Der Spiegel, 21 de Abril de 1984

    “Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma

    verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja

    punida na lei. Sê-lo-á”.

    RTP, 31 de Maio de 1984

    “A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser

    permitida a militares em serviço”

    La Republica, 28 de Abril de 1984

    “As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a

    cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça

    descoberta”.

    Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984

    “Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiroministro.

    Não é agradável para a imagem de um politico sê-lo nas

    condições actuais”

    JN, 28 de Abril de 1984

    “Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão

    pública, devidamente corrigida”.

    RTP, 1 de Junho de 1984

    e esta para terminar em grande:

    “Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”.

    6 de Junho de 1984

     

     

    Mário Soares

  • EMPURRÕES

     

    Anteontem, como é sabido, os trabalhadores dos estaleiros de Viana do Castelo desfilaram na capital, protestando contra o encerramento da empresa e a sua entrega a privados. Terão as suas razões.

    Talvez para rimar, há quem insinue que também têm empurrões.

    Foi-nos dado ver, garbosamante desfilando, com bandeirinhas e tudo, trabalhadores tais a dona Ilda Figueiredo, mulher da limpeza, o caldeireiro Garcia Pereira e o soldador Arménio Carlos. Calcula-se que algumas centenas de trabalhadores como estes integrassem o desfile, por exemplo a menina das latrinas, de apelido Martins, e o serralheiro Fazenda, ainda que, certamente por lapso, a SIC não lhes tenha dado o devido destaque, não podendo nós confirmar a sua presença.

     

    É claro que as atoardas dos que falam de empurrões não têm qualquer razão de ser, não é verdade?

     

    20.12.13

     

    IRRITADO

  • COISAS

     

    Ele há coisas verdadeiramente extraordinárias, fora do comum, originais, a desafiar a imaginação do mais pintado.

     

    É sabido que o governo do senhor Pinto de Sousa, entre outros arranques de esmerada inteligência, se dedicou a disfarçar buracos através de várias engenharias, talvez fazendo jus à “profissão” do chefe. Lembram-se das desorçamentações, de que é retumbante exemplo a Estradas de Portugal? Lembram-se da contabilidade criativa a que a UE pôs fim, o que obrigou os sucessores a pôr as coisas no são, revelando as mais diversas “coberturas” e as invenções de subvalorizados défices?

    No meio desta “política” fiscal, veio a lume, como não podia deixar de ser, uma série de contratos swap que não caberiam na cabeça do mais pintado, mas cabiam nas manigâncias governamentais, destinados a disfarçar abismos financeiros, devidamente desorçamentados, das empresas públicas. É sabido que há swaps bons e swaps maus, sendo estes últimos a especialidade da tutela governamental socialista.

    Toda a gente sabe disto. Seria honesto que os seus autores o assumissem. Se fossem honestos, é claro.

     

    Uma deputadinha do PSD, relatora de um documento sobre o assunto, apresentou ao público o seu trabalho, fruto de intermináveis reuniões de uma comissão parlamentar especializada. As conclusões, como não podia deixar de ser, puseram a nu as imaginativas trapalhices, o que para ninguém constitui novidade.

    O que aconteceu a seguir? Uma série de doutores, que estavam na tal comissão(!) vieram a lume dizer, aliás como sempre, que a culpa do que fez o governo anterior é do actual. Faz inveja ao lobo do La Fontaine! Pois não é que os maus são os que andam à nora a tentar minorar as consequências do que os outros fizeram, em vez dos que meteram a pata na poça? Pois não é que os que tentam tapar os buracos são os maus, e os que os abriram uns arcanjos?

     

    É verdade: há coisas verdadeiramente extraordinárias, fora do comum, originais, a desafiar a imaginação do mais pintado.

     

    18.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • AÍ ESTÃO ELES!

     

    Tal como o IRRITADO previu no post anterior, há para aí umas dez escolas (informação de última hora – meio dia – a confirmar) onde não se fez ainda o  exame de avaliação dos 13.500 professores que para tal se inscreveram.

    Os agentes do ignorante (em matéria pedagógica e em literacia), mas sábio (em matéria de agitprop)  Mário Nogueira, devidamente arregimentados, estão, como na greve dos CTT, a defender a falta de liberdade dos seus colegas. Ali, impediam de o fazer os trabalhadores que se julgavam livres para distribuir correio, aqui bloqueiam a liberdade dos que se insceveram de fazer jus a tal inscrição.

     

    É o conceito de liberdade em termos nogueirais/carlistas/bolchevistas. É a democracia dita “real”, dita “popular”, dita piramidal, dita da rua. Por outras palavras, é o contrário da democracia propriamente dita.

    Aceitaremos viver com isto, teremos a calma necessária para esperar que passe, ou começaremos a desejar algum messias? Desta última “solução” não faltam exemplos por essa Europa fora.

