IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


EU PECADOR

 

Eu pecador me confesso, em dolorosa contrição. É que não só sou um inveterado consumidor de peixe, como, ainda por cima, sou nacional dum país que é o que mais peixe come. Daí, a minha “pegada ecológica” ser um tenebroso pecado contra o bacalhau, a sardinha, o salmonete (um pecadão, o salmonete!), contra a Terra, o Mar, as espécies e mais tudo o que as estatísticas e a ONU entenderem por bem. O meu país, por seu lado, está comigo nesta desgraçada circunstância, um rogue state ao pé do qual o Boko Haram e o Estado Islâmico não passam de doces grupinhos de meninos da escola.

Pelo menos, é o que diz a “ciência”. O bacalhau e o salmonete têm a mais sagrada das prioridades sobre os meus tenebrosos hábitos e o meu pobre país. A “ciência” evolui, neste como em muitos outros casos. Verdade é que andámos décadas e ouvir a “ciência” proclamar que devíamos comer peixe. Agora, peixe nem pensar, por causa do planeta, das reservas de camarão e de outras novas verdades “científicas” e estatísticas.

A tão graves pecados junto outros, talvez ainda piores. É que, imagine-se, nada fiz, por exemplo, contra a gripe das aves, não matei os pombos dos jardins em nome da saúde universal, não declarei guerra aos chineses, que têm triliões de perigosíssimas galinhas, não entrei em pânico por causa das vacas loucas, os açorianos continuam a viver à custa das vacas que dão traques cheios de CO2, e eu – o meu país comigo – ainda não me manifestei sobre a ingente necessidade de afundar o arquipélago, ainda não vim para rua pedir umas bombas de hidrogénio para dar cabo daquilo tudo.

E os chouriços? A “ciência” não quer que eu coma tal coisa. A ONU, pretendente ao governo universal – e muito bem porque é a dona da “ciência certa e irrefutável” – bem me avisa contra os pecados da carne, mas eu, inimigo confesso do planeta e da humanidade, ainda me regalo com pregos no prato e bifanas à maneira.

E o quecimento global, que a “ciência estabelecida” já declarou irreversível, catastrófico, mortal, tudo por minha culpa? Eu continuo a andar em carros com mais de quinze anos sem respeito por nada nem por ninguém, continuo indiferente às consequências do meu comportamento. Que universal castigo mereço?

Enquanto a espécie humana, sob o indiscutível comando da ONU e de outros detentores da “ciência estabelecida”, vive no justificado terror que os chouriços, os salmonetes, as vacas, o CO2, os papagaios infundem, e treme do mais justificado terror, eu, pecador, continuo a pecar todos os dias, sem contrição nem arrependimento. Não pode ser!

Que castigo mereço? A morte? É pouco, porque, com a morte, seremos todos castigados. Até os puros, os ecologicamente castos, os funcionários da ONU, os vegetarianos, as gentes que não comem chouriços e viajam nuns carros cheios de ecológicas martingalas, os que dizem não ao bacalhau e tantos outros cidadãos “conscientes”, estão condenados a morrer.

Então, o quê? Que castigo? Talvez o de ter que aturar esta malta, planetária dona do terror, da ameaça, da limitação de liberdades, fabricante e arauta de medos. Sim! Aturar esta malta é o pior dos castigos.

 

31.10.15



3 respostas a “EU PECADOR”

  1. Plenamente de acordo, “…Que castigo? Talvez o de ter que aturar esta malta, planetária dona do terror, da ameaça,…é o pior dos castigos”. Felizmente, para os inveterados consumidores de coleho, parece ser por pouco mais tempo.

  2. Um meu familiar tornou-se “vegetariano moral”. Ainda come peixe, mas não sei se há um termo específico para isso. Só não come carne, e apenas devido ao sofrimento e morte dos animais – vacas, porcos, coelhos, patos, frangos, etc. Ou seja, nada a ver com a ONU. Para ele é uma escolha moral. Perguntei-lhe: então e pescar um peixe, asfixiá-lo (digamos), esquartejá-lo… já não é imoral? Deu-me uma elaborada resposta sobre diferenças neurológicas que tornam os peixes incapazes de sentir. Vê-se que ponderou bastante o assunto.Para mim, excluiu o peixe por razões sobretudo práticas: sem comer carne, precisa de proteína e variedade na dieta. Gosta de peixe, e não quis abdicar de tudo. Mas a lógica que encontrou mantém a sua resolução moral intacta.Há cada vez mais gente a partilhar desta ideia, a evitar carne e até a tornar-se “vegan”. Creio que é sintomático de uma sociedade de abundância, que procura ocupar o vazio moral deixado pela religião. A religião era a nossa bússola moral, mas também a maior fonte dos nossos medos: isto ou aquilo é pecado, se fizermos assim ou assado Deus castiga-nos, os árabes ou os lituanos são infiéis e portanto nossos inimigos. Hoje temos a ONU e outras entidades supranacionais, multinacionais, ou governamentais, que nos impingem medos “científicos” e políticos conforme a conveniência do momento. Os medo são depois amplificados pelos media, e multiplicados pela internet.Do medo à moda é um pequeno passo: temos de ser modernos, e as pessoas modernas são ecologicamente responsáveis, não fumam, não comem carne, vivem no smartphone, vêem a MTV, e por aí fora. Se eu não for assim, não sou moderno – e não sou aceite.

    1. Brilhante! Parece que, às vezes, até nos encontramos.

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