IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • AVENTURAS SUÍNAS


    Desta vez não foi o triunfo dos porcos. Derrotados por um pneu, por ali andaram, peripatéticos, entre dezenas de cadáveres dos seus irmãos, sem saber que a circulação pedonal é proibida nas auto estradas. O povo atónito à espera, horas sem fim à espera, os carros parados, um desespero.

    Porquê rebentar um pneu, àquela hora, naquele sítio?

    Sim, porquê? Ninguém saberá explicar. Ninguém? Não! Há uma explicação científica, dada por quem, do alto de nobre sapiência, usa dar ensinamentos às criancinhas de Portugal. Verdadeiros cientistas! Dezenas de autocarros carregados de porcos, perdão, de professores, vinham a Lisboa manifestar o seu descontentamento. Sob as ordens, como não podia deixar de ser, do grande educador, chefe incontestado, senhor de bigode e olhos vampirescos, membro indiscutível das altas esferas do nacional-bolchevismo, um condotieri, um organizador, enquadrador, guia espiritual, maravilha fatal da nossa idade.

    Uma sua adjunta, possuída de justa histeria, brindou a Nação com a verdade científica do acontecido. Manobra do governo, pois então! Por a+b, a mulher iluminou-nos com a demonstração da verdadeira verdade, aliás de uma evidência cristalina, que só um estúpido não veria: Passos e Gaspar tinham mandado sacrificar uma récua para impedir a passagem aos nossos brilhantes educadores. Uma atitude claramente fascista , como ficou provado à saciedade. O chefe, também ele emérito cientista, viria, um pouco mais tarde confirmar a brilhantíssima tese da sua adjunta, assim suscitando vibrantes aplausos das docentes massas.


    Facto é que não fora a prestimosa intervenção da polícia, lá ficariam os educadores horas sem fim, como os demais impedidos de aceder à cidade. Mas a Polícia é sábia, ou também é sábia. Batedores foram mobilizados, o trânsito aberto para os autocaros, os docentes, aos berros, passaram, enquanto o indescriminado povo era impedido de seguir caminho. Profundo sentido de justiça, o da polícia. Arriscando contrariar as ordens do poder, acto de grande bravura, a polícia soube distinguir o trigo do joio e proteger os professores, abandonando a canalha ensardinhada na via, entre porcos, vivos e cadáveres. Muito bem!


    Os grandes ensinadores do povo acabaram por desfilar na avenida, como é sua profissional obrigação. Contra o governo, pois claro. Sempre foram contra o governo, este ou outro qualquer, à excepção dos do camarada Vasco, como é de timbre e acha o vampiro. A favor da escola pública, que é a que garante (ou garantia) o tachinho. A favor do bem amado patrão, o Estado, esse santo milagreiro e pagador que a troica quer encoilher.


    A luta continua!

     

    28.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • ÓPERA BUFA

     

    O que vale é que ainda há coisas engraçadas entre nós. Veja-se o espernear dos amigos do Pinto de Sousa, a ver se correm com o oco o mais depressa possível. A abanar o beicinho o Pereira exige, o Lelo regurgita patacoadas, os Silvas e toda essa malta que quer amarinhar. Cócó ró có!, repenicam por aí que nem galarós. O oco Seguro vai dando uma ajuda com as suas asneiradas quotidianas. Mais que todos, o Costa está em grande, empurra mas não se expõe. A coisa há de cair-lhe nos braços. Mais depressa ou mais devagar, mas está no papo. Este magno protector do Pinto de Sousa – perante cujas inenarráveis asneiras jamais disse uma palavra – dá esperança à cáfila de desempregados socialistas que coça as calças pelos corredores da Assembleia.


    Tudo isto é lindo, ultrapassa o Gato Fedorento, mete o Herman num chinelo, suplanta o ridículo da dona Clara ou do asnático Marques Lopes. Não é uma maravilha? E se pedíssemos ao La Feria que fizesse uma ópera bufa para divertir ainda mais o povo?

     

    25.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • COM A CONSTITUIÇÃO NÃO SE BRINCA


    Ainda há quem diga que a Constituição é uma maravilha ou que, não sendo maravilha nenhuma, não constitui impedimento à boa governação. Pois não, que ideia!

    Olhem esta história da RTP. Para qualquer espírito mais independente, ou menos dependente de ideologias, é de uma evidência cristalina que a RTP não presta “serviço público” de espécie nenhuma, não faz falta nenhuma, não é melhor que as outras, pelo contrário, comunga com elas a mesma mediocridade e, para além de tudo, custa ao contribuinte muitas centenas de milhões de euros… por ano!

    Dir-se-á que há a RTP Internacional – uma vergonha, uma porcaria – e a RTP África, talvez não tão má como aquela. Nada que não pudesse ser feito pela SIC, pela TVI ou por outra qualquer. Daqui que a solução sensata para o aborto fosse, evidentemente, acabar com ele, aliás como com tantas outras inutilidades estatais que nos dão cabo do dinheirinho sem dar em troca nada que se veja ou “faça a diferença”, como se diz agora.

    É aqui que entra a Constituição, que obriga à existência da coisa, o que talvez fosse justitficável e necessário há 40 anos, mas que hoje nada pode justificar. Não se argumente sequer (como ouvi ontem) com a “garantia” do “pluralismo”. Nada que os privados não garantam já, e até demais.

    O IRRITADO vem defendendo esta posição há muito tempo. Extinção pura e simples, e quanto mais depressa melhor! O governo andou a meter os pés pelas mãos quanto ao assunto, até que chegou à conclusão que não há por aí nenhum tonto a querer ficar com o aborto, a sua multidão de funcionários, as suas delegações, os seus correspondentes internacionais, etc. e tal. Pudera!

    Solução encontrada: injectar mais 48 milhões a juntar aos outros milhões que lá vão entrar este ano e aos mais de 500 que lá entraram no ano passado, julga-se que sem contar com o imposto. Presume-se que se trata de pôr uma parte da multidão na rua, devidamente indemnizada. Ora se se vendesse os activos da RTP (edifícios, equipamentos, etc.) não se aranjaria dinheiro que, talvez somado aos 48 milhões, desse para mandar toda a malta para casa? Extirpava-se o cancro, e ficava-se em casa, ou quase.

    Mas lá vem a Constituição e o seu “serviço público” baralhar as coisas. O IRRITADO acha que, se se extinguisse a RTP e se contratasse o serviço público com um privado qualquer, a tal Constituição não sairia ferida. E o BE? E o PC? E o PR? E o PJ? E o PS? E o CDS? Não viria esta malta toda pôr a coisa no Tribunal Constutucional – uma instância infelizmente,muito mais política que jurídica, e não viria o Tribunal, como é lógico, fazer o trabalhinho dessa malta toda?

    Em conclusão: não há nada a fazer.

    É continuar a pagar a absurda contribuição do áudio-visual, é continuara a ver sair sair milhões do orçamento do Estado, é continuar a aturar as piscadelas de olho do Rodrigues dos Santos.

    É comer e calar, que com a Constituição não se brinca!   

     

    25.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • POLÍTICOS A SÉRIO E POLÍTICOS DA TRETA

     

    Quando esse carrasco da Pátria que dava pelo modesto nome de Sócrates abandonou o poder, Portugal não tinha ninguém que lhe emprestasse um tostão, não havia dinheiro para pagar os ordenados aos funcinonários do Estado nem para o que fosse das gigantescas dívidas que o fulano nos tinha deixado. Encerrava-se o criminoso capítulo aberto por Guterres, a que Ferreira Leite e Bagão Félix tinham querido pôr travão. Destes, a primeira foi apeada pelo dito Sócrates em eleições, o segundo pelo golpe de Estado perpetrado pelo Presidentre Sampaio – talvez a mais sinistra figura do socialismo nacional.

