IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • ENTREGUES À BICHARADA

     

    Já três sóis são passados desde o soturno domingo em que a crise aberta na CML pelo senhor Mendes conheceu o funesto final que caracteriza as tragédias.

     

    É tempo de dizer alguma coisa sobre o assunto.

    O doce remanso, ou o frenesi, das férias, e o natural desencanto das gentes – sobretudo das que são habituais eleitoras do PSD – conduziram, não a uma abstenção naturalmente maior do que o habitual, mas a uma verdadeira hecatombe de indignado desinteresse.

    É na abstenção que o senhor Mendes deve, antes de mais, encontrar meios para, olhando o espelho, ajuizar sobre as atitudes que tomou e sobre o mal que fez a todos nós, à cidade, às pessoas, ao seu partido, à democracia, à Nação.

    Se fizer tal juízo com um mínimo de isenção, não direi, longe de mim!, que se suicide, mas peço-lhe que, sem mais hesitações, se ponha a mexer. Nem o PSD, nem a oposição ao PSD, nem a oposição do PSD, nem o regime democrático, nem nós, cidadãos comuns, temos seja o que for a ganhar com a presença, no galarim, de um líder como ele. Já agora, que leve, lá para o etéreo assento onde subir, ou descer, essoutra promotora da desgraça e da cizânia, que Paula se chama e saudade não deixa.  

     

    DA ALDRABICE

     

    Domingo à noite. Nas imediações do Altis, um reduzido ajuntamento reuniu lisboetas do Alandroal e de Freixo de Espada à Cinta, ou equivalente, metidos à vassourada em autocarros, à boa maneira da União Nacional. Foi-lhes metida na mão uma bandeirinha e, a troco de uma passeata até Lisboa, puseram-nos aos gritos (poucos) nas ruas da cidade. Aldrabice.

    A RTP, atenta, veneradora e obrigada – a filosofia Santos Silva a produzir efeitos – filmou a coisa de forma a dar a ilusão de que havia muita gente a incensar o grande triunfador Costa. Aldrabice.

    O grande triunfador Costa elencou as medidas que vai tomar, limpar ruas, tirar cartazes ilegais, e pouco mais, tudo déjá vu. Toda a gente sabe que a sua verdadeira missão é fazer-nos engolir a Ota. Aldrabice.

    O senhor Pinto de Sousa (Sócrates) disse umas coisas que, pela sua originalidade e visão do futuro, fariam inveja ao líder do MPLA, secção do Mbanzacongo. Aldrabice.

    O grande triunfador Costa teve menos votos socialistas que eleitores teve o PSD, entendendo-se como eleitores do PSD os que votaram Carmona e Negrão. Grande triunfador. Aldrabice.

    Um badameco bem falante despejou o contrário para a televisão, a partir do Altis. Aldrabice.

    Ou seja, a maioria relativa dos lisboetas, apesar dos desmandos do senhor Mendes, continua a votar PSD. E chegaria para ganhar a Câmara.

    Como é que, no meio disto tudo, o senhor Costa se considera grande vencedor é coisa que nem Aristóteles, nem Santo Agostinho, nem Kant, nem Hegel, nem Marx conseguiriam justificar, por mais voltas que dessem aos seus privilegiados bestuntos e às suas logissíssimas lógicas e dialéticas. Aldrabice.

     

     

    DA VITÓRIA DO CARMONA

     

    Se há um grande vencedor destas eleições, é ele o Carmona. Acossado, vilipendiado à esquerda e à direita, expulso, sem meios, sem máquina, sem dinheiro, sem propaganda que se visse, com o Fernandes às canelas, com os partidos, em uníssono, a condená-lo, Carmona bate os seus principais adversários (o senhor Mendes e a dona Paula), bate a desonra, a estupidez, a palermice erigida em “princípio” e em “ideia”, a perseguição erigida em filosofia.

    Parabéns, Carmona Rodrigues. És um Homem!

     

     

    DA DERROTA DO MENDES

     

    Negrão, apesar das siglas, portou-se bem. Foi o cordeiro degolado à facada pela estupidez mendisto-teixeiradacruzista. Prestou-se a isso com honra. Não é um derrotado, é um homem que talvez tenha nascido agora para a política – aprendeu muito nestes dias – e que pode vir a ser alguém.

    O senhor Mendes declarou que as suas atitudes (leia-se fazer cair a Câmara) eram questões de “princípio” e de “ideias”. Mais disse que se tratava de atitudes “compensadoras”. Talvez. Se se trata se destruir o PSD, não há dúvida, tem razão, foram compensadoras. Se é essa a compensação, então o senhor Mendes é um génio.

    Foi ele, com a dona Paula, o derrotado nestas eleições. Nem sequer foi o grande derrotado, porque grandeza é coisa que não conhece, ou qualidade que se lhe não aplica.

     

     

    DA LOUCURA DA ROSETA

     

    Chapeau. Dona Helena ficou bem classificada. É pena que esteja doida. “Os bairros da Câmara devem ser geridos pelos seus habitantes”, disse. “Nenhuma decisão sobre a cidade será tomada sem consultar os cidadãos”, declarou. Está doida, ou não?

    Então para que servem as eleições? A isto não saberá a senhora responder, a não ser que diga que serviram para a pôr num poleirinho. Para ela, importante é a “democracia” participativa (as aspas são minhas). A “democracia” participativa não consiste, ao contrário do que as boas almas podem ser levadas a pensar, em interessar as pessoas na coisa pública e em dar resposta ao que perguntam e requerem. Consiste em meter-se ao barulho, em provocá-lo, em pôr em causa a legitimidade dos eleitos, em fazer com que as pessoas sejam “representadas” por quem mais se mostrar, mais arruaça provocar, mais abaixo-assinados lançar. Os restantes cidadãos – a maioria -, que votaram para ter quem os representasse e tomasse por eles decisões não interessam à senhora. São lixo. São cidadãos que não “participam”.

    Se não fosse perigosa, dona Helena era só ridícula.

    Como o senhor Alegre, dona Helena nada tem de independente, a não ser no papel. Serviu-se do PSD, serviu-se da AD, serviu-se do PS. Para se tornar conhecida. Depois, quando percebeu que não seria a “escolhida”, vai de rasgar o cartão e ir para a rua à caça de papalvos. Independente uma ova.

    Tonta, é o que ela é.

     

    DO CONGELAMENTO DO PC

     

    Do PC não há nada a dizer. À rasquinha, aguentou os votos. Quem vota PC fá-lo por fé, não por opção. E assim vai continuar.

     

     

    DA QUEDA DO ZÉ

     

    Esta criatura, caloteiro-mór da cidade, polícia-mór da câmara, príncipe dos bufos, desceu! Lá manteve o assento, mas desceu! Hossana! Alguma coisa havia de correr bem.

     

     

    DAS CONSEQUÊNCIAS DA MARIA

     

    O pobre do Correia foi-se abaixo. Fez o seu papel, mas foi a vítima indefesa e inocente dos malefícios da dona Maria (José), das galinhices entre ela e a dona Paula, das intrigalhadas em que ela se meteu, das guerras que ela fomentou. Fez o seu papel honradamente, mas…

    É pena. Daria um bom vereador.

     

     

    AVERDADE QUE FOI DITA

     

    Como muito bem disse o grande vencedor Carmona Rodrigues, estas eleições não interessaram à esmagadora maioria dos lisboetas, porque o processo que a elas levou os enjoou e enojou. Se o senhor Mendes fosse capaz de aprender alguma coisa, tinha aqui uma bela lição. Mas fez a cama onde se deitou, e nem isso percebeu.

     

     

    OS NÚMEROS

     

    Carmona+Negrão – 32,44%

    Costa – 29,54%

    Carmona há dois anos – 42,5%

    Roseta – 10,21%

    Carrilho há dois anos – 28%

     

     

    A VERDADE DO IRRITADO

     

    O Costa teve mais um e meio por cento que o Carrilho há dois anos. Como é que o Costa é o grande vencedor e o Carrilho teve uma humilhante derrota?

    Em relação a 2005, ou a aritmética é uma batata ou a Roseta foi buscar 10% dos votos ao PSD, não ao PS.

     

    Com Roseta e sem Mendes, o PSD tinha ganho as eleições com, pelo menos, 30%. Sem Roseta, tinha ganho com cerca de 40%

     

    Eis como a brutal estupidez de um líder pode falsear a vontade dos cidadãos.

     

    Agora, ó alfacinhas, vai ser um fartote, a bicharada à trolha e a malta a ver.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • TUDO FANTASIAS

     

    Afinal, segundo a abalizada opinião da Exmª Ministra da Educação, a história do professor Charrua não passa de fantasia. A recondução da ignóbil bruxa lá do Norte é pura fantasia. O exame de português sem gramática outra fantasia. Os desmandos policiais do governo, devidamente “ratificados” pelo primeiro-ministro, são, obviamente, mais uma fantasiosa invenção.

