IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • PORNOGRAFIA INFORMATIVA

     

    Desde os tempos do já falecido, e bem intencionado, Dr. Magalhães Mota, que a classe política se dedica, paulatinamente, a perseguir-se a si própria.

    Aos poucos, e aos muitos, os políticos, pelo simples facto de o ser, passaram a objecto de suspeita. Negando princípios básicos do estado de direito, qualquer eleito passa à categoria de presumível agente de corrupção. Em vez de se lhe aplicar, eventualmente com tolerância zero, a lei geral, é objecto de leis especiais – em si mesmas a negação do que é a Lei – que os transformam em cidadãos de segunda, quer tenham cão, quer não. É normal que, nestas condições haja tanta gente a fugir da política, não por não sentir pulsão para a luta e para o serviço público, mas por não se conformar com a “transparência” e com as cunhalistas “paredes de vidro” a que ficariam sujeitos se a ela cedessem.

     

    Vem isto a propósito da publicação de documentos que a sanha persecutória tornou públicos, desta vez relativos aos bens e aos rendimentos dos ex-presidentes Soares e Sampaio.

    O Irritado não é admirador nem de um nem de outro. Jamais neles votou, ou votaria. O que não quer dizer que ao Irritado interesse o que têm, o que não têm, o que gastam ou o que recebem. Se cometerem algum crime, pois que a lei lhes caia em cima, como cidadãos que são. Caso contrário, têm todo o direito a estar sossegados e a conservar tais dados no domínio da sua privacidade. As suas declarações de impostos deveriam ser, como as da generalidade dos cidadãos (até quando?), do seu próprio conhecimento e do das finanças, as quais, se o sistema fosse informado por alguma sombra de moralidade, as guardariam com a apropriada confidencialidade.

    Que direito tenho eu de saber que o Presidente Soares tem um Renault 16, ou que o Presidente Sampaio tem 72 acções do Sporting? Que direito tenho eu de saber das dívidas do Presidente Sampaio à banca ou das propriedades do Presidente Soares?

    A publicação destas informações não passa de pura pornografia jornalística, jurídica e institucional.

    Para gozo dos moralistas de pacotilha que fabricam estas coisas e que, pelo menos, não acreditam na lei nem no direito – se acreditassem bastar-lhes-ia que os políticos, como os demais cidadãos, se lhes submetessem – criou-se uma teia perversa que, fundada em demagogias soit disant “éticas”, tem, como é fácil compreender, um efeito devastador na governação do país e produz o contrário do que diz servir-lhe de fundamento, isto é, afasta as pessoas de bem da política, em vez de as aproximar.

     

    O Irritado não tem ilusões quanto ao futuro. No ambiente marcadamente policial em que vivemos, será cada vez pior. Até à implosão final?

     

     

    António Borges de Carvalho

     

  • DEMAGOGIA E INFORMAÇÃO

     

     

    Aqui há tempos, citava o Irritado uma definição de demagogia, mais ou menos assim: demagogia é utilizar dotes oratórios, e não só, para vender promessas agradáveis que não se tem intenção de cumprir.

    Já que o mote dos jornalistas e comentadores ao serviço do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), na semana passada, foi o do “passado” (leia-se da coligação PSD-CDS), talvez não seja mau ir a um passado mais recente, o do dito senhor.

     

    Lembremos, ao calhas, algumas promessas:

    – Os impostos não vão aumentar;

    – Vão ser criados 150.000 postos de trabalho;

    – Não haverá portagens nas SCUTS.

     

    Aconteceu como segue:

    – Os impostos aumentaram de uma forma brutal;

    – O desemprego aumentou para números nunca vistos;

    – Não só se vai pagar portagens nas SCUTS como, por via fiscal, se vai pagar em todas.

     

    Tudo isto é, rigorosamente, verdade.

     

    Apesar disto, não houve um só escrevinhador a chamar ao senhor Pinto de Sousa (Sócrates) aquilo que, acima de tudo, ele é: um demagogo, um fulano que promete o que sabe que não vai cumprir.

     

    Os escrevinhadores entretiveram-se (a crónica de Fernando Madrinha chega aos píncaros da coisa) a descrever o quão inútil é falar no “passado”, já que o passado está definitivamente julgado nas urnas.

     

    É verdade que a demagogia do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) conquistou o poder. É verdade que a propaganda e o paleio do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) continuam a produzir os seus devastadores efeitos.

     

    Mas também é verdade, embora ninguém o diga:

    a)      Que não foi o Dr. Santana Lopes quem provocou a discussão sobre o passado;

    b)      Que foi o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) quem o fez, quem falou de tudo menos do orçamento, quem converteu a discussão orçamental num anúncio de medidas que podiam caber noutro momento qualquer, isto é, quem arranjou matérias para fugir à discussão do que estava em causa e usou truques para a evitar, eximindo-se, até, de responder às perguntas que, sobre a “matéria dos autos”, lhe eram colocadas;

    c)      Que foi o PSD (Patinha Antão e Santana Lopes), o CDS e os partidos comunistas quem falou do orçamento, enquanto o inacreditável ministro da presidência lia um ainda mais inacreditável trabalho de casa sobre o “passado”, não sobre o orçamento.

     

    O “passado” talvez tenha sido julgado nas urnas. Mas, até hoje, ainda ninguém foi capaz de vasculhar em tal passado e de encontrar, como no governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), um défice de 6%, ou 8% de desemprego, ainda ninguém foi capaz de criticar que o mesmo senhor tenha feito, no governo, precisamente o contrário do que, meses antes, propagandeava na televisão, ainda ninguém foi capaz de martelar que o equilíbrio orçamental, no negregado passado (Ferreira Leite e Bagão Félix), era procurado à custa das gorduras do Estado e, agora, das magrezas dos cidadãos.

     

    A massa dos comentadores e jornalistas que, desgraçadamente, nos bombardeiam com notícias e opiniões, dedica-se, pelo contrário, à nobre tarefa de incensar o senhor Pinto de Sousa, de machadar no “passado”, de opinar sobre duelos oratórios e de atirar, sabe-se lá porquê, toneladas de areia para os olhos das pessoas.

    A demagogia tem os seus adeptos, e os seus adeptos têm um poder dos diabos.

     

    António Borges de Carvalho
  • TRAFULHICES

    DO EUROSTAT

    (site Eurostat):

     

     PORTUGAL

     

    General Public Government debt (% GDP)

    (consolidated general government debt)

     

     

    2002           – 2.9 (Durão Barroso)

    2003           – 2.9 (D.Barroso)

    2004           – 3.2 (D.Barroso/Santana Lopes)

    2005           – 6.0 (Pinto de Sousa – Sócrates)

     

     

    DO IRRITADO:

     

    Veem? (nova ortografia CPLP)

    Veem?!!! (nova ortografia CPLP)

     

    *

     

     

    Já que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), à boa maneira leninista, vai repetindo a mentira até que se torne verdade, repitamos nós a verdade, na esperança de que se não torne mentira.