    Um ano e meio passou desde que, finalmente, os portugueses mudaram o sentido do seu voto. Há muito quem se queixe, com razão e sem ela, dos sacrifícios que têm sido exigidos a todos nós. Sobretudo na voz da classe política tais sacrifícios aparecem propagandeados à exaustão, com exagero e demagogia q.b. Há até uma cáfila de frustrados, pachecos, capuchos, carreiras & Cª, que se entretêm a condenar o que, com uma coragem e um desassombro que não são habituais entre nós, tem sido feito pelos seus próprios companheiros. Sem que, rara excepção, sejam motivados por interesses eleitorais.

    Valeu a pena? Parece que sim. Um país que, há menos de dois anos, não tinha acesso ao crédito, vai aos mercados vender 2.000 milhões de dívida. Vende 2.500 , e aparecem compradores para mais 10.000. Com juros mais baixos do que imaginável seria. Por outro lado, Portugal pediu, e os credores aceitaram, um prolongamento do prazo de pagamento do resgate a que a política socialista nos condenou.

    Parece que, afinal, o caminho, sendo duro, não é tão asnático como tem sido dito, não é?

    Agora as más notícias, umas normais e expectáveis, outras anormais, burras, irresponsáveis, próprias do pior que há entre nós.

    As normais vêm de onde outra coisa não era de esperar, do PC e do BE. Como são contra tudo, excepto o socialismo revolucionário do camarada Gonçalves, que esperar deles senão as cassetes da ordem?

    As anormais, burras, irresponsáveis, próprias do pior que há entre nós, surgem do PS. Foram patéticas as investidas de ontem, tanto do patarata Zorrinho, como, ó céus!, do oco Seguro. Acham que, se nos foi dado mais prazo, foi porque o PS assim o quis, e o quis há muito. Os dois tristes fanáticos acham que a) o adiamento conseguido foi o que eles exigiam, tratando-se por isso de um seu triunfo, e b) que se o adiamento foi preciso, tal se deve ao falhanço da política do governo. Espantoso! É que, primeiro, o adiamento teve natureza diferente do que o eles defendiam e, segundo, os alarves não percebem que, se tivesse sido pedido quando eles queriam, teríamos levado com os pés, como é evidente. O que se conseguiu, ou vai conseguir, fica a dever-se, como também é evidente, à disciplina orçamental do Dr. Gaspar, ao cumprimento das metas acordadas, à atmosfera de confiança que, ao longo deste dificílimo ano e meio, foi possível inalar nos credores, ao facto de termos sabido negociar nos corredores, a termos um “sócio” de peso – a Irlanda – e, como é natural, a algum desanuviamento do clima europeu em geral.

    Ao PS nada se deve, a não ser a situação a que nos levou e que, estupidamente, a tenebrosa organização se recusa a reconhecer. Imagine-se o que seria se esta gente, destituída de inteligência, de bom senso, de sentido das realidades, algum dia chegasse ao poder.

     

    23.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • VERDADES E MENTIRAS

     

    O senhor Portas disse que no relatório do FMI havia coisas boas, coisas a discutir e coisas inaceitáveis. Os jornais titularam, em grosso: Portas arrasa o relatório, Portas acha o relatório inaceitável, mais fissuras na coligação. O senhor Passos diz que o relatório não é uma Bíblia. Os jornais dizem que o senhor Passos acha que o relatório é para cumprir. O Banco de Portugal publica um boletim que infirma algumas previsões do governo, umas por defeito, outras por excesso. Os jornais  informam que o governo errou as previsões, sem falar nas que, do BdP, são favoráveis ao governo. A dona Cristina diz maravilhas da execução do “programa de ajustamento”, mas que ainda há muito a fazer. Os media dizem que há muito por fazer. Ouvir as aberturas dos telejornais faz pensar que estamos todos às portas da morte. Um jornal caiu na asneira de publicar uma sondagem que dava o PSD a subir, o CDS na mesma, o PS a cair. Nem um só dos outros jornais se referiu a tal sondagem. Nenhuma televisão, nenhuma rádio.   

    E assim por diante. Não vale a pena. Toda a informação é truncada, “trabalhada”, ou “editada” – moderno eufemismo para censura político-ideológica.

    O PS desdobra-se em ambições de poder. Recusa qualquer discussão. Boicota comissões parlamentares que tenham a ver com o futuro. De certa forma, tem razão. Como é possível a uma organização incapaz de deitar cá para fora uma só ideia que seja, entrar numa discussão, séria, seja ela qual for? Como é possível, a uma gente cujo único objectivo é voltar ao galarim seja à custa do que for, conversar sobre seja o que for? O PS é hoje o exemplo mais rasca e mais evidente do que é a partidarite como exclusivo critério de acção e opinião. Recusa culpas do passado como recusa consensos para o futuro. O fantasma de Pinto de Sousa continua a “inspirá-lo”. Depois, há maluquinhas, bêbedas, ladrões de telemóveis, e essa estranha geração de políticos que Paulo Campos ou Vitalino tão exemplarmente representam.  E pouco mais, para além de um líder sem chama nem mensagem nem seriedade.

    Venos por aí escarrapachada em outdoors uma manifestação de inteligência do BE: “Habitação, saúde, educação… ou juros?”. O slogan, para além de ordinário e demagógico, é de uma estupidez cristalina. Mas não anda longe da “argumentação” do PS. No fundo, o teor é o mesmo, a “inteligência” é a mesma.  

    O governo está só. Dizem que é por não ter “povo”. Mentira. Se assim fosse, não subia em sondagens. Ou não descia tão pouco. Está só na área dos políticos, não na das pessoas. Como o futuro dirá. E também está só na área dos seus próprios canalhas, os pachecos, os mendes, as leites, os capuchos, de um modo geral os que, apesar da cor que ostentam, viram as sua “legítimas” ambições, quer dizer as suas postas postas de lado.

     

    18.1.13

     

    António Borges de Carvalho                                                                                                                                                                                

  • CIVILIZAÇÃO CANINA


    Da sua janela, o IRRITADO vê uma zona relvada, jardim e árvores – tristes árvores que nunca foram tratadas, nem podadas, nem guiadas, nem coisa nenhuma. Mas o sítio é agradável. É? Podia ser.

    Depois de uns tempos de seca, vinda a primeira chuva, sente-se o cheirinho a terra molhada e a ervinha fresca. Sente-se? Nem por isso.

    As criancinhas do bairro brincam, rebolam-se na relva, chilreiam… Brincam? Rebolam-se? Chilreiam? Que ideia! 

    É agradável passear pelas ruas do jardim. Agradável? Talvez fosse.


    *


    Quando vem a primeira chuva, a relva cheira… a mijo de cão.

    As criancinhas não podem brincar na relva, porque não se brinca em cima de cagalhões.

    Para passear nas ruas do jardim é preciso ir de olhos bem baixos, saltitando por entre a trampa para não chegar a casa a deitar eflúvios de caca pelas solas dos sapatos.

     

    *


    Olho as verdes áleas. Uma senhora de certa idade, bem posta, oxigeneda, de bota alta e casaco de coiro, anda atrás de um cão preso a uma arreata dourada. De vez em quando, o bicho pára. Urina. Mais adiante, agacha-se e borra-se todo ante o desvelado olhar da senhora. Lindo!

    Mais longe, um tipo gordo, com idade para ter juízo, arrasta-se a reboque de um bulldog, ou coisa do género. O bulldog esmera-se em ciclópica cagadela. Depois rega as ervinhas com o produto líquido de uma cuidada alimentação.

    Uma menina, toda fataça, mostra o escuro umbigo no centro da faixa de gaja. Liberta um lulu que, feliz, saltita na relva. Alça a perna ao pé do banco da menina e esvai-se em líquidos. Depois, lá vai, e, no meio de um verde salpicado por doces florinhas, deposita o intestinal produto.

    São às dezenas as senhoras, os gordos, as meninas, os canídeos, de manhã, à terde, à noite. É a civilização lisboeta no auge da sua qualidade.


