Desde os tempos do já falecido, e bem intencionado, Dr. Magalhães Mota, que a classe política se dedica, paulatinamente, a perseguir-se a si própria.
Aos poucos, e aos muitos, os políticos, pelo simples facto de o ser, passaram a objecto de suspeita. Negando princípios básicos do estado de direito, qualquer eleito passa à categoria de presumível agente de corrupção. Em vez de se lhe aplicar, eventualmente com tolerância zero, a lei geral, é objecto de leis especiais – em si mesmas a negação do que é a Lei – que os transformam em cidadãos de segunda, quer tenham cão, quer não. É normal que, nestas condições haja tanta gente a fugir da política, não por não sentir pulsão para a luta e para o serviço público, mas por não se conformar com a “transparência” e com as cunhalistas “paredes de vidro” a que ficariam sujeitos se a ela cedessem.
Vem isto a propósito da publicação de documentos que a sanha persecutória tornou públicos, desta vez relativos aos bens e aos rendimentos dos ex-presidentes Soares e Sampaio.
O Irritado não é admirador nem de um nem de outro. Jamais neles votou, ou votaria. O que não quer dizer que ao Irritado interesse o que têm, o que não têm, o que gastam ou o que recebem. Se cometerem algum crime, pois que a lei lhes caia em cima, como cidadãos que são. Caso contrário, têm todo o direito a estar sossegados e a conservar tais dados no domínio da sua privacidade. As suas declarações de impostos deveriam ser, como as da generalidade dos cidadãos (até quando?), do seu próprio conhecimento e do das finanças, as quais, se o sistema fosse informado por alguma sombra de moralidade, as guardariam com a apropriada confidencialidade.
Que direito tenho eu de saber que o Presidente Soares tem um Renault 16, ou que o Presidente Sampaio tem 72 acções do Sporting? Que direito tenho eu de saber das dívidas do Presidente Sampaio à banca ou das propriedades do Presidente Soares?
A publicação destas informações não passa de pura pornografia jornalística, jurídica e institucional.
Para gozo dos moralistas de pacotilha que fabricam estas coisas e que, pelo menos, não acreditam na lei nem no direito – se acreditassem bastar-lhes-ia que os políticos, como os demais cidadãos, se lhes submetessem – criou-se uma teia perversa que, fundada em demagogias soit disant “éticas”, tem, como é fácil compreender, um efeito devastador na governação do país e produz o contrário do que diz servir-lhe de fundamento, isto é, afasta as pessoas de bem da política, em vez de as aproximar.
O Irritado não tem ilusões quanto ao futuro. No ambiente marcadamente policial em que vivemos, será cada vez pior. Até à implosão final?
António Borges de Carvalho

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