IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • NÓMADAS E SEDENTÁRIOS

     

    O ilustríssimo e extraordinário advogado José Miguel Júdice anda a ser vendido ao respeitável público como principal apoiante, quiçá referência, da candidatura governamental à Câmara de Lisboa corporizada pelo ambicioso Costa, a man for all seasons.

    Uma coisa diferencia os dois homens.

    O Costa é um sedentário. Feroz militante do Partido Socialista que temos. Ainda rapazinho, já circulava pelos corredores à procura de trabalho partidário. É um tipo que, goste-se ou não (eu não gosto, porque não gosto do PS), tem uma cara, uma fidelidade, um rumo, todos sabemos quem é, tem um sítio onde estar, e onde está.

    O Júdice é o contrário. Um nómada. Diz quem o conhece que militou em infernas regiões de direita nacionalista, da pura e dura. Já homenzinho, ter-se-á esquecido disso, e surgiu a mandar bitates no PSD. Parece que ganhou umas massas largas, lá pelas bandas do escritório do dr. António Maria Pereira. Honra lhe seja. Foi bastonário dos advogados. Honra lhe seja. Descobriu que era nobre, salvo erro da nobre estirpe dos Alarcões. Deu em hoteleiro.

    (Estive dois dias nas judicieiras instalações, e jurei para nunca mais. O quarto era uma soda, a água do miserável laguinho estava podre, cheia de bicharada, os tipos tratavam-me por senhor António, não havia uma alma caridosa que soubesse fazer uma sanduíche, ainda menos um chá.)

    A partir de certa altura, o ilustre cidadão começou a dar sinais de “independência”, isto é, caso a caso, mandava as suas bocas, sem se perceber lá muito bem de que lado estava. Deve achar-se uma referência, pensavam os críticos. Coitado. Há dias, comunicou urbi et orbe que tinha rasgado o cartão do PSD. Ninguém percebeu lá muito bem o que aquilo queria dizer. Mas tratava-se de sábia atitude, cheia de visão de futuro. Um amigo meu, conhecedor profundo da natureza humana, disse-me “vais ver, não tarda nada temos aí outro Freitas”. E não é que tinha razão? O homem mostra as suas qualidades de transumante. Já chegou ao PS. Como o Costa é tido por esquerdista dentro do partido, havia que lhe criar alguma credibilidade à direita. Nada melhor que ter o prestigioso causídico ali à mão, cheio de vontadinhas.

    É notável como os sedentários se juntam aos nómadas quando a coisa pode dar.

    Ainda havemos de ver o dr. Júdice a aceitar, judiciosamente, um lugarzinho de ministro ou, quem sabe?, uma candidaturazinha à presidência, mais ano menos ano. Com o apoio do PS, pois então!

    Isto de coerência em política, é, para muita gente, uma batata. Não tem ponta por onde se lhe pegue.

     

    António Borges de Carvalho
  • AI, MENDES, MENDES

    Em 5 de Maio, um jornal noticiou que não haveria qualquer imposto especial sobre a valorização dos terrenos que integram a área de influência do futuro (t’arrenego!) aeroporto da Ota.

    Convenci-me de que a coisa iria dar uma enorme bronca, de que haveria uma legião de comentadores, de jornalistas, de economistas, de boas almas, etc., que iriam assestar as suas artilharias sobre o governo.

    Esperei 10 dias. Hoje, sou levado a concluir que, ou sou mais estúpido do que julgava, ou há aqui qualquer coisa que não funciona.

    Nos tempos do governo Cavaco, Joaquim Ferreira do Amaral travou, como é bem sabido, uma luta titânica, quase heróica, pela ponte Vasco da Gama. E, se a coisa acabou por passar, foi, entre outras razões, porque foi lançada uma espécie de imposto de mais valias, destinada a “evitar a especulação”, a moderar a “pressão do betão”, e a outras alarvidades tão do agrado dos empatas.

    Agora fia mais fino. Os empatas de ontem são os p’ra-frentex/simplex/otex de hoje, não se lhes aplicando as exigências que a terceiros fizeram. É, para eles, evidente que, estando o PS no governo, não haverá especulação, nem betão, nem nenhum inconveniente do tipo advirá do processo, pelo menos nenhum inconveniente que possa justificar o tal imposto especial.

    O que se aplica aos outros não se aplica a nós, se não nos convier. É esta, com provas dadas através da história, a filosofia do PS.

    Não é, por conseguinte, de estranhar a omissão, vinda de quem vem. Também não é de estranhar a (não) atitude de comentadores, jornalistas, economistas, boas almas, etc. O que está a dar está a dar, e isto de levantar o rabinho do selim tem os seus inconvenientes.

    De estranhar, sim, é a (não) atitude do PSD nesta, como noutras matérias. Entretido a dar tiros no pé, viciado na antropofagia, o dr. Mendes nem dá pelo que se passa à sua volta. Deve andar por aí entretido à procura de mais algum autarca do partido a quem dar um pontapé no rabo, ou de algum santo mártir que ponha a cabeça no cepo das eleições em Lisboa, cuja Câmara o dr. Mendes tudo fez para, generosamente, oferecer ao PS.

     

    António Borges de Carvalho
  • TERCEIRO-MUNDISMO

     

    Silva, presumido e presunçoso comentador socialista, brinda-nos esta semana com estes mimos:

    – “É um score (o da vitória de A.J. Jardim) que só se vê, quando se vê, nas autocracias do terceiro mundo”.

    – Os partidos da oposição, na Madeira, deviam tomar “a única atitude consentânea com a anormalidade política regional: recusarem-se(sic), pura e simplesmente, a participar em actos eleitorais…”.

     

    Canas, conhecido demagogo ao serviço do PS, acha que “as aberrações eleitorais da Madeira não possuem dimensão nacional”.

     

    Portanto, na opinião dos dois ilustres camaradas, se o dr. Jardim esmagou o PS, isso deve-se a “aberrações eleitorais” e à existência de uma autocracia terceiro mundista, estilo Mugabe, no arquipélago.

    Nem um nem outro dos diáfanos propagandistas do socialismo nacional reconhece que o sistema eleitoral da Madeira é o mesmo que o do Continente, que é fiscalizado pelas mesmas entidades, que usa os mesmos métodos técnicos, que os órgãos de comunicação social do Estado, e não só, têm que cumprir as mesmas regras, que os partidos e coligações se candidatam pela mesma forma e obedecendo aos mesmos critérios, que não houve chapeladas nas eleições, que a contagem dos votos foi séria, etc. Não. Se o socialismo dito democrático perde as eleições, suprema injustiça!, isso não se deve à vontade dos eleitores, muito menos à repugnantíssima traição do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) que os abandonou à sua sorte para se livrar de chatices, mas ao condicionamento da sua vontade por meios “deficitários” em termos democráticos. Não tarda que descubram, na Madeira, campos de concentração, câmaras de gás, quartos de tortura com a sua parafernália de espetos e garrotes, locais onde são tratados os opositores socialistas à “autocracia terceiro-mundista” que domina o arquipélago e o mantem, com recurso à mais horrenda opressão, sob a batuta de um terrível ditador. A coisa é tão horrível que não resta aos adeptos do socialismo nacional outra solução que não seja a de se retirar dignamente da vida política. Que escrúpulo democrático! Que magnífica demonstração de fair play!