    *


    Contam os jornais que um arraçado qualquer deu cabo do canastro a uma velhinha. Outro banqueteou-se com um bébé. Vêm as estatístisticas. Nos últimos anos, umas dezenas de mortos e feridos pelas sequiosas mandíbulas de inúmeros animais de estimação. Uma veterinária resolveu mandar assassinar o bicho que comeu o bébé. Quinze mil boas almas protestam nas redes sociais. Coitado do animalzinho! A culpa foi do bébé, que não tinha nada que se meter com o cão, ainda por cima às escuras. Providência cautelar! Salve-se a vida ao doce mamífero!


    *


    Assim vai o mundo. A câmara municipal acha muito bem. O governo não se pronuncia. Os deputados têm medo de ser acusados de inhumanidade, ou de incaninidade. A polícia tem mais que fazer. A associação “Animal”, comovida, refocila de justa alegria. A maioria das pessoas não gosta do sistema, mas alinha com os medos dos deputados. Entretanto, as criancinhas, ou não brincam na relva, ou brincam num mar de caca. As velhinhas são comidas. Mas a verdade correcta ganha. Não é o que importa?

     

    18.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • PORTO “CAPITAL” DO NORTE E DAS QUEIXINHAS


    O Porto é capital de nada, a não ser do Douro litoral, coisa que, administrativamente, não existe.


    O Porto foi contemplado com a mais vasta e intricada rede de auto-estradas do país. O Porto foi contemplado com o mais moderno e funcional aeroporto do país. O Porto é centro da mais importante área vinícola do país. No Porto passaram a funcionar dois dos mais importantes núcleos culturais do país, Serralves e a Casa da Música. O Porto tem infra-estruturas de saúde sem paralelo no país. O Porto transformou-se, em pouco tempo, num destino turístico de primeira qualidade.

    Ainda bem. Tudo isto é bom, e bem vindo, merecido ou não.

    Então qual é o problema que leva inúmeras “forças vivas” locais, cujo alto paradigma é um tal Miguel Veiga – político que nunca politicou nem correu qualquer risco, conhecido apenas por bocas e patacoadas lançadas contra os que diz ser “seus” – a insurgir-se contra o “centralismo” de Lisboa, quando a Lisboa – leia-se aos governos – deve a esmagadora maioria dos benefícios com que tem sido contemplado, e de que alguns dos exemplos acima dão uma pálida imagem? A resposta é: um provincianismo bacoco e pedinchão, um oportunismo rasca, uma choraminguice endémica e egoísta, a necessidade de criação de um inimigo externo – coisa própria de tiranos e de alarves.


    O candidato do PS à CMP, um certo Pizarro, tem a bizarria hitleriana de excitar as massas com a “defesa” do “norte” contra o tal “centralismo” do “Sul”, praticado sem escrúpulos pelos “judeus” de Lisboa, gente que consideração alguma deve merecer ao “povo do Norte”. Outro argumento eleitoral parece não restar ao bizarro Pizarro. Excitem-se as massas contra o inimigo, e as massas votarão em nós, não por nós mas por ódio a terceiros. É primitivo, é ordinário, é falso. Mas que importa, se der uns votos?


    Outras figuras procuram notoriedade com argumentos semelhantes. Veja-se a administração da Casa da Música, que se demite em bloco como protesto contra um corte de dez por cento nas verbas – um milhão em dez que o Estado (Lisboa) lhe dava de bandeja todos os anos! É que todos os portugueses têm os rendimentos diminuídos em muito mais de dez por cento, mas mas os tais administradores e os bizarros acham que a Casa da Música devia ficar de fora. Porquê? Porque é do Porto, ora essa! O Porto tem direito à intocabilidade de prebendas e subsídios que para outros não existe. Porquê? Porque é o Porto, ora essa! Tocar nos sacrossantos “direitos” do Porto é ditadura, tirania, centralismo desenfreado!


    O aeroporto do Porto vai ser gerido pela Vinci, aliás como os de Lisboa e Faro? Tirania! Então e os magnatas do Porto que estavam à espera que a coisa lhes caísse nas mãos? Não são gente? Coitadinhos, não concorreram à privatização da ANA, não dão (mais) dinheiro à Casa da Música, antes pelo contrário, mas que importa, Lisboa é a culpada de tudo e o resto é conversa.


    No meio desta reles choraminguice, lá vem a vexata questio da regionalização. Pois então, o Porto devia ser a capital da região Norte, com o seu governo, o seu parlamento, os seus ministros, a sua coorte de politiquinhos. Tudo de preferência pago, e bem pago, por Lisboa! Assim se faria “justiça”.


    Vão bugiar. Verdade é que o Porto merecia melhores porta-vozes.

     

    8.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • COERÊNCIAS

     

    O dr. Balsemão, quando era primeiro-ministro, tinha um lema interessante e realista: “libertar a sociedade civil”. Era um nobre objectivo. Saíramos de um período em que um Estado todo-poderoso, controleiro, autoritário, condicionador, tinha menosprezado a criatividade social e habituado as pessoas a desistir da sua independência e da sua cidadania. O PREC e os seus exageros, em boa parte vertidos na Constituição, tinha agravado o problema. As nacionalizações , o poder militar oficialmente vigilante, a preponderância do Estado na vida das pessoas, a crença numa espécie infalibilidade social e económica da democracia, tudo levava à continuidade da paralisia social.

    Pouco ou nada resultou da formulação de tal e tão justa intenção. Via Estado social, cada vez mais os cidadãos se tornaram subsidiários da coisa pública, como é hoje quase unanimemente reconhecido.  Por outro lado, ainda que tivesse acabado o condicionamento industrial e outros garrotes, manteve-se, e até se agravou, a selva burocrática dos licenciamentos, das regulações e regulamentações, do poderio estatal sobre toda e qualquer iniciativa, por mais simples e inócua que seja.

    Seria de esperar que, por uma questão de coerência, o dr. Balsemão saudasse a intenção do governo de privatizar a RTP. Mas, logo que a atitude do Estado tem, virtualmente, o efeito de poder vir a prejudicar os interesses comerciais do dr. Balsemão, ei-lo a mandar a coerência às urtigas e a “demonstrar” que “não há espaço” para mais uma televisão privada em Portugal. Quer dizer, enquanto RTP, pública, concorrendo no mercado com as privadas, parece não causar mossa ao dr. Balsemão, já se for privada é uma chatice!  Ou seja, o “libertador “ da sociedade civil acha muito bem a situação actual, com os cidadãos a pagar com impostos uma estação tão milionária como deficitária, deixando-a simultaneamente concorrer com as outras na publicidade. Mas, se achar que alguém pode vir, em plena liberdade, concorrer com ele, às malvas a libertação!

    A título de parêntesis, o IRRITADO faz aqui uma “declaração de interesses”. É que também é contra a privatização da RTP! Mas, como aliás tem repetidas vezes defendido, acha que a RTP devia ser simplesmente extinta, vendido o património, “arrumado” o pessoal e, quando muito, aberta uma nova licença para concurso público de um canal generalista gratuito para o consumidor. Com os canais existentes, o Estado, se quisesse continuar a fornecer certos serviços (“Internacional”, “África”…), contratualizá-los-ia, então, com os canais existentes no mercado. Nem mais um tostão para a chulice RTPista!

    Esta era dedicada à “coerência” do dr. Balsemão, não às ideias do IRRITADO. Adiante.

     

    Outra importante personalidade da nossa praça merece elogios paralelos: a drª Manuela F. Leite. Nos tempos do dr. Barroso primeiro-ministro, a senhora – ministra das finanças – ficou conhecida por defender o primado do orçamento. Aumentou os impostos, criou o célebre PEC (pagamento especial por conta), etc.. Foi objecto das mais virulentas críticas por parte do PS, as mais duras televisivamente protagonizadas pelo senhor Pinto de Sousa, que a economia é que era importante, que finanças era o menos. Chamavam-lhe velha, bruxa, etc. . Até o PR Sampaio, futuro golpista constitucional, achava que havia “vida para além do défice”.

    Ora é esta mesma senhora que, hoje, se atreve a perorar sem vergonha contra os que fazem o mesmo que ela fez, pressionados por realidades bem mais graves que aquelas em que ela se viu metida!

