IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • NOBEL DA PAZ

     

    Do Impéro Romano a Carlos Magno, de Carlos V a Napoleão, de Estaline a Hitler – a enumeração não é exaustiva – houve vários modelos de “União Europeia”. Todas elas fruto de guerras, chacinas, ocupações militares e sofrimento dos povos. Todas com a mesma “desculpa”: uma Pax Romana com o fromato que os tempos, as ideias e os cabos de guerra lhe deram. Sempre se fez a guerra com o objectivo final da paz, mas uma paz cujo alicerce foi sempre o domínio político e militar de uns sobre outros.

    No século XX, também no seguimento de guerras, as piores de todas, duas “uniões europeias” nasceram. Uma, a Leste, à força das armas: a do pacto de Varsóvia. Outra, a Ocidente, fruto de nobres ideais: a União Europeia onde hoje vivemos.

    Aquela, acabou por exaustão, ineficácia e cansaço de uma dominação tirânica.

    Esta, fruto de um caldo de cultura em que se misturavam o horror à guerra, os interesses económicos e as ideias políticas, pareceu consolidar-se durante décadas.

    Criou um gigante económico, mas um anão político. Por ser um anão político, está hoje em causa o gigante económico, e em risco de desaparecer. Como por aí à exaustão se repete, criou-se uma moeda comum, mas não se acautelaram os meios para o seu normal funcionamento. Criou-se um parlamento, que nada tem a ver com o conceito de poder legislativo, uma estrutura de utilidade discutível, mas que custa uma formidável fortuna. Estabeceu-se uma burocracia, à sua maneira todo-poderosa, mas que só trata de “regulamentos”, sem poder nem legitimidade política para muito mais.

    A razão dos males europeus é simples e evidente. A solução é complicada, ou quase impossível. É que, não se tendo criado um verdadeiro universo eleitoral europeu, não se legitimou um poder que se quereria forte e equilibrador. Descurou-se a produção industrial, transformou-se o sector primário numa anedota dependente de subsídios, criou-se labirintos burocráticos caros e pouco “produtivos”. Quis-se fundar uma política externa, mas criou-se coisa nenhuma. Abandonou-se a ideia de poder militar, indispensável à segurança e à paz. Lá estavam os EUA para gastar dinheiro com essas coisas e proteger a União. Ainda estão? Não parece.

    Em suma, a democracia formal, ou liberal, fundamento de todo o Direito e de todos os direitos, foi menosprezada. Os esteios da união económica dissolvem-se rapidamente.

    Daqui, a crise. Ao primeiro abanão, renasceram os egoísmos nacionais, desapareceu a solidariedade, tudo a recordar os temíveis anos 20 a 45 do século passado.

    Não sei se o que escrevo é realista, catastrofista, ou as duas coisas. Sei que, nas condições actuais, ou há um vigoroso salto político, ou o esboroar do ideal europeu é inevitável. Sei também que tal salto é quase irremediavelmente improvável.

     

    Vem isto a propósito do Nobel da Paz que a União Europeia ganhou. Ganhou-o com justiça, se pensarmos que a Paz reina na Europa pelo mais longo período da sua história. Mas, por outro lado, o Nobel cheira ao crepúsculo de uma era: um prémio do tipo “brigada do reumático”, a tentar salvar e louvar o que já não tem remédio.


    Pessimismo? Prouvera que sim.

     

    13.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • MIRANDISMOS


    Nunca me veio à cabeça imaginar por que carga de água é que a estimável criatura que dá pelo nome de Jorge Miranda há-de ser considerada “pai da Constituição”. Um mistério entre os muitos que pululam a nossa vida política. Facto, porém, é que esta “verdade”, milhares de vezes repetida, passa a verdade mesmo. Lá dizia o Lenine, como é do conhecimento geral e, pelos vistos, como é aceite pelos nossos mui sábios media.

    Se eu fosse ao homem pintava a cara de preto. Se eu fosse à Constituição, tinha vergonha do meu pai.