     

    Esta gente está doida de raiva e de frustração. Perdeu a cabeça. Incapaz de fazer passar uma alternativa qualquer à governação de Jardim, irritada com a displicência chocarreira com que o homem a trata, nervosa com os resultados perversos do garrote financeiro com que brindou a região, esta gente não têm outro recurso que não seja o de recorrer ao insulto para justificar os seus desaires.

     

    Não sou, pessoalmente, um defensor do estilo de Alberto João Jardim. Não vou contra quando ouço dizer que o espantoso progresso que conseguiu se deve em boa medida a privilégios fiscais, financeiros e outros, de que a restante malta não goza. Mas tenho que reconhecer, porque só não vê quem quiser ser cego, a extraordinária obra que se tem realizado na “pérola do Atlântico”.

    Por isso que me seja fácil, e a quem quer que olhe as coisas como elas são, compreender o estrondoso resultado do braço de ferro entre o dr. Jardim e a política socrélfia.

     

    Terceiro-mundista e própria de autocratas é a reacção do socialismo nacional à monumental sapatada que lhe foi dada pelos portugueses da Madeira.

     

    António Borges de Carvalho
  • AINDA O TÚNEL

     

    Anteontem, na telefonia do carro (raramente a acendo), dei com uma voz que vituperava, em termos vigorosos e definitivos, o túnel do Marquês. A fraseologia, a “certeza” técnica, a “autoridade” doutrinária, levaram-me a pensar que se trataria de algum membro do comité central do PC, assaltado por uma crise de ciúmes e de frustração por ver a obra realizada. Como já não há mais argumentos, o homem insistia na “impossibilidade” de abrir o corredor da António Augusto Aguiar, para além das consabidas diatribes sobre o “atrazo”, evidentemente devido à incompetência da dupla Santana Lopes/Carmona Rodrigues, que não aos crimes de outro partido comunista, pela mão do inacreditável Fernandes.

    Qual não é o meu espanto ao perceber, ao longo do programa, que se tratava de um ilustre (dizem) cirurgião, que afirma já ter operado umas cinco ou seis mil pessoas e que usa surgir em todos os jornais, rádios e televisões, a dar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Julgo que o homem, conhecido “lagarto”, não tem nada a ver com os partidos comunistas.

    O assunto em si tem a importância que tem, ou seja, nenhuma. Mas vale a pena pensar um bocadinho. Toda a gente percebe que o túnel é um formidável acréscimo de valor para a cidade. Não há um único utilizador que o não reconheça. Não há quem não deseje que o problema da saída para a A.A.Aguiar se resolva o mais depressa possível. Só uma abordagem possidónia, ignorante e provinciana do problema pode levar a afirmar que não há solução. O cirurgião deve saber que, em cidades civilizadas, há túneis que se cruzam, sobrepoem e ladeiam aos sete, aos oito, aos dez, por vezes a centímetros uns dos outros. Então porque se insiste na maledicência? Porque é que um cidadão cosmopolita e famoso se encarniça contra a coisa?

    Eu explico. É que, na nossa sociedade primitiva e saloia, para se ter lugar nas rádios, nas televisões e nos jornais, é preciso defender “o que está a dar”. O que (ainda) está a dar nestas matérias é demolir Santana Lopes e Carmona Rodrigues. O cirurgião, para se aguentar na crista da onda, mais não tem que, cortiçamente, a cavalgar. Voilá.

    Pois se até o inestimável Mendes tomou a dianteira demolindo-se a si e aos seus, porque razão não há-de um cirurgião lagarto e mediático apanhar o combóio?

    O homem, afinal, tem carradas de razão.

     

    António Borges de Carvalho
  • ESTUPIDEZ OU LOUCURA?

    Não foi o PS, ou os partidos comunistas, quem mais contribuiu para apear o governo de Santana Lopes. Foi do interior do PSD que os seus grandes adversários surgiram. Cavaco, marechal de campo, Marcelo, general de brigada, comandaram informalmente uma coorte de soldados e de escribas em que se distinguiram algumas figuras gradas do partido, bem como outras, mais pequenas, onde avultava a seriedade provinciana e bacoca do Dr. Marques Mendes.

    Posta a semente no fértil terreno de Belém, o golpe de Estado surgiu como coisa quase natural e corriqueira aos olhos das pessoas. Pois se aqueles de quem seria lógico esperar apoio ao governo o aviltavam todos os dias, que havia de pensar o pobre do cidadão, menos avisado nestas matérias?

    Em termos de funcionamento do regime, é inimaginável, incompreensível e injustificável que, por dentro do seu principal partido, se faça cair um governo, e se prepare o terreno para uma esmagadora vitória do seu principal rival.

     

    A bela obra de Cavaco, Marcelo y sus muchachos,não serviu, porém, de lição. Bem pelo contrário. O Dr. Marques Mendes, pletórico de “coerência”, dá um pontapé no rabo do homem que lhe ofereceu de bandeja a maior Câmara do país. Não contente com o que já conseguira em relação ao governo, ainda que como actor de segunda, vem agora repeti-lo em matéria autárquica da maior importância.

    O Dr. Marques Mendes não percebe, ou finge que não percebe, ou não quer perceber, que o único julgamento que lhe é legítimo fazer é de carácter político, isto é, está-lhe vedado julgar, sequer suspeitar, acerca da vida ou dos feitos de cada um por outros critérios que não os políticos. Uma coisa é aceitar ou não aceitar que um determinado cidadão integre, como candidato, as listas do seu partido. Outra, completamente diferente, é emitir juízos sem fundamento sobre os eleitos a meio do mandato, e, barbaramente, permitir-se apeá-los a seu bel-prazer, servindo-se de tão fracos pretextos como os de que se serviu. Num caso, teremos um julgamento político sobre as vantagens ou inconvenientes políticos de uma determinada candidatura, no outro um julgamento “judicial” antecipado sobre os actos de um político. E nem os exemplos emblemáticos do PS, do BE ou do PC, que vão protegendo os seus como podem, e mesmo quando não devem, lhe servem de lição.