    Outro caso de coerência à portuguesa, mais grave que o do dr. Balsemão. Desta feita não há motivações de “mercado”. Só frustrações, invejas, vingança e malquerença.

     

    7.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • “SAUDÁVEL” REFERENDO

     

    O senhor Silva, médico de profissão e chefe incontestado da classe, viciado politicão esquerdista, primeiro homem em Portugal a confundir uma ordem com um sindicato, desdobra-se em iniciativas políticas da mais primária imaginação, com o denominador comum de ser todas contra o governo, faça este o que fizer.

    A última é capaz de pôr às gargalhadas o mais sisudo. O homem propõe que se faça um referendo, a fim de que os cidadãos se pronunciem sobre aquilo a que o governo chama uso adequado dos medicamentos e a que ele chama racionamento. Presume-se que a pergunta seria : acha que os medicamentos devem ser racionados? SIM ou NÃO? Pergunta inteligente, como se vê, já que o NÃO estava garantido à partida, e por larga maioria. Seguir-se-ia, em grau mais elevado, a rebaldaria medicamentosa a que a joint venture médicos/laboratórios nos habituaram durante tantos anos. Ele, Silva, que até se diz admirador do ministro da saúde, acha que a política de poupança nos medicamentos está errada.

    O IRRITADO, como em 99% dos casos, não está de acordo com o Silva. Na sua qualidade de consumidor habitual de várias drogas, tem visto a factura da farmácia descer, e descer muito, ao longo dos últimos meses. Se ainda há quem não tenha dado por isso é porque, felizmente, ainda há muita gente com saúde. Por outro lado, quando se fala em certa moderação no receituário de remédios caros para doenças graves é, evidentemente, porque há abusos na matéria, não porque se pretenda aumentar o sofrimento ou diminuir a vida da quem tem a desgraça de precisar deles.

    Por isso que as opiniões, receitas e diatribes do Silva, deste feita referendárias, mereçam o destino adequado: o caixote dos disparates e dos adeptos do botabaixo.

     

    4.1.13

     

    António Borges de Carvalho

  • ESTROFES DA DESGRAÇA

     

    … Quando uma noite, estando descuidados

    Na cortadora proa vigiando,

    Uma núvem que os ares escurece

    Sobre nossas cabeças aparece.

    Tão temerosa vinha, e carregada,

    Que pôs nos corações um grande medo.

    Bramindo, o negro mar de longe brada,

    Como se desse em vão nalgum rochedo.


    Se me não falha a memória, é assim que o Vate abre o episódio do Adamastor.

    Glosando, é esse grande medo que nos avassala ao ver surgir por todos os lados exércitos de gradas figuras da nossa praça precipitando-se com cargas de cavalaria de opinião, confiantes, corajosos, inteligentes, cultos e doutorais, e abatendo-se sobre os descuidados que, na cortadora proa das suas casas, se inquietam sobre o que aí vem, a tal núvem que os ares escurece…

    Bramindo, os negros opinadores desdobram-se em cenários de desgraça, crises políticas, pancadaria, loas à sacrossanta (para o PC e o BE), ou santa (para o PS) Constituição – ou ao que resta de tralha programática nela inserida em tempos que, felizmente, já lá vão – que, apesar de paralítica e paralisante, o PS insiste em manter como arma de arremesso político.


    A única coisa verdadeiramente importante que o PR disse, mas que é sistematicamente esquecida pelo negro mar dos artistas convidados, foi o apelo à concertação, isto é, à colaboração do PS, com diálogo, propostas e abertura democrática. Uma ilusão. O PS, temeroso do bando de tarados que por lá viceja (o Vitalino e o seu séquito de socratistas, as maluquinhas tipo Isabel Moreira ou Ana Gomes, etc.), completamente incapaz de outra política que não seja a do confronto soez e da partidarite aguda, pior que um peso morto, é a parte que mais escurece a carregada núvem que sobre nós aparece. Do que o PR disse – pouco ou nada disse que não fosse tentar “safar-se”, dando abébias a gregos e troianos –, esse sensato apelo está, desde o primeiro minuto, posto no caixote do lixo pela onda de opinião dos intelectuais pagos para dizer, ad nauseam, mais ou menos o mesmo.


    Se quisermos ter esperança, haverá que torcer para que o negro mar desta gente dê em vão nalgum rochedo…

     

    4.1.13

     

    António Borges de Carvalho  

  • MOSTRAR SERVIÇO

     

    Este governo tem muito que fazer. Vai fazendo… mas parece que continua a haver quem não tenha muito trabalho e, assim como os tipos de Bruxelas passam a vida a regular o que não devem, se dedique a inventar novas matérias para chatear o cidadão.

    É assim que tem vindo a ser anunciado que o governo, leia-se os burocratas desocupados que já deviam ter ido para o olho da rua, se prepara para lançar mais uma campanha de ostracismo militante contra os fumadores. Não bastam as limitações que há aí por todo o lado, as ameaças nos pacotes, a propaganda, os autocolantes imaginados ad hominem, quer dizer, que não proibem de fumar, proibem as pessoas que fumam, mais a parafrenália de martingalas que a UE lança dia sim dia sim.

    Prepara-se agora a eliminação das zonas de fumadores nos restaurantes, aeroportos, quem sabe se nas ruas. A desculpa é que os fumadoeres custam ao Estado 500 milhões por ano em cuidados de saúde. Ninguém sabe como se fez, ou faz, esta conta, já que ninguém sabe quantos cancros ou coisas do género são consequência do fumo ou se têm origem genética ou outra qualquer. Mas aceite-se, por pura comodidade, a conta mirabolante dos burocratas. Há outra conta, essa mais exacta e fiável, que esta gente não faz: os fumadores, pelo simples facto de fumar, entregam ao Estado, anualmente, cerca de… 1.000 milhões de euros em impostos, o dobro do que, alegadamente, custam! Por outras palavras, os fumadores não só pagam os cuidados de saúde que recebem do Estado, como ainda contribuem para os cuidados prestados aos que não fumam com nada menos de 500 lindos milhões.

    Morrem mais cedo, diz-se. O problema é deles. Se morrem mais cedo, cobram menos de reforma ao Estado. Mais um contributo dos fumadores para o equilíbrio das contas…

    Do Estado e da sociedade, o problema é o desperdício de 500 milhões na saúde e de um número indeterminado de milhões na Segurança Social.

    Bom seria que o governo não perdesse tempo com estas patacoadas persecutórias e ordinárias. Ou seja, que não desse ouvidos a relatórios de funcionários inúteis que, como todos os inúteis, outra coisa não pensam senão em criar dificuldades às pessoas, para mostrar serviço.


    31.12.12


    António Borges de Carvalho

     

    Post scriptum*: Amanhã é ano novo. Como diz o outro, meus amigos, aguentem-se. Lembrem-se da sabedoria popular: “depois da tempestade, a bonança”, “não há mal que sempre dure”, “chuva em Novembro, Natal em Dezembro”, mais vale ser rico e ter saúde que ser pobre e doente”, “depois de mim virá quem de mim bom fará” (esta não se aplica ao Pinto de Sousa), “o futuro a Deus pertence” et alia do mesmo género. Não vale a pena coçar as feridas nem pôr as culpas aos do costume, como o polícia do “Casablanca”. Um déjá vu que só faz o 13 dar má sorte.

    Saudinha, já que dinheiro, meus amigos, não há em 2013 nem haverá tão cedo.


    E pronto. Bom ano para todos!


    IRRITADO


    *Não escrevo PS (t’arrenego!), podia dar lugar a confusões!