     

    18.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • AVALIAÇÕES

     

    Chegou o tão esperado dia do exame dos professores. Vão repetir-se as cenas habituais. Crato vai ser insultado, esmagado, desprezado, caricaturado pelos tipos do costume, como sempre apoiados pelos media. Sabemos como vão ser os telejornais, as manchetes, as entrevistas, os artigos de opinião.

    Talvez o Crato tenha razão. Talvez não tenha. O importante, para os protestantes, não é isso. Protestam hoje como protestavam ontem. São contra o Crato como eram contra a Maria de Lurdes, como eram e serão contra seja quem for. As chamadas avaliações, que os sindicatos, “em princípio”, aceitam, serão sempre más, ilegítimas, ditatoriais, etc., provocarão sempre as mesmas reacções. Tanto faz que sejam amarelas, azuis ou cor de burro quando foge. Os sindicatos não querem avaliação nenhuma, como não querem nada que mude seja o que for. Ou, por absurdo que pareça, querem. Tudo o que seja mexer com o que existe é um bom pretexto para vir para a rua aos gritos. É esse o objectivo. É esse o critério. Nada que tenha a ver com educação. Pura política, ó Crato, movimentação de massas, vanguardismo, rua!

    Ao Crato, apetece dizer: eh pá, não faças nada, tudo o que fizeres levantará sempre o mesmo coro, os mesmos maestros, as mesmas parangonas, as mesmas “indignações”. Mas, se nada fizeres, serás perseguido por não ter feito. Ou então, faz. Mas leva a coisa, boa ou má, até ao fim, porque se lhes deres a mão eles comem-te os dois pés. Eles não fazem parte do teu mundo, cheio da tua lógica, onde se fala a tua língua. A lógica deles é outra, a língua deles é outra. O diálogo é impossível quando se fala línguas diferentes. Não vale a pena, nem o esforço, nem a boa vontade, coisas que, na língua deles, querem dizer guerra, reclamação, oportunidade. Deixa-te de “diálogos”, de cedências, de compreensões. Mesmo que faças o que eles querem, dirão sempre que o não fizeste, ou que o fizeste mal. Baterás sempre na rocha que eles te porão à frente.

     

    Boa sorte.

     

    18.12.13

     

    António Borges de Carvalho  

  • UMA FARTURA!

     

    O IRRITADO não se lembra se já contou esta história, mas, como vem a propósito, aí vai.

    Um velho amigo irlandês a quem perguntou quantos partidos políticos havia lá na terra, respondeu: há muitos, todos à direita do centro!

    Não se sabe, mas é muitíssimo provável que seja por isso que a Irlanda pareça estar a sair da fossa. Por lá não há arménios nem jerónimos bolchevistas, nem silvas parlapatosos, nem esganiçadas martins, nem seguros ocos, nem tavares ou carvalhos da silva ambiciosos, nem nada que se pareça. Muito menos há soares e, se os houvesse, a imprensa borrifava-se neles.

    Os celtas percebem o que se passa. Actuam em conformidade. Vai um governo, vem outro, o que se foi percebe o que vem, o que vem percebe o que se foi, espera por eleições, não fala de pauladas nem diz cobras ou lagartos do presidente da República. Os funcionários levam na cabeça, mais do que por cá, e percebem. Os pensionistas também. O IRC é curto, mas a malta percebe, isto é, não desata aos gritos que andam a proteger o “grande capital”. As coisas vão-se consertando, e concertando. Greves são coisa rara. Sobretudo os bem pagos e seguros não fazem greves, não andam a morder nas canelas dos ministros, não ameaçam pauladas nem clamam por outras violências.

    Não se sabe se a arrogância de acabar com o programa de assistência e similares vai resultar. Sabe-se que foi possível e que a malta, na expectativa, não estremeceu.


    Na chamada Europa anda tudo à rasca porque a extrema direita cresce. Percebe-se, mesmo que não se goste. É o que o Hollande & Cª merecem.


    Por cá, poucos percebem seja o que for. Tudo minha gente se esganiça. Se há sinais de melhoria, poucos ou muitos, tudo se deve a acasos ou a terceiros, jamais a portugueses. A malta só quer saber do fado da desgraçadinha e da falta de taco para umas bejecas.

    Em vez de extrema direita, como na “Europa”, surgem cogumelos a clamar por mais esquerda. O Tavares meteu na cabeça que, para continuar a ter “público” e quem sabe, conservar o assento, o melhor é fazer um partido novo. O Carvalho da Silva anda na mesma, que lhe falta no currículo a cadeireta de Estrasburgo. O Soares agrupa hostes de velhos pataratas e novos oportunistas. Os media dão a esta malta toda uma cavalaria de opereta.

    Não é mau que não haja por aí surtos de extremistas da direita. Triste é que haja tanta massa, não direi cinzenta mas às riscas, ocupada a chafurdar em teorias que a História condenou e em “remédios” que só podem agravar a doença.

    Está tudo no bom caminho? Claro que não. Mas já esteve pior. É, neste momento, o que se sabe. A célebre “espiral” deixou de espiralar. O desemprego desceu pouco, mas desceu, e não foi por causa do Verão. Mas, mesmo que tudo estivesse muito melhor, a malta da paulada e quejandos continuaria a dizer que estava muito pior.