    As declarações do Presidente da República sobre as ditas fantasias, no mesmo dia em que a senhora ministra as classificava como tal, não passam, também, de mera fantasia. Na opinião da douta mulher, o doutor Cavaco deve ser uma espécie de rainha de espadas a passear no país das maravilhas. Para ela apenas existirá, a iluminar a humanidade com as bocas do seu verbo, o magnífico Pinto de Sousa (Sócrates). Tudo o resto é fantasia.

     

    Como é que uma fulana destas é ministra (e da educação!!!) num país civilizado(?) é coisa que só no mundo da fantasia se poderá compreender.

     

    António Borges de Carvalho

     

     

    PS. Um conselho a Sua Excelência: já que houve tantos chumbos a matemática, não seria de pensar fazer, em próxima oportunidade, um exame do tipo do de português? Passava a malta toda, as estatísticas mudavam de feição, e o governo averbava mais um grande triunfo. Nada disto seria fantasia, mas mais uma enorme contribuição do partido socialista para o progresso da Nação.
  • DECISÃO

    Alguns comentadores têm vindo a estranhar que o Irritado esteja a considerar a hipótese de vir a votar nulo nas eleições para a Câmara de Lisboa.

     

    A esses, os interessados, e aos demais, com a devida vénia, por esta via se comunica que o Irritado decidiu votar Carmona. Olaré. Nem mais nem menos.

     

    Os problemas de Lisboa são graves. Há que evitar que os seus inimigos tomem conta dela, os agravem, e criem outros. É esse o primeiro objectivo do eleitor que se preza e preza a sua cidade.  

    O maior inimigo de Lisboa é o Fernandes. Pelo que faz, e pelo que pensa. O homem que mais caro custou a todos nós (catorze processos contra a Câmara, todos improcedentes, monumentais prejuízos causados com a paralisação das obras do túnel, onze assessores, totalmente inúteis mas bem pagos…), que, de parceria com o governo, restaurou o espírito da bufaria, da denúncia, da abordagem policiesca das questões, da não aceitação de decisões democraticamente tomadas. É, provavelmente, o maior inimigo que Lisboa e os Lisboetas já conheceram. Mas o que representa como perigo não é acompanhado por força eleitoral que o possa pôr no alto do poder.

    O mesmo se não pode dizer do candidato Costa. Esse, para nossa desgraça, junta a força eleitoral do PS ao ódio profundo e visceral que nutre pela cidade. Que outro sentimento pode justificar que defenda o aeroporto da Ota e que se proponha governamentalizar, via garrote financeiro e não só, a gestão da cidade? Que postura de inimizade, de desprezo e de monstruoso cinismo pode ser mais forte do que a de quem, dizendo defender a intervenção da CML na área ribeirinha, mete um dos seus áulicos, o repugnante Júdice, como agente do governo para o efeito? Se é para meter o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) na frente Tejo, então deixem lá estar a APL! Eleger Costa representará integrar a cidade no universo persecutório, concentracionário, aldrabófono e rasca do Partido Socialista.

    Por isso que, com ou sem esperança, seja tão importante votar contra ele.

    Como?

    Se olharmos as sondagens, é fácil ver a brutalidade da traição (estupidez?) do senhor Mendes ao seu partido e ao seu eleitorado. A soma dos votos dos dois candidatos da sua área dá, à vontade, para deixar de fora o Costa. Mas, para o senhor Mendes, valem mais as raivinhas, as intriguinhas palacianas, as denunciazinhas patetas, as moralidades chochas e zarolhas, que os interesses do partido, dos eleitores e da cidade. Vamos deixar-nos sacrificar no altar destes estúpidos desmandos? Não! Vamos eleger o candidato inventado para salvar a face, se é que ela existe, do homem que desgraçou e continua a desgraçar o PSD? Não! Vamos eleger um fulano, que talvez seja boa pessoa mas que, evidentemente, não percebe patavina daquilo que se propõe gerir? Não!

     

    Para evitar o Costa haverá que tentar concentrar os votos dos segundos classificados num só deles. É difícil, mas vale a pena. Excluído o Negrão pelas razões acima, resta Carmona. É o ideal? Talvez não. Foi capaz de dominar o saco de gatos da sua câmara? Não foi. Meteu na ordem o Fernandes e a Pinto? Não meteu. Mas é um homem sério, bem intencionado e sabedor. Aprendeu muito nestes anos. É inteligente. Sabe com quem vai estar metido. Ficou claro, no miserável debate da RTP, que é o único que se não fica por patacoadas, mas que conhece, no concreto, as questões concretas. Sabe que há problemas de tesouraria, que não tem, no curto prazo, meios para os colmatar, mas não se mete em demagogias de “fundos” ou de “contratos”. Não esgrime com a origem do mal (o consulado social-comunista do senhor Soares), não acena com desculpas, diz a verdade: financiar a dívida de curto prazo, reestruturando-a e usando, nos anos subsequentes, com parcimónia, o saldo positivo (existente) dos exercícios. Continuar a política de redução de despesas, melhorar a gestão do património e do pessoal, pôr a malta a trabalhar. Será difícil, mas é fazível e não é demagógico nem aldrabão.

    Carmona, de entre o infeliz leque de personalidades que nos é proposto, é a escolha. A única possível.

     

    E Roseta?, perguntar-se-á. Roseta tem o handicap da sua gestão em Cascais, que devia chegar para nunca mais querer ser autarca na vida. Desta vez, após uma viagem desde PSD até à esquerda do PS, a senhora entrou no paroxismo da demagogia bem-falante. Já viram o que seria os bairros sociais em auto-gestão? Já viram o que seria, em vez de reestruturar a divisão administrativa da cidade subdividi-la numa miríade de interessesinhos de moradores (des)organizados? Esta paranóia de “democracia” directa, de menosprezo pelos eleitos em favor de activistas que nada representam., é um perigo mortal, tanto para a gestão da cidade como para a democracia propriamente dita.

     

    O resto dos candidatos… para quê falar deles?

    O Carvalho tem os votos do PC, e acabou-se.

    O do MRPumpum não interessa. O do PPM (como é que o tipo se chama?) é um analfabeto, uma besta quadrada. O skin head, valha-me São Pancrácio. Quem são os outros? Já não sei.

    Ah! É verdade! Há o Correia. Coitado, não é mau rapaz, mas, se queremos fazer mal ao Costa…

     

    E se se conseguisse juntar os votos desta malta toda no Carmona? Não seria possível? Não há esperança? Sei lá.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • SETE VERGONHAS… Etc.

     

    As 7 Maravilhas, coisa a que não liguei meia até ontem, foram, afinal, 7 vergonhas. E não só.

     

    – Primeira vergonha: a votação. É evidente que, com o sistema usado, se deu, ou quis dar, oportunidade aos países mais populosos. Não é por acaso que a China, a Índia, o Brasil ou o México foram contemplados. Não houve a mais leve sombra de objectividade no processo de escolha. Até que ponto o Cristo do Corcovado é uma maravilha? Não brinquem com coisas sérias!

    – Segunda vergonha: as palhaçadas pseudo-espectaculares que os tipos montaram. Porque é que não contrataram uns americanos quaisquer, dos que sabem destas coisas?

    – Terceira vergonha (insuportável): o senhor Carreras e um italiano qualquer a fingir que cantavam. Abaixo de cães. Vermes, os próprios e os que os contrataram para aldrabar o público.

    – Quarta vergonha: o senhor Joaquim, que se julgaria bailarino, num numerozeco duvidosíssimo, talvez digno de uma tasca rasca de Sevilha.

    – Quinta vergonha: uma cambada de alarves mal vestidos a tocar tambor. Óptimo para a campanha eleitoral do Rúben.

    – Sextas vergonhas: o desgraçado que falava inglês com pronúncia de Almada, e o paleio de chacha dos comentadores da TVI.

    – Sétima vergonha: o Presidente da República e o Primeiro Ministro a dar, com a sua presença, o aval nacional a esta merda.

     

    Uma excepção: a exibição, musical e piçalhuda, da dona Jenifer. No género, foi do bonzinho.

     

    O cúmulo da vergonha: aquela americana de duzentos quilos a assassinar o It’s a wonderful world.

    Uma coisa deliciosa: Os apupos do povo ao Primeiro Ministro.

    Uma vergonha après la lettre: os artigos do DN e do Público sobre o assunto. Mentecaptos!

    António Borges de Carvalho
  • COISAS CADA VEZ MAIS SÉRIAS

    Mais uma para a lista das “coisas muito sérias” (v. post de 24 de Junho). Um senhora, toda pregadinha, tailleur alvíssimo, florão ao peito, cabelinho a cheirar a brushing, apresentou-se a uma distinta plateia para apresentar um relatório qualquer (se comêssemos relatórios e estudos éramos os fulanos mais bem comidos da Europa). Lá foi largando os seus justos bitates. Até que lhe fugiu a boca para a mentalidade governamental. Num rasgo de génio, a senhora declarou que isso de criticar o governo era coisa que se podia fazer na casa dela, na esquina e no café. “Locais apropriados”, segundo disse. Locais, é legítimo inferir, onde ainda não há espiões do governo à escuta, com a caneta das acusações na mão.

