Aqui há tempos, citava o Irritado uma definição de demagogia, mais ou menos assim: demagogia é utilizar dotes oratórios, e não só, para vender promessas agradáveis que não se tem intenção de cumprir.
Já que o mote dos jornalistas e comentadores ao serviço do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), na semana passada, foi o do “passado” (leia-se da coligação PSD-CDS), talvez não seja mau ir a um passado mais recente, o do dito senhor.
Lembremos, ao calhas, algumas promessas:
– Os impostos não vão aumentar;
– Vão ser criados 150.000 postos de trabalho;
– Não haverá portagens nas SCUTS.
Aconteceu como segue:
– Os impostos aumentaram de uma forma brutal;
– O desemprego aumentou para números nunca vistos;
– Não só se vai pagar portagens nas SCUTS como, por via fiscal, se vai pagar em todas.
Tudo isto é, rigorosamente, verdade.
Apesar disto, não houve um só escrevinhador a chamar ao senhor Pinto de Sousa (Sócrates) aquilo que, acima de tudo, ele é: um demagogo, um fulano que promete o que sabe que não vai cumprir.
Os escrevinhadores entretiveram-se (a crónica de Fernando Madrinha chega aos píncaros da coisa) a descrever o quão inútil é falar no “passado”, já que o passado está definitivamente julgado nas urnas.
É verdade que a demagogia do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) conquistou o poder. É verdade que a propaganda e o paleio do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) continuam a produzir os seus devastadores efeitos.
Mas também é verdade, embora ninguém o diga:
a) Que não foi o Dr. Santana Lopes quem provocou a discussão sobre o passado;
b) Que foi o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) quem o fez, quem falou de tudo menos do orçamento, quem converteu a discussão orçamental num anúncio de medidas que podiam caber noutro momento qualquer, isto é, quem arranjou matérias para fugir à discussão do que estava em causa e usou truques para a evitar, eximindo-se, até, de responder às perguntas que, sobre a “matéria dos autos”, lhe eram colocadas;
c) Que foi o PSD (Patinha Antão e Santana Lopes), o CDS e os partidos comunistas quem falou do orçamento, enquanto o inacreditável ministro da presidência lia um ainda mais inacreditável trabalho de casa sobre o “passado”, não sobre o orçamento.
O “passado” talvez tenha sido julgado nas urnas. Mas, até hoje, ainda ninguém foi capaz de vasculhar em tal passado e de encontrar, como no governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), um défice de 6%, ou 8% de desemprego, ainda ninguém foi capaz de criticar que o mesmo senhor tenha feito, no governo, precisamente o contrário do que, meses antes, propagandeava na televisão, ainda ninguém foi capaz de martelar que o equilíbrio orçamental, no negregado passado (Ferreira Leite e Bagão Félix), era procurado à custa das gorduras do Estado e, agora, das magrezas dos cidadãos.
A massa dos comentadores e jornalistas que, desgraçadamente, nos bombardeiam com notícias e opiniões, dedica-se, pelo contrário, à nobre tarefa de incensar o senhor Pinto de Sousa, de machadar no “passado”, de opinar sobre duelos oratórios e de atirar, sabe-se lá porquê, toneladas de areia para os olhos das pessoas.
A demagogia tem os seus adeptos, e os seus adeptos têm um poder dos diabos.
António Borges de Carvalho

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