    E então? Então, calma Gé Gé.

    Uma coisa é de esperar: a fartura de “iniciativas” à esquerda vai ter o destino que merece: o ecoponto dos irrecicláveis.

     

    16.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • DIZ-ME COM QUEM ANDAS

     

    O IRRIADO já teve ocasião de avisar o dr. Rui Rio acerca da inquietação de muita gente com o caminho que está a trilhar, ou para o qual há quem o empurre sem que resista como seria de esperar.

    É que andar a reboque de Pachecos Pereira & Cª não é, de certeza, coisa que favoreça o seu futuro. Ainda menos frequentar a Fundação Mário Soares, ou o estaminé do capitão Lourenço!

    É que as pessoas começam a pensar que, afinal, a “reserva” da decência, do bom senso e do pensamento esclarecido não é reserva nenhuma: pendura-se na pior gente. E, meus amigos, “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”…


    Se você, Rio, quer aparecer, tudo bem. O IRRITADO, como muita, muita gente, deseja que vá aparecendo. Mas há um sem número de sítios, da organizações, de fundações, de universidades, onde pode dizer de sua justiça sem se misturar com indesejáveis, com os tipos da paulada, com os soares desta triste praça, com as ordinaríssimas peixeiras do socialismo.

    Com certeza terá, num futuro não longínquo, a sua oportunidade, que tem tudo para ser uma boa oportunidade para todos nós: desde que se não deixe enfeudar a gente que não tem nada a ver consigo e que só vem explorar o galarim que você, quero pensar inadvertidamente, lhes vai proporcionando.

    Quando se quiser ver livre deles pode já ser tarde, e a sua (nossa) oportunidade perder-se-á. Pare enquanto é tempo!

     

    12.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • EXÉQUIAS


    As homenagens a Mandela são justas, mas, de tão repetidas, já cheiram mal.

    O homem soube passar do confronto ao diálogo, da guerrilha à paz, da turbulência ao bom senso. O mundo deve-lhe esse exemplo. Mas ter a medida das coisas é difícil, não é?

    Punhamos os pés na terra.

    Primeiro, não esquecendo De Klerk, que, tendo a força e a inércia do seu lado, acreditou e soube arriscar, sendo tão herói quanto Mandela.

    Segundo, não esquecendo que os seus “herdeiros” antigo prisioneiro pouco ou nada têm a ver com ele, não se sabendo se a África do Sul é hoje, ou não, um barril de pólvora mais explosivo do que era durante o apartheid.

    Os sucessores de Mandela são mais parecidos com o Mugabe que com o “pai”. Alguém duvida?

     

    12.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • FRASES

     

    Em brilhante sessão, várias altas figuras do nacional-jornalismo e da nacional-politiquice encontraram-se para, dizem, discutir o “jornalismo”. Tudo em solene comemoração dos 40 anos do “Expresso”.

    A coisa veio prolixamente referida em várias páginas referido semanário. Coisa que não haverá muito quem tenha a pachorra de ler, IRRITADO incluído.


    Mas os leads são esclarecedores.


    Diz o invejoso Pacheco que “os jornalistas interiorizaram o discurso e a linguagem do poder, sem uma reflexão e distanciamentro críticos”. Notável. Qual poder? O actual não, com certeza. Conta-se pelos dedos tal “interiorização”. Se os jornalistas interiorizaram algum discurso foi o da oposição, como é mais que evidente.


    O “candidato avant la lettre” Rui Rio diz-nos que “o jornalismo é um dos responsáveis pela degradação do regime democrático”. Carradas de razão.


    O ex-chefe de ERC (coisa execrável!) Azeredo Lopes informa-nos: “em Portugal não há uma prática de sanção dos jornalistas”. Se acha que devia haver, porque não fez nada quando andava a ganhar o dele na tal ERC?


    O storyteller Tavares afirma que “O discurso de Pacheco Pereira é exactamente o contrário do que dizia há vinte anos”. Certo, mas não novo. Toda a gente sabe que a maior inspiração intelectual do Pacheco é a dor de cotovelo, o que o leva, e levará, a dizer o que for preciso para a aliviar.


    O inteligente Henrique Monteiro opina: “Abomino o jornalismo como quarto poder. O jornalismo deve ser um contrapoder”. É evidente que ninguém elegeu os jornalistas para que tenham poder. Mas, como os juízes, têm-no. O problema é como o usam. Deve ser por isso que Monteiro esclarece logo a seguir: devem ser um contrapoder. O que, a contrario sensu, quer dizer o mesmo. Para além da asneira conceptual, não se sabe onde ficamos.

     

    Ernfim, não é mau dar uma olhada ao que diz tão distinto escol.

     

    9.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • COITADO DO “ORPHEU”

     

    Hoje, o grande e amado líder da Aula Magna, camarada Soares, completa a provecta idade de 89 anos. Parabéns.