     

    É evidente que a senhora pode ser muito boa em relatórios, mas do que devia importar a um político não sabe patavina.

    É aqui que está a brutal raiz da questão. A senhora segue à risca os ditames dos seus chefes, nada mais. Os atentados à liberdade e aos direitos das pessoas não são obra de acasos, de lapsi linguae, ou iniciativa de um ou outro funcionário desprevenido ou idiota. São a filosofia vigente, a mentalidade do socrafifiosismo no seu melhor. Não se multiplicam por acaso, nem são fruto de uns ignaros sem princípios. São resultado do pensamento, da doutrina e da acção consciente e generalizada de quem está no poder.

     

    Pareceria ao irritado que era altura de SEPIIIRPPDAACS fazer um discursinho sobre o que se passa. Mas parece que Sua Excelência não é lá muito sensível a estas coisas. Que diabo, somos PRESIDENTES da União Europeia! Não é para qualquer um (só para nós, mais todos os outros)! Levantar ondas, nesta altura? Credo!

     

    António Borges de Carvalho
  • UMA SUGESTÃO INÚTIL

     

    O Irritado, pelo menos uma vez, deu sinal dos seus sentimentos acerca dos palhaços que se passeiam em público, cheios de pundonor e orgulho, a exibir uns simpáticos pit-bull, doberman, rodesian ridgeback, rottweiler e similares, as mais das vezes sem açaimo.

    Queixo bem alto, a besta aos pulos à volta do dono (obviamente mais besta do que a dita), as criancinhas atrás dos cãezinhos, os cabos de mar, os nadadores-salvadores, os guardas-republicanos, e quejandos, a assobiar para o ar, que é para isso que são pagos. Se não é, parece.

     

    Pois. Também parece que morreu mais não sei quem por causa destas distintas e civilizadas práticas. Já não se falava do assunto desde que, há uns meses, uma sexagenária foi comida pelos mastins do vizinho. Ça va sans dire, o vizinho deve estar calmamente em casa com os seus cãezinhos, enquanto a senhora faz tijolo.

    Mas alegremo-nos. Hoje é votada no Parlamento uma lei sobre o assunto. Fenomenal.

    Passará a não haver venda clandestina dos canídeos classificados como perigosos. Isto é, quando a cadelinha parir, a simpática ninhada será imediatamente conduzida a um estabelecimento especializado nestas matérias. Está mesmo a ver-se, não está? A coisa foi proposta pela Protectora dos Animais, ou lá o que é, para que os pobrezinhos não venham a sofrer maus tratos nos circuitos comerciais.

    A fiscalização deixará de ser feita só pela PSP (agora percebo porque é que os cabos de mar não ligam nenhuma ao assunto), entrando na jogada a Direcção Geral de Veterinária. Não é preciso pensar muito para perceber que a coisa vai funcionar muito melhor.

    Os distintos criadores e proprietários dos bichinhos continuam a ser autorizados a criar e comercializar os mesmos. Mas veja-se a sabedoria dos proponentes da lei: os ditos cidadãos serão submetidos a exame psiquiátrico, para avaliação das suas capacidades. Como se quem faz o que eles fazem precisasse de exame psiquiátrico para se saber o que são.

    Os reincidentes, isto é, os que tenham condenações transitadas em julgado por crimes relacionados com a posse dos carnívoros, ficarão proibidos de os ter ou criar. Como uma sentença, para transitar em julgado, leva para aí uns dez anos, nos dez anos que se seguem à cena da jantarada dos mastins, o seu ilustre proprietário poderá continuar a sua benemérita actividade sem que ninguém tenha nada com isso.

    Restam umas disposições administrativas sem relevância de maior, ainda que monumentalmente complicadas.

    Ah! É verdade! As multas a aplicar poderão ir… até mil contos. É como fumar dez cigarros em local proibido, não é?

     

    Ocorre perguntar se, em vez destas parlamentares perdas de tempo com regulamentos e trapalhadas inoperantes, não iria mais ao encontro dos interesses do cidadão comum – que não cria, nem vende, nem se passeia com feras – uma simples portaria municipal que determinasse que os bichinhos deste género apanhados na via pública, como ou sem açaimo, fossem imediatamente apreendidos e levados a abate, aplicando-se ao respectivo dono uma taxa brutal pelo serviço.

    Ao parlamento competiria alterar o Código Penal de forma a punir os donos dos cães atacantes com a pena que se lhes aplicaria se praticassem eles próprios os actos dos  animaizinhos. Assim, o dono dos cãezinhos que comeram a velhota estaria em prisão preventiva, em vez de continuar a ser autorizado a crescê-los e multiplicá-los.

     

    Uma inútil mas bem intencionada sugestão do Irritado.

     

    António Borges de Carvalho
  • A GRANDE PESSEGADA

     

    Um jornal de fim de semana resolveu perguntar aos candidatos à presidência da CML as suas “soluções” para acabar com a enormidade de burocracia que são os serviços de urbanismo da autarquia.

     

    As respostas obtidas deixam o munícipe mergulhado num ataque de nervos. Não há Lexotans que nos valham.

     

    Ora vejam:

     

    COSTA opina que o que é preciso é “um manual interpretativo das normas do PDM”. Ou seja, o ilustre socialista acha que o PDM é ininteligível. Modificá-lo, não. Faça-se o tal “manual”. Depois, julga-se, será necessário outro manual interpretativo do manual interpretativo, e assim por diante. Em seguida, a distinta personalidade defende a instalação de um sistema informático que “garanta em qualquer momento o acesso às obras em apreciação na CML, o seu conteúdo, pareceres e andamento”. Ou seja, o excelso político não sabe, nem sequer tem a mais leve sombra de ideia sobre o assunto. É que o tal sistema informático já existe. Nele podem os cidadãos saber que os seus processos (não as “obras”, como diz o candidato) estão devidamente parados, à espera dos que hão de vir. É que o problema não é haver ou não haver o sistema, o problema é o funcionamento do monstro. Acrescenta o ignorante que, para os grandes projectos, fará intervir um “conselho consultivo”. Mais um. Mais uns lugarzinhos para uns tipos que integrarão mais uma entidade emissora de doutos pareceres, destinados, como é óbvio, a atrazar mais os processos.

     

    NEGRÃO, preocupadíssimo em “desburocratizar” (ninguém será contra), propõe que, para tal fim, as chefias da Câmara reservarão duas manhãs por semana para receber os lisboetas. Notável. O simpático homem das siglas não sabe que os técnicos responsáveis pela apreciação dos projectos, os chefes de zona, etc., já têm dias para receber os munícipes. Não é fácil marcar as audiências, é verdade, mas não é impossível. Como Costa, Negrão não faz a mais leve sombra de ideia do que se passa na CML. Depois, em mais uma nobre demonstração de incompetência, o mesmo candidato anuncia, como uma das suas primeiras medidas, um plano “que devolva a Lisboa a frente ribeirinha”. A gula pelas áreas da APL é comum a todos os candidatos. Resta ao munícipe saber o que tem a ganhar com a inclusão de tais áreas na jurisdição do monstro.

     

    CARVALHO, o anafado comunista, quer uma actuação dos serviços “mais rápida, transparente e responsável” para dar “resposta às pretensões dos particulares”. Alvíssaras! O homem tem razão! Não lhe seria, de modo nenhum, possível cumprir a promessa, mas, ao menos, põe o dedo na ferida. A seguir, para dizer alguma coisa, avança que sãp precisas intervenções “necessárias e urgentes”, como a renovação do Pavilhão Carlos Lopes e do Parque Mayer. Está bem. Só não se percebe como é que anda há anos a fazer os possíveis e os impossíveis para boicotar toda e qualquer ideia a tal respeito avançada. O que sabe dos problemas que existem é tanto como a demonstrada vontade de os não resolver.

     

    FERNANDES, o acusador, o moralista de pacotilha, o denunciante, o caloteiro (e os milhões que a CML perdeu por causa dele?), tem na manga a panaceia universal: o “plano verde” do paisagista Ribeiro Teles. Ou seja, para resolver os problemas do funcionamento da CML no que ao urbanismo diz respeito, o homem do BE utiliza um “plano verde” que, como por encanto, criará mais estacionamento, melhores transportes, e reabilitará o Parque Mayer com o negregado “dinheiro do Casino”. Um maggnífico exemplo de como se responde a alhos com bogalhos.

     

    CORREIA trata o assunto com muito mais acutilância. Propõe “arranjos nos passeios e iluminação nas ruas”. Acrescenta que quer acabar rapidamente com “as obras que se arrastam” e “abrir a cidade ao Tejo”. Como? Não acrescenta. Minto. Diz que é “importante respeitar os prazos de resposta”. Se eu acreditasse que o homem era capaz de o fazer, ou se soubesse como o ia fazer, era capaz de votar nele.