     

    O últimos sucessos atingem, já não as raias do absurdo, mas, à escolha, as da loucura ou da estupidez. O Dr. Marques Mendes, por razões que estão à vista de toda a gente, acha que o primeiro ministro Pinto de Sousa (Sócrates) não tem carácter. O Dr. Marques Mendes tem razão. Tal falta de carácter está demonstrada, é pública e notória.

    Mas, neste caso, o Dr. Marques Mendes tem outro peso e outra medida. Acha que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), mesmo sem carácter, deve continuar à frente do governo. O Dr. Marques Mendes, que se encarniça a perseguir os seus e a correr com eles do poder, acha que os adversários, façam o que fizerem, devem continuar no poleiro.

    Mais. O Dr. Marques Mendes fornece ao adversário a lenha de que necessita para queimar o PSD e oferece-lhe, de mão beijada, uma cortina de fumo para tirar o primeiro ministro da linha de fogo e apagar das páginas dos jornais as suas malfeitorias académicas, e não só.

    O PS, com carradas de razão, canta de galo com tudo isto.

    Não sei se haverá, no mundo, alguma Democracia parlamentar onde estas coisas sucedam, onde um líder político se sirva de critérios opostos, não para fustigar o adversário e proteger os seus, mas para proteger o inimigo e punir o seu próprio partido, os seus apoiantes, os seus eleitores, os portugueses em geral e, o que é mais grave, a própria essência do regime que seria suposto defender.

     

    António Borges de Carvalho

  • FALTA DE JUÍZO

     

    As andanças ético-políticas do Dr. Marques Mendes merecem um segundinho de reflexão. Nos últimos dias, as minhocas parecem ser mais do que as cavadelas. É uma pena.

    O Dr. Marques Mendes acha que o Prof. Carmona se deve demitir. Então, e o senhor Pinto de Sousa (Sócrates)? Deve ficar?

    O Prof. Carmona, no seguimento de infrene, impiedosa e malevolente perseguição levada a cabo pelos adversários políticos do Dr. Marques Mendes, anda a ser interrogado. O Dr. Marques Mendes adopta a posição dos seus inimigos políticos. Defende-a contra os seus próprios apoiantes. O Dr. Marques Mendes não faz a mais leve sombra de ideia se o Prof. Carmona cometeu fosse que crime fosse. Mas acha que o homem deve ir-se embora.

    O senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é, comprovada, pública e notoriamente, um aldrabão. O Dr. Marques Mendes acha que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é um aldrabão. Até o acusa, com carradas de razão, de “falta de carácter”. E o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), para além do que é evidente, está a ser investigado, como o Prof. Carmona.

    Então porque é que o Dr. Marques Mendes exige a queda do Prof. Carmona, e não a do senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?

    Como é possível que um homem que se diz líder da oposição, ou do maior partido da oposição, acuse o seu rival de falta de carácter achando muito bem que fique no poder, e, sem fazer, nem ter para fazer, acusação alguma, defende a queda do Prof. Carmona?

    Que raio de oposição é esta, que raio de líder é este?

    Para os lisboetas, tão mau como isto, se não pior, é a ameaça, implícita nos mendais silêncios, de vir a candidatar a dona não sei quantas da Cruz à presidência da Câmara.

     

    Que mais está para nos acontecer?

     

    Mais. Desgraçadamente, há mais. O Dr. Marques Mendes acusa o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) de governar mais à direita do que o PSD o faria. Estamos nos umbrais da loucura, ou da estupidez? O Dr. Marques Mendes, com as suas acusações, faz inveja aos partidos comunistas.

    Então privilegiar os interesses do estado contra os dos cidadãos, nas finanças, na economia, na saúde, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?

    Então concentrar as polícias, a investigação criminal, a vigilância das fronteiras, etc., na alçada de um só homem, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?

    Então impor às pessoas um aeroporto que é, evidentemente, uma monumental asneira técnica, financeira, económica e ambiental, para gáudio e afirmação do Chefe, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?

    Então levar o país a não ter tratamento de resíduos perigosos, quando uma solução consensual já foi encontrada há anos, só para gáudio e afirmação do Chefe, é uma atitude de direita democrática, ou de esquerda totalitária, ou proto-totalitária?

    Então tomar conta da informação, acusar os que não alinham de "imprensa de sargeta", é uma atitude de direita democrática, ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?

     

    Para quem, ou para quê, trabalha o Dr. Marques Mendes?

    O mais que se pode dizer, ou desejar, é que Nosso Senhor lhe dê juízo!

     

    António Borges de Carvalho
  • DO CRIME TABAGISTA

     

    Andam por aí uns fulanos a protestar contra o facto de as multas a aplicar aos novos criminosos da proto-ditadura socrapífia (os fumadores) serem o dobro das aplicadas aos consumidores de bem mais inocentes produtos, morfina, heroína, cocaína, extasy e similares.

    O Estado, que já cobrava, e muito bem, aos abomináveis indivíduos, a módica quantia de mil e quatrocentos milhões de Euros (números do fisco relativos a 2006), propõe-se persegui-los umas multinhas, rendosas e bonitinhas, no generoso afã de proteger a higiene de terceiros contra os inqualificáveis abusos dos criminosos. 

    Dona Fernanda Câncio, plumitiva do regime, acha muito bem. Então não havia de achar? Os criminosos empestam, com o seu vício, o ar respirado pelas pessoas de bem, assim agravando o repugnante crime que praticam ao fumar. Os utilizadores dos outros produtos, no parecer da distinta intelectual, não fazem mal a ninguém, a não ser a si próprios. Por isso, segundo a moral socrapífia apregoada pela dona Fernanda, não se pode confundir o vício de uns, coitadinhos, com o crime dos canalhas. Lapidar. Evidente. Genial.

    Há um pequeno detalhe, de que a nobre senhora se esquece. Nada mais nada menos que o facto, indesmentível, de mais de metade da criminalidade violenta em Portugal ser consequência directa das substâncias cujo consumo, no douto parecer da dona Fernanda, deve ser objecto de multas mais leves que as dos fumadores.

    Demos, apesar de tudo, o benefício da dúvida e a mão à palmatória. Talvez a socrífica propagandista tenha alguma razão: de facto, matar uma velhinha para a roubar, assaltar a casa de cada um, dar umas facadinhas a uns fulanos, violar uns miúdos, sacar as carteirinhas das senhoras no meio da rua, espancar uns funcionários numas bombas de gasolina, não passa de pecadilhos comparados com os tabacais eflúvios que, partindo dos narizes dos fumadores, podem, se não forem exemplarmente reprimidos, penetrar nos delicados pulmõesinhos da dona Fernanda, podendo levar ao indesejável extremo de nos privar das suas preclaras opiniões.