    Vale a pena, mais que não seja por isso, lembrar a sua última intervenção pública.


    Não se sabe – ou sabe-se de sobra – por que carga de água a Academia o convidou para falar numa sessão sobre o “Orpheu”. Ainda menos se percebe – ou percebe-se demais – por alma de quem o dito camarada aceitou um convite para falar sobre uma coisa sobre a qual, manifesta e provadamente, não sabe patavina.


    Como qualquer estudante que não sabe ou não está para estudar a matéria, o nosso geronte foi à Wikipedia e tirou de lá umas coisas. Baralhou e tornou a dar, de forma atabalhoada, ignara e escrita ao bom estilo de um palafreneiro analfabeto. À mistura, meteu umas considerações de pessoal gabarolice sobre os seus conhecimentos ligados ao tempo do Orpheu, umas dentadinhas ao governo, e uns desculpáveis lugares comuns.


    Enfim, terá feito o que quis e o que dele esperavam os hospedeiros. Pena é que o texto que leu fosse uma seara de dislates gramaticais, de frases de tal maneira mal escritas – ou mal copiadas – que só com esforço se poderão entender, ou não se entendem de todo.


    O IRRITADO, por respeito próprio, não entrará em pormenores. Os leitores que se interessarem pelo assunto facilmente poderão confirmar as opiniões acima, mediante a leitura do texto soarino – que está por aí na net – e da entrada “Orpheu”, na Wikipedia.

    Chegará para perceber que, pelo menos neste caso, o IRRITADO é de uma objectividade a toda a prova.

     

    7.12.13

     

    António Borges de Carvalho  

  • CABECINHA PENSADORA


    A Inenarrável, extraordinária, fantástica, importantíssima, viajadíssima e mundialmente conhecida e apreciada senhora dona Ana Gomes resolveu, mais uma vez, debruçar a sua gentil atenção sobre o tenebroso caso dos submarinos.

    Ainda bem. Benquista criatura, a quem tanto devemos, nós e o mundo. Desta vez, as dúvidas de tão genial membro da espécie humana são novas. Não se trata de perseguir obscuros interesses, ultra-corruptos generais, almirantes, sargentos, engenheiros, políticos e contínuos implicados em evidentes crimes e infames conspirações. Nem sequer, ao que parece, se trata da continuação da perseguição ao senhor Portas, por ela já nomeado responsável máximo, tanto das malfeitorias que se vierem a provar como de muitas outras que ocupam o esclarecido bestunto da irredutível e genial investigadora.

    Desta feita, a santinha vai mais longe: manda a Comissão Europeia investigar se, sendo os estaleiros privatizados, os seiscentos milhões de euros de contrapartidas previstos, diz ela, no contrato dos submarinos “poderão agora beneficiar uma empresa privada”.

    Até hoje, julgava-se que as contrapartidas eram para ser usadas em projectos industriais, comerciais ou turísticos de empresas que a tal se candidatassem e fossem, elas e os projectos, dignos de entrar no programa. Até podiam ser empresas estrangeiras, desde que o investimento fosse em Portugal. Para a personagem em apreço, no entanto, não é assim. Se houver os tais seiscentos milhões (ela lá saberá…) e se se destinarem à construção naval, só se tal coisa for pública. Por conseguinte – admiremos a inteligência da senhora – se a empresa for privatizada, que se lixem as encomendas, os seiscentos milhões, a empresa, os trabalhadores, etc..

    É de pensar que, nas doces meninges de tão ilustre cabeçorra, continua de betão a economia planificada que o camarada Mao preconizava. Ou seja, fiel à sua origen ideológica, a indivídua não passou dos anos setenta. O pior é que, se por dentro está na mesma, por fora envelhece a olhos vistos.

     

    6.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • TC x 2


    Num artigo cheio de pachorra investigatória, o dr. Durval Ferreira veio esclarecer coisas que toda a gente sabe, mas que convém sublinhar.

    Com o Decreto 32/III, de 1983, o governo Mário Soares/Mota Pinto lançou um imposto extraordinário de 6% sobre os rendimentos dos imóveis, dos capitais e do trabalho por conta própria e de 2,8% sobre as remunerações públicas, civis e militares, com efeitos retroactivos. Tudo minha gente pagava, ganhasse muito ou ganhasse pouco. Por outro lado, a desvalorização do escudo operada na época, reduziu o poder de compra das pessoas (ricas ou pobres) em mais de 35%.

    Não havia, como agora se alega agora – perante cortes e impostos menos graves e que salvaguardam os que menos têm – Estado de Direito, não havia ofensa de direitos adquiridos ou de expectativa dos trabalhadores, não havia – como há agora – respeito pelo princípioda “progressividade”.