     

    Ao serviço do PS, o Dr. Constâncio “fabricou” um défice fantasma de 6,82%, ou coisa que o valha. Assim. Uma previsão, um guess, um bocado à maneira de quem diz: se a minha avó tivesse rodas era um carro eléctrico. Assim. Proporcionando ao camarada Sousa a possibilidade de dizer que baixou 0,85% um défice que, na verdade, contas feitas, aumentou 2,8%.

     

    Vêm?

    Qual é, Senhor Presidente, a moeda má?

     

     

    António Borges de Carvalho

    APOSTILHA

    Mal acabara de publicar este post quando me vieram trazer o "Diário de Notícias". A folhas 7, uma fotografia do Ministro das Finanças, rindo alarvemente, a mostrar um papel. A legenda reza assim: "Entre os vários documentos que mostrou, Teixeira dos Santos lembrou que o défice em 2004 era de 6,8%".

    Lapidar!

    Na opinião do espantoso governante, os tipos do Eurostat não devem passar de uma cambada de aldrabões. Umas bestas.

    Eu sei que o que o fulano quer dizer é que o défice seria de 6,8% se, e se, e se… isto é, torna-se legítimo pensar que a avó de Sua Excelência é mesmo carro eléctrico.
  • PRIORIDADES

    Parece, ou dir-se-ia, que a Democracia se ancora, ou depende, da decisão individual de cada cidadão, sendo o exercício do poder, e a oposição a ele, determinados pelo somatório das vontades individuais livremente expressas. É na solidão da cabine de voto que o poder se determina. É na solidão da cabine de voto que se dá legitimidade ao exercício do poder. Daqui que, na sociedade maior, o Estado, o único legítimo interlocutor do poder seja o cidadão, como, nas sociedades menores, serão os seus membros, cada um dos seus membros.

    Isto, no plano dos princípios.

     

    Na vida, porém, as coisas passam-se de forma diferente. Aos poucos, a partir de um conceito a que a Constituição chamou “democracia participativa”, passou a haver interlocutores intermédios que, não podendo, legitimamente, representar mais dos que os seus aderentes, actuam e são aceites pelo poder como mandatários de um universo que lhes é alheio. O Estado, as autarquias, o poder e os poderes, preferem o diálogo com tais “representantes” ao confronto com os cidadãos enquanto tal. A “democracia” piramidal faz, assim, o seu caminho nas frinchas que os democratas deixam abrir nas muralhas da sua fortaleza. À la limite, é a democracia representativa o que fica em causa.

    Dir-se-á que o poder e os poderes podem, com toda a legitimidade, consultar os corpos sociais, as sociedades menores, na formação das suas tomadas de decisão. Com certeza. O que se não confunde, ou não se devia confundir com a atribuição a tais corpos da representatividade dos cidadãos sobre cujo universo pretendem actuar.

     

    Peço desculpa por esta filosófica arenga., talvez imprópria do Irritado.

     

    Alguns exemplos, entre milhares, para a justificar:

    Há, oficialmente, decisões autárquicas que dependem da vontade de comissões de moradores, as quais, não representando mais que os seus associados, são tomadas como representantes de todos os interessados.

    Já houve (não sei se a prática continua) consultas públicas da Assembleia da República das quais eram expressamente excluídos os cidadãos enquanto tal, só a colectivos de diversa ordem sendo dado o direito de exprimir a sua opinião.

    Li hoje que o ilustre presidente da câmara de Lisboa lançou a iniciativa do “orçamento participativo” – estranho aranhiço que já tem teias em várias partes – em cuja discussão “embora o público possa participar” (ó caridade!), se dá especial prioridade, “por esta ordem”, às “associações de moradores”, às “organizações da sociedade civil” (o que é isto?) e às Juntas de Freguesia. Ou seja, dos interlocutores colectivos, a última prioridade é conferida ao único que goza de legitimidade política para representar os munícipes. Os indivíduos, os cidadãos, os munícipes, esses, “embora”, por certo a contra gosto do autor da iniciativa, possam participar, são os últimos dos últimos, e só poderão dizer de sua justiça depois de ouvida a Associação das Lésbicas do Bairro do Taxa, o Grupo Futebolista dos Solteiros e Casados da zona J, o Núcleo Revolucionário dos Moradores da Lapa… e, já agora,… as juntas de freguesia!

     

    Daqui que, às vezes, não seja despicienda uma ponta de reflexão sobre os princípios que informam, ou deviam informar, um sistema democrático digno de tal nome.

     

    António Borges de Carvalho
  • AS MINHAS DESCULPAS

    Alguns leitores do Irritado tiveram a amabilidade de se queixar de falta de notícias ao longo destes últimos quinze dias. Agradeço e peço desculpa. A verdade é que andei a banhos por terras de Sua Majestade (Canadá), e deixei de pensar na nossa pobre piolheira.

    Regressado, tive algumas dificuldades de readaptação. Tão grandes que ainda não li, nem o Expresso nem o Sol(crates). Nem vou ler.

    Que diabo, às vezes temos que nos libertar das grilhetas desta coisa, nem que seja por duas semanas. Depois, é só esperar calmamente que voltem as irritações.

     

    António Borges de Carvalho
  • LONGÍNQUAS PARAGENS

     

    O Canadá é como é. Bela paisagem. A cidade do Quebeque é uma tara. Come-se pessimamente. Os tipos podiam ser mais simpáticos. Etc. Julgo que não vale a pena maçar os irritáveis com crónicas de viagem.

     

    Interessante, no entanto, é lembrar que o Canadá se governa perfeitamente tendo o Chefe de Estado em Londres e um governador seu representante em Ottawa. Sua Majestade, presente em todas as moedas e nalgumas notas de banco, é o símbolo vivo do passado e do presente, e da esperança num longo futuro. O que é perene, fundamental, substancial e identitário não é sujeito aos baldões da política nem interfere na gestão dos negócios correntes. Existe, simplesmente, como existe a Nação. Confunde-se com a essência dela. No Canadá não há república, nem presidente da república, nem é preciso aborrecer as pessoas a discutir o que não se discute: a existência e a representação do que é tido por imutável.

    No Canadá são escrupulosamente respeitados os valores a que, na nossa aldrabófona e primitiva cultura política, se dá o nome de “valores republicanos”. Respeita-se a moral que se consubstancia nas liberdades públicas e no primado do direito sem lhe chamar, como, indecentemente, pornograficamente, se lhe chama em Portugal: “moral republicana”.