  • COISAS DA HISTÓRIA

     

    Talvez o mais importante trunfo político da I República, na sua guerra suja contra a Monarquia Constitucional, tenha sido o Império. Com a derrota diplomática sofrida na Conferência de Berlim, a perda do enorme território entre Angola e Moçambique e o ultimato inglês, a moral da Nação, até então elevada com os feitos dos exploradores africanos, sofreu um rude golpe, e a Monarquia com ele. O Império fazia há séculos parte da chamada auto-estima dos portugueses. Por isso, os republicanos atiraram para as costas do regime a fraqueza que os acontecimentos demonstravam, exploraram ad nauseam a alegada falta de patriotismo do Rei, capitalizaram a vergonha da Nação. Daí, “A Portuguesa”, a exaltação dos valores históricos, a defesa acrisolada do Império, razão de ser da Pátria que a Monarquia não tinha sabido defender, a subserviência em relação aos ingleses, a “traição à Pátria”, tudo politicamente explorado e potenciado pelos republicanos. Não seria fácil, por esse país fora, “vender” a populações com valores estáveis, agarradas a um viver habitual sedimentado, ideias que, boas ou más, pouco ou nada lhes diziam. Pelo contrário, os riscos que o Império corria calavam fundo no orgulho de cada um. O Império, a sua permanência e defesa, a sua “eternidade”, foram parte integrante do ideal republicano e da sua propaganda.

    A II República pôs de lado tanto o sistema da primeira como o da Monarquia Constitucional, mas, no que ao Império se refere, deu continuidade e reforçou os ideais do regime anterior. Convertidas em colónias por Salazar, via “Acto Colonial”, as províncias ultramarinas depressa voltaram à sua designação anterior.

    Os tempos mudaram. Os herdeiros da I República vieram – fruto dos “ventos da História” – a abjurar dos ideais dos seus maiores e a adoptar como ideal o novo movimento dito de libertação dos territórios, de novo coloniais. O que para uns tinha sido honra e glória, passou, na opinião dos seus “filhos”, a vergonha e opróbrio.

    O Estado Novo, por seu lado, não percebeu as mudanças que sabiamente devia “controlar” e, apesar de para tal ter tido tempo e oportunidades várias, apesar do esforço nacional das guerras ultramarinas (hoje “coloniais”), insistiu nos ideais da I República e enquistou na fórmula dela, sem cuidar que, como tal, tal fórmula se tinha tornado insustentável e indefensável. Pagou-o uma geração inteira, pagou-o o sacrifício de milhões de homens. Pagaram-no os portugueses que se viram privados de tudo e que se exilaram num país europeu que não era já a sua terra de origem. Pagaram-no os africanos, com milhões de inocentes, vítmas de ideologias malditas e de lutas de poderes tribais,  de senhores da guerra, de interesses externos, de exércitos estrangeiros que nada tinham a ver com as suas vidas. Mais de quarenta anos de guerra, os primeiros treze relativamente “suaves”- até 74, os seguintes da mais sanguinária violência.

    Dir-se-á que isto são histórias passadas, histórias que às novas gerações já nada dizem. Talvez seja assim. Facto é, porém, que estas histórias, ou esta História, são sistematicamente postas em causa pelo novo politicamente correcto, que consiste em escarafunchar a História à procura de tudo o que possa arruinar o orgulho de ser português. O que era contado, quiçá com entusiásticos exageros pelas duas primeiras repúblicas, é lançado na terceira para os arquivos da desonra, com exageros ainda maiores. Parece que houve um massacre em Moçambique. Admitamos que sim. Tal história, completamente expurgada do contexto em que se terá dado, é contada e recontada vezes sem conta, como se fosse coisa paradigmática e exemplo acabado do que foram as campanhas ultramarinas. Uma História isenta diria que o acontecido foi uma excepção numa guerra muito mais marcada por exemplos de convivência e de humanidade que por massacres. Parece que houve cabeças cortadas a mortos. Admitamos que sim. A história é contada, recontada e tornada a contar, como se fosse verdade que os portugueses andassem a cortar cabeças a mortos por tudo o que era sítio. Com eventuais verdades, faz-se da História uma colossal mentira. Agora, apareceu nos jornais um ”estudo” de uma senhora, a provar que tudo o que a Monarquia Constitucional e as duas primeiras repúblicas diziam acerca do Império, não passava de mentira, de propaganda, de areia nos olhos do povo, uma anedota sem qualquer relação com a realidade.

    O IRRITADO, quando pensa nos “historiadores”, nos “jornalistas de investigação”, etc. – salvem-se raríssimas excepções – e na coorte de socialistas e apaniguados que tratam destas matérias, sente-se na União Soviética, terra em que a História era contada segundo as conveniências do partido. Só que, hoje e em Portugal, nada justifica a aldrabice monumental com que a História é contada às pessoas em parangonas de jornal. Para quê? O que quer esta gente destruir? Que gozo lhe dá “aprofundar” a História com intenção masoquista ou ideológica? Com que direito se generaliza o que não é generalizável?

    Lembro-me de, em São Tomé, ter passado os olhos por um livro de “história”, oferecido pelos cubanos ao sistema de ensino local, em que se dizia, mais ou menos assim, que a humanidade tinha conhecido uma idade de trevas, e que só tinha visto a verdadeira luz no dia em que Lenine desembarcou do comboio em São Petersburgo.

    É isso o que querem?     

     

    29.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • VIVA O SILVA!

     

    O Pai Natal de inúmeros craques da nossa praça foi o inigualável senhor Baptista da Silva. Da ilustre massa associativa do Grémio Literário ao núcleo de intelectuais do Lisbon-não-sei-quê, etc., avultando no vasto grupo a cómica figura do lacinho maricas da SIC/Expresso e seus ilustres convidados, a mais alta gente ouviu respeitosamente as esclarecidas palavras do excelso Professor Doutor Baptista da Silva, emérito Consultor Internacional com assento na ONU, onde ninguém toma decisões sem o ouvir, professor de insignes universidades americanas, economista de renome internacional, para além de outras invulgares qualidades que muito honraram os que o convidaram para nos iluminar com a sua vasta cultura, douta palavra, sábia informação e consequentes esclarecidas opiniões.

    A nossa “massa crítica”, os nossos jornalistas, os nossos clubes de sábios, os nossos opinion makers, tinham feito a descoberta do ano: um ás, um vulto, um estratega, um português da diáspora que em terras longínquas honra a nossa Pátria, desembarcado na Portela para, com a sua fluente oratória e o seu profundo conhecimento dos problemas do mundo e do país, se dispor – julgo que a troco de umas massas – a contribuir para a cultura e os conhecimentos das nossas mais nobres classes, das quais faz parte, evidentemente, o gajo do lacinho.

    Ora o homem, afinal, era um tipo como outro qualquer. Mas, que diabo, tinha opiniões, opiniões rebarbativas, fundamentadas, interessantes. Não ser nada do que dizia ser não tem importância nenhuma. Isto porque se fosse tudo o que dizia ser, diria as mesmas coisas. Se diria as mesmas coisas, que interessa que tivesse ou não tivesse o proclamado background?

    Ou seja, o que interessa à nossa classe informatória/intelectual não é a substância das coisas mas a forma em que as envolvem. Uma mala Vuiton cheia de merda é uma preciosa mala Vuiton, que faz as delícias de angolanos, chineses e tipos do lacinho. Uma mala de cartão cheia de barras de ouro é uma porcaria que nem vale a pena abrir. É o caso. O tal Baptista da Silva, nos dois minutos em que o IRRITADO o ouviu, só disse asneiras e parlapatices. Mas foi ouvido com deferência e respeito. Porquê? Por causa da mala Vuiton em que o achavam metido!

    E tudo minha gente continuaria a ouvi-lo com deferência e respeito, não fora alguém – não os que lhe compravam as bocas – ter-lhe destapado a careca.

    Condecore-se o homem! É que, em meia dúzia de penadas, descobriu a careca dos nacional-bempensantes que, aos batalhões de tipos do lacinho, por aí vicejam.

    Além disso, sobretudo por isso, divertiu-nos imenso neste pouco esperançoso Natal.

    Viva o Baptista da Silva!

     

    28.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • ESTAMOS À ESPERA DE QUÊ?