    Havia, sim senhor. Quem o disse? O Tribunal Constitucional! Assim: “Não pode o TC ignorar o condicionalismo específico em que o imposto em causa é criado…” os princípios constitucionais valem num quadro de “normalidade financeira”, pelo que os impostos extraordinários são “ditados por manifesta excepcionalidade”. E mais: “trata-se de um imposto que visa atalhar uma situação excepcional de défice, ocorrendo numa conjuntura económico-financeira de crise”…

    E o corte de dos rendimentos superiores a 1500 euros perpetrado pelo governo do engenheiro relativo, coisa que o TC achou constitucionalíssima?

    Agora, os critérios do TC são outros. Mas a Constituição é a mesma! Então o que mudou? Se não foi a Constituição, foi o TC. Não há outra alternativa.

    Se calhar, há. É que o governo da altura era chefiado pelo PS, agora pelo PSD. Será esta a diferença? Outra não se vê. O TC é a mesma instituição, a Lei né a mesma, os juízes é que são outros. E parece que estes estão mais interessados nos aplausos dos bandalhos da aula magna que no que aos portugueses respeita. A Constitução é, para eles, um pretexto para fazer política.E o resto é conversa.

    O IRRITADO retirará o que acima diz se algum escrúpulo democrático entrar o espírito daquela gente, e as suas

     decisões contrariarem os desejos dos bandalhos.

     

    5.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • PÕE-TE A PAU, Ó RIO!

     

    Anda para aí um molho de políticos mais ou menos reformados a insinuar que vão empurrar o Rui Rio para o galarim. Personalidades do calibre do Capucho, do Pacheco, do Veiga e de outros especialistas em dores de cotovelo mandaram terceiros fazer uma conferência de imprensa declarando solenes intenções “nacionais”.

    O IRRITADO, que de há muito acha que o Rio é um tipo fantástico e até o veria como Primeiro Ministro com toda a alegria, lança daqui um grito de alarme. Meu caro Rio, não vás na conversa dessa gente. Essa gente pouco préstimo tem e a dor de corno é má conselheira, como está provado. Eu sei que, na actual “orgânica” do teu partido, não te basta fazer como o Cavaco, que apareceu na Figueira e, sem mais nem menos, tomou conta da coisa – os outros eram péssimos! -, agora o chefe é elito pelas bases, isto é, precisavas de um Relvas qualquer para te vender aos militantes, o que não é o teu estilo. Por isso, é de pensar que este grupo de “apoiantes” não queira outra coisa senão queimar-te o mais depressa possível.


    Calma, pá. Espera, não te metas em organizações destas. Vai para casa, vai trabalhar, vai fazer o que quiseres. Com estes, não. Deixa passar o Passos, ele até nem merece a oposição que tem lá por dentro do partido. A tua vez chegará, mas jamais com rampas de lançamento deste jaez.

     

    5.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • DIETAS

     

    Como já referido noutra crónica, o IRRITADO não sabe lá muito bem para que serve esta história do património da humanidade. Será que a ONU, quando se trata de edifícios, dá umas massas para a manutenção? Admita-se. Então, e quando a coisa cai no “imaterial”? Aqui há tempos, de braço dado com os pauliteiros do Botswana e com e os saltimbancos da Papuásia, ou coisas do estilo, foi o Fado elevado à categoria de património imaterial da humanidade. Será que vão dar um subsídio vitalício ao Carlos do Carmo, a ver se ele não chateia mais o pagode? Vão reeditar o Menano? Não parece. O que parece é que o que era exclusivo património dos portugueses passou a ser doutra gente.


    Adiante. Foi agora a vez da “dieta mediterrânica” – que passa a ser “imaterial”(!) -, coisa que fez embandeirar em arco a nacional bempensância e não só – possidónios! -, que nem sequer se lembraram que o Mediterrâneo é coisa que não banha este jardim. Mas o país atlântico que somos, em vez de potenciar a diferença, acha óptimo pedir boleia aos mediterrânicos.

    E o que é isso da dieta mediterrânica? Os alhos, as cebolas, o azeite, o tintol, os legumes (estão na moda os legumes), o peixe, ou a forma de usar estes materiais? Será que, agora, a ONU vai fornecer umas couves à malta? Não me parece.

    Por outro lado, o que tem a cozinha francesa a ver com a italiana? Nada. São vizinhos e mediterrânicos, e nada. O que tem a nossa cozinha a ver com a cozinha levantina, ou até com a espanhola? A cultura dos legumes é coisa recente entre nós: não há nada mais miserável que uma salada de alface à portuguesa, e as saladas fazem parte da cultura grega, essa sim, mediterrânica, aliás péssima em termos gastronómicos. E o que temos nós a ver com a dieta do Norte de África? Os franceses, conhecidos como tendo a melhor comidinha deste mundo, nunca souberam cozinhar um salmonete, nem fazem ideia do que seja uma sopa de cação. E não comemos peixes do Mediterrâneo! O que tem o nosso azeite a ver com o turco? O que tem a nossa doçaria a ver com qualquer outra, a espanhola incluída? Nada.

    E assim por diante, os exemplos são aos pontapés, não valerá a pena continuar.