    O Canadá, como o Reino Unido, se vai para a guerra, fá-lo sem “caveats”. Não manda soldados para a guerra, como tantos outros, na condição… de não combater! Só no Afeganistão, já se foram 81 vidas de soldados canadianos. Sem um queixume, sem mariquices públicas nem cenas privadas para terceiro ver. Os combatentes (são aos milhares, desde a Grande Guerra) são acarinhados pelos seus concidadãos e tratados com honra pelos poderes públicos. Na cidade do Quebeque, em Montreal, em Kingston, em Toronto, em Ottawa, toda a gente traz ao peito, em Novembro, a “poppy” britânica de homenagem aos caídos e de respeito pelos que voltaram.

    Os canadianos podem ser menos simpáticos do que seria de desejar. Em política externa, às vezes, até são um tanto nasty. Mas respeitam-se a si próprios, são um povo, uma nação.

    Coisas que a “moral” e os “valores” republicanos, pelo menos entre nós, não levam em grande consideração.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • COMENTARICES ORÇAMENTAIS

     

     

    Ontem, com estes que a terra há-de comer, vi e ouvi o Dr. Santana Lopes dizer no Parlamento que não estava ali para discutir o passado. O “engenheiro” Pinto de Sousa (Sócrates) acusou-o de, por isso, fugir à discussão. A coisa foi rápida. O discurso de fundo viria a ser feito pelo Deputado Antão, com números, críticas e propostas. Hoje, parece, vai haver mais.

     

    À noite, na RTP2, um certo Aguiar foi encarregado de comentar o sucedido. O homem começou por dizer que o Dr. Santana Lopes estava ali para discutir o passado. Depois, passou a afirmar que ninguém fizera as devidas críticas nem falara em propostas alternativas. A seguir, disse que o governo era tão mau como a oposição. E acabou tonitruando com ar sabichão que aquilo era tudo uma cambada de arrivistas e que os “bons” estavam fora da política.

     

    É possível imaginar que o Aguiar tenha aceite o convite da RTP2 (se calhar mediante um cachêzinho, quem sabe?) e não tenha tido tempo de ouvir o debate. Portanto, coitadinho, tem desculpa para comentar tudo ao contrário do que se passou. Ou seja, o Aguiar tinha pré estabelecido uma cassette, segundo os seus altos méritos e criteriosas previsões. Havia de a despejar, à tort ou à raison. Desgraçadamente, foi à tort. Uma maçada.

     

    Já agora, porque é que os aguiares da nossa praça, os “bons”, não vêm iluminar a nossa vida política com a luz deslumbrante do seu alto saber? Porque é que não entram num partido, ou formam um partido (o PB – Partido dos Bons, por exemplo) e não vão à liça para salvar a Pátria? Porque é que badalam os seus blablablás sem sequer saber do que estão a falar e sem se pôr ao serviço da comunidade que, segundo eles, tão mal servida anda?

     

    António Borges de Carvalho
  • QUATRO ANEDOTAS

    1 – Um “responsável” qualquer perorou na televisão sobre o “nascimento de menores”.

     

    2 – A dona Judite, por seu lado, referiu-se doutamente aos trabalhadores com “incapacidade para trabalharem”.

     

    3 – À semelhança de Maniche, Makukula e Fábio Coentrão, o Procurador Geral da  República não sabe, “pensa que”.

     Vá lá vá lá, pensa que, não pensa de que.

     

    4 – O General Eanes vai ser padrinho de casamento do Pinto da Costa. Hi, hi.

    IRRITADO
  • FLEXIGURANÇA

     

    A luta continua. As mesnadas do senhor (Doutor!!!) Carvalho da Silva, acompanhadas de ilustríssimas personalidades da nossa praça, continuam a vir para a rua, para os jornais e para as televisões, com comentadores de serviço e políticos à la carte, manifestar a sua indignação sobre a “flexigurança”, obstruso palavrão que na Dinamarca quer dizer uma coisa, por cá a coisa contrária e, noutras paragens, o que se quiser.

     

    Facto é que, na Dinamarca, onde o palavrão parece ter origem e onde não há salário mínimo, nem indemnizações por despedimento, nem nenhuma dessas tralhas que, em nome do “estado social”, arruinam as economias e desincentivam a produtividade, a flexigurança é um conceito que procura dar mais protecção ao emprego, sem prejuízo de o dito ser considerado como um passo, não como uma situação adquirida e inultrapassável.

     

    Por cá, a coisa quer dizer exactamente o contrário, isto é, como o emprego é considerado um direito que a todos assiste, não uma obrigação em relação à sociedade, flexigurança significa, ou pode vir a significar, que cada um tenha que passar a encarar o trabalho e o emprego como um degrau de uma carreira, não como um patamar onde se assapa para o resto da vida.

     

    Ao aplicar-se a duas sociedades que estão a cósmica distância uma da outra, uma em que a qualidade do trabalho é paga, outra em que se paga um conceito abstracto, uma em que a economia é florescente (et pour cause…), outra que vegeta tristemente à luz de “direitos sociais” que não tem meios para pagar, a flexigurança acaba por querer dizer coisa nenhuma e por constituir, num lado, um certo avanço na segurança e, noutro, um recuo no que se julgava ser o sétimo céu: ter trabalho e ganhar dinheiro pela simples razão de ter nascido.

     

    Entretanto, o senhor (Doutor, caraças!!!) Carvalho da Silva vai tendo motes para arregimentar as “massas”. O seu objectivo não é, nunca foi, melhorar a vida das pessoas, mas contestar a democracia “burguesa” até a conseguir destruir, que é o que manda o PC.

     

    A malta vai assistindo, a economia encolhendo, a pobreza avançando, e o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) anunciando ao orbe as maravilhas da flexigurança.

     

    Não é no Reino da Dinamarca que algo está podre. Shakespeare enganou-se.

     

    António Borges de Carvalho
  • A REPÚBLICA DAS BANANAS

     

    Não sei se vale a pena dizer alguma coisa sobre a já célebre entrevista que Sua Excelência o Procurador Geral da República deu a um jornal. Já se disse tudo, ou quase. Mas não ficaria bem ao Irritado se não se irritasse com a coisa.

     

    Os cidadãos de um país (ou uma república, como agrada a certos ignaros que se diga) onde tão alta instância judicial diz que acha que tem o telefone sob escuta porque ouve uns barulhinhos, têm o direito de perguntar:

    – Afinal, quem governa?

    – Se as escutas são feitas por polícias e os polícias respondem perante o Primeiro-Ministro, então quem é que manda fazer as escutas?

    – Se os fulanos que são pagos para nos “dar” justiça estão à mercê dos polícias do Primeiro-Ministro, então que justiça nos podem dar?