     

    Toda a gente já percebeu que a nacionalização do BPN, como a generalidade das nacionalizações, foi uma patada na poça. Tão mau ou pior do que isso, e consequência disso, foi o que seguiu: injecções multimilionárias de capitais públicos, tropeços em buracos atrás de buracos, um país arruinado a fazer face às monstruosas loucuras de uma série de escroques, oportunistas e incapazes, desnacionalização da carne ficando o Estado com os ossos – se calhar não havia outra solução – enfim, desgraças nacionais umas atrás das outras.

    Apareceu agora, sabe-se lá porquê só agora, uma interminável lista de fulanos que sacaram centenas de milhões do BPN, ou para meter em empresas fantasma, ou para mandar a bom porto – leia-se paraísos fiscais – ou não se sabe para quê, nem interessa saber. O que se sabe é que nenhum deles, ou quase, dava garantias que se vissem ou fazia tenções de pagar mesmo que algum dia pudesse  fazê-lo.

    É cristalino que o governo de então devia ter verificado a insolvência do banco e posto em acção os mecanismos que permitem restituir pelo menos uma parte do que os depositantes lá tinham. O resto era com os credores, com as polícias, com os tribunais. A estas horas não havia BPN, e pronto. O pior tinha já passado. Os credores que se batessem pela massa falida.

    Foi o oposto, e o resultado final da nacionalização é o que se sabe: o Estado constitui-se em credor de uma chusma de insolventes e cavalheiros de indústria que jamais pagarão seja o que for, e em devedor da fortuna imensa que o banco devia e que, sendo Estado, vai ter que pagar.

    A salvação (que “salvação”!?) acabou por ser a inevitável mudança de accionista em condições que fariam inveja aos cavalos do apocalipse.

     O que sucedeu afinal?

    Os principais culpados dos desvarios e dos crimes, o senhor Constâncio e os seus “técnicos” foram, ou estão, devidamente colocados. O chefe no BCE, não se percebe como nem porquê, os restantes nos seus doirados lugarinhos. Não consta que tenha havido malguma purga no Banco de Portugal, por manifesta incompetência ou por anuência ao que se passava. O que se passava parece que era mais do conhecimento da vox populi que dos responsáveis pela supervisão. Como pôde o BdP, por exemplo, deixar que se constituísse um fundo com milhões emprestados pelo BPN, tendo como garantia um terreno de valor puramente imaginário (caso D.D.Lima)? O BdP tem a competência e obrigação praticamente exclusivas de supervisionar criação e funcionamento de todo e qualquer fundo. Como passou este? Insondável mistério. Não colhe, neste como em muitos outros casos, culpar os governos, fossem de que cor fossem. Colhe sim, perguntar o que aconteceu aos “supervisores” que, cegos surdos e mudos, assistiram a tudo na plateia. Colhe também perguntar aos responsáveis pela nacionalização se tinham alguma noção do que estavam a fazer. Ou não tinham, ou o injustificado medo do contágio foi mais forte do que eles, o que quer dizer que não faziam ideia alguma sobre o estado do sistema. Um passeia em Paris, outro dá aulas. Nem um nem outro pediu sequer desculpa pela argolada.

    Resta a parte que não diz respeito ao governo, ou aos governos, que é a que diz respeito à Justiça. Que sucedeu? É certo que o principal dirigente do BPN foi preso, e ainda o está, em prisão domiciliária. Diz-se que o seu estado de saude é periclitante. Desejemos-lhe as melhoras, a título pessoal e na qualidade de principal depoente, por certo num número gigantesco de processos, coisa que é comum entre nós, para baralhar e complicar em vez de esclarecer e simplificar. E os demais? Os outros responsáveis do banco? E os que pediram e obtiveram empréstimos mirabolantes na certeza de que não os iriam pagar, que as garantias dadas eram fancaria, ou sem dar garantia nenhuma? Que diabo, nenhum tem património que sirva para minorar a situação? São réus nalgum processo? Foram-lhes aplicadas medidas de coacção? Cogelaram-lhes as contas, cá e lá fora? Andam a monte? Já pagaram alguma coisa? Fracto é que os anos passam, quantos?, dois, três, quatro? E nada acontece que não seja a contabilização dos fossos sem fundo nas nossas contas?

    Os nossos magistrados, que passam a vida aos berros em defesa da sua independência – na sua boca a independência é muito mais que a constitucional – andam a fazer o quê? Que noção têm de que a justiça ou é célere ou não é Justiça?

    E nós? Estaremos à espera de um julgamento eterno, tipo Casa Pia, ou pior? Estaremos à espera que os implicados tenham tempo para pôr os “corpos de delito” a salvo? Estaremos à espera de pagar em impostos o que umas dúzias de fulanos fizeram desparecer?

    Que fazem por nós os nossos magistrados?

     

    26.12.12

     

    António Borges de Carvalho    

  • BOAS NOTÍCIAS

                          

    Está o IRRITADO cheio de esperança e orgulho por ver, aqui, no jornal, a cores, três dos mais altos dirigentes e pensadores portugueses, daqueles que, ao longo de tantos anos, têm vindo a opinar sobre os caminhos e os destinos da Pátria: o inestimável – porque não se estima – José Carlos Vasconcelos, o ilustre – porque não dá luz – Mário Soares, o insigne – porque ficante – Boaventura Sousa Santos. Os três muito contentes na apresentação de uma obra do terceiro.

    Obra não, “recolha de textos de opinião”.

    Não contente por vir, ao longo de anos, apresentando na nossa submissa imprensa o resultado dos seus estudos e investigações socio-políticas, quer dizer, de politiquices esquerdóides com “justificações” sociológicas, o SS brinda-nos agora com um livro de recordações destinado a fazer as delícias dos 24 indígenas que andavam a passear pelas das estantes da “Almedina” e que foram apanhados pela menina da editora e levados a comprá-lo.

    Nada melhor que Vasconcelos e Soares (só os dois, somados, já deram à Nação uns 170 anos de doutrinadura – com o BSS, a coisa sobe para mais de 240) para dar público aval à formidável estatura intelectual do autor e às excelsas qualidades da obra ora (re)vinda a lume.

    Vasconcelos ficou célebre pela criação dessa bojarda política que foi o partido do General Eanes, inominável tentativa de sagração do presidencialismo militar, inacreditável grupo de ambiciosos que, à primeira, enganou o eleitorado, e que o mesmo eleitorado se encarregou de mandar às urtigas na segunda oportunidade, seguindo-se o indecoroso e hilariante espectáculo das comadres eano-vasconcelistas à porrada pelas esquinas, até, em boa hora, à dissolução final do aborto. Chegaram ao ponto de ter um jornal, modestamente chamado “Jornal”, destinado a defender o eanismo, o terceiromundismo, o socialismo e outras patacoadas da cartilha do MFA “moderado”. Depois, Vasconcelos voltou à “cultura”, de onde, aliás, era oriundo. Até à falência final. De Soares, não vale a pena dizer nada. Toda a gente o conhece. Até quem gostava dele anda aparvalhado com o primitivismo das asneiras com que, pelo menos semanalmente, vai brindando a canalha.

    Uma equipa bem escolhida, bem à altura do autor que vieram gabar.

    Dado o exposto, o IRRITADO recomenda vivamente a aquisição da obra escrita e propagandeada por tão  alta gente.

    *

    Já agora, outro conselho: para colmatar qualquer lacuna cultural que vos aflija, meus amigos, não se esqueçam que, no dia 29, a edição do DN vai ser dirigida por outro grande da República – e do PC: Manuel Carvalho da Silva. A não perder!

     

    23.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • FANTÁSTIC0!


    Anteontem, a venda da TAP era, para inúmeros indígenas:

    – Inconstitucional

    – Um negócio “opaco”

    – A alienação de uma “empresa estratégica”

    – O abandono dos emigrantes e dos PALOPs

    – Fruto de compadrios com cheiro a corrupção

    – Uma prova de que o governo sacrifica o património público aos seus interesses

    – Mais uma manobra suja do Relvas

    – Etc. etc. etc.


