Não foi o PS, ou os partidos comunistas, quem mais contribuiu para apear o governo de Santana Lopes. Foi do interior do PSD que os seus grandes adversários surgiram. Cavaco, marechal de campo, Marcelo, general de brigada, comandaram informalmente uma coorte de soldados e de escribas em que se distinguiram algumas figuras gradas do partido, bem como outras, mais pequenas, onde avultava a seriedade provinciana e bacoca do Dr. Marques Mendes.
Posta a semente no fértil terreno de Belém, o golpe de Estado surgiu como coisa quase natural e corriqueira aos olhos das pessoas. Pois se aqueles de quem seria lógico esperar apoio ao governo o aviltavam todos os dias, que havia de pensar o pobre do cidadão, menos avisado nestas matérias?
Em termos de funcionamento do regime, é inimaginável, incompreensível e injustificável que, por dentro do seu principal partido, se faça cair um governo, e se prepare o terreno para uma esmagadora vitória do seu principal rival.
A bela obra de Cavaco, Marcelo y sus muchachos,não serviu, porém, de lição. Bem pelo contrário. O Dr. Marques Mendes, pletórico de “coerência”, dá um pontapé no rabo do homem que lhe ofereceu de bandeja a maior Câmara do país. Não contente com o que já conseguira em relação ao governo, ainda que como actor de segunda, vem agora repeti-lo em matéria autárquica da maior importância.
O Dr. Marques Mendes não percebe, ou finge que não percebe, ou não quer perceber, que o único julgamento que lhe é legítimo fazer é de carácter político, isto é, está-lhe vedado julgar, sequer suspeitar, acerca da vida ou dos feitos de cada um por outros critérios que não os políticos. Uma coisa é aceitar ou não aceitar que um determinado cidadão integre, como candidato, as listas do seu partido. Outra, completamente diferente, é emitir juízos sem fundamento sobre os eleitos a meio do mandato, e, barbaramente, permitir-se apeá-los a seu bel-prazer, servindo-se de tão fracos pretextos como os de que se serviu. Num caso, teremos um julgamento político sobre as vantagens ou inconvenientes políticos de uma determinada candidatura, no outro um julgamento “judicial” antecipado sobre os actos de um político. E nem os exemplos emblemáticos do PS, do BE ou do PC, que vão protegendo os seus como podem, e mesmo quando não devem, lhe servem de lição.
O últimos sucessos atingem, já não as raias do absurdo, mas, à escolha, as da loucura ou da estupidez. O Dr. Marques Mendes, por razões que estão à vista de toda a gente, acha que o primeiro ministro Pinto de Sousa (Sócrates) não tem carácter. O Dr. Marques Mendes tem razão. Tal falta de carácter está demonstrada, é pública e notória.
Mas, neste caso, o Dr. Marques Mendes tem outro peso e outra medida. Acha que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), mesmo sem carácter, deve continuar à frente do governo. O Dr. Marques Mendes, que se encarniça a perseguir os seus e a correr com eles do poder, acha que os adversários, façam o que fizerem, devem continuar no poleiro.
Mais. O Dr. Marques Mendes fornece ao adversário a lenha de que necessita para queimar o PSD e oferece-lhe, de mão beijada, uma cortina de fumo para tirar o primeiro ministro da linha de fogo e apagar das páginas dos jornais as suas malfeitorias académicas, e não só.
O PS, com carradas de razão, canta de galo com tudo isto.
Não sei se haverá, no mundo, alguma Democracia parlamentar onde estas coisas sucedam, onde um líder político se sirva de critérios opostos, não para fustigar o adversário e proteger os seus, mas para proteger o inimigo e punir o seu próprio partido, os seus apoiantes, os seus eleitores, os portugueses em geral e, o que é mais grave, a própria essência do regime que seria suposto defender.
António Borges de Carvalho

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