     

    António Borges de Carvalho
  • DA DIGNIDADE DO 5 DE OUTUBRO

     

    Com o mais profundo respeito e a maior das humildades, permito-me citar Sua Honorificência o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Excelentíssimo e Mui Ilustre Senhor Doutor António Reis.

    Sua Magnânima Munificência, cercada de triângulos, compassos e olhos vasados, com o ventre pudicamente envolto em marchetado avental, entre as brumas das nobres naves do Templo, afirma que “faz todo o sentido aproveitar as celebrações da República para se reforçarem* legalmente os direitos conjugais dos homossexuais”.

    Pois faz. Já o tínhamos dito, testemunhando para a posteridade a alta dignidade moral e estética das esclarecedoras palavras e intenções de tão nobre personalidade. Nada melhor para comemorar o 5 de Outubro do que fazê-lo ficar ligado a tão nobres objectivos, fazendo deles, aliás, o ponto alto de tais comemorações.

     

    António Borges de Carvalho

     

     

    * Sujeito indeterminado, terceira pessoa do singular. Reforçar e não reforçarem. O predicado concorda com o sujeito, não com o complemento directo, por muito que a TLEBS diga o contrário.
  • DA SEGURANÇA DOS POVOS

     

    À atenção do Presidente Capucho

     

    Domingo. Está fresco. Brilha o Sol. A malta passeia no paredão de Cascais.

     

    Criancinhas e velhinhas, matronas e calmeironas, pedreiros e cavalheiros, dengosas e malcheirosas, frescotas e biquinotas, matulões e engatatões, enfezados e dotados, tudo goza minha gente.

    Há sardinhas e há lulas, virgenzinhas e gandulas. Vêm skates e enfeites, bicicletas, trotinetas.

    Há estrangeiras a torrar e meninos a brincar.

    Há monhés a vender gatos, gente a correr com sapatos, velhotes a comer bróculos, mais pretos a vender óculos.

     

    E, no meio disto tudo, há um tipo façanhudo, com uma guita na mão, e noutra ponta um cão. O cão é branco e tem dentes, sem açaimo, sorridentes. A malta toda se afasta, um pitbull, estou à rasca! Abrem-se alas, meu Deus, o tipo passa, importante. A malta olha em redor, mas que perigo tão chocante!

    A polícia, o caraças, não está, nem vem, que é Domingo!

    E quando vem, à semana, que nóia, não liga bóia! Ou passa, de automóvel, ou pedala, sorridente. O Pitbull, coitadinho, se morder, não é culpado. A polícia, meus senhores, gosta de passar ao lado.

    Lá vai uma criancinha, com a mãe ao dependuro, tratar-se na Previdência. O cão não tem consciência! Nas palavras do fulano, se mordeu, foi por engano.

     

    Veja lá, dr. Capucho, que a coisa pode surgir. A Câmara, se ainda existe, bem podia intervir.

     

    Ou pagamos aos polícias p’ra passear de automóvel, e ao dia de semana?

     

    ABC
  • COMEMORAR A VERGONHA

    Uma “comissão”, nomeada não faço ideia por quem e presidida pelo ex-bolchevista Vital Moreira, vai dedicar-se à nobre tarefa de preparar as comemorações do centenário da República. A coisa, qual Expo-98, começa a ser programada com mais de três anos de antecedência. As comemorações, emblematicamente encimadas pela nobre iniciativa de legalizar os “casamentos” dos pederastas e das fufas, vão ser de arromba.

     

    Gostava de perguntar à plêiade de nobres intelectuais en charge o que é que querem comemorar:

     

    – O miserável assassínio do Chefe de Estado e do seu Sucessor?

    – O fim de um regime constitucional democrático e parlamentar com 76 anos de idade?

    – A repetição e o agravamento dos erros, designadamente eleitorais, desse regime?

    – A redução do número de eleitores com direito de voto?

    – O caciquismo político na sua mais “elevada”  expressão?

    – A mais repugnante e bárbara repressão de todas as manifestações populares?

    – A repressão e o aniquilamento do movimento sindical?

    – O maior número de presos políticos da nossa história?

    – A proibição do nascente Partido Socialista?

    – A entrega do poder às alfurjas de Lisboa?

    – O terrorismo institucionalizado?

    – A substituição a Bandeira Nacional pelo estandarte de um partido?

    – A substituição de um hino que honrava a Liberdade por uma marchinha pseudo-patriótica, a incitar a pessoas à guerra?

    – Os assassinatos em série?

    – Os esquadrões da morte?

    – A inútil, injustificada e devastadora participação na I Guerra Mundial?

    – Catorze anos de sangrenta bagunça?

    – Mais dois de ditadura militar?

    – Mais quarenta e seis de ditadura civil?

    – Sessenta e quatro anos de política colonial imobilista e estúpida?

     

    Não faço mais perguntas para não maçar as pessoas. A série é inesgotável.

     

    No fundo, a coisa compreende-se. Para dar alguma dignidade ao cinco de Outubro, nada melhor que o casamento dos pederastas e das fufas.

     

    António Borges de Carvalho

  • UMA MARAVILHA E UMA MERDA

    Conforme prometido, lá fui passar no túnel do marquês.

     

    1. Conclusões:

     

    a)    É o único túnel de Lisboa que pode ombrear com o que há de melhor na Europa inteira;

    b)      É a melhor obra pública que Lisboa viu nos últimos quarenta anos;

    c)      É uma maravilha ir do Marquês à A5 pelo túnel;

    d)      É uma maravilha vir das Amoreiras à Fontes Pereira de Melo pelo túnel;

    e)      É uma maravilha circular na Artilharia Um e na Castilho, libertas do trânsito de superfície que o túnel absorve;

    f)        A pendente do túnel é magnífica, não mete medo a ninguém, nem faz pensar em perigo nenhum, quer a subir quer a descer;

    g)      É o túnel mais bem iluminado e menos claustrofóbico que conheço, conhecendo umas boas dezenas deles, na Europa e na América;

    h)     A pendente da Av. da República, por exemplo, é um horror, se comparada com a do Marquês;

    i)       Ao pé do túnel do Marquês, o da Av. Da República e o da João XXI, por exemplo, são nojentos pardieiros;

    j)       O soarismo-comunismo brindou-nos com túneis muito piores, sem que uma palavra fosse dita a tal respeito;

    k)     O soarismo-comunismo, sem que ninguém de tal o acuse, brindou-nos com um berbicacho insolúvel, arrogante alarde de incompetência e laxismo técnico, que se chama túnel do Terreiro do Paço, o qual está há mais de dez anos sem solução, a ninguém sendo dado saber quando abrirá ou se algum dia abrirá.

