Anda uma pessoa chateada, ansiosa, cheia de incertezas. À noite, vai às TV’s, ao Netflix (veem como IRRITADO é modernaço?), à procura de alguma coisa que o divirta e faça esquecer as incertezas. Encontra futebol mais pancadaria, mais pancadria mais futebol, e, é claro, o atentado à inteligência das novelas, concursos e outras porcarias. Aprofundando a procura, pensa que talvez seja possível encontrar alguma coisa bem disposta, no cabo ou fora dele, que faça, rir, que alivie. Baldada procura, baldada esperança.
Até que, hoje, à hora do jantar, assiti à coisa mais cómica que imaginar se possa. Cá em casa, o povo riu-se durante uma boa meia hora com a apalhaçada palinódia do Jerónimo. A coisa foi de tal maneira que até a rapariga da SIC se viu à rasca para não se desmanchar. Contámos as 3.498 vezes que o cómico disse “portanto”, em versão bolchevista, isto é, “ptant”.
Então, que tal vão as negociações?
As, ptant, negociações, ptant, o nosso povo é soberano, ptant, não é, ptant…
E porque não negoceiam a três?
Pois, ptant, o memorando, ptant, não devia, ptant, ser assinado…
Mas já chegaram a algum acordo?
Bem, ptant, as negociações, ptant, as negociações decorrem, ptant, se estão a decorrer, ptant, ainda não decorreram, ptant, não posso adiantar nada…
Aqui dizem que vão cumprir o tratado orçamental e, lá fora, querem acabar cpm ele.
Claro, ptant, como já disse e repito, ptant, o nosso povo, ptant, somos contra o tratado orçamental… ptant, pois, ptant, o programa do PS não presta, isto de querer, ptant, reduzir, ptant, o défice a mata cavalos, ptant, não é, ptant, o nosso partido sempre disse, e até houve, ptant, o manifesto dos 74, ptant…
E o BE?
O BE tem conversas aparte ptant com o PS ptant não é conosco ptant, nós sabemos o que queremos, o nosso povo ptant, é preciso pagar os salários ptant, e as pensões como eram ptant, acabar com a política de direita…
Então, e se o orçamento não puder entrar em vigor a 1 de Janeiro?
Bom ptant é claro, é uma questão dilemática… não sei bem ptant é preciso repor os salários e as pensões ptant o país é soberano, pois ptant tem que ter soberania, não ceder ptant a exigências estrangeiras.
Então, o acordo, o papel para apresentar ao PR?
Papel? ptant não é preciso papel nenhum, o PC ptant cumpre a sua palavra.
E o défice?
O défice? O que o país precisa ptant como do pão para a boca, é de investimento, saúde, educação, habitação ptant, independência, soberania ptant, não é de ajudar os bancos, ptant, as pressões, ptant…
Fiquemos por aqui. O melhor é ir ver a entrevista outra vez, agora com um saquinho de lenços de papel para, portanto, aparar as incontroláveis lágrimas que o riso, quando é muito, provoca.
Até que enfim, a televisão ofereceu-nos um espectáculo verdadeiramente cómico. Parabéns.
29.10.15
ET. Para nos fazer rir mais um bocadinho, a dona Maria do Dafundo, perdão, de Belém, veio imitar o impagável Marcelo, dizendo que isso de governos de gestão, problemas, etc., é favor não me darem bananas dessas para descascar lá em casa (leia-se, em Belém)…