    São conhecidas as melodramáticas circunstâncias em que a Constituição foi feita. Coitada, vítima do PREC, da vigilância militar, coisa que, mesmo democrática, como hoje se imagina ao olhar – horribile visu! – ou ouvir os gurus do tempo, como um tal Vasco Lourenço, nunca passou de socialista. Tudo bem. Democracia, OK. Desde que seja socialista. A chamada revolução tinha deixado de ser comunista, mas passara a ser “só” socialista. A Constituição saíu deste caldo de cultura, prolixa, paradoxal e injusta, um programa ideológico em vez de uma lei fundamental. E o Miranda que não nega a paternidade nem vem dizer que não, que não façam dele tai de tal coisa. Defensor, talvez. Paladino. Cavaleiro ao serviço da dama. Mas, que diabo, tanto tempo passado, não seria de esperar, aceitando como verdadeiras a inteligência e o saber do homem, que lhe desse na pinha algum senso crítico? Não. O homem defende a filha, tão mal tratada, diz ele, pela crise e pelos que querem sair dela. O homem é firme. O que a filhinha diz é para ser respeitado no mais estrito dos sentidos. Nada de interpretações, nada de resolver seja que problema for, se tal beliscar, por pouco que seja, a fímbria das vestes da criatura! Se assim não for, ó desgraça, a malandragem que por aí anda é capaz de me retirar o título de “pai”! Título que ouço por aí, que não merecerei mas me agrada tanto!

    Miranda, do ponto de vista constitucional, é o que se pode chamar um reaccionário empedernido, um intelectual mentalmente tetraplégico.


    Mas… a “verdade” é o que aparece. No jornal de ontem, em grandes parangonas, as exigências do Miranda, que o PR tem que mandar o orçamento para o Tribunal Constitucional – a fim, é claro, de ficarmos sem orçamento – que isto não pode ser (o Miranda deve ter alguma mina de ouro para tapar o buraco, mas não diz nada a ninguém), que há dúvidas formais e materiais, leia-se ideológicas, que, que, que.

    Bom, isto era a parangona. A seguir, no texto da “notícia”, vínhamos a saber, certamente por amor à “verdade” jornalística, que o Miranda era um dos opinantes numa sessão qualquer, onde até havia pelo menos um, com “galões” paralelos, que dizia exactamente o contrário da mirandal opinião. Mas, para esse, nada de parangonas. Duas linhecas lá para o fim da “notícia”, como se de um figurante se tratasse, num filme em que a estrela era o Miranda.

    É isto a “informação” que temos. Quem não tem tempo para mais fica-se pelas parangonas. Não é isso o que interessa?

     

    12.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • RACISMOS

     

    Anda, e com toda a razão, o mundo inteiro impressionado com a fotografia de um homem a dois segudos de ser trucidado pelo comboio do metropolitano não sei de onde, na América.

    Segundo a imprensa, nacional e internacional e de todas as cores tamanhos e feitios, aconteceu que o infeliz estava na plataforma da estação à espera de transporte, como mais uma data de gente. Tudo normal. Eis senão quando, outro homem, zás!, dá-lhe um encontrão e espeta com ele na vala da linha. A fotografia mostra os esforços desesperados do agredido para saltar cá para fora. Não conseguiu. E lá vem o “cavalo de ferro” dar-lhe cabo dos costados. Ali morreu, estraçalhado, como um cão na auto-estrada. Com a agravante de saber que ia ser estraçalhado e que nada podia fazer. Imagine-se a aflição que sentiu nos segundos que antecederam ter deixado de sentir fosse o que fosse.

    Indo um pouco mais longe, diga-se que o assassino era preto e o assassinado asiático.

    Agora, imagine-se o que aconteceria se o assassino fosse branco e o assassinado preto. O que se escreveria na imprensa internacional, sobretudo na americana. Mais uma manifestação de  tenebroso racismo! Uma prova provada de que, nos Estados Unidos, a persegição aos pretos continua ao nível dos tempos da escravatura! Uma demonstração dos ódios primários e criminosos que “governam” a sociedade americana. Um sinal claro das consequências do neoliberalismo, do egoísmo levado ao extremo pelos exageros do individualismo capitalista! Durante semanas, ouviríamos psicólogos, sociólogos, politólogos, psiquiatras, enfermeiros, locutores, vizinhos, primos da empregada doméstica, escalpelizando o fenómeno, por unanimidade considerado exemplo marcante de uma sociedade dividida e traumatizada. Os boaventuras sousas santos, por esse mundo fora, aproveitariam para propagandear os seus estudos, as suas brilhantes asserões, conclusões e opiniões.

    Mas, raio de azar, o assassino era preto e o assassinado asiático. A coisa passou rapidamente a fait divers, e já pouco se fala nisso. A não ser, é claro, que o assassino é bi-polar, que teve “uma branca”, que o encontrão foi casual digam as testemunhas o contrário ou não, etc. por aí fora. Ainda acaba por ter atenuantes, dado o facto de ser preto.  Ou por ir parar, absolvido, a uma cómoda instituição.