    O problema é que, por este andar, com a enorme alegria dos bempensantes e dos ignaros, passaremos, universalmente, a ter a dieta dos libaneses ou a ser especialistas em cus-cus! Ganhamos alguma coisa com isso? Bem pelo contrário, passamos de cavalo a burro.


    O melhor é não dar mais atenção a isto. Vou mas é comer uns pèzinhos de coentrada e, ao jantar, uma chanfana à moda da Beira.

     

    5.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • QUE INVEJA!


    O tipo que manda na chamada “autonomia” valenciana, tendo em conta que a TV local já ia num buraco de 1,2 mil milhões de euros, cortou o mal pela raiz. Fechou o estaminé. Tudo para a rua com a indemnização da ordem.

    Porque será que, por cá, não há a coragem de fazer o mesmo à RTP, estirpando o cancro de uma assentada? É evidente que teríamos uma inumerável matilha a ladrar contra tal coisa. Que interessa a matilha? Pouco depois deixava de ladrar, gania por uns tempos e acabava por se calar.

     

    5.12.13

     

    António Borges de Carvalho

  • AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES


    Diálogo entre um ministro da educação e o bigodes:


    ME – Vamos avaliar os professores.

    B – Sim senhor, os professores têm que ser avaliados. O problema é que sempre foram.

    ME – Pois, mas as avaliações eram uma fantasia.

    B – Então diga lá.

    ME – Vamos avaliar através da performance dos alunos.

    B – Nem pensar! Vamos para a greve!

    ME – Então vamos usar o critério da assiduidade.

    B – Isso era o que você queria! Vamos manifestar-nos!

    ME – Então vamos por… amostragem.

    B –  Isso é descriminação. Grande manifestação nacional, já!

    ME – Bem, vamos lá a ver…

    B – Não há nada a ver. Este diálogo não serve para nada. Demissão do ministro, já!

    ME – Avaliaremos de outra maneira qualquer.

    B – Demissão do governo! Greve geral!

    ME – Você não quer é nenhuma avaliação!

    B – Pelo contrário, estou a avaliá-lo! Greve geral, já disse!

    ME – Então, e os contratados que querem voltar ao trabalho? Não se avalia?

    B –Nem pensar! Trata-se de gente altamente qualificada!

    ME – Ai sim? Como é que sabe?

    B – Eu cá sei tudo. Você é que não sabe. Experimente e vai ver a malta na rua, indignada e feroz!

    ME – Isso é pura política, não tem nada a ver com o ensino.

    B – Nem pensar. Os professores são quem mais se preocupa com a qualidade do ensino. E você quer dar cabo do ensino público, quer dar cabo dos alunos e não pagar aos professores.

    ME – Populismo do PC?

    B – PC, eu? É só às quartas e sábados! Você é mas é um fascista! Vou reunir com a Direcção e decretar mais umas manifestações, que é o que você anda a pedir!

    ME – Olhe, e se a valiação for só para professores com menos de cinco anos de prática?

    B – Quem come disso é a UGT, fascistas como você! Abaixo o ministro, abaixo o governo, abaixo tudo o que mexe, o povo vencerá, vocês vão ser arrastados na valeta, ha, ha.

    ME – Bem, então façamos uma tentativa de compromisso…

    B – Compromisso? Tá doido? Compromisso? Eu não faço compromissos, os meus compromissos, aqui of the record (como vê até ando a prender inglês), são com o Comité Central, ha, ha.

    ME – Então, não há nada a fazer, não é?

    B – Of the record, você, que raio, ainda não percebeu? Greves, manifestações, barulheira, a maralha às minhas ordens, seu palerma, seu nabo.

    ME – Mas você, lá fora, diz que quer dialogar, negociar…

    B – Então o que é que você queria? Que dissesse a verdade? Dizem que você é um matemático de alta competição, mas é muito mais ignorante que eu, que nunca tirei nenhum curso e só fui, há muitos, muitos anos, professor de trabalhos manuais num escola básica.

    ME – Mas eu pensava…

    B – Quero lá saber do que você pensava, seu nabo! Esse género de coisas é muito mau para o Relvas e para o Sócrates, a mim não afecta porque tenho o alto patrocínio do Comité Central!

    ME – Bem, então até qualquer dia.

    B – Está a mandar-me embora?

    ME – Se quiser dormir no sofá aqui do gabinete, sirva-se. Mas acho que já chateou o que tinha a chatear.

    B – Aí é que você se engana. Tenho ali à porta a RTP, a SIC, a TVI, O DN, o JN, o CM e os outros todos que não perdem uma palavrinha do que eu lhes digo e me dão a cavalaria que muito bem entendo. Olhe, greves no dia 20, 21, 22, só para falar na semana que vem. Oito manifestações em diversas capitais de distrito, 22 invasões da gabinetes, 84 sessões de apupos programadas, e ainda vai haver mais, muito mais.

    ME – Pronto, homem, vá lá à sua vida. Já percebi.

    B – Porra! Custou!