     

    CARMONA, talvez em resposta a Costa, confirma o que acima digo: já é possível consultar os processos na internet. O Costa é que não sabe. Depois, diz que quer acabar a CRIL e o Eixo Norte/Sul (quem o não quererá? – talvez o Fernandes), e que a reabilitação do Parque Mayer será o seu ex-libris. A Oeste nada de novo.

     

    ROSETA toca as raias da loucura. Quer um “pelouro do urbanismo partilhado por todas as forças políticas eleitas”. Note-se, antes de mais, que a senhora se faz passar, de “independente” a “força política”. Em matéria de modéstia, estamos conversados. Imagine-se agora o que aconteceria se houvesse, em vez de um, sete vereadores a chefiar o urbanismo. Deixaria de haver pelouro do urbanismo para haver pelouro do saco de gatos. Tudo à porrada e fé em Deus. A nobre senhora acrescenta mais uma proposta electrónica: as “alterações urbanísticas” passariam a ser objecto de visualização simulada para que o povo as visse “antes da sua aprovação”. Nada contra. Só que tal proposta nada tem a ver, mais uma vez, com o aligeiramento e o funcionamento dos serviços da CML e das infindáveis entidades que emitem pareceres sobre tudo e mais alguma coisa. Já agora, para não destoar do bouquet das “forças políticas”, dona Helena avança que o Parque Mayer, blá, blá, blá.

     

    *

     

    É nisto que estamos. Segundo o mesmo jornal, um desgraçado que quer alterar a moradiazinha da família anda há oito anos de Herodes para Pilatos, e até já encheu cinco dossiers de papelada. Os serviços da CML não cumprem prazos. Os respectivos funcionários acham que justificam o ordenadinho através da criação de dificuldades ao munícipe. Um obrinha de caca tem o mesmo tratamento burocrático que um empreendimento de milhões. As entidades com “jurisdição” sobre o assunto vão somando pareceres e prazos, a desculpar os atrazos próprios e os dos outros. Etc. etc.

     

    Nenhum dos candidatos em presença faz a mais remota ideia de como as coisas (não) funcionam (à excepção, talvez, do senhor Carvalho), nem tem uma ideia que seja acerca de como as alterar. Dizem coisas, dizem coisas à balda, sem texto nem contexto. É nisto que estamos.

     

    *

     

    Um momento houve em que pareceu que o funcionamento dos serviços de urbanismo ia entrar nos eixos. Durou uns meses, talvez um ano. Refiro-me ao consulado da vereadora Eduarda Napoleão. Despachou-se, na altura, um número considerável de processos. Parecia haver uma luz ao fundo do túnel. Muitos dos que hoje se apresentam a dizer inanidades sobre o assunto foram inimigos figadais do dr. Santana Lopes e, por conseguinte, da vereadora em causa, à altura perseguida pela municipal bem-pensância, hoje, calcule-se, perseguida pela Justiça, vítima da bufaria no poder.

     

    *

     

    Apetece, ou não, votar nulo?

     

    António Borges de Carvalho
  • ARMADILHA REFERENDÁRIA

     

    As boas almas, com Miguel Portas, Jerónimo de Sousa e Marques Mendes à cabeça – santa aliança! –  estão empenhadas em defender uma consulta referendária sobre o que vier a ser o novo tratado europeu.

     

    É de senso comum que uma pergunta só é legítima se legítimo for o pressuposto de que o inquirido tem condições para saber a resposta. Nos exames escolares, por exemplo, as perguntas formulam-se com base num programa cujo ensino se supõe ter sido ministrado. Num referendo político haverá, por elementar bom senso, que criar os pressupostos de que à generalidade dos cidadãos é possível compreender, primeiro, o problema que motiva a consulta, segundo, as consequências que o sim ou o não podem ter no que diz respeito à solução a dar ao problema cuja compreensão foi possibilitada.

    É por isso que a complexidade de certas questões políticas não pode, ou não deve, ser objecto de consulta referendária. Para tal, existem os Parlamentos.

     

    O que está em causa nesta história do novo tratado europeu? Diz-se que a Europa a 27 não tem condições para funcionar a contento. Novos mecanismoa terão, por isso, de ser criados. Talvez seja possível ao cidadão comum perceber este problema.

    Mas ser-lhe-á dado saber se o sistema das maiorias de critério duplo, as raízes quadradas dos polacos, ou outro sistema qualquer é melhor ou pior para os seus interesses, pessoais, sociais e nacionais? É evidente que não.

    Ser-lhe-á dado saber se a redução do número de deputados europeus lhe é conveniente? É evidente que não.

    Ser-lhe-á possível ajuizar das vantagens ou inconvenientes da futura existência de um Presidente do Conselho? É evidente que não.

    Ser-lhe-á possível antever as consequências da redução do mandato dos comissários de 5 para 2,5 anos? É evidente que não.

    Ser-lhe-á possível saber se o novo tratado, impondo ou não uma nova carta de direitos, mormente sociais, comum a todos os cidadãos da Europa menos aos britânicos, é favorável ou não aos interesses de um português enquanto tal? É evidente que não.

    Ser-lhe-á possível saber se, com as novas normas, sejam elas quais forem, há perdas de soberania que possam pôr em causa a Nação ou as suas legítimas prerrogativas? É evidente que não.

    Pôr-se-á um problema sério de perda de soberania quando há 27 países a perder exactamente o mesmo e para a mesma entidade? Quem o saberá julgar?

     

    Acresce que, segundo as alterações constitucionais legisladas em 2004, “o referendo pode recair sobre uma só matéria, devendo as questões ser formuladas com objectividade, clareza e precisão e para respostas de sim ou não…”. Ora digam lá se se pode perguntar sim ou não acerca do tratado em causa, o qual, seja qual for, rezará sobre matérias as mais diversas, sendo impossível estar de acordo ou em desacordo com todas elas. Mesmo que fosse legítimo, no sentido de “respondível”, referendar o tratado, jamais o seria em relação às suas providências específicas. Então o que se pretende? A resposta é simples: o objectivo é o de desautorizar a ratificação parlamentar e, com ela, o parlamento. Os adeptos do referendo, à excepção, julgo, do dr. Marques Mendes, não são propriamente admiradores da democracia representativa. A uns, não vale a pena lembrar que, sem parlamento, não há democracia e que, de uma forma ou de outra, as ditaduras têm o vício de se legitimar por via plebiscitária. Ao dr. Marques Mendes também não vale a pena lembrar seja o que for, já que parece ter perdido a capacidade mental para perceber o que quer que seja.

     

    Há, ainda, um pequeno problema de ordem constitucional, que se pode referir a benefício de inventário, uma vez que nem uns nem outros lhe vão ligar meia. Reza a Constituição, na sua versão actual, que (em matérias que tenham a ver com acordos internacionais) o referendo só se pode utilizar se se tratar de “convenção internacional”. Ora o que vai estar em causa será um instrumento que não se integra em tal conceito. Trata-se, porém, de dispicienda questão, sobre a qual nenhum dos constitucionalistas de serviço se debruçará.

     

    O referendo sobre o tratado europeu (como o seria sobre a defunta “Constituição”) é um presente envenenado que se destina, ou a satisfazer a ânsia de notoriedade dos demagogos, ou a desresponsabilizar os responsáveis, isto é, os que foram eleitos precisamente para resolver esses problemas e muitos outros cuja complexidade escapa ao cidadão comum.

    Quantos portugueses saberiam responder, em consciência e com plena convicção, à pergunta que a este respeito fosse inventada? Dois por cento? Talvez nem tanto. Os portugueses – os que fossem votar, porque, como é evidente, a esmagadora maioria ficaria em casa – votariam sim porque o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) vota sim, porque o senhor Mendes vota sim, ou não, porque o senhor Sousa ou o senhor Portas (Miguel) mandam votar não, e acabou-se.

     

    Para que serve o Parlamento, senão precisamente para decidir sobre questões como esta? Sabiamente, os constituintes de 1976 – que não foram sábios em tudo – decidiram colocar os tratados fora da alçada da chamada democracia directa, ou “participativa”, ou referendária, ou plebiscitária, ou, no parecer do Irritado, aldrabona. Mas lá vieram os de 2004 dar, de forma aliás canhestra, cabo da sabedoria dos seus antecessores.

     

    Que o senhor Portas (Miguel), ou o senhor Sousa, queiram abrir, para proveito próprio, mais um espaço de propaganda, é fácil de perceber. É o que sabem fazer: propaganda. Mas que o senhor Mendes aproveite a oportunidade para mais uma horrível demonstração de irresponsabilidade e estupidez, é coisa que não pode deixar de irritar o Irritado.

     

    Até o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) já percebeu a coisa. Aí anda ele, em exercícios de ginástica e contorcionismo, a ver se consegue dar a volta às coisas que disse sobre o Tratado Constitucional. Pela primeira vez na História, o Irritado deseja boa sorte ao dito.