    Não me canso de pensar que são da mesma raça os que se podem cruzar. Na humanidade, como na caninidade, há uma só raca, com algumas variantes. Cruzamo-nos, se nos apetecer. As distinções não são de raça, são de caracteres secundários. Não se negue que há, ou haverá sempre, diferenças culturais e civilizacionais que dificultam a convivência, às vezes com indesejáveis consequências. O que não quer dizer que se trate os assuntos com critérios de moda, de perseguição, ou de acicate de maus sentimentos. Que é o que acontece.    

     

    10.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • PRIVILÉGIOS


    Nas suas pequenas andanças dominicais, foi o IRRITADO levado até ao Parque das Nações. Fez umas compritas no AKI, e meteu-se à estrada para regresso às Avenidas Novas.

    Ao chegar à Avenida de Roma, um polícia fê-lo dar meia volta. Que chatice! Na avenida passavam, ora um ora outro, uns tipos de calções, a correr. Rastaparta o azar. Logo hoje que tive a peregrina ideia de ir comprar duas fichas fêmeas é que estes palermas resolveram andar para aí às corridinhas sob a protecção prestimosa e autoritária da PSP! Obedeço, dou a meia volta da ordem e meto-me por aquelas ruas um tanto intricadas do bairro. Dou comigo na impossibilidade de inverter a marcha na Avenida dos EUA e decido ir até ao Areeiro, para apanhar a João XXI. Qual quê! A tropa fandanga subia a Almirante Reis e virava à esquerda. Outro polícia a enxotar os carros. E lá vou eu para os lados das Olaias dar a volta para apanhar o túnel do Soares até ao Campo Pequeno. Vitória!

    Umas continhas, quiçá erradas. Perdi três quartos de hora e, pelo menos, um litro de gasolina. Calculando em dez mil o número de cidadãos a quem terá acontecido mais ou menos o mesmo, teremos uns dez mil litros. Pelo menos 15.000 euros para o galheiro. Isto sem contar com os nervos em franja, as chatices, o tempo perdido, sabe-se lá se o Domingo estragado, os encontros perdidos, as zangas por causa dos atrasos.

    Tudo isto porquê? Porque há uns milhares de cidadãos que, com todo o direito, gostam de andar umas horas a esfalfar-se, sentindo-se uns desportistas, viris, cheios de fitness. Gabo-lhes a pachorra e não os condeno. Pois se até o Sampaio e o Pinto de Sousa eram clientes da modalidade, porque não hão-de os bombeiros, os pedreiros, até os doutores e os engenheiros fazer o mesmo?

    Muito bem, divirtam-se. Se tiverem algum colapso, lá estarão o INEM e o SNS para tratar do assunto.

    O problema está em saber se estas maralhas têm o direito de impedir os outros de fazer a sua vidinha normal. Corram, esfalfem-se, tenham síncopes, o problema é deles. Mas o que é que os outros têm com isso? Não podiam fazer a coisa numa pista de corridas, não podiam passar o dia a correr à volta do jardim do Campo Grande? Não podiam fazer a farra numa auto-estrada, dessas que não têm carros, guardando a outra faixa para os dois sentidos do lá vem um? Porque não usam a ciclovia do Guincho a Cascais, mais o paredão de Cascais à Azarujinha, ida e volta, as vezes que quiserem? E de madrugada para não prejudicar as pessoas normais?

    Eu sei que há coisas destas em locais talvez mais nobres que Lisboa, Londres, Paris, Nova Iorque, etc., e que em todas é a mesma fita. Mas não é por ser moda que está certo. Uma vez, em Paris, assisti a uma manifestação do género. Felizmente, nesse dia levantei-me tarde e só presenciei o patético rescaldo: centenas de desgraçados, semi-nus, com umas coisas de plástico a cobri-los, fornecidas pela organização, por pudor ou para não enregelar no meio da rua. Coisa deprimente e absurda.

    Fica a reclamação. Corram mas não chateiem.

     

    10.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • COERÊNCIA


    De vez em quando, somos visitados pelas “bocas” de um tal Anacoreta Correia (será filho do Anacoreta bom, ou do Anacoreta mau?), feroz inimigo interno do Portas. O homem passa a vida a deitar a cabecinha de fora, em críticas e mais críticas, diatribes públicas e mais diatribes públicas. É caso para perguntar porque não faz outro partido, como há anos, com assinalável flop, fez o Manuel Monteiro. Mas isso é lá com ele.

    A acreditar no que escrito anda, o homem resolve pela primeira vez o preocupante problema da quadratura do círculo, pelo que merece o nosso mais profundo respeito científico.