    – Se já se chegou à kafkiana situação de os mais altos magistrados se andarem a escutar uns aos outros, de quem é a culpa?

    – Se o Primeiro-Ministro, bem como o da Justiça, o da polícia, o Presidente da República, os juízes, ninguém tem nada a ver com isso, quem governa?

    – Será a maçonaria? Qual delas?

    – Se Sua Excelência o Procurador geral da República lança atoardas, porque não é, imediatamente, mandado para casa?

    – E se tem razão? Pode mandar bocas assim, sem mais nem menos, sem investigar, sem apontar os culpados?

     

    Enfim, estamos, por obra e graça da política socrélfia, metidos numa república das bananas qualquer, onde quem manda perdeu por completo a noção do que é a dignidade do estado, o que quer dizer a dignidade de todos nós.

     

    António Borges de Carvalho

     

  • A SANTA ALIANÇA

     

    A estúpida polémica acerca do referendo sobre o Tratado – alterado, simplificado, espremido, na mesma, ou lá o que é – teve o condão de irmanar, em doce comunhão de objectivos, o comunista Portas (Miguel) e o super-direitista Monteiro.

    Les bons esprits se rencontrent…

    Num frente a frente qualquer, os dois ilustres políticos expenderam as suas brilhantes teses sobre o que estava em causa. Nada menos que a “democracia”. Ou se “pergunta ao povo” se quer ou não quer o tratado, ou a democracia acabou!

    Em tempos, a Constituição (não de Portugal, mas da República) sabiamente referia que os tratados internacionais não podiam ser referendados. Percebia-se porquê. Nada mais contraditório com o conceito de referendo que um tratado. Onde está, num caso destes, a pergunta simples, concreta, de sim ou não? Quem pode votar sim ou não a tudo o que um tratado diz?

    Os que querem o referendo estão nos antípodas dos que, com alguma lógica, defendem a democracia. Democracia é representação. A democracia directa é mais do agrado dos ditadores que dos democratas. Toda a gente sabe isto. Os que querem o referendo são a imagem do populismo na sua pior expressão, procuram oportunidades de galarim para, com raciocínios primários, apelar ao primarismo dos eleitores e ganhar tempo de antena. O resto é conversa.

    Ter-se-ia podido admitir um referendo antes de “entrarmos” para a Europa: quer que Portugal faça parte de CEE, sim ou não? Ter-se-ia podido admitir um referendo antes da entrada para o Euro: quer que Portugal passe a ter outra moeda, sim ou não?

     

    Perguntar às pessoas se querem ou não querem aquela complicadíssima coisa que se quer chamar Tratado de Lisboa é, objectivamente, trair as pessoas em vez de as esclarecer. Trair a Democracia, trair, em busca de púlpitos de demagogia, o interesse dos cidadãos.

     

    Bem pode a Santa Aliança – contra natura ou nem por isso – do senhor Portas (Miguel) com o senhor Monteiro andar para aí aos berros. Bem pode o camarada Jerónimo, todo contente, berrar também. O referendo, numa matéria como esta, não passa de um miserável embuste e de um puro instrumento de propaganda.

     

    António Borges de Carvalho
  • DA OBLITERAÇÃO DA INTELIGÊNCIA

     

    Há pessoas estúpidas, rezam os manuais.

    Outras há, que não o sendo, têm crises.

    Outras ainda (caso menos comum) deixam-se levar por sentimentos menos nobres, de tal forma que até parecem estúpidas.

     

    Vem isto a propósito do semanário que dá pelo nome de “Sol”, o qual, algumas vezes, o Irritado tem apodado de “Sólcrates”.

    No Sábado, o “Sol” levou ao paroxismo o ódio rebuscado que nutre por Santana Lopes, calcando a inteligência e o distanciamento que qualquer análise minimamente isenta imporia. Tanto o ilustre arquitecto seu director como o seu vice Lima se dedicam a dizer cobras e lagartos do senhor, estendendo-se a sanha persecutória a um desconhecido de nome Ramires, que tem no “Sólcrates” trono permanente por razões que a razão certamete desconhecerá.

    Ele é o artigo de fundo, rancorosa diatribe. Santana Lopes, “macaco de rabo pelado”, que Menezes “teve que engolir” e que “vai trabalhar para si próprio”, terá que ser “vigiado” pelo líder. E, como “engoliu” Santana Lopes, alijou os bons e rodeou-se de “gente de meia idade” (da idade do Saraiva). Como não conseguiu convencer a dona Manuela, perdeu o apoio de Cavaco. Dona Manuela não será de “meia idade”? Meter gente de meia idade, para o ilustre plumitivo, é uma desgraça, a não ser que a meia idade seja daqueles de quem acha que se deve gostar.

    Ele é o “Sol e Sombra”, do senhor Lima, em que Santana aparece ao sol pelos piores motivos, ficando Menezes na sombra por causa de Santana, e Sócrates ao sol deslumbrante da glória.

    Ele é o tal Ramires que, não fazendo a coisa por menos, perora sobre o “veneno” da “serpente”, cheia de “muitos pecados” (Santana), que Menezes “aconchega ao peito”.

     

    Nas entrelinhas, e não só, o elogio aos “notáveis” que, olimpicamente, se quedaram longe do congresso, à espera de melhores dias.

     

    Saraiva e Lima, quando eram empregados do “Expresso”, dedicaram-se a demolir Santana Lopes, semanalmente, sistematicamente, metodicamente, ferozmente. Com a ajuda de Marcelo, Cavaco e tantos outros “notáveis”, conseguiram os seus fins. Já Santana Lopes estava longe do poder, e ainda, um e outro, se dedicavam, sempre que podiam, a propósito ou a despropósito, à sua nobre missão. Era preciso mantê-lo morto e enterrado. Vá lá saber-se porquê.

     

    O que os distintos opinadores, com a inteligência obliterada pelo ódio, não conseguem perceber, é que o PSD, nas horas mais importantes, nunca ligou muito a “notáveis”. Preferiu (quase) sempre os que lhe falavam à alma, ao instinto e, no fundo, à inteligência, uma inteligência que não terá muito a ver com a dos notáveis, mas que nasce de coisas simples, certas, e sérias. O PSD tratou como tratou as “elites” que se revoltaram contra Sá Carneiro, os “notáveis “ que preferiam Salgueiro a Cavaco, os “esclarecidos” que achavam que Santana Lopes não devia ser Primeiro-Ministro. Mandou-os às urtigas.

     

    É verdade que, ajudados por saraivas, limas, marcelos, cavacos e quejandos, os “notáveis”, os “barões”, as “elites”, conseguiram demolir Santana Lopes.