     

    António Borges de Carvalho
  • JUSTIÇA SOCRÉLFIA

     

    – Uma das últimas “prerrogativas” de que os portugueses dispunham em matéria de IRS – as despesas de saúde – vai desaparecer, ou seja, cada medicamento, cada consulta, cada exame, cada cirurgia, vai passar a custar o que custa, mais a taxa de IRS a que cada um for submetido.

    – As taxas moderadoras vão ser “progressivas”, isto é, a coisa será tanto mais cara quanto mais doente um tipo estiver, quanto mais velho for, quanto mais precisar de assistência.

    – Os limites do que o SNS virá a proporcionar vão ter como critério o preço, melhor dizendo, quanto mais caro for o tratamento necessário ao doente, menos o SNS o tratará.

    – Se o dinheiro não chegar, prevê-se a criação de uma nova figura “de estilo”: as “contribuições compulsórias”.

    – Vai haver mais horas de trabalho, menos férias, e os subsídios vão ser objecto de cortes.

     

    Tudo isto, num só dia, na imprensa.

     

    Viva o socialismo!

     

    António Borges de Carvalho
  • O MELHOR DOS MUNDOS

     

    Diz-se e escreve-se (ainda que não se diga nem escreva como nem porquê se chegou a tal conclusão) que há 12.600 pessoas que morrem por ano em consequência do tabaco. E, que horror, tais criaturas custam ao Estado 500 milhões de Euros. E pagam, em impostos, 1.400 milhões.

    Resta um saldo de 900 milhões para ajudar os que morrem em consequência do frango de churrasco (colesterol), dos tremoços salgados (tensão arterial), do vinho tinto (cirrose do fígado) e do excesso de caspa (exagero na coçagagem da moleirinha).

     

    Os automobilistas activos, a breve prazo, ou deixam de ser automobilistas ou serão objecto de ferocíssimas multas. É que, à semelhança dos fumadores, andam para aí a encher os pulmões de terceiros com CO2. É urgente a criação de uma associação de automobilistas passivos para acabar com os activos.

    Por maioria de razão, a Carris deverá deixar de prestar serviços de transportes para que os lisboetas não se vejam obrigados a respirar os eflúvios dos injectores de gasóleo desafinados. Como solução alternativa, há quem proponha a criação de ruas livres de autocarros, o que será da competência das Juntas de Freguesia. Quem quiser andar de autocarro deverá pagar uma “contribuição compulsória”, destinada a financiar os sapatos de ténis dos cidadãos auto-saudáveis.

    As mudanças e outros transportes de mercadorias serão proibidos, a não ser que sejam feitas por carros de bois (servindo a respectiva bosta para adubar as hortas do Arquitecto Paisagista Telles) ou às costas dos interessados com menos poder económico.

    Na senda da luta contra o tabaco, e pela mesma lógica, será proibido o aquecimento doméstico, uma vez que uma caldeira a gás lança para a atmosfera, por hora, mais CO2 que uma discoteca africana numa noite inteira (se isto não for verdade, arranja-se um estudo como o dos mortos do tabaco, e passa a sê-lo), pondo em risco a saudinha dos aquecidos passivos. Quem tiver frio que se previna com cobertores.

    E assim por diante.

     

    Vem aí o melhor dos mundos.

     

    António Borges de Carvalho
  • COISAS MUITO SÉRIAS

    Algo de muito sério se passa em Portugal. A legitimidade, que ninguém negará assistir ao senhor Pinto de Sousa (Sócrates) e à maioria socialista, está a ter utilização perversa e de uma forma que já não é disfarçável ou atribuível a meros acidentes de percurso ou a erros não intencionais.

    Começámos com a concentração de poderes policiais no primeiro-ministro, coisa aterradora e obviamente tendente a ser utilizada de forma menos consentânea com o que, legitimamente, se pode considerar como princípios do regime.

    Por todos os lados se encontramm sinais de uma floresta de cruzamentos de dados pessoais, coisa que, de forma paulatina, quase invisível se olharmos casos isolados, se vai aproximando mais de um sistema tipo Big Brother do que daquilo que se julgaria conformar-se com o respeito da individualidade, da privacidade e da chamada “protecção de dados pessoais”.

    O “processo Charrua”, a princípio julgado como mero aflorar de tendências pidescas por parte de uma obscura funcionária, transformou-se num monstro em cuja formação colaboram, por expressa omissão, o primeiro-ministro, o governo, a maioria parlamentar e o presidente da República. A progenitora do monstro é reconduzida com todas as honras no seu posto policial, sem que voz autorizada alguma toque no assunto.

    Uma lei celerada que põe em causa a liberdade de informação é aprovada pelo Parlamento, isto é, pelo PS, sem que um só dos seus deputados se tenha erguido contra ela.

    O primeiro-ministro torna público ter processado criminalmente um professor que, de há muito, na internet, vinha denunciando, aliás com farta fundamentação, os contornos duvidosos da sua vida académica e das suas declarações a tal respeito.

     

    Algo está errado em Portugal. Algo de muito grave se está construindo, para nosso mal, sem que, institucional e politicamente, se vejam reacções ou resistências dignas desse nome.

     

    O primeiro-ministro tem agora novo fôlego, propiciado por uma espécie de benefício da dúvida, ou de renovado período de graça, que lhe é fornecido pela desgraça de termos pela frente a presidência da UE. Durante seis meses, nada nem ninguém, a bem de uma estabilidade que pode ser boa para a UE, mas que é má para nós, o porá em causa.

    Pelo que se tem visto, a inexorável marcha para o controlo das pessoas, para a institucionalização do medo, da denúncia, da delação e de outra práticas de que nos julgaríamos livres, continuará sem que seja quem for ponha em causa tal continuidade.

     

    Do seu pequeno cantinho, o Irritado lança este alerta, sem saber bem o que pode fazer, ou o que pode pedir que se faça, para que se torne possível sair deste inferno.

     

    António Borges de Carvalho
  • GUERRAS DOS BASTIDORES DO BOLCHEVISMO

    O ex(?)bolchevista Lino vai apresentar um livro de um seu ilustre camarada. Ao que parece, a obra vem pôr a nu certas guerrilhas internas do PC, dissidências, desacordos teóricos, teses contraditórias, processos de intenção, vigilâncias revolucionárias, controleirocracia, faltas de coerência marxista-leninista, enfim, as habituais zangas escondidas daquela gente, coisas do agrado da nacional bisbilhotice, pelo menos da que se interessa por intrigas e mistérios tipo Dan Brown ou Rodrigues dos Santos. Não se trata de dar explicações pessoais sobre guerras conhecidas do grande público. Trata-se de levantar uma ponta do véu que cobre os obscuros bastidores do bolchevismo, habitualmente bem escondidas nos pesados meandros do centralismo “democrático”.

     

    Coisas de gente que se rege por cartilhas que não são as das pessoas normais, coisas de outro mundo, de uma galáxia onde a dimensão é outra que não a dessa humanidade comezinha e velha, perdida na floresta do capitalismo e da democracia liberal. Coisas de quem não gosta do homem como ele é e aposta em “criar”, qual novo Deus, um novo animal, mentecapto e obediente, que contempla as vanguardas e amocha ao sistema.

     

    O “socialismo”, apesar de ter tido poder, todo o poder, sobre centenas de milhões de infelizes, é dito, pelos seus próceres e revisores, como nunca tendo existido. Isto é, como a aplicação do socialismo nunca se fez a não ser à custa da Liberdade e das liberdades, nunca teve poder que não fosse à custa de sangue e de tirania, aquela gente acha que “ainda não se realizou”. Pois não. O Homem continua a ser o que é, vai mudando porque é livre, nunca por ser escravo.

     

    Os Linos e companhia, tão ou mais perigosos que os ortodoxos, vão insistindo na circunstancialidade dos “erros”, com o objectivo de continuar a disfarçar a substancialidade do monstro.

     

    António Borges de Carvalho
  • UMA JÓIA DE VEREADORA

    Há para aí meia dúzia de anos, cheio de ilusões – a velhice não me tira a estúpida capacidade de me iludir – dei comigo investido no alto cargo de deputado à Assembleia Municipal de Lisboa.

    As ditas ilusões, bem como as minhas convicções democráticas, levavam-me a pensar que, a partir dali, me seria possível fazer alguma coisa pela minha cidade. Vi-me metido num saco de gatos, numa coisa ineficaz, idiota, primitiva, movida pelos mais baixos sentimentos, de confrontação, de mesquinhas mal-querenças, de partidarite aguda.

     

    Ao ver a cara de uma senhora, de seu nome Ana Sara Brito, nos cartazes em que o Costa apresenta a plêiade de luminárias que quer levar para a Câmara, lembrei-me de dois episódios que talvez possam levar um sorriso à boca dos tristes leitores do Irritado.