     

    2. E, no entanto:

     

    a)      O senhor Fernandes continua a dizer mal do túnel;

    b)      O senhor Fernandes (palavras suas) confessa que fez parar a obra durante sete meses, sem que assuma qualquer responsabilidade pelos prejuízos, antes se vangloriando do seu feito;

    c)    O cronista storyteller Tavares continua a dizer que o senhor Fernandes é um grande homem;

    d)      O PS continua a dizer mal do túnel;

    e)     Os partidos comunistas continuam a dizer mal do túnel;

    f)       Os bombeiros do partido bombeirista rival do BSB, continuam a dizer mal do túnel;

    g)     A “comunicação social” dá as maiores honras colunísticas ao partido bombeirista rival do BSB, muito mais do que as que dá ao túnel propriamente dito;

    h)     O Presidente da República e o Primeiro Ministro ignoram o túnel, como ignoraram as obras do Campo Pequeno, como ignoraram e ignoram tudo o que possa cheirar a Santana Lopes;

    i)       Santana Lopes, se voltasse, faria mais e melhor, mas a malta fina não quer que lhe façam sombra.

     

    3. Este país é uma merda.

     

    António Borges de Carvalho

    e.t. – Uma notinha sobre a aristocracia socialista. Nos túneis do soarismo-comunismo há uma placa a dizer que foram inaugurados por Sua Excelência o Presidente da Câmara…. Nas obras do santanismo, a placa diz que foram inauguradas pelo Senhor Presidente da Câmara…

    Gente fina é outra coisa…
  • NOTAS DO 25

    OS CÃES LADRAM…

     

    O túnel do Marquês, obra emblemática de Santana Lopes, é hoje inaugurado.

    A excelência, a urgência, a utilidade e a necessidade da iniciativa foram consagradas nas urnas pelo povo de Lisboa, em 2001. Trata-se de uma facility de há muito desejada por todos ao que se vêm em palpos de aranha para circular entre as Amoreiras e o Marquês, e não só.

    Desde a primeira hora, a oposição social-comunista dedicou-se a contestar o que era, evidentemente, incontestável.

    Ao tempo membro da Assembleia Municipal de Lisboa, lembro-me do espanto com que a minha inexperiência como autarca assistiu às mais inacreditáveis contestações. Valia tudo: a exigência do estudo de impacte ambiental, que não era obrigatório, a “zona húmida” do Marquês, que nunca existiu, a proximidade do túnel do metro, patacoada de ignorantes, a pendente, a altura, a largura, o comprimento, blá, blá, blá.

    Desfeitas as dúvidas, por estúpidas ou improcedentes, o PS descobriu a ingente necessidade de alterar o projecto, encurtando o túnel.

    O PC ficou na mesma. Era contra, e pronto.

    Um tal Fernandes chefiou uma “acção popular”, que obrigou à paragem das obras durante sete meses. A acção foi julgada improcedente nas mais altas instâncias, e transitou em julgado. Os prejuízos que a infame iniciativa provocou foram assentes no tecto pelo tal Fernandes. Jamais os pagará. Nem sequer pediu, ou pedirá, desculpa aos lisboetas pelo mal que fez à cidade e pelos prejuízos a todos causados. Eleito vereador nas listas de um partido comunista qualquer, continua a alardear moralidades, mantendo-se caloteiro com orgulho e desfaçatez.

    O que estava em causa, em boa verdade, não era que o túnel fosse necessário ou deixasse de o ser. Necessário era corroer a credibilidade de Santana Lopes, que tinha tido a desfaçatez de correr com o social-comunismo da Câmara da cidade. Intolerável. E, porque era intolerável, todas as armas eram boas para o abater. A vida na Assembleia Municipal era um inferno de malevolência, de maledicência gratuita, de invenção de entraves, de rasteiras burocráticas, de “perdido por ter cão perdido por não ter”. Para além de tudo o que o cidadão possa imaginar possível.

    Em boa hora me libertei daquela hedionda coisa.

     

    Hoje, abre o túnel. O diário do Oliveira titula que é à mesma hora da habitual manifestação do 25. Uma inominável provocação. Mais. O diário do Oliveira serve-se de pareceres e de opiniões várias para inculcar no espírito de cada um que o túnel não presta, não é seguro, etc., blá, blá, blá.

     

    Amanhã, vou estrear o túnel. Que bom! Santana Lopes, obrigado!

     


    COERÊNCIAS

     

    O Dr. Marques Mendes não está de acordo que as declarações de interesses dos deputados fiquem à disposição do respeitável público, via Internet.

    Acho muito bem. Não tenho nada a ver com os interesses seja de quem for, não me compete conhecê-los, muito menos aferir da sua legitimidade.

    Em matérias de natureza afim, porém, o Dr. Marques Mendes muda de opinião. É o caso da inversão do ónus da prova quando alguma instância (ou alguma carta anónima) achar que o deputado A mostra sinais de riqueza. Daí se conclui que o homem é gatuno, tendo que provar o contrário. Neste caso está o Dr. Marques Mendes de acordo.

    Em matéria de coerência, estamos conversados.

    Resta esperar que o Dr. Marques Mendes reveja as suas posições, mais que não seja por uma questão de sentido do ridículo.

     


    À ATENÇÃO DO SILVA

     

    Humildemente, venho fazer-me eco de umas coisas que por aí constam, e às quais o Silva devia dar atenção.

    Acontece que os sobreiros estão a ser vítima de uma coisa conhecida por cá por stress dos ditos e, em Espanha, por “seca”.

    Ninguém sabe do que se trata. O que se sabe é que, um pouco por toda a parte, há sobreiros a morrer. No curto espaço de uma semana, uma árvore que parecia de boa saúde, aparece morta. A coisa não está limitada a uma região, não ataca mais as árvores velhas que as novas, não está ligada a qualquer circunstância especial, pelo menos que se veja. Acontece, e pronto.

    Diz quem sabe que nenhuma instância oficial se está a ocupar do assunto. Nem a Faculdade de Agronomia, nem a Estação Agronómica, nem os serviços florestais, nem nenhuma das inumeráveis instâncias ou agências que se ocupam de biologia, de epidemiologia, de estudos dos solos, nada, ninguém mexeu ainda uma palha para saber o que se passa com o stress dos sobreiros. O pessoal, por cá, parece preocupar-se muito com uns abates por causa de um empreendimento, mesmo que se replante vinte sobreiros por cada um abatido. Mas, se as árvores morrerem sem saber porquê, que se lixe. Talvez os espanhóis tratem do assunto, não é, ó Silva?