    Se os “sólcrates” da nossa praça não fossem informados por sentimentos que me absterei de adjectivar, e se recorressem à inteligência de que, lá no fundo, são dotados, talvez percebessem o que as pessoas pensam e desejam, em vez de as querer empurrar para os braços da “classe” a que pertencem, ou a que gostariam de pertencer.

     

    O sono da razão engendra monstros. Não é?

     

    António Borges de Carvalho
  • JOÃO CAMOSSA

     

    O João foi um dos homens mais inteligentes que conheci. Dos mais cultos. Dos mais sábios.

    Não tinha, nem pela humanidade nem por si próprio, uma consideração por aí além. Abominava o doutor Oliveira Salazar e o socialismo, achava que as pessoas se deviam agrupar em pequenos núcleos, já que, nos grandes, o diálogo era impossível. A si próprio atribuía, como ideologia, o “anarco-comunalismo”, coisa mirífica onde as pessoas se deviam dar bem porque se ignorariam quanto pudessem, e onde o Estado se tornaria (quase) desnecessário. Talvez por isso era monárquico, concebida a monarquia como um sistema em que o chefe era próximo porque longínquo, doce, estimado, não estava sujeito às dicussões dos fabricantes delas e só aparecia quando era indispensável, na certeza de que o ideal era que não precisasse de aparecer.

    O João leu coisas que ninguém mais leu, sabia coisas que a mais ninguém era dado saber, pensava coisas que ninguém mais pensava.

    Por baixo das anedotas que a seu respeito se contavam, talvez por ele incentivadas, escondia-se um ser pensante, quase genial, que raciocinava a galope e chegava a conclusãos que causavam estranheza, inveja, até repulsa à chã farronca do comum dos mortais.

    Fizeram troça dele, abandonaram-no – em boa verdade não sei se foi ele quem abandonou os demais – riram-se dele na rua, das suas barbas grisalhas, dos seus dentes estragados, da sua roupa ridícula. Pior, muitos dos que lhe eram próximos recusaram-lhe a admiração e o respeito que lhe eram devidos. Não, ele não se importava, estava acima disso tudo.

    Um dia em que passou de advogado a réu num tribunal plenário do salazarismo, apresentou-se de toga no respectivo banco. O juiz insistiu em que a tirasse. Ele acabou por obedecer. Tirou a toga. Estava nu lá por baixo. Vestiu a toga outra vez, por ordem do juiz. Foi preso, mas não por isso.

    Várias foram as mulheres que por ele se apaixonaram. Nunca quis nenhuma lá em casa. Só a cadela o recebia, sempre alegre e reconhecida, quando, altas horas, ele metia a chave à porta. E se fosse uma mulher? – justificava-se, com uma graça sempre inteligente, mesmo que informada por uma misantropia visceral.

    Os seus escritos, que transportava em bolsos imensos, quase a arrastar pelo chão, a contestação de Bernstein e Marx, as críticas ao senhor Soares (Mário), como ele lhe chamava, as suas teses sobre a nacionalidade, os descobrimentos, o miguelismo, sei lá, tudo deve estar perdido. Deve-lhe ter caído dos tais bolsos, já rotos, vítimas da usura e do desleixo.

    Há Homens que muito poderiam ter dado, ou deixado, ao seu semelhante. Assim não aconteceu com João Carlos Camossa de Saldanha, não porque não tivesse produzido, e muito, mas porque nunca teve intenção de fazer disso honra.

    Acabou os seus dias abandonado por si próprio e por quase todos os que muito lhe deviam, mas “achado” por um Amigo, daqueles que se pensa que já não há. Dos poucos que nunca fizeram troça dele, nem acharam que a sua “originalidade” era um defeito, nem se penduraram na sua argúcia em benefício próprio.

    Adeus, João, obrigado pelo que me ensinaste, obrigado por nunca me teres traído, obrigado pelo desprezo a que votaste tanto oportunismo e tanta porcaria que andou à tua volta. Aprendi muito contigo, sabes? Se calhar nunca to disse. Paciência, olha, não sei se valeria a pena, não sei se há muito que valha a pena, para além de poder olhar para o espelho e não sentir vergonha.

     

    António Borges de Carvalho
  • RODRIGUICES

    Lembro-me bem das reportagens sobre a guerra na Sérvia, feitas ou relatadas pelo senhor Rodrigues dos Santos na RTP.

    Conheço uma boa dúzia de sérvios, de várias tendências políticas. Posso assegurar que, nem o mais crítico de tal guerra, tem, contra a NATO ou contra os EUA, a mesma odienta sanha demonstrada, à altura,  por aquele senhor.

    Lembro-me, como se fosse hoje, da entrevista que fez a um enviado da RTP ao teatro de operações. O homem estava algures nos campos, visivelmente aterrorizado. Ao longe, ouvia-se uns rebentamentos. Ao fundo da imagem, via-se um túnel. A certa altura, uns aviões sobrevoaram o local e desataram largar bombas. O terror do homem, aliás justificado, era imenso. Emocionante reportagem! O senhor Rodrigues dos Santos faz então, ao seu colega, esta pergunta: “achas que os aviões estão a bombardear o túnel, ou que querem aniquilar os profissionais da RTP?”

    Imagine-se a cena: algures, quem sabe se em Bruxelas, ou em Washington, um general recebe a informação da presença da RTP no campo de batalha. O chefe da esquadrilha é imediatamente instruído para deixar de se preocupar com túneis, pontes, estradas, ou seja o que for. O mais importante, no terreno, era a reportagem da RTP!

     

    Depois dos emocionantes dias de tal guerra, e de tal reportagem, nunca mais fui à bola com o senhor Rodrigues dos Santos. Quando o fulano pisca o olho aos espectadores, fico histérico. Quando ele diz, de dedo espetado “especialmente para si” tenho vontade de o trucidar.

    Não sei o que o tipo andou a aprender na BBC, mas tenho a certeza de que não foi a fazer noticiários generalistas de uma hora, nem a pôr, em prime time, as doutas declarações da cunhada da vizinha do primo por afinidade do tipo que deu duas facadas à sogra. Nem foi na BBC, com certeza, que aprendeu a descrever por palavras suas as declarações das pessoas para, depois, pôr as tais pessoas a dizer o que ele já tinha dito.

     

    Há, porém, uma coisa que me leva a tirar o chapéu ao senhor Rodrigues dos Santos. Zangado com a soberana decisão da administração de, contra a sua preclara opinião, mandar para Madrid uma senhora que lhe não agradava, o homem demitiu-se! Nobre atitude! Mas não se foi embora, isto é, recusou-se a desempenhar o cargo que lhe tinham dado, mas continuou, calmamente, a ser empregado da casa. Agora que o verniz estalou e que o senhor Rodrigues dos Santos resolveu fazer terríveis acusações, ficou a saber-se que, não só se demitiu sem se demitir, como que continua a receber um ordenadinho de 3.000 contitos por mês, coitadinho, e ainda conserva a devida margem para arranjar uma catraca que lhe vai render bom dinheiro se a RTP se quiser ver livre dele. Genial!!!