     

    Aí vão eles:

    A minha primeira iniciativa como deputado (independente, nas listas do PSD) foi pôr em letra de forma a minha fúria contra o horroroso marsápio que mija sobre a cidade no alto do Parque Eduardo VII. A título de “recomendação” – figura regimental à disposição dos deputados, resolvi pedir à Câmara que “removesse e levasse a vazadouro o falo lítico urinante…” em questão. Tendo-me aconselhado com um colega – hoje grande perorante em diversos fora – acabei por retirar a proposta de remoção a vazadouro, que, na opinião do meu amigo, constituiria uma inútil provocação. Ficou só a remoção, sem menção do desejado destino.

    Chegada a altura própria, subi ao pódio e fiz a minha oração, pleiteando a favor da dignidade da cidade, da fealdade do coiso, da nobreza do local por ele desfeado, da desproporção dos pedregulhos em relação ao espaço, e propondo uma espécie de concurso de ideias para saber o que lá se havia de pôr, problema que nem no tempo do chamado fascismo houve quem tivesse coragem para resolver.

    Foi uma bronca dos diabos. A esquerda em peso ergueu-se contra mim. Que o que eu queria era acabar com o 25 de Abril, que o autor do mamarracho era um tipo indiscutível, um luminar das nossas artes, e pá-tá-ti e pá-tá-tá.

    Fiquei banzo. Como é que se argumenta contra uma coisa destas? Nunca me tinha passado pela cabeça que um piço de ciclópicas dimensões a urinar de baixo para cima, cercado de informes calhaus, tivesse alguma coisa a ver com o dito 25. Quando chegou a vez da dona Ana Sara Brito, a coisa atingiu as raias da loucura. Que um símbolo fálico é um sinal de liberdade, que o fascismo se oporia àquilo e que, por isso, era uma coisa daquelas que devia figurar como indelével testemunho da libertação dos povos… e por aí fora.

    Depois da intervenção da senhora, caí na asneira de dizer que a segunda metade do século vinte tinha assistido à libertação e dignificação da mulher, e que dificilmente compreendia que um falo pudesse ser sinal disso, antes pelo contrário. A senhora perorou contra a bestialidade da minha posição, a esquerda aplaudiu-a freneticamente, e a minha humilde proposta foi liminarmente chumbada pela maioria de esquerda à época existente*.

    Fiquei, pois, a conhecer a dona Ana Sara Brito e a sua admiração pelas virtualidades libertadoras dos símblos fálicos. Tal convicção, porém, viria a ser contrariada pelos acontecimentos. Um belo dia, levantou-se na Assembleia uma questão importantíssima. Tratava-se de uma anafada cidadã que se queixava da Câmara por esta lhe ter recusado uma casinha nova para viver. Ao princípio, não percebi bem do que se tratava. Veio dona Ana Sara Brito, empolgada por justa indignação, esclarecer as massas sobre o assunto. Assim: os pais da anafada criatura foram contemplados com uma casa da Câmara, em substituição do pardieiro onde, julgo, viveriam. A filha, como é normal, iria viver com os pais. Mas, ó desgraça, a rapariga era lésbica e queria levar com ela a namorada. Os pais puzeram os pés à parede. Reaccionários, declararam que não queriam porcarias lá em casa e recusaram abrigo ao casalinho. A fulana, com o apoio da dona Ana Sara Brito, resolveu reclamar da Câmara uma casinha nova para ela e para a esposa, já que era despejada de onde vivia e não tinha onde ir morar, dada a jurássica posição dos papás. Dona Ana Sara Brito não só fez um discurso inflamadíssimo defendendo o “direito inalienável” à habitação que assistia à anafada, e a estritíssima obrigação da Câmara de lho garantir sem cuidar do inaceitável dictat do papá e da mamã.

    Dias depois, dona Ana Sara Brito encabeçava uma manifestação à porta da Assembleia, com cartazes alusivos aos direitos das lésbicas em geral e da anafada em particular.

     

    Num conjunto mais ou menos anodino de ilustres desconhecidos, Costa apresenta, à sua esquerda, dona Ana Sara Brito. A senhora, que deve caminhar freneticamente para os setenta (sim, não se trata de nenhuma miúda), vai ser eleita vereadora em Lisboa.

    Aqui têm os meus leitores mais uma boa razão para votar no Costa.

     

    António Borges de Carvalho

     

     

    * Hoje a maioria é de direita, mas não sei se, sob a direcção da dona Paula da Cruz, não aconteceria o mesmo à minha proposta. Tenho até legítimas dúvidas de que pudesse ser admitida pela mesa.
  • PROTEGENDO A JARARACA

    O insigne Deputado Martins, altíssimo representante da maioria no poder, declarou que o processo movido pela jararaca do Ministério da Educação ao autor de umas bocas sobre Sua Excelência deve ser levado até ao fim, só depois o PS se pronunciando sobre tão comezinha questão, se achar que se deve pronunciar.

     

    Tudo o que havia a dizer a este respeito já foi dito. Das obscuras profundezas do Irritado às luminosas alturas do nacional constitucionalismo, não houve quem se não pronunciasse.

    Só nas excelsas paragens socialistas se está à espera do resultado da pidesca iniciativa. Só nas excelsas paragens socialistas as coisas não são claras enquanto não houver um veredicto da policiesca comissão de inquérito, devidamente nomeada pela acusadora e, como tal, de uma imparcialidade a toda a prova.

    Só nas excelsas paragens socialistas é mais importante proteger os apaniguados do que respeitar princípios elementares, que isto de princípios está fora de moda, e os aparatchiks estão, enquanto tal, bem acima de quaisquer princípios.

    O Irritado pergunta a si próprio como é que este Martins pode ser o que é. Mas fica a falar sozinho, já que os tipos são todos iguais, estão a coçar-se no poder e bem se coçam nele.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • SENTIDO DA DIGNIDADE E DO RIDÍCULO

     

     

    Calcule-se que os meritíssimos juízes da 4ª Vara do tribunal da Boa Hora encontraram “um rato em estado de decomposição num gabinete”. O referido cadáver estava escondido dentro de um cachecol “que se encontrava dobrado numa prateleira da mesa de um computador”.

    Mais. Os mesmos meritíssimos juízes acham que, para além de haver ratos nas instalações, os autoclismos do Tribunal quase não funcionam, estando as instalações sanitárias, a partir das 14 horas (note-se a precisão da coisa), de tal maneira cheias de caca e de xixi que se tornam “praticamente inutilizáveis”.

     

    O primeiro problema que esta extraordinária notícia põe é o de saber se o rato entrou no cachecol pelo seu pé, ou foi nele colocado por algum díscolo apostado pregar uma susto a algum incauto funcionário, algum meritíssimo juiz ou, simplesmente, ao dono do cachecol.

    Na primeira hipótese, e uma vez que, nesta época do ano, não se usam cachecóis, haverá que pôr, muito seriamente, a questão de saber se o computador junto ao qual o rato foi expirar já não era utilizado desde o Inverno, ou se é de norma os funcionários utilizarem as secretárias para depósito de abafos, uma vez que a agonia do mamífero se processou sem que ninguém mexesse, durante longo tempo, no cachecol, o que implica graves problemas disciplinares (ausência injustificada do serviço, abandono de funções, etc.).

    No caso de o rato lá ter sido posto por mão humana, o caso não é para menos. Gravíssimas suspeitas se levantam. Ou não há segurança no Tribunal e algum fundamentalista da anarquia penetrou nas instalações com a tenebrosa intenção de pôr ratos defuntos nos cachecóis que repousam dignamente sobre as secretárias, ou alguém, funcionário ou juiz, o fez, no propósito, ou de pôr em causa os sentimentos higiénicos dos seus pares, ou de chamar a atenção para os cachecóis esquecidos em cima das secretárias, ou ainda, o que é mais grave, de pôr a nu a ausência injustificada e prolongada do respectivo utilizador.

     

    Matérias que, como é evidente, deviam ser objecto de imediata investigação e procedimento judicial.

     

    O problema das retretes também não pode ser minimizado.

    Numa primeira abordagem, é-se levado a pensar que os funcionários e juízes cagam demais, o que deve ser objecto de cuidados acrescidos no que respeita à sua alimentação. Uma vez que o problema se agudiza a partir das 14 horas, seria, por exemplo, de proibir os funcionários e magistrados de comer feijoada ao almoço.

    Convenhamos que poderá haver outras causas para justificar a infeliz circunstância. Talvez se pudesse recorrer ao Instituto Nacional de Estatística. Esta instituição pública deve poder fornecer à 4ª Vara os dados necessários à resolução do problema: número de cus por cagadeira, ratios de produção de caca por cabeça, velocidade de propagação de eflúvios merdais, e outros elementos a usar na determinação do número e da qualidade de latrinas necessárias à 4ª Vara. Além disso, dados como os referentes à mão de obra especializada necessária à limpeza das ditas, à quantidade de piaçabas, etc., seriam utilíssimos para o encontro de uma solução condigna.

     

    Enfim, aqui ficam algumas humildes sugestões do Irritado, destinadas a fornecer pistas para a resolução do ingente problema dos ratos mortos e do fedor da 4ª Vara.