     

    1.12.13

     

    IRRITADO

  • VIANA DO CASTELO


    Há coisas que fazem uma confusão dos diabos. Nesta história maluca dos estaleitros de Viana do Castelo, coisa que vem ocupando as meninges de toda a gente, onde estará alguém que se debruce sobre esta tão simples questão: porquê?

    Porque estão os estaleiros falidos, porque não têm trabalho?

    Ainda não ouvi ninguém falar na bronca do navio dos Açores, a não ser para dizer qual foi o prejuízo e quanto custa a manutenção do elefante. Parece que os culpados da situação fizeram muito bem em não comprar o navio! É preciso lembrar que o sinistro senhor César, condotireri socialista da altura, mandou cancelar a encomenda com base no facto, talvez real, de a velocidade de ponta do navio ser inferior em dois nós em relação ao contratado. Nada de negociar, nada de exigir um desconto. Cancelamento, e pronto! Como por encanto, os Açores já tinham, tudo indica, contratado navios gregos, por importâncias astronómicas, para fazer os transportes que o “Atlantico”, apesar de diferença de dois nós, faria mais depressa. Legítimo será pensar que a tramóia estava montada. Porquê? Para quê? Não se sabe. Perguntem àquele tipo que anda para aí a descobrir corrupções por tudo quanto é sítio. Talvez ele saiba alguma coisa…

    Ainda não ouvi ninguém perorar sobre as “esperanças”, ou os negócios “firmes” celebrados pelo governo socialista com o falecido camarada Chávez. Então ele não comprava o navio? Então ele não encomendava asfalteiros aos molhos? Então não bastava um gesto do tirano para resolver tudo?

    Ainda não ouvi ninguém apontar espingardas aos cancelamentos das encomendas de lanchas de vigilância para a Marinha. Então já não são precisas? Não há dinheiro para elas? Ninguém sabe ao certo os porquês.

    Não será possível obrigar, ou condenar os Açores, coisa caríssima mas mais discreta que a Madeira, a receber o navio? Não será possível apontar os dedos aos culpados? Com o parlamento permanentemente afogado em inquéritos, porque não há um só partido, mesmo dos mais gritantes, que proponha um inquérito ao caso “Atlântico” e aos alugueres de navios aos gregos?

    Não será possível indagar o que havia de real nas promessas do Chávez, salvificamente anunciadas ao país com as parangonas próprias do engenheiro relativo? Era tudo mentira? Havia alguma coisa escrita que comprometesse o tarado a cumprir? Ou era tudo “bocas” propagandísticas?

     

    E agora? Agora, o governo, que não é vendedor de navios nem percebe nada disso e ainda bem, resolveu entregar aquilo a um grupo privado. OK, dando de barato a prova da solidez de tal grupo, que há quem ponha em causa. Os tipos parece que querem a coisa “limpa” de pessoal, contratando em seguida 400 dos 620 trabalhadores. Num empresa tão antiga, não parece difícil reformar 220 pessoas. Também não parece demasiado difícil que o contrato dos outros 400 seja, obrigatoriamente, celebrado em simultâneo com o “despedimento”.

    Parece que os tipos prometem contratar, a prazo, uns mil trabalhadores. Haverá que verificar as bases de tal promessa, bem como a garantia da ocupçãodos 400 que ficaram.


    Deixemo-nos de fantasias. Os estaleiros naufragaram vítimas de clientes abusadores, como o governo dos Açores, de “clientes” aldrabões, como o Chávez, de um governo aldrabão e de um Estado teso. O resto é conversa.


    Os senhores da Martifer são credíveis e têm clientela credível na manga, ou não têm? That’s the question.

     

    4.12.13

     

    António Borges de Carvalho


    ET. Afinal, havia uma comissão parlamentar a tratar do assunto, e o IRRITADO não sabia! Mas, ouvidas as distintas personalidades de tal comissão, concui-se que ninguém está interessado em saber os porquês. 5.12.13

  • UM NOJO


    O direito à greve implica o seu contrário. A decisão de fazer greve pode ser tomada por um colectivo, mas fazê-la ou não a fazer é um direiro individual, como individual é o direito de pertencer ou não ao tal colectivo. Se toda a gente tem direito à greve, toda a gente tem direito à não greve.

    O costume consagrou a existência dos chamados piquetes, grupos organizados de grevistas que, soit disant, se destinam a, pacífica e democraticamente, tentar convencer os não grevistas a passar para o seu lado.

    O problema está em que os grevistas se acham mais que os outros. Pensem, por exemplo, o que seria se os não grevistas fizessem piquetes para convencer os outros a mudar de opinião! Cairia o Carmo e a Trindade!

    O problema está em que os piquetes não têm nada a ver com conversas. Estão ali para impedir os outros de trabalhar, não para lhe comunicar as suas razões.


    O caso dos CTT é paradigmático. Os piquetes impediam os camiões de sair. A polícia, e muito bem, protegeu os direitos dos que queriam trabalhar. Os camiões sairam. Mas os que acham que o seu direito a fazer greve submerge os dos demais – que não têm o direito de agir ao contrário – queriam obrigá-los a proceder contra as suas decisões.