    Também não foi na BBC que aprendeu estas coisas. É que, nos países civilizados, quando um tipo se recusa ao trabalho que lhe é legitimamente destinado, a solução é ir para a rua. É horrível, a “precaridade”, não é?

     

    O governo PSD/CDS, pela primeira vez desde a criação da RTP, libertou a estação de grilhetas e influências governamentais. Para certa gente, foi um mau passo.

    Nos tempos que correm, ainda não se sabe quem está feito com quem, mas sabe-se para quê. Os intérpretes da independência reconhecida pelo senhor Morais Sarmento têm os dias contados. Ou muito me engano ou vamos voltar a ter uma RPT atenta, veneradora e obrigada. E a pagá-la com língua de palmo.

     

    António Borges de Carvalho

     

     
  • NOTAS DE FIM DE SEMANA

     

    CARTA ABERTA AO SENHOR GRANADEIRO

     

    Exmº Senhor Granadeiro

     

    A propósito da aliança da PT com a Telefónica na Vivo declarou Vossa Excelência, em genial arrancada:

     

          “É mais fácil comer um pudim a meias do que um fardo de palha sozinho”

     

    Notável demonstração de sabedoria!

    O Irritado permite-se sugerir a Vossa Excelência, maravilha fatal dos nossos tempos, indiscutível caudilho comunicacional, a utilização de outras máximas de grande qualidade intelectual, tais como:

     

    Mais vale ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente

     

    ou

     

    Chuva em Novembro, Natal em Dezembro

     

    ou ainda

     

    A cavalo dente não se olha o dado

     

    havendo algumas mais, do mesmo sábio conteúdo, que a propor se não atreve, dado o respeito mental e empresarial de que Vossa Excelência é justo credor.

     

    Desconhecendo o sabor dos fardos de palha, o Irritado não se pronuncia sobre este aspecto dos hábitos gastronómicos de Vossa Excelência, mas deseja-lhe, do fundo do coração, as melhores digestões.

     

    Saudações telefónicas

     


     

    RESCISÕES

     

    Em magnífica demonstração de patriotismo e de fair play, a prestimosa instituição que dá pelo petit nom de CGD resolveu rescindir o contrato de publicidade que tinha com o senhor Scolari, fundamentando-se no irreflectido acto praticado pelo dito senhor em resposta à agressão de um balcânico díscolo.

     

    Seria óptimo que os desgraçados que recebem o ordenadinho adiantado por obra e graça da CGD lhe fizessem o mesmo, com fundamento na agressão que a brutalidade dos juros que pagam pela benesse sem dúvida representa.

     

    EMPRESAS À PORTUGUESA

     

    Com todo o respeito pelos simpáticos fabricantes de tintas da nóvel e conceituada empresa que dá pelo nome de “Euronavy”, o Irritado interroga-se sobre os dados estatísticos por ela comunicados ao respeitável público.

     

    Vejamos:

    O patrão é engenheiro químico, com pós-graduação em gestão.

    Muito bem.

    A empresa tem 34 colaboradores.

    Muito bem.

    Gasta 7% não se sabe de quê em I&D.

    Óptimo.

    33% dos quadros têm formação superior.

    Aqui é que bate o ponto. Admitindo que um quadro enquadra 11 ou 12 trabalhadores (o que é pouco), teremos 3 quadros na empresa. Se 33% dos tais quadros têm “formação superior” e se o patrão (o mais alto quadro) é engenheiro, teremos que os 33% são integrados por ele. Assim, ou não há vivalma na empresa com formação superior – o que é o contrário do que a informação pretende inculcar nas nossas pobres mentes – ou teremos os doutores e os engenheiros a misturar tintas ou a lavar o chão – o que também não deve ser o que a publicidade pretende comunicar.

    Não é?

     

    Nada move o Irritado contra a “Euronavy”, antes pelo contrário. Mas é de temer pelas contas que apresenta, não é verdade?

     

     

    INSPECÇÕES

     

    Há 152 novos empregos no Ministério da Educação. Trata-se dos “inspectores”, subida espécie biológica que tem a função, como o nome indica, de “inspeccionar”. Inspeccionar o quê? Os professores. Você é bom, você não presta, você é lindo, você é uma besta.

    Até aqui, tudo bem. Esgadanhem-se lá uns aos outros à vontade.

     

    Mas, meus amigos, estamos em Portugal! Ainda antes de dar início à sua nobre actividade, já os ilustres inspectores, através do sindicato, andam aos gritos. Que é muito trabalho, que não aguentam, que se cansam, que, enquanto não forem admitidos mais polícias, perdão, inspectores, não farão nada, que a profissão tem que ser suspensa até novas admissões, que já estão cansados antes de começar, que trabalhar faz calos (as duas últimas são minhas), etc.

     

    Ponhamos as coisas em pratos limpos. Havendo 152 inspectores para inspeccionar e 8.000 professores a ser inspeccionados, a coisa dá 52,63 professores por cada inspector. Havendo 235 dias de trabalho, se um inspector inspeccionar 3 professores por dia, haverá, num ano, 107.160 inspecções, o que dá mais de treze inspecções/ano por professor.

     

    Se 3 inspecções por dia é demais para os inspectores, vou ali e já venho.

    Se 13 inspecções/ano por professor não chegam, ali vou e já venho.

     

    Isto de trabalhar, em Portugal, como é um direito, não obriga ninguém.

     

    António Borges de Carvalho
  • JUSTA INDIGNAÇÃO

     

     

    Acho muito bem que os polícias estejam chateados por lhes andarem a cortar as regalias sociais. Quem não estaria?

    O problema é que são “agentes da autoridade”, isto é, representam o Estado. Ora, se representam o Estado e o Estado precisa de dinheiro, mais não têm que se submeter disciplinadamente e que, gostosa e solidariamente, contribuir para o chamado “bem comum”. Ou não?

    Por que carga de água anda a malta toda a pagar e os polícias hão-de ficar de fora? Ainda não perceberam que vivemos num país socialista, que temos um governo socialista, e que, para o socialismo, os interesses do Estado sobrelevam aos dos cidadãos, isto é, se o Estado (confunda-se ele com a República ou com a Nação, a gosto) está à rasca, os cidadãos (mormente os polícias) têm que pagar? Ainda não perceberam que, para o socialismo, de esquerda ou de direita, se o Estado tem falta de massa, não lhe compete diminuir as despesas mas tão só aumentar as receitas, começando, ou devendo começar, como é lógico, por sacar aos seus próprios agentes? Que diabo, é assim tão difícil de perceber?