     

    ***

     

    O Irritado não inventou esta história. Ela vem nos jornais. Os meritíssimos juízes da 4ª Vara queixaram-se do rato morto e do cheiro da caca à Direcção Geral de Saúde e ao Inspector Geral do Trabalho.

    Não contentes com isso, chamaram os tipos da Lusa para lhes dar conta do feito. Os tipos da Lusa, como é sua função, espetaram com a coisa nos jornais.

     

    Ou seja, os meritíssimos juízes não perderam só a noção do ridículo, perderam também a noção da sua dignidade de magistrados. E da nossa. É que devíamos ter o direito a poder acreditar que na dignidade deles.

     

    António Borges de Carvalho
  • NOTAS DE TERÇA-FEIRA

     

    Uma Delícia

     

    Anuncia quem sabe que dona Maria José irá votar no candidato Costa, sim, no do partido socialista, pois, esse, o da Ota, o que diz que quer que o governo tome conta de Lisboa, sim, pois, esse mesmo. Em abono da verdade, refira-se que a distinta senhora esclarece que, para já, “poderia”, “mas, neste momento, não posso dizer que vou votar em António Costa”. Quem quiser decifrar que decifre.

    Faz-me lembrar um padre lá das beiras que, há uns vinte e tal anos, me dizia mais ou menos assim: Eu sou padre, não tenho política na igreja. Mas cá fora, sou um cidadão. Ainda no domingo, na homilia, o afirmei bem claro aos meus fiéis, dizendo-lhes: meus irmãos, eu aqui não digo a ninguém para votar na AD, mas lá fora digo, ai digo digo!

     

    Verdade é que les bons esprits se recontrent.

     

    A nobre senhora, distinto membro da bancada do doutor Oliveira Salazar, vencedora do concurso “O Maior Português”, vota no candidato socialista.

    Segundo os formadores de opinião, esta preclara atitude permitirá ao senhor Costa “caçar alguns votos aos seus concorrentes da direita e também a alguns simpatizantes da ex-militante do CDS/PP”.

    Mais um favor que os lisboetas ficam a dever a tão ilustre quão ambiciosa (diz-se) personalidade. Não lhe chegou ter dado cabo da coligação, ter posto o seu partido na rua, tudo, diziam os mal intencionados, para dar oportunidades ao PS. Vem agora dar uma ajudinha mais concreta, mais directa, mais comprometida.

    Santa inteligência!

    O Irritado, que insiste em achar que o doutor Oliveira Salazar era socialista, fica deliciado com a genial atitude da dona Maria José.

     

     

    Um Exame à Altura dos Objectivos do Governo

     

    Pela primeira vez na história, um exame de português foi considerado facílimo pela esmagadora maioria dos alunos. Pela primeira vez na história, houve um exame de português que não tinha perguntas de… gramática.

     

    Assim se vê o desvelo com que o governo trata da “qualificação” dos portugueses. A coisa toca as raias da genialidade. Pois se era uma vergonha a malta chumbar, o remédio é tornar a coisa de tal maneira fácil que tudo passa minha gente.

    As estatísticas agradecem.

     

     

    Transparência mas Pouco

     

    Não há quem não ande para aí preocupadíssimo em saber quem pagou o estudo do engenheiro Vanzeler.

    E os outros? Quem pagou e quanto? Foi o Camões? Porque é que ninguém pergunta tal coisa?

    Isto de ninguém se preocupar em saber quanto custaram os inúmeros estudos que foram, tudo indica, pagos pelos nossos tristes bolsos, e andar tudo histérico a indagar quem usou meios próprios (quer dizer, não de terceiros) para pagar o do engenheiro Vanzeler, é coisa que põe o Irritado fora de si.

     

     

    Separados de Facto

     

    A dona Ségolène deu com os pés ao senhor Hollande. Uns dizem que foi por querer ser ela a chefe, no lugar dele. Outros que ele andava metido com uma secretária, ou coisa que o valha. Razões de peso, uma e outra.

    Politicamente, parece que a dona Ségolène quer virar à direita e que o senhor Hollande à esquerda. Razão pela qual o “matrimónio” não podia funcionar. Se ela dormia do lado direito e ele do esquerdo, ficavam sempre de costas…

     

     

    Chapeau

     

    O Irritado não é, nem nunca foi, admirador do ex-edil João Soares. Mas tira-lhe o chapéu. O homem tem a coragem de defender a manutenção da Portela e de condenar a Ota. Pode ser que tudo não passe de uma jogada. Mas, para já, chapeau.

     

     

    Novas Contratações

     

    Em plena saison, e com a pompa informativa que a coisa merece, o dr. Mendes anunciou a remodelação da sua equipa para a próxima época.

    Como é sabido, pelo menos dois avançados abandonaram a equipa, um por inconfessas razões (L. Paes Antunes), outra para se dedicar a tempo inteiro a fazer a vida negra à cidade de Lisboa (P. Teixeira da Cruz).

    O dr. Mendes vai nomear, para posições de destaque na frente e nos flancos, personalidades da craveira de um Bernardino Vasconcelos, de um Amaral Lopes (sabem quem são?) e, ó maravilha, de um… Macário Correia! Uma plêiade de verdadeiros craques.

    Ao que consta, e para espanto do Irritado, o Prof. Calvão da Silva presta-se a fazer parte disto. Vá-se lá saber porquê.

     

     

    Independentes e Descomprometidos

     

    Um grupo de cidadãos “não afectos a nenhuma das 12 candidaturas à Câmara de Lisboa” resolveu organizar-se para discutir o que “fazer absolutamente” e o que “não fazer absolutamente” cá no burgo.

    Para se avaliar da “independência” e do não comprometimento dos promotores da iniciativa, veja-se aquilo a que chamam “pessoas tão variadas como”: Vicente Jorge Silva, Augusto Mateus, Gonçalo Ribeiro Telles, Manuel Graça Dias, António Barreto, Manuel Vilaverde Cabral…

    Ou seja, pessoas tão variadas… que são todas de esquerda, com especial incidência em amigos do “Zé”, não do Zé propriamente dito mas do Fernandes.

     

    Ah! Grandes cidadãos! Isto é que é independência! Desinteresse político! Honestidade! Procura do bem público!

    Parabéns! Que pena tem o Irritado por não poder estar presente e gozar da luz e da pluralidade do pensamento de tão insigne gente!

     

    E.T. Hoje, informa a imprensa que, na sessão promovida pelos impolutos cidadãos acima referidos, o genial Ribeiro Telles se aplicou a fundo a defender as hortas em Lisboa. Caso o seu protegido Fernandes ganhasse as eleições, lá teríamos que ir comprar uns sachos e cultivar rabanetes nas avenidas novas. O grande educador dos arquitectos que dá pelo nome Teotónio Pereira, esse, acha que, se houvesse uma autoridade metropolitana de transportes (uma ideia do dr. Santana Lopes)… não haveria túnel do Marquês (uma ideia do dr. Santana Lopes)… Fenomenal! O mesmo senhor não se fica, porém, por aqui. Na sua douta opinião, duplicar os impostos aos proprietários de fogos devolutos é coisa “demasiado branda” para punir a sua criminosa atitude. Deviam ser muito mais penalizados. Nunca ninguém ouviu o grande educador protestar contra as muitas centenas de triliões de contos que o estado roubou aos tais proprietários por causa da história das rendas. Nem jamais alguém o ouviu protestar contra a monumental pessegada do NRAU. Quando se trata, porém, de malhar em quem investiu em habitação para ser enganado pelo estado, lá está ele, como um lobo, a arranjar bodes espiatórios… E mais. Para o ilustríssimo intelectual, hotéis no Terreiro do Paço, que horror, nem pensar.

    Pobre Lisboa, minha querida terrinha!

     

     

    António Borges de Carvalho
  • À ATENÇÃO DE DONA JUDITE

    Calcule-se que a BBC pediu desculpa a um político porque uma entrevistadora não deixou o entrevistado dizer o que tinha a dizer, antes passou o tempo a interrompê-lo, a atrapalhá-lo, a dar-lhe cabo do juízo.

     

    À atenção da RTP e da dona Judite de Sousa.

     

    António Borges de Carvalho
  • SUGESTÃO MONUMENTAL

     

    A Exmª directora de uma coisa qualquer lá do Norte obteve, finalmente, a notoriedade que, com certeza, há muito ambicionava. O Diário de Notícias encarregou-se da a pôr na primeira página, com manchete e fotografia, dando-lhe, outrossim, largo espaço nas interiores. A nobre senhora, rezam as crónicas, milita há largos anos no PS, onde até parece que é membro de uma comissão qualquer. No entanto, coitada, para além da notoriedade caseira, não passava de obscura burocrata, com o labéu, propalado por invejosos, más-línguas e machistas, de ter chegado ao cargo actual mais por uma questão de jobs for the girls do que por ser… educadora de infância.