    Ontem, a partir da tarde, os mesmos aborígenes condenavam, com a maior das veemências que o governo tenha decidido não fazer o negócio. Porquê, hem? E a transparência? E o Relvas? Então o Relvas não estava feito com o Ovitch? Então se o Ovitch não dava garantias como é que negociaram com ele? E porque é que o Ovitch prometeu a garantia para transantontem? E porque é que só havia um concorrente? E porque é que o concorrente foi recebido pelo Relvas? Em suma, como diz, todo contente, o “Público”, trata-se de mais uma importante derrota do governo. E lá está o Pacheco a bombardear com a falta de transparência, com o segredo da negociação, com a inaceitabilidade da explicação fornecida, e por aí fora. E o PC, mais o BE, mais o Carlos, que adoravam que a privatização se tivesse feito para pôr os sindicatos aos berros no meio da rua e ficaram sem este tema? Coitados!


    Afinal, para estes bandos de delinquentes mentais, tanto faz. Se o governo privatiza, o governo é péssimo. Se não privatiza, ainda é pior.

    E assim vai o país que estes tarados querem “guiar”, formando opinião. O que vale é que a maioria das pessoas percebe muito melhor o que se passa que esta macacagem.


    Dúvida do IRRITADO: qual é o mal maior, vender sem as devidas garantias, ou não vender?


    A ver vamos o que diz o futuro, na certeza que aquela gente achará sempre mal, seja o que for que o futuro nos diga.


    Não é fantástico?

     

    21.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • A VERDADEIRA OPOSIÇÃO


    Em todas as democracias, como diria o amigo-banana, há governo e oposição. Normalmente, estão do lado do governo os partidos que lhe dão apoio parlamentar, e na oposição os que não lho dão. Às vezes há guerras, ou guerrinhas políticas, nos partidos do poder, o mesmo se passando com os outros.

    Postas estas verdades de xaxa, vejamos o que se passa entre nós.

    Dos partidos do governo, um anda permanentemente a ver se tira o cavalinho da chuva. Uma mariquice pegada. O outro tem um vice-presidente que faz estudos, quiçá a preparar o seu futuro político, apresentando ao povo, não ao partido, o que acha que tem que ser feito. Isto, como é evidente, sem contar com a chusma de intelectuais teoricamente afectos ou até filiados, que se entretêm a agitar o descontentamento. Os dois partidos estão no governo mas.

    Os partidos da oposição dividem-se em dois grupos: o PS e os 2,05 partidos comunistas. Estes, como oposição, não contam, no sentido em que têm tropa às ordens para fazer barulho, mas é sempre a mesma tropa, não atrasa nem adianta. Na hora de votar, valem o que valem, quer dizer, pouco valem. A esmagadora maioria das pessoas sabe bem que tudo aquilo não passa de sopa requentada, velha  relha. Quanto ao PS, a história é outra. Está entalado por dois lados. Primeiro, porque sabe ter sido o principal autor interno da borrasca financeira em que estamos metidos. Segundo, porque, se estivesse no poder, o que tinha que fazer era exactamente o mesmo que este faz. Ainda por cima, o que este faz é o que o PS combinou com terceiros. Por isso, não é bem oposição, tem que se limitar a esbracejar no meio da onda que arranjou.


    A verdadeira oposição, a mais destrutiva, a mais demagógica, a mais poderosa, está nos chamados media, que parecem formatados pelo camarada Louça. A generalidade dos jornalistas e quase totalidade dos comentadores convidados e dos “intelectuais” de serviço faz a festa da oposição sem a mais leve sombra de sentido de serviço público ou de rigor informativo. Os poucos opinadores moderados e sérios que vão aparecendo, quer nos jornais quer nas televisões, coitados, cheiram a raminho de salsa, dão um arzinho, e pronto. São a excepção que confirma a regra.

    Não me venham cá falar no domínio do “capital” sobre a “informação”. Nesta matéria, como nas outras, o que o “capital” quer é ganhar dinheiro. Para tal, dispõe de uma chusma de serventuários que sabem que o que dá é o bota-abaixo, com razão ou sem ela. Se assim não fosse, ainda havia quem publicasse os dislates e disparates do Mário Soares?

    O bom senso, cá no sítio, não vende nem tem quem o aprecie.

     

    18.2.12

     

    António Borges  de Carvalho

  • TAP

     

    Para o IRRITADO a existência de empresas do Estado é uma contradição nos termos. Há uma regra do senso comum e tradicional, aliás vertida em lei, que reza que “ninguém é bom juíz em causa própria”. Fácil de perceber, não é? É por esta tão simples razão que o Estado jamais devia ser proprietário daquilo a que há quem chame “meios de produção”. O Estado, como qualquer outra entidade, não está em posião de se fiscalizar a si próprio, nem tem altura moral para “regular”  e vigiar outrem, já que ele mesmo é parte do outrem. Um juíz não pode julgar os irmãos, os filhos ou os pais, por exemplo. Ou seja, ao meter-se na vida económica como agente interessado, o Estado demite-se da sua legitimidade para fiscalizar os demais. Simples.

    Mais que não seja por esta razão, acha o IRRITADO que todas as privatizações são, por natureza, bem vindas.

    É evidente que há bens que, por ser monopóios naturais ou marcadamente do interesse geral, podem, ou devem, ser objecto de cuidados especiais e sua nua propriedade não deve ser objecto de privatização. Nestes casos, porém, ou a sua gestão deve ser, por regra, concessionada, reversível a prazo, ou cair-se-á nos mesmos vícios, comuns a todas as empresas públicas.

    Feita esta declaração de interesses (está na moda!) não materiais, deve privatizar-se a TAP? Evidentemente!


    Na segunda feira vi a primeira parte do “Prós & Contras”. A primeira gozosa impressão que a coisa me deixou foi a comunhão de ideias do Louça com um tipo que, se não era da extremíssima direita, era pelo, menos ultra-nacionalista. Engraçado. Como o IRRITADO tem muitas vezes referido, os extremos têm ideias que, com diversos fundamentos e objectivos, vão dar mais ou menos no mesmo. Substancialmente, são o mesmo.

    O Louça é contra porque é contra. Não precisava sequer de argumentar. É contra porque tem o raciocínio viciado em coisas como a “apropriação colectiva dos meios de produção” e a “economia planificada”, ainda que vá evitando estes chavões e procurando dar alguma lógica intelectual ao que diz.

    O outro era contra porque a venda da TAP equivale, nas sua palavras, ao abandono de cinco milhões de portugueses e de luso-descendentes(?)que, vivendo fora do país, não querem outra coisa senão comprar bilhetes à TAP. Daqui se pode concluir que a TAP, uma vez privatizada, passará a não aceitar portugueses nos seus aviões. Ou que o comprador tem por objectivo pôr de lado as rotas de África e do Brasil. A inteligência deste pensamento ultrapassa o merecimento de qualquer comentário. O homem é uma besta e,como os comunistas, acha que a soberania nacional se mede pelo número de empresas de que o Estado é proprietário.

    Depois, lá vieram as questões de pormenor, o preço, o encaixe financeiro, os trabalhadores, o projecto, etc. E, evidentemente, a falta de “transparência”. Ou seja, as negociações da venda deviam ser feitas na praça pública, todos os encontros, reuniões, almoços, operadores financeiros, respectivas actas e não actas, deviam vir nos jornais, etc.. Como se tal fosse possível, como se tal pudesse funcionar! O projecto é mais ou menos sabido, e ninguém parece poder pô-lo em causa. Mas, e garantias, meus senhores, que garantias dá o comprador de ser fiel ao projecto, hem?


    Não sendo as negociações conhecidas passo a passo, muita coisa se sabe. Aqui há dias, o jprnal da oposição chamado “Público” dedicava a manchete e quatro páginas ao assunto. As três primeiras eram dedicadas à teoria da conspiração, num absoluto delírio de “investigação” jornalística, um mar de suspeições e de barro atirado à parede. De concreto, nada. Por ironia do destino, na quarta página, uma peça de outra jornalista descrevia com vasto pormenor, o estado das negociações, os avanços e os recuos, com larga cópia de informação propriamente dita. Nem se percebe lá muito bem como, no mesmo jornal, aparecem duas coisas tão diferentes. Ou muito me engano ou não tarda que a segunda jornalista vá para o desemprego. Que diabo, o IRRITADO também tem direito às suas suspeições!