     

    Daqui lanço o meu grito de alarme, sem qualquer espécie de esperança de ser ouvido. Os sobreiros nem sequer são socialistas…

     


    É FARTAR VILANAGEM!

     

    O mundo inteiro andou preocupadíssimo com o facto de o Senhor Berlusconi ser proprietário de não sei quantas estações de televisão. Por cá, a indignação foi enorme. Uma circunstância há, porém, de que ninguém fala: o Senhor Berlusconi já era dono das televisões quando se candidatou. E foi eleito, toda a gente sabendo que o era. Talvez não seja saudável, mas é transparente, sério e democrático.

    Os mesmos que tanto se irritaram com o assunto deixam, sem uma palavra de desconforto, que uma concessionária de televisão generalista seja vendida ao partido socialista espanhol, via grupo financeiro que lhe é indiscutivelmente afecto. Os espanhóis pagam ao PS português entregando a direcção do canal, por critérios confessamente ideológicos, a um barão socialista com largo passado nas hostes do bolchevismo.

    Ao contrário dos italianos, a quem foi dado, em total liberdade, escolher um primeiro ministro que era dono de uns canais, aqui, o partido socréfio toma conta deles sem pudor, sem vergonha, numa desfaçatez pesporrente e descarada.

    Comparado com Pinto de Sousa (Sócrates), o Senhor Berlusconi é um menino de coro.

     

    António Borges de Carvalho

     

     

  • TIROS NO PÉ

    Dou a mão à palmatória. Desta vez, a mesnada do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) tem razão!

    Então não é que a direita que temos, de braço dado com os partidos comunistas, resolve querer legislar a favor da inversão do ónus da prova, em direito penal?

    Que mais estará para nos acontecer?  Que novos tiros no pé veremos Marques Mendes disparar? Que mais empurrões precisa Pinto de Sousa (Sócrates) para se transformar de esquerdista primário em direitista encartado?

    Então a direita faz oposição pela esquerda? Em vez de se apresentar como defensora dos mais elementares direitos de cada um, ultrapassa o socialismo pela esquerda quando este, talvez por engano, toma atitudes de clássico bom senso?

    Não haverá, nas caves do PSD, alguém que queira tomar conta daquilo?

     

    António Borges de Carvalho

  • O MILAGRE DAS BUFAS

     

    Nos idos das monarquias bárbaras, reinou sobre os portugodos Sua Majestade Socrarrico, filho e sucessor de Guterrico, o Doce. Os inimigos tinham-lhe posto o infamante cognome de "O Canudo".

    Sua esposa, a rainha Unilde, era conhecida pela forma insidiosa como conspirava pelos corredores do palácio, pelas esplanadas das barbacãs, pelos frondosos jardins das áleas senhoriais. Em dourado escabelo sentada, entre aias e cavaleiros, punha em causa, com confusões e inverdades, a legitimidade que a Santa Sé havia, em boa hora, reconhecido ao monarca.

    Dona Unilde tinha-se aliado a ferozes inimigos do seu augusto esposo, os quais, capitaneados pelo tenebroso Fernandico, serventuário de senhores das setentrionais embocaduras durienses, propagavam aleivosias e acusavam Sua Majestade de faltar aos seus deveres de bom cristão, usando a arma da mentira e da falsidade no que aos seus nobres pergaminhos respeito dizia.

    Socrarrico andava perturbado, não lograva tempo para se ocupar das ingentes tarefas da governação dos seus senhorios, não conseguia reunir os seus fiéis, e via, cada vez mais, a desconfiança e a insídia a tomar conta dos ingénuos espíritos dos seus vassalos. Mandou emissários ao Fernandico e a seus sequazes, em demanda de respeito e silêncio. Não resultou. A resposta vinha em novos ataques, os mais deles inspirados por Dona Unilde. Chegou Sua majestade a deslocar-se, qual arauto, à praça pública, para denunciar as maquinações de seus algozes. Nada. Ninguém cria nas suas esclarecidas palavras. 

    Um dia, num alarde de insidiosa malevolência, Dona Unilde mandou que uma sua açafata anunciasse aos quatro ventos que, nas vésperas seguintes, a rainha viria, em pessoa, presentear os súbditos de Sua Majestade com bombardas a utilizar para o seu derrube.

    Dom Socarrico, o Canudo, entrou em possessão, não demoníaca, por certo, mas de justa e indignada surpreza. Unilde, a traidora, viria armar o povo, a poder de bombardas, contra a sua augusta autoridade! Emissários, embaixadores, sátrapas, partiram dos reais paços para as barbacãs da senhora. Que missão levavam, ao certo, não se sabe. Mas conseguiram! A aprazada bombardástica distribuição foi adiada para outra véspera. E, na nova data, estando Unilde reclinada em seu trono, diante da turba-multa, eis que surge, tonitruante, Socrarico:

    – Oh! Miserável senhora! Infiel! Ingrata! Mulher sem alma! Mostrai-me, senão vos mato, as bombardas com que me ameaçais!

    Dona Unilde, para surpreza de todos, ergue-se do seu dourado trono e, num gesto grácil, levanta a gentil anca. As saias, as rendas, os brocados da nobre veste, ondearam como que impelidos por uma leve brisa.

    – São bufas, senhor, e não bombardas!

    E, do real trazeiro, ligeiras e suaves brisas se soltaram, enchendo o ar de suave olor.

    Recuaram os aleivosos. Sua Majestade respirou de alívio. Estava salva a sua honra, e a da pátria com ela.

    Sorriram os emissários, os embaixadores, os sátrapas. Tinham conseguido guardar Sua Majestade.

    Milagre? Talvez não. Passariam séculos até que, no tempo de Dom Dinis, um milagre viesse a ter lugar. Com rosas, que não com bufas.

    ABC, Cronista do Reino

  • MONTANHAS E RATOS

    Rezam os jornais que ontem, em soleníssima sessão pública, se sentaram a uma florida mesa os seguintes craques e "altos dirigentes do país": o secretário de estado do trabalho, o coordenador do plano tecnológico, o presidente da Agência Portuguesa de Investimento, o director geral da Cisco Portugal (?), e mais dois elementos da dita agência.

    Para quê? Para anunciar que a tal Cisco vai criar… cinquenta postos de trabalho, talvez oitenta aqui a uns tempos.

    De que magnífico investimento se trata? De um "centro internacional de apoio ao negócio".

    Quem vai ser empregado do centro? Pessoas com deficiências e cidadãos, abundantes no país, com "cultura de trabalho".

    Houve outros países interessados? Sim. Quantos? Oito. Quais? Não foi dito.

    Que condições, fiscais e outras, foram oferecidas à Cisco pela API? Não se sabe.