    A distinta funcionária deixa-nos, preto no branco, alguns tesourinhos deprimentes, como se diz agora. Coitada, é perseguida por ser mulher, ela, que só moveu setecentos e tal processos disciplinares, ela, coitada, que tem um esquema montado para que os queixinhas lá do sítio delatem sobre os desmandos dos seus horrorosos funcionários, ela que é odiada pelos PSD’s e pelo padre não-sei-quantos lá do Minho. Pobre senhora!

    Ela não mandou o padre para a sacristia, ele é que é um aldrabão. Ela, que esteve reunida com o homem, não sabe o que lhe disse. Sabe que não disse o que o homem diz que disse. E sabe o que o Charrua disse, porque lho disseram por SMS, e acredita no SMS e não no Charrua.

    Ou seja, uns dizem que é branco, outros que é preto. Só que uns têm poder sobre os outros e, como é habitual na nossa terra, ter poder é meio caminho andado para ter razão. É o que se passa com os polícias. A nossa palavra, perante a dos polícias, habitualmente não vale um caracol, não é?

    Como o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) está numa de comandar todos os polícias, é de esperar que a senhora, numa próxima oportunidade, seja promovida – por mérito próprio, como é óbvio – a directora do SIS, ou coisa que o valha.

     

    Uma sugestão aos que mandam:

    No fim do Campo Grande, no sítio onde estava a estátua do Carmona, talvez se pudesse erguer um obelisco simbólico destinado a perpetuar a nobreza de carácter dos bufos, dos delatores e dos queixinhas, novos heróis da democracia socialista. Num painel de mármore branco, a letras douradas, dar-se-ia conta dos processos levantados à canalha e das suas consequências. A concelhia de Lisboa do PS ficaria encarregada da actualização permanente da coisa. Para a oração de sapiência na cerimónia de inauguração, convidava-se o Zé e, para abrilhantar, requerer-se-ia a augusta presença da senhora directora e, é claro, do seu chefe.

     

    António Borges de Carvalho
  • GRANDE CHÁVEZ!

    O Irritado é de uma ingenuidade inacreditável. Então não é que julgava que, amigo do Hugo Chávez era só aquele minorca secretário de estado que foi a Caracas e veio de lá apaixonado pelo homem, tão apaixonado que até o convidou a visitar o rectângulo?

    Afinal, o amigo Chávez tem por cá mais adeptos, e dos bons. O dr. Mário Soares veio ao “Expresso” expressar a sua admiração pelo grande democrata e homem de Estado que manda na Venezuela. Sim, meus amigos, para o nosso mui ilustre ex-presidente, o facto de o fulano fechar umas televisões, mandar prender uns jornalistas incómodos, nacionalizar a torto e a direito, é coisa que tem a ver com naturais diferenças quanto à forma como se encaram certos valores. Sim, senhores, porque os nossos valores não se aplicam assim, sem mais nem menos, em toda a parte. Há diferenças. Importante é reconhecer que o Chávez é um patriota, um homem que quer unir a América do Sul contra os gringos, um bolivarista (até ofereceu ao dr. Soares uma espada igualzinha à do Simão, vejam lá), “um homem de convicções”.

    Os valores do dr. Soares são óptimos para criticar os eventuais malefícios do senhor Bush, mas não se aplicam quando se trata de um tipo de esquerda. Porque, para o dr. Soares, como para as anãs gomes e companhia, se um esquerdista persegue uns chatos porque têm opiniões diferentes, enfim, é coisa de somenos e não desmerece do patriotismo e das belas intenções do fulano. Mas, se se tratar de um tipo à direita que trata com mão de ferro uns putativos assassinos em massa, isso (a mão de ferro, não os assassínios), meus caros, é um crime contra a humanidade!

    Afinal, o minorca secretário de estado é um herói.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • AQUI HÁ GATO

     

    A semana tem sido marcada pelo chamado “Estudo da CIP”.

    O senhor Vanzeler foi a Belém, a São Bento, à RTP e à SIC no mesmo dia, dizendo que tal estudo “já há muito estava a ser feito”, que não diz quem o pagou, que se abre aos olhos do povo uma solução alternativa à da Ota, etc.

    A tropa, que sempre se tinha oposto à solução Alcochete, surge a dizer que sim senhor, que se quiserem Alcochete, muito bem, a tropa não se opõe, a tropa encontrará “soluções alternativas” para os seus tirinhos, num alarde de nunca vista “cooperação institucional”.

    O povo fica muito satisfeito. O povo nunca entendeu a brutal asneira da Ota e, parvo como de costume, acha que se acendeu uma luz no tenebroso túnel onde regouga o inenarrável Lino.

    O ex-engenheiro manda dizer que dá mais seis meses ao povo para discutir o assunto.

     

    Há aqui vários gatos.

    Quem encomendou o estudo?

    Quem o pagou?

    Porque aparece o estudo agora, e não quando ficou pronto?

    Quem promoveu a coisa?

    Porque é que aparece o senhor Vanzeler a promover a coisa, sem sequer a ter feito passar pelas instâncias normais da CIP?

    Porque é que o ex-engenheiro, de repente, deixou de ser teimoso?

    Com que intenção, ou intenções, a coisa aconteceu?

    Anda alguém a enganar a malta?

     

    Ora bem. Rezam as crónicas da rua que o estudo foi encomendado pela Associação de Turismo de Lisboa, e pago por ela, pela Câmara Municipal e por mais alguém que a rua ainda não descobriu quem fosse.

    Não conviria, diz a rua, que o estudo surgisse patrocinado por quem o pagou, porque poderia parecer que alguém estava a querer julgar em causa própria, como sucede com a plêiade de cretinos do Oeste que andam para aí a enganar o povo dizendo que a Ota é que é bom para o país.

    Era, pois, preciso que surgisse uma terceira entidade, mais ou menos independente, a revelar a coisa. A CIP pareceu óptima a quem está por trás disto. Haveria que montar uma operação “credível”.

    E assim se fez. O senhor Vanzeler prestou-se à coisa, a mando, diz a rua, ou do ex-engenheiro, ou de SEPIIIRPPDAACS, ou dos dois. Várias reuniões, diz a rua, tiveram lugar. Em São Bento, o senhor Vanzeler ficou uma boa meia hora a falar com o ex-engenheiro, depois de uma reunião formal com mais gente. Também consta que teve conversações prévias em Belém, ou com Belém, o que é verosímil dadas as boas relações institucionais, pessoais e matrimoniais que o senhor Vanzeler tem na Praça do Império.

    Teremos, assim, uma conjugação de vontades.

    SEPIIIRPPDAACS, é sabido, gosta tanto da Ota como o povo. É natural que tivesse dado, e muito bem, um empurrãozinho ao senhor Vanzeler.

    Já no que diz respeito ao ex-engenheiro, a coisa fiará mais fino. É preciso pensar um bocadinho para perceber onde o homem quer chegar. Especulemos. Qual foi o efeito imediato do estudo? A quem convém a suspensão da decisão por seis meses? Quem é o principal beneficiário de tal suspensão? A resposta é fácil: quem lucra com a coisa é o senhor Costa e o PS. O senhor Costa não podia podia continuar a apresentar-se às pessoas como “amigo” de Lisboa e, ao mesmo tempo, a andar para aí a defender a Ota. Estando a coisa suspensa por seis meses, o senhor Costa passa a responder que a questão não se põe, que é uma decisão a ser estudada e que, a seu tempo, terá ocasião para defender os interesses da cidade. Nem sequer precisa de aldrabar mais as pessoas com jardins na Portela e coisas do género.

    Aqui temos uma jogada de mestre. O homem, afinal, merece ser engenheiro, dada a forma com “engenheira” a opinião pública.

     

    Para manter o “Oeste” nos varais, o Lino dos desertos reune com a trupe dos presidentes de câmara. Garante-lhes que a Ota é que é bom. Os fulanos saem do Terreiro do Paço a cantar vitória, satisfeitíssimos. Está tudo na mesma, afirma, triunfante o porta-voz da trupe. Isto quer dizer o que quer dizer: o Lino dos desertos garantiu-lhes que, sendo especialista em camelos, não cede um milímetro aos animais. Tudo confirma, para quem quiser perceber, a jogada do ex-engenheiro.

     

    Costa exulta. Não vai precisar de descalçar a bota da Ota. Rima, e é verdade. Alguém lha descalçou.

     

    SEPIIIRPPDAACS deve andar às voltas, nos dourados corredores do palácio, a estudar o passo seguinte. E se os tipos, seis meses passados, com a Quercus a arreganhar o dente, os empreiteiros a lobiar como doidos, o PS a fervilhar pelas ruas, chegam à conclusão, ou voltam à conclusão, de que a Ota tem que ser? SEPIIIRPPDAACS coça o queixo, a pensar na próxima jogada.

     

    O Irritado, humildemente, deseja as maiores felicidades ao pobre senhor. Ou ele nos safa desta, ou não sei como nos havemos de safar.

     

    António Borges de Carvalho