    Estamos pois perante um inqualificável e violento abuso de direito e uma não menos violenta opressão sobre os direitos dos outros.

    Ao mais “alto” nível, a CGTP, o PC e o BE apresentaram-se ao serviço. Os senhores deputados do PC e do BE, que dizem ter o direito de livre trânsito, misturaram-se com os piquetes para ser empurrados, como eles, pela polícia. O Carlos fez o mesmo. Quer dizer, em vez de explicarem aos seus camaradas grevistas que não tinham o direito de impedir os que queriam trabalhar de o fazer, fizeram os possíveis para exaltar mais os ânimos. Os três díscolos conquistaram horas de antena, como de costume.

    E, ainda por cima, foram hoje para a AR vituperar a polícia – tudo tendo feito para a indisciplinar – e aproveitar para zurzir no governo, por ter feito cumprir a lei e defendido os direitos dos cidadãos, postos em causa pelos piquetes e seus acompanhantes politicos.


    Um nojo.

     

     29.11.13

     

    António Borges de Cravalho

  • EANES, O MAGNÍFICO

     

    A homenagem ao General Eanes merece uma pequena reflexão.

    O IRRITADO, não tendo nada de espacial contra esta personalidade, na qual jamais votou ou votaria, fugiria à sua natureza se não deitasse um pouco de água fria na fervura eanófila que por aí anda.

    Não há dúvida que, no 25N, foi Eanes quem deu as ordens necessárias a pôr em marcha a derrota militar das mentalmente corruptas ou ignorantes gentes do MFA, que vinham funcionando como guarda pretoriana do PC. Mas também foi ele quem coonestou a “salvação” do PC e a sua integração sem condições no concerto dos partidos democráticos, coisa que o PC nunca foi. Tal integração foi um desmedido exagero. Não se trataria de ilegalizar a sinistra organização, mas de denunciar claramente o papel que tinha desempenhado, antes e depois do 25A, para evitar a todo o custo que se institucionalizasse uma democracia liberal, intenção aliás confessada por Álvaro Cunhal quando garantiu que jamais tal coisa aconteceria em Portugal, com certeza porque ele não o consentiria… Tratava-se de pôr o PC no seu lugar. Fez-se o contrário, com o apoio de Eanes.


    Na sua primeira candidatura, Eanes foi o candidato da direita, pelo menos no sentido de não ter sido apoiada por nenhuma das variegadas esquerdas que por aí vicejavam, sem contar com o PS, que se dividiu. Tratou tão bem os que o tinham eleito que, à segunda candidatura, o PM Soares, zangado, se lhe opôs. Dando sinais claros da sua estrutura ideológica(?), Eanes foi, desta feita, o candidato da esquerda! Opôs-se ferozmente à revisão constitucional de 1982, que desmilitarizou o regime.


    No fim do mandato, aborrecido com os partidos que a democracia tinha gerado, resolveu aproveitar a embalagem que trazia de Belém e os justos louros adquiridos no 25N para fabricar um novo partido. O IRRITADO lembra-se que, nessa época, escreveu uma local em que referia que o PR tinha usado um helicóptero da Força Aérea para ir a uma reunião com os demais fundadores do tal partido. O jornal foi processado mas, obviamente, absolvido. Um fait divers sem importância, mas com algum significado.

    Foi o tal partido que deitou ao chão primeiro governo de Cavaco Silva, abrindo a este as portas para duas maiorias absolutas! Como é lógico o partido eanista teve um fim triste, morreu sozinho, sem que ninguém o tivesse empurrado para o abismo do esquecimento. Não era bem um partido, era uma coisa um pouco à imagem do chefe: sem ideologia, apregoando ética, honestidade, etc.. É claro que se consumiu em questiúnculas internas, em malandrices pessoais, num ridículo sem nome… nem “ética” nem nada.

    Para além disto, o segundo mandato saldou-se por uma série de intervenções, mais ou menos bem intencionadas, mas que outro significado não tinham que o de contínuas “lições de moral” a estes e àqueles.


    Depois, bem acomodado no seu lugar de ex-presidente, bem reformado aos 50 anos, Eanes dedicou-se à vida privada, e fez muito bem. Assim fizessem Sampaio e Soares! Recusou o marechalato, recusou um dinheirão de retroactivos do Estado, levou uma vida sem mácula, pelo menos que se saiba. É hoje um pai feliz e um avô babado. Está no seu direito.


    Tudo isto para dizer que, se Eanes merece toda a consideração pessoal, como político, para além de um momentâneo e bem sucedido papel determinante, não é líquido que mereça as ternas homenagens de que é alvo.

    Que continue a ser feliz, é o que o IRRITADO lhe deseja. Mas que não ligue aos que o incensam, porque o que fazem é servir-se dele.

     

    28.11.13

     

    António Borges de Carvalho