    Segundo a primeira página do “Sol” de hoje, o nosso rapaz, preocupadíssimo com o aborto, a adopção gay, a eutanásia e coisas do género, é nem mais nem menos que “influente maçon”! Ou seja, um democrata cristão da ala mais conservadora do CDS, é membro influente da organização dos “mata frades”, dos maiores inimigos da Igreja Católica, dos adeptos de tudo aquilo a que ele, militantemente, se opõe! É ou não a quadratura do círculo no seu melhor?

    Merecerá o benefício da dúvida. Ou o jornal mentiu ou, quem sabe, haverá alguma nova maçonaria que use cruzes e água benta em vez de compassos e olhos zarolhos.

     

    7.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • NÃO SE PERDEBE


    Ao que se lê por aí, parece que a coligação propôs aos 3,01 partidos da oposição (0,01 é o do partido melancia) realizar um debate, primeiro público, depois parlamentar, este com os ministros de cada pasta, tudo seguido por três debates no plenário, tendo como objectivo discutir e votar propostas concretas sobre como “mudar o modelo” de Estado.

    Estulto seria pensar que os partidos comunistas (2,01) aceitassem tal proposta, já que não aceitam nenhuma. Sairia do “modelo” que têm em vigor.

    Já em relação ao PS, auto proclamado partido democrático, partido de diálogo, partido tolerante, partido construtivo, etc. e tal, a recusa parece estranha, isto porque não faz parte do soi disant “modelo” da organização. Da formulação da proposta, concluiu a agremiação que se trata de discutir cortes e mais nada. Também podia ter concluído que se tratava de se debruçar sobre o formidável problema da época da lampreia, questão que também se pode, com toda a lógica, extrair da proposta da maioria.

    Nada disto espanta, dada a forma prestimosa como o PS, ou se queixa de não ser ouvido, ou recusa ouvir quando a maioria se propõe falar com ele. Isto, na opinião do oco e dos seus apoiantes, deve derivar da impecável postura dialogante e verdadeiramente democrática que anima as hostes. Percebe-se.

    O que não se percebe é a posição assumida pela Excelentíssima Senhora Dona Doutora Presidente do Parlamento, que se opôs à iniciativa com o argumento da necessidade de consenso de todas as bancadas para andar com a coisa para a frente. Sabendo, à partida, que jamais tal consenso seria possível, foi uma forma sibilina de dar cabo do assunto, quiçá valendo-se de algum penduricalho regimental.

    Assim vai o diálogo, o debate de ideias, a democracia em Portugal.

    Não se diga que o IRRITADO é um entusiasta de iniciativas do tipo da da maioria. Não é. O IRRITADO prefere o exercício da autoridade e do poder, desde que legítimos, à discussão permanente e à tergiversação na tomada de decisões. Coisa que, infelizmente, é, por motivos internos e externos, pecha deste governo.

    O quer não quer dizer que a posição da senhora presidente tenha algum merecimento. Afinal, o que anda ela a fazer por lá? A promover o diálogo e o debate das ideias, ou a limitá-lo e impedi-lo?

     

    7.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • FERIADOS DIPLOMÁTICOS

     

    Diz-se que Portas delegou nos chefes de missão diplomática a decisão sobre o feriado do 25 de Abril. Ficará ao critério de cada um respeitá-lo ou não. Vai ser bonito o coro de protestos, de raivas, de acusações. O homem vai passar a fascista, salazarista, quem sabe se nazi ou adepto do Real Madrid.

    A questão levanta diversas perplexidades.

    Se o feriado é nacional, se as embaixadas são território nacional, parece evidente que não compete aos embaixadores determinar que se respeite ou deixe de respeitar. Respeita-se e pronto. Por outro lado, é sabido que as missões diplomáticas respeitam os feriados dos países onde se encontram, o que dá ao pessoal a deliciosa oportunidade de ter feriados a dobrar. Assim, compreender-se-ia que os feriados meramente nacionais não fossem respeitados, ficando-se pelos dos outros. Há razões para tal: fará sentido que as embaixadas estejam abertas quando tudo está fechado, ou que estejam fechadas quando tudo mexe? Neste caso, porém, a regra aplicar-se-ia a todos os feriados, não especificamente ao do 25 de Abril.

    Postas as coisas como parece que Portas as pôs, trata-se de inútil, estúpida e provocatória decisão.

    Esclareça-se que, na opinião do IRRITADO, a democracia e a liberdade deveriam comemorar-se a 25 de Novembro, data verdadeira da sua “fundação”. De Abril de um ano a Novembro de dois anos depois, até faz vómitos lembrar o que se passou.