    Quando acontecerá a coisa? Também não se sabe. Só se sabe que a Cisco anda à procura de sítio.

    Seguindo a nossa delirante imaginação, expliquemos o que não foi dito na soleníssima sessão, ou o que quer dizer o que foi dito:

    A tal Cisco, seja ela o que for (não foi dito, como se a Cisco fosse a General Motors ou a Companhia de Jesus), precisa de montar um call center. É sabido onde as multinacionais costumam instalar os call centers: no Bangladesh, no Baluquistão e noutros progressivos países do terceiro mundo. Não é?

    A tal Cisco procurou, procurou… e escolheu Portugal. País onde há "recursos qualificados competitivos", quer dizer baratos, "país cheio de vantagens objectivas", país… blá, blá, blá.

    Prenhes de orgulho, os portugueses rejubilam. Os tipos da Cisco são objecto das mais variegadas benesses, fiscais e outras, que isto de investimento estrangeiro não é todos os dias, e há que dar aos rapazes condições que o vulgar e ignaro portuga não tem o direito de almejar.

    Além de tudo o mais, segundo foi explicado por sua excelência o presidente da API, o espantoso investimento tem a virualidade de "estimular as relações económicas entre Portugal e os Estados Unidos". Lapidar.

    Sei de uns engraxadores marroquinos que estão interessadíssimos em investir em Portugal. Daqui me atrevo a sugerir que lhes seja dado visto de residência permanente, e que, através da API, o estado lhes forneça as caixas da graxa, devidamente estofadas, e uma dose de arranque de consumíveis. Além disso, justo será que se lhes seja outorgada uma isenção de IVA, de IRC e de IRS, a vinte anos, bem como um subsídio para os vencimentos dos engraxadores portugueses que, devidamente licenciados, e seleccionados, a expensas do governo pela Goldman Sachs, se prestarem, jubilosamente, a cooperar no projecto. 

    Será justo e de bom tom que a coisa  seja lançada no Centro Cultural de Belém, com a presença do maior número possível de engenheiros do governo e de doutores dos jornais.

    António Borges de Carvalho

  • SEGOLICES

    "Quando houver três mulheres nas reuniões do G8, tudo mudará: Merkel, Hillary e eu…", afirmou, urbi et orbe, dona Ségolène.

    Edificante. Dona Ségolène não é melhor porque tem melhores ideias ou propostas. Dona Ségolène não é melhor por ser socialista. Dona Ségolène não é melhor por ser mais sabedora ou mais competente, ou por ter melhor currículo. Não. Dona Ségolène é melhor por ser… mulher.

    Às urtigas a igualdade dos sexos. Às urtigas as qualidades que fazem um político merecer apreciação positiva. Ser mulher é o bastante. De esquerda ou de direita, como a dona Hilária e a dona Ângela. Tanto faz. Tanto faz ser liberal como socialista. Tanto faz o passado como presente. Tanto faz as propostas e as ideias. Tanto faz tanto faz.

    Ser mulher chega para "mudar", e para mudar "tudo".

    Trata-se da mais aviltante concepção da igualdade dos sexos, que bem representada está no leque sexualmente variado de candidatos à presidência da República Francesa*.

    Quando os políticos recorrem a estas bojardas, mal vão as coisas. Para a França e para todos nós.

    António Borges de Carvalho

    * Em França, o presidente da república é o Presidente da República. Por cá, é o "Presidente de Todos os Portugueses", apesar de a Constituição dizer o contrário. T’arrenego! Por mim, não tenho presidente nenhum, nem sequer o do Benfica.

     

  • A CORTINA DE FUMO

    Vale a pena, nem que seja pela última vez, folhear o número de Sábado desse desinteressante molho de papéis pintados com tinta que dá pelo nome de "Sol". O Primeiro Ministro encontrou, finalmente, o alinhamento perfeito com um jornal. Ele é o director que, pela segunda vez consecutiva, o incensa com as mais rasgadas loas e vitupera os ignaros que se têm dedicado a explorar o insignificante fait divers da sua mais que impecável licenciatura. Ele é um fulano, cujo nome me escapa, a quem é dada uma página inteira para fazer o mesmo. A fim de completar o bouquet, o molho de papéis foi buscar o conhecido socialista Freitas do Amaral, exemplo máximo de coerência e de firmeza de carácter, dando-lhe outra página para pôr Pinto de Sousa (Sócrates) no altar dos sábios. O senhor Lima, fulano que se dedica – deve viver disso – há para aí três anos, a dizer mal de Santana Lopes, viu-se à rasca para voltar à carga. Mas era preciso desviar as atenções. Que fazer? E aí vai ele buscar o túnel do Marquês: que a coisa não vai funcionar, que vai ser uma confusão, e por aí fora. Como a última aparição de Santana Lopes foi para dizer que o PM devia ter ido ao parlamento em vez de ir à RTP, e como se trata de uma verdade inatacável, havia que ir buscar outra coisa qualquer. Foi o túnel, pronto, para a semana arranja-se mais. A história do lobo e do cordeiro em versão século XXI.

    Tão badalhoco como isto, é o comportamento da restante "informação", soit disant à procura da verdade, mas num louco afã para a esconder. Enredadas as pessoas na exploração de todos os detalhes e pormenores de coisinhas e coisetas, distraídas com feitos e desfeitos das universidades, tropeçantes em inquéritos e investigações, nem sequer percebem que lhes tapam os olhos com uma cortina de fumo, a ocultar o que, politicamente, é importante: o facto, indesmentido, indesmentível, impróprio de um PM, que as aldrabices do senhor pinto de Sousa (Sócrates) em relação a si próprio constitui. A cortina de fumo adensa-se a cada dado novo. O PM, protegido pelos medos da oposição (oposição?!), pela incompetência da imprensa em geral, pelo apoio do "Sol", pela benevolência de SEPIIIRPPDAACS, vê os seus pecados progressivamente obnubilados e transformados em falhas burocráticas e trapalhadas das universidades.

    Não tarda que Pinto de Sousa saia disto tudo como uma vítima, e um herói. Em matéria de manipulação, estamos conversados. Há que lhe tirar o chapéu.

    António Borges de Carvalho

  • RUA, JÁ! III

    O homem falou. Deixaram-no falar como quis. Disse de sua justiça.

    Afinal era tudo mentira. Jamais se declarara engenheiro. Quando escreveu engenheiro na ficha não estava a escrever engenheiro na ficha. Quando se disse engenheiro nas sessões do aborto não estava a dizer-se engenheiro nas sessões do aborto.

    O homem, afinal, tinha estudado sete anos-sete, aplicadamente, sem privilégios, sem ajudas, um esforço notável, boas notas, tudo nos conformes. O homem tratou de se valorizar, de aprender, de se preparar para dar à pátria o serviço desinteressado e competente que a pátria merece e humildemente lhe pede.