    E pronto. Livrem-nos da TAP e dos seus buracos, subsídios, indemnizações, excepções e descontos políticos! Venha o polaco, ou lá o que é. Saquem-lhe o que conseguirem,e ponham-no a pagar as dívidas. O resto é conversa de “pensadores” interessados em fazer-se ouvir e dos que lhes dão tempo de antena e páginas nos jornais.

     

    19.12.12

     

    António Borgesde Carvalho    

  • ESTADO SOCIAL

     

    Há direitos e direitos. Numa acepção clássica, temos os direitos inerentes à pessoa humana, gratuitos, que nascem com ela: o direito à vida, à liberdade de pensamento e de expressão, o direito de voto… direitos de que se goza independentemente da circunstância de cada um. Modernamente, foi criado outro tipo de direitos, os chamados direitos sociais, que têm natureza diversa, longíssimo do conceito de direito propriamente dito: é que custam dinheiro! Nesta matéria, a nossa Constituição deve ser a mais pródiga do mundo. Todos temos direito a habitação (e não é a uma habitação qualquer), à saude tendencialmente gratuita, ao ensino universal e gratuito, a inúmeras prestações sociais, e por aí fora… só que, para ter direito a tais “direitos”, temos que os pagar! Pagamos o andarzinho onde vivemos, via renda ou empréstimo, pagamos livros escolares, pagamos a segurança social e a saúde via descontos no montante a que o nosso trabalho nos dá direito. Obrigatoriamente. Tudo sem que tenhamos o direito de ter uma palavra a dizer, o direito à escolha, o direito a qualquer espécie de opção sobre a nossa vida e o nosso futuro. Tudo sem qualquer correspondência entre aquilo que pagamos e aquilo que recebemos. Tudo nacionalizado, tudo utilizado pelo Estado a seu bel prazer para os fins que entende, e não gerido como devia, isto é, aplicando o nosso dinheiro e o dinheiro que a sua gestão rendesse aos fins para que o “depositámos”, compulsivamente, nas mãos do Estado. É isto o que se chama Estado social, numa concepção socialista e, desgraçadamente, constitucional.

    O resultado, de um ponto  vista civilizacional, foi a criação de uma sociedade de irresponsáveis –  todos o somos -, confiantes num mastodonte com quem o diálogo é impossível: o Estado “social”.

    É claro que, quando tal Estado chega ao estado em que está, desaparecem os direitos, ou seja, aquilo a que tínhamos o direito de pensar que tínhamos direito. Não temos. Se nos competisse gerir pelo menos a maior parte da nossa “segurança social”, se calhar éramos mais responsáveis e mais previdentes. Confiaríamos em quem nos oferecesse confiança, não em quem nos obriga a pagar, coarctando-nos a liberdade e proibindo-nos as opções.

    O Estado poderia entrar em cena para colmatar problemas nossos, provenientes de problemas daqueles a quem tínhamos confiado a nossa saúde, a nossa reforma, etc.. Os responsáveis seriam os interessados, não a burocracia estatal, não a “gerência” estatal de tudo e mais alguma coisa.

    O Estado assumiu tudo. E, falido que está, não retribui, nem pode retribuir, agora, aquilo a que se comprometeu, nem está em posição de ajudar aqueles que obrigou a pagar. Por isso que a solução do problema, se houver solução, não possa deixar de passar por uma espécie de revolução cultural, a revolução da responsabilidade individual e da profunda reforma do Estado. Numa palavra, uma revolução que ponha cada um no seu lugar. Um trabalho para décadas, impossível de realizar enquanto o “social” for confundido com socialismo.

    Li há dias que nada há de mais inconstitucional do que o Estado. Se temos que comprar ou alugar casa, é porque o Estado, à revelia dos “direitos” que o socialismo inseriu na Contituição, não nos deu uma casa digna, como é sua obrigação. E por aí fora, no que respeita aos restantes “direitos” sociais. Se o Estado não os garante, nem jamais pode garantir,não está a cumprir a Constituição. O que bem revela a natureza demagógica, ultra-ideológica e fatal da nossa Constituição.

    Se o Estado é, com geral aceitação, o primeiro dos ofensores da Constituição, por que carga de água anda para aí tanto miranda a esgrimir com ela para os seus paralisantes e pouco inteligentes fins políticos?

    Dir-se-á que a posição do IRRITADO é maximalista e irrealista. Talvez seja. Mas, se não tivermos este tipo de ideias e objectivos como guia da nossa concepção do Estado, da sociedade e da natureza da Natureza Humana, não deixaremos a quem nos vier a substituir nada que, substancialmente, valha a pena ou tenha futuro.  

     

    15.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • O JACOBINO, O MEDROSO E O INVEJOSO


    Jamais passaria pela cabeça do IRRITADO que as opiniões expendidas pela dona Isabel Jonet pudessem dar o falazar que deram. Quando parecia que a generalizada crise de idiotia intelectual já tinha passado, a coisa volta à tona de onde menos se esperava: a semanal reunião “doutrinária” de político-intelectuais, dita “Quadratura do Círculo”, destacado programa onde peroram dois figadais inimigos do governo, acolitados por um tímido adepto de um dos partidos da coligação, sempre de pé atrás mas com alguns momentos de clarividência.

    A que propósito, num programa de discussão política, se passa uma hora a zurzir a pobre senhora?

    É culpada, segundo o jacobino, de ter uma filosofia de tipo confessional, enquanto, como cidadã, deveria ficar-se pela “solidariedade”, uma virtude do Estado. O tenebroso passadismo, ínsito nas afirmações da senhora, o recurso à ideia de caridade, são sinais anti-sistema, como que facadas na superiorioridade do politicamente correcto. É claro, concede, que a obra da senhora tem mérito, mas teria muito mais se fosse baseada noutro sentimento que não o amor ao próximo, coisa de crentes e não de cidadãos. Ainda que, é claro (que chatice!), não se lhe possa negar o direito à opinião ou à fé.

    O adepto de um dos partidos da coligação, esse, a propósito da defesa da ré, não deixou de  enaltecer, em termos de valores, a alta primazia moral dos valores sociais, num “círculo de justiça”, enquanto os valores da senhora se encontram num círculo mais estreito, o da sua (dela) inspiração pessoal. Não se percebe porque entrou o ilustre jurista neste tipo de considerações, ainda por cima declarando-se católico apostólico romano. Mas, enfim, há que contemporizar com a “correcção”, não é?

    O terceiro homem, porém, outra desculpa não tem que não seja a da perturbação mental. Tanto tempo passado, ainda não foi capaz de digerir a derrota da sua guru de eleição, dona Manuela. A frustração, a inveja, o ciúme e outros sentimentos de paralela nobreza fazem-no perder a cabeça, ou uns restos de seriedade. Então não é que, para ele, o Banco Alimentar, porque inspirado nos sentimentos, ideias e crenças da dona Isabel, não passa de um sinal da filosofia anti social do governo, do poço neoliberal em que estamos metidos, de uma manifestação de desprezo pelos cidadãos e de mais uma série das mais horrendas e culpas, entre as quais, imagine-se, o pecado de orgulho(!)?

    Com um tremendo esforço, será talvez possível aceitar a permanente verrina do Pacheco contra quem o alijou do poder partidário e o apeou do colorido trono de filósofo oficial da liderança do PSD. Mas que até da dona Isabel Jonet se sirva para as suas diatribes, isso está para além do imaginável, é um sinal claro da descida aos infernos da inteligência por parte de um homem que, mais que não fosse por uma questão de self respect, bem podia estar calado, ou arranjar melhores bombos para a sua miseranda festa.

     

    14.12.12

     

    António Borges de Carvalho