    Como é evidente, esta preferência do IRRITADO é coisa que não tem pés para andar. Mas que fique expressa, por uma questão de princípio.

     

    7.12.12

     

    António Borges de Carvalho

  • BÁSICO?


    Já ninguém sabe se o PM queria, ou insinuava, que o secundário devia ser objecto de taxas moderadoras ou coisa que o valha, ou se estava a dizer outra coisa qualquer. A confusão instalou-se. O Crato diz que não, que não era isso que o chefe queria dizer. Há quem diga o contrário. Venha o diabo e entenda.

    Uma pequena reflexão.

    Quando, sob a batuta do PC, do “socialismo democrático” e da “social-democracia”, foi aprovado o prolixo e programático documento a que se dá o nome de Constituição, o ensino “básico” era de 4 anos. Pergunta: a Constituição, quando diz “básico”, quer dizer obrigatório? Ou o “básico” continua, ou continuava, a querer dizer ensinar a ler, a escrever, a contar e mais umas coisinhas? Quem o saberá?

    Aceitemos a confusão de conceitos. O problema é que o ensino obrigatório passou a ser de 6, depois de 9, agora parece que vai passar a 12 anos. A Constituição continua a obrigar o obrigatório a ser gratuito? Ou passou a chamar-se básico ao obrigatório? Já agora, porque não mais uns anitos? Tudo minha gente obrigatoória ou basicamente licenciado? Porque não doutorado? Porque não passarmos todos a catedráticos, e sempre de borla?

    O IRRITADO não vai contra. Ficávamos todos a ensinar-nos uns aos outros. Um fartote. Morríamos de fome, mas cheios de sapiência.


    Muito a sério, meus senhores, o que a Constituição diz (“ensino básico gratuito”) não se aplica ao ensino actual. Porque não se pode aplicar. Porque o ensino obrigatório não tem nada a ver com o ensino básico de que a Constituição falava. Se o PM disse que era possível que viesse a haver participação dos estudantes nos custos do secundário, afirmou algo de indesejável, mas não disse nada de inconstitucional.

    Verdade verdadinha é que o ensino básico, obrigatório, primário, secundário ou o que lhe queiram chamar, tem pouco de gratuito. É que, só em livros (manuais!), as famílias gastam muitas vezes o que não têm. Fora o resto.


    Durante décadas, exércitos de “pedagogos”, acantonados no ministério da educação, dedicaram-se a parir coisas novas, programas, currículos,sistemas, tudo a implicar que os livros deste ano para o ano que vem já não prestassem, tudo a encher de dinheiro as editoras que, e muito bem, espreitam as oportunidades que os tais pensadores lhes vão oferecendo. As escolas não têm o direito à pedagogia, feudo exclusivo de “quem sabe”. E quem sabe, lá na 5 de utubro, sabe hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, que o que é preciso não é ensinar, é publicar estudos, nvestigações e… manuais. O que, além de tudo mais, justifica a “utilidade” de inúmeros funcionários.

    Haverá algum português que saiba quantas “reformas do ensino” já se fizeram durante a III República?

    O IRRITADO acha, ao que tem lido sobre o assunto, que, acabando com a mama dos manuais e dos intelectuais e dos pedagogos, por cada estudante se pode, em média, libertar uns cem euros por ano. Se, desses cem euros, cinquenta passassem a propina, perdia-se alguma coisa? No fundo, se o PM disse o que para aí se diz que disse, talvez nem andasse longe da razão. Tinha era que dizer como.

     

    4.12.12

     

    António Borges de Carvalho      

  • PALESTINA, GOVERNO, PC E CULTURA E… SOARES


    Tem o IRRITADO andado em vilegiatura moral por razões que a razão desconhece, nem vêm a propósito, nem ninguém tem nada com isso.


    Posto isto, peguemos no assunto do dia, nada menos que mais uma douta intervenção do camarada Mário Soares no jornal do amigo Oliveira pelo menos por enquanto. Se os tipos do MPLA tomam conta da coisa, lá vai o Soares às urtigas  de braço dado com o Oliveira. Terá que ir pedir batatinhas à doutora do jornal privado chamado Público. Enquanto o pau vai e vem gozam as costas e vai-se debitando umas bocas, que lá nos confins do bestunto o nosso homem deve achar que ainda há quem lhe ligue. E é que há mesmo, este país é assim.

    Mal recuperada estava a Nação das emoções causadas pela carta que, sob a soaresca batuta, uma ínclita brigada do reumático mandou já não se sabe a quem, debitando cassetes que veem todos os dias nos jornais escrevinhadas por legiões de atacantes, eis senão