    Pois é. Admito que o homem tenha razão. Quantos não estão nas mesmas condições? Que mal tem que o tratem por engenheiro, se é um tratamento de cortesia que nada tem a ver com as patacoadas da respectiva Ordem? Queriam que o tratassem por senhor licenciado em engenharia? Que diabo, convenhamos que não faz sentido.

    Aceito tudo isto. Pecadilhos de muita gente, sem importância nenhuma. Só que muita gente não é primeiro ministro.

    Só que o problema é que as suas mentiras e as dos seus acólitos ficaram escritas, preto no branco. Só que o problema é que passaram não sei quantas semanas em tergiversações, em alterações ao site, a meter os pés pelas mãos. Se a coisa fosse tão simples como o homem disse na televisão, toda a novela seria absurda. E não é.

    Acresce que a história tem barbas. Há para aí um ano que cirandava na Internet (e não era anónima) sem que ninguém se lembrasse de esclarecer, sem que uma palvra surgisse sobre o assunto. Quando a coisa saltou para os jornais, ai. Quando a Independente entrou em colapso, ai.

     

    Não há crime nenhum. Nem há nada que mexa na original legitimidade do homem. Mas, ao contrário do que disseram as luminárias da Quadratura do Círculo, há um problema de carácter. Isso há. Se há Democracia, isso paga-se. E paga-se indo para casa.

     

    Senhor Engenheiro Pinto de Sousa, ou, se se quiser, Senhor engenheiro Sócarates? Porque não?

    Aldrabices? Porque sim?

     

    O homem falou. Para além do caso do momento, falou da sua obra. Falou como esquerdista primário que é, por muito que a estupidez da direita e dos comentadores encartados pense o contrário. Falou, expressamente, da prevalência do colectivo. Disse que não importa que cada um sofra dos desmandos do Estado, se o Estado se safar a si próprio. Deixou clara a sua “moral” anti-liberal e anti-indivíduo. Deixou claro que, muito antes da campanha eleitoral, quando se revoltava contra a política de contenção orçamental dos governos anteriores, já andava a aldrabar as pessoas, sem escrúpulo nem hesitação. A contenção orçamental, crime de Manuela Ferreira Leita e de Bagão Félix, passa a virtude quando é feita por ele. Os estrangulamentos que, na sua boca, tais políticas provocavam à economia, são motivo de progresso quando, com muito mais violência, são aplicadas por ele. A aldrabice dos 6,83% de déficit voltou-lhe à boca como se fosse a mais acabada das verdades. O pulo do déficit, nas suas mãos, é benesse para o futuro. A contenção, nas mãos dos outros, é um horrível engano. Ota passou de brilhantíssima opção a decisão de terceiros. Se a decisão foi má, culpa dos outros. Ele, coitadinho, só herdou.

    Querem mais, quanto ao carácter do homem? Para quê?

     

    Na ressaca da entrevista, o chefe do PSD veio pleitear em favor de uma auditoria às habilitações do homem, feita por uma comissão independente. Valha-me São Pancrácio. Então o ilustríssimo doutor Marques Mendes ainda não percebeu que o problema não é o das habilitações, mas o das mentiras?

     

    Este país não tem conserto.

     

    António Borges de Carvalho
  • NÃO É BONITO

     

    Utilizando a prerrogativa que lhe confere o Artº 136º, alínea b), da Constituição da III (ou IV?) República, SEPIIIRPPDAACS enviou à Assembleia da dita uma mensagem sobre a Lei que regula os abortos voluntários até às dez semanas. Em tal mensagem, SEPIIIRPPDAACS manifesta a sua discordância com o teor do diploma, assumindo, de um modo geral, as queixas dos deputados que contra ele votaram, indo até mais além em certos aspectos.

    No entanto, por certo em manifestação de colaboração estratégica, ou lá o que é, SEPIIIRPPDAACS promulgou o diploma tal como lhe foi enviado.

    Salvo melhor opinião, se as dúvidas e desacordos de SEPIIIRPPDAACS com a Lei que lhe foi enviada são tão profundas e graves como as que constam da sua mensagem, tinha a mais estrita obrigação de a vetar ou de a mandar para o Tribunal Constitucional, de acordo com o nº1 do Artº 139º da Constituição.

    O que SEPIIIRPPDAACS fez, e passe o aparente desrespeito, foi tomar a atitude de Pilatos que, não concordando com o martírio de Cristo, o mandou aos seus algozes, lavando as mãos de tal acto. SEPIIIRPPDAACS tem profundíssimos desacordos, mas resolve o problema com uma mensagemzinha, ficando a bem com Deus e com o diabo, seja quem for, nesta matéria, Um ou o outro.

    Não é bonito.

     

    António Borges de Carvalho
  • SEGURE-SE, SENHOR DEPUTADO

     

    À atenção do senhor deputado Seguro

     

    Calcule V.Exª, ilustríssimo senhor deputado, que uns fulanos da Carolina do Norte (tome nota que, apesar de ser do Norte, não se trata da Carolina Salgado) resolveram demonstrar que o tabaco e o café têm efeitos muito benéficos no que respeita à prevenção dos distúrbios motores, da doença de Parkinson e de outras maleitas indesejáveis.

    Venho avisá-lo deste facto antes que dê a V.Exª alguma fúria contra o café, já que, em relação ao tabaco, é o que se sabe, sendo V.Exª credor dos higiénicos aplausos de inúmeras criaturas, empenhadas, como V.Exª, na purificação dos costumes e na moralização dos corredores da Assembleia da República.

     

    Apesar disso, atrevo-me a solicitar a atenção de V.Exª para o que vem da Carolina do Norte, senhora de bons costumes e sem rabos de palha. Não sei se V.Exª já realizou que poderia melhorar a sua imagem pública se, promovendo o consumo de tabaco pelos parlamentares seus colegas (não chego ao ponto de o desafiar a, pessoalmente, entrar em tal e tão pecaminosa actividade), puzesse termo a certas manifestações de delirium tremens, tão comuns entre os seus pares, sobretudo quando se fala de diplomas de engenharia civil. Podia V.Exª, até, ficar célebre em todo o orbe por ter feito baixar a incidência dos males de Parkinson e de Alzheimer entre os seus colegas e camaradas, trasformando o Parlamento Português num exemplo de saúde mental ao nível do planeta.

     

    Pense nisso, ilustríssimo senhor. Pense nisso. Olhe que nem todas as Carolinas são iguais nem aparecem todos os dias oportunidades como esta.

     

    Sempre ao dispôr.  

     

    António Borges de Carvalho