    Se os senhores polícias não querem submeter-se aos ditames do socialismo, porque é que escolheram a profissão? Se fazem parte da máquina, por que raio hei-de ser eu, e não eles, a lubrificá-la?

     

    Considerações idiotas, dirá a mentalidade vigente e o politicamente correcto. E com toda a razão.

     

    Dê-se, no entanto, direito de expressão à erradíssima opinião dos que se irritam, e deixe-se que tal gente opine, pelo menos enquanto o socialismo for democrático, como há quem ache.

    Os senhores guardas deviam começar por perceber que se tivessem, de entre a população, quem os defendesse ou, por outras palavras, quem deles gostasse, as coisas talvez se passassem de outra maneira.

    Ora, meus amigos, quem gosta de polícias?

    Os meliantes e quejandos, por definição, odeiam-nos.

    E as pessoas de bem? Que razões têm para gostar dos polícias? Gostam, como é normal, de quem as ajuda, não de quem as persegue. Gostariam de conhecer o senhor Silva, polícia de giro, ocupado a proteger os miúdos e as velhinhas, a dizer à Câmara onde estão os buracos onde as pessoas torcem os pés, a ajudar as criancinhas que se perdem dos papás. Gostariam de polícias se eles fossem simpáticos, se a sua existência fosse motivo de bem-estar e de segurança para cada um dos que contribuem para lhes pagar o ordenado. As pessoas de bem gostariam de os ver na rua, a moderar o estacionamento, a impedir despejos e outras selvajarias, a multar quem merece com critérios claros de justiça e equidade.

    O que vêm, porém, as pessoas de bem? Polícias na rua, só de pópó, passeando sem cinto de segurança, com um ar imponente, pombalino, a dar, de quando em vez um berro ameaçador a este e àquele, ou a proteger os protegidos de quem lhes paga avenças contra os demais, ou a aplicar uns bloqueadores e fazer uns reboques em sítios onde aparecem quando o rei faz anos, em vez de os vigiar com regularidade e bom senso.

     

    É verdade que a nova geração de agentes tem alguma educação. Alguns até sabem mais inglês que o primeiro-ministro. Também é verdade que ganham mal. Mas não é o que acontece a toda a gente? E onde estão? Na esquadra, que tem ar condicionado, ou a passear de automóvel, que é estofadinho. A rua, onde são precisos, é fria e chuvosa no Inverno e faz suar no Verão. Não é?

     

    As consequências da filosofia do serviço policial são evidentes e inevitáveis. Ninguém dá um chavo por eles, façam as greves que fizerem, tenham as razões que tiverem.

    Talvez, se mudassem de filosofia, a malta os compreendesse e ajudasse. Assim, vão chatear o Camões!

     

    António Borges de Carvalho
  • DEMAGOGIA E PEDAGOGIA

    O senhor Vitorino, pessoa respeitável e respeitada, jurista de qualidade, não tem, como é evidente, grandes qualidades de comunicador. O critério que justifica o seu espectáculo semanal na RTP tem a ver com razões de equilíbrio político que se podem compreender. De um lado o senhor Sousa (sousista tido por PSD), do outro o senhor Vitorino (PS propriamente dito).

    O interesse da coisa perde-se na arenga monocórdica e professoral, o que faz com que aqueles que ainda não estão dispostos a adormecer prefiram zapar para paragens mais interessantes.

     

    O habitual bom senso do soporífero senhor foi ontem perturbado pela eleição do senhor Menezes. Nervoso com uma eventual retoma da oposição, o homem perdeu a cabeça. Assustado com o “populismo”, ultrapassou o senhor Sousa e bateu o record dos comentários ao dizer que vem aí a “demagogia”, à qual o Governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) terá que opor a “pedagogia”.

    Numa manobra de antecipação, qual vidente esclarecido, o senhor Vitorino classifica desde já como demagogia que o PSD vier a fazer, faça o que fizer. E como pedagogia a infrene, desbragada e irresponsável propaganda socrífia.

    Lapidar.

     

    Na mesma noite, um canal qualquer mostrou o senhor Correia, guru do senhor Menezes, a definir populismo. Mais ou menos assim: o populismo acontece quando um líder utiliza o seu carisma e a sua capacidade de comunicação para fazer promessas que sabe não poder cumprir, ou tecer considerações que o público gosta de ouvir sem curar de as fazer corresponder à verdade.

    Se o senhor Vitorino tivesse ouvido o senhor Correia, talvez não tivesse dito o que disse. É que a definição do senhor Correia assenta como uma luva no senhor Pinto de Sousa (Sócrates) e na sua propagandística “pedagogia”.

     

    Pobres de nós, a quem não resta senão a esperança de que o senhor Menezes não mergulhe no populismo e na demagogia, já que esperança alguma resta de, a curto prazo,  deixar de viver mergulhados na “pedagogia” do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

     

    António Borges de Carvalho
  • DOS ESTRAMBÓLICOS EFEITOS DO MARXISMO

     

    O DN publica hoje uma esclarecedora entrevista como novo director do Museu das Janelas Verdes. Duas páginas. Oito colunas. Título imponente: “O Museu de Arte Antiga não tinha plano de exposições para 2008”. O que, nas palavras do novo director, “é sintomático” da ausência de investigação. Nefando crime.

    Trocada a coisa por miúdos, não é bem assim. Estava planeada uma exposição de um escultor. Mas, como era de arte contemporânea (que não é “prioritária”) e chamava público ao museu, como temos “que nos concentrar nas colecções”, haveria, ou haverá, que fazê-la depender “do quadro financeiro”. Quer dizer, jamais terá lugar.

    Agora, o que é preciso é “contratar gente” que proponha projectos de relacionados com as colecções”. Ou seja, venham os boys, que os que cá estão (“uma excelente equipa”) não dão as devidas garantias.

     

    E a demitida dona Dalila? Nas palavras “da senhora Ministra” apostava “na comunicação”. Leia-se, falava demais. É claro que a senhora “fez um bom trabalho de comunicação e convocação de públicos”. Mas… “temos que ter conteúdos para comunicar”. Isto é, a dona Dalila comunicava inanidades porque não tinha nada para comunicar. Dizia coisas que, embora convocassem público, não tinham “conteúdo”. Leia-se, não tinham o conteúdo que a senhora Ministra queria que tivessem.

