Jamais passaria pela cabeça do IRRITADO que as opiniões expendidas pela dona Isabel Jonet pudessem dar o falazar que deram. Quando parecia que a generalizada crise de idiotia intelectual já tinha passado, a coisa volta à tona de onde menos se esperava: a semanal reunião “doutrinária” de político-intelectuais, dita “Quadratura do Círculo”, destacado programa onde peroram dois figadais inimigos do governo, acolitados por um tímido adepto de um dos partidos da coligação, sempre de pé atrás mas com alguns momentos de clarividência.
A que propósito, num programa de discussão política, se passa uma hora a zurzir a pobre senhora?
É culpada, segundo o jacobino, de ter uma filosofia de tipo confessional, enquanto, como cidadã, deveria ficar-se pela “solidariedade”, uma virtude do Estado. O tenebroso passadismo, ínsito nas afirmações da senhora, o recurso à ideia de caridade, são sinais anti-sistema, como que facadas na superiorioridade do politicamente correcto. É claro, concede, que a obra da senhora tem mérito, mas teria muito mais se fosse baseada noutro sentimento que não o amor ao próximo, coisa de crentes e não de cidadãos. Ainda que, é claro (que chatice!), não se lhe possa negar o direito à opinião ou à fé.
O adepto de um dos partidos da coligação, esse, a propósito da defesa da ré, não deixou de enaltecer, em termos de valores, a alta primazia moral dos valores sociais, num “círculo de justiça”, enquanto os valores da senhora se encontram num círculo mais estreito, o da sua (dela) inspiração pessoal. Não se percebe porque entrou o ilustre jurista neste tipo de considerações, ainda por cima declarando-se católico apostólico romano. Mas, enfim, há que contemporizar com a “correcção”, não é?
O terceiro homem, porém, outra desculpa não tem que não seja a da perturbação mental. Tanto tempo passado, ainda não foi capaz de digerir a derrota da sua guru de eleição, dona Manuela. A frustração, a inveja, o ciúme e outros sentimentos de paralela nobreza fazem-no perder a cabeça, ou uns restos de seriedade. Então não é que, para ele, o Banco Alimentar, porque inspirado nos sentimentos, ideias e crenças da dona Isabel, não passa de um sinal da filosofia anti social do governo, do poço neoliberal em que estamos metidos, de uma manifestação de desprezo pelos cidadãos e de mais uma série das mais horrendas e culpas, entre as quais, imagine-se, o pecado de orgulho(!)?
Com um tremendo esforço, será talvez possível aceitar a permanente verrina do Pacheco contra quem o alijou do poder partidário e o apeou do colorido trono de filósofo oficial da liderança do PSD. Mas que até da dona Isabel Jonet se sirva para as suas diatribes, isso está para além do imaginável, é um sinal claro da descida aos infernos da inteligência por parte de um homem que, mais que não fosse por uma questão de self respect, bem podia estar calado, ou arranjar melhores bombos para a sua miseranda festa.
14.12.12
António Borges de Carvalho

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