     

    Depois, o senhor director diz que já descobriu que há “boas teses” “que se debruçam sobre peças da colecção” e que “permitem fazer boas exposições”. Vá-se lá entender. Afinal, mesmo sem contratar nenhum boy, há investigação. Tão boa que até dá para fazer exposições. Em que ficamos? Há investigação ou não há investigação?

    Quanto às ditas exposições, “é prematuro” falar nisso. Com certeza. É que ainda faltam dois anos e tal para chegar o ano que vem. Não é?

     

    Perguntado porque é que declarou, na sua posse, que o Museu “perdeu” o seu “papel de referência”, o senhor entra em considerações históricas, eventualmente judiciosas, mas não explica porque perdeu o museu tal papel, se é que perdeu mesmo ou que alguma vez o teve.

     

    O senhor não faz a mais leve sombra de ideia do dinheiro que vai ter para contratar pessoal, fazer três exposições, lançar internacionalmente o Museu, fazer investigação, etc. blá blá blá. Mas está certo de “a senhora ministra tem consciência desta questão”. Além disso, vai recorrer à “sociedade civil”. Acho muito bem, mas dá ideia que foi no tempo dela (da dona Dalila) que a coisa começou. Foi mesmo, diz o senhor, mas, uma vez que foi tudo “negociado pela tutela”, mérito algum lhe caberá. Não é?

     

    E a colecção Rau? Não foi no ano passado? Foi, confessa o senhor. Mas “foi um fenómeno excepcional”. Está bom de ver. Se foi excepcional, qual é o mérito da dona Dalila? E o “tapete oriental”? Isso deve-se ao antecessor da antecessora do senhor.

    E pronto. Mesmo o que a dona Dalila terá feito, e que merece elogios, merece-os com vários “mas”.

     

    Dona Dalila, concluirá quem ler, andou para ali a ganhar o ordenado ao Estado… e népias. Foi muito bem posta na rua.

     

    Ou então, noutra leitura, reconhecer-se-á que o senhor director – qualquer coisa me diz que o homem é socialista ou pior – foi nomeado em nome de projecto nenhum, de orçamento nenhum, de ideia nenhuma. Foi lá posto porque a senhora ministra não ia à bola com a dona Dalila, e pronto. Foi muito bem nomeado.

     

    De realçar é o critério, a inteligência, a pró-actividade (como se diz agora, sem se saber lá muito bem o que quer dizer), a preocupação com a cultura, ou seja, a estrambólica política da ministra do governo marxista, ou da ministra marxista do governo.

     

    António Borges de Carvalho
  • UMA NOITE NO CIRCO

    O Irritado não é apreciador de artes circenses. Razão pela qual não tem por hábito assistir às semanais saltimbanquices oratórias do mui ilustre professor doutor Marcelo R. de Sousa.

    Ontem, porém, não resistiu.

    O espectáculo prometia. Como é que a ínclita inteligência descalçaria a bota das previsões malucas que tinha feito nos jornais? Como é que justificaria que os erros fatais, na sua opinião cometidos pelo Menezes, afinal não eram erros? Como é que o habilidoso jongleur apanharia as bolas que, todas, se lhe escapavam das mãos, pondo em risco a universal fama que tanto o nobilita na pátria arena?

     

    O espectáculo não desiludiu as expectativas do Irritado. Houve de tudo. A privilegiada mente brindou-nos com voos no trapézio, chicotadas nas feras, dialécticas de palhaço rico/palhaço pobre, girândolas de prestidigitador, acrobacias várias.

     

    De substancial, e interessante, ficou a confissão de que, afinal, as massas pêpêdistas/ pêessedistas estavam longe de admirar a forma cirúrgico-cavaquista como o senhor Mendes deu cabo do partido, apoiou o golpe de estado constitucional do dr. Sampaio, atirou para o lixo a Câmara de Lisboa, apoiou a negregada reforma penal do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), se baixou reptilmente às parlamentares arrancadas socialistas, distinguiu “arguidos bons” de “arguidos maus”, considerou que uma Câmara minoritária (8/9), sendo do PSD, é ingovernável, e que a mesma Câmara, também minoritária (7/10), sendo do PS, é governabilíssima, ignorou, como se de outrem se tratasse, os governos do seu partido, aldrabou sobre resultados eleitorais, etc. etc. etc.

    As massas pêpêdistas/ pêessedistas afinal não são estúpidas. E, embora a solução que lhes era proposta não fosse grande espingarda, consideraram que a continuidade do Mendes seria uma indignidade sem nome. Parabéns. Preferiram a dignidade.

    É claro que, para as altíssimas alturas da dourada cúpula do circo onde voa o douto lente, os ganhadores (nos quais, por evidente maldade, insiste em incluir Santana Lopes, miseravelmente injustiçado pelo mendo-cavaquismo) não passam de um bando de populistas, uma gente que se arrasta em infernos pântanos, a cósmica distância do sublime intelecto dos que, de há longo tempo, vêm aplicando o seu saber  na destruição do PSD.

     

    Lembro-me de um deputado do CDS, da linha moreirista, o qual, quando eu lhe dizia que, pelo caminho que levavam, se veriam reduzidos a quase nada, me respondia: antes nós, e poucos, do que eles, e muitos. Viu-se o resultado.

    Mutatis mutandis, a filosofia é a mesma. Vale (ou valia) tudo, para que “eles” não ganhassem. Mas ganharam.

     

    E agora, ó académicos, ó ideólogos, ó donos do saber e da verdade? Ides usar os vossos impagáveis talentos para ajudar o partido, ou ides continuar a pôr a vossa inveja e a vossa malquerença ao serviço do senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?

     

    António Borges de Carvalho
  • SENHORES HÁ POUCOS

    Há dias, Santana Lopes deu com os pés à morenaça da SIC Notícias. A fulana interrompeu uma entrevista para intercalar um directo com… a chegada do senhor Mourinho a Lisboa! Como se se tratasse de um tsunami em Cascais, do assassinato do Papa ou da morte súbita do Presidente da República.

    Santana Lopes mandou a víbora às urtigas e retirou-se de cena.

    Haja alguém, neste desgraçado país, que ainda conserve a dignidade suficiente para se opor aos critérios da canalha das televisões.

    Para além de Santana Lopes, Senhores há poucos. Deve ser esse o nosso principal problema.

     

    A propósito, perante os desmandos dos desgraçados que querem ser chefes do PSD, não falta quem amargamente se arrependa de ter ido na conversa dos barões (Mendes, Machete, Veiga, Cavaco e tantos outros) que levou à queda de Santana Lopes.

    Má moeda, senhor professor Cavaco, é aquela que V.Exª ajudou a pôr no governo. Má moeda, senhor professor Cavaco, é aquela que se esgadanha no seu partido, que ficou órfão de chefe e de dignidade.

    António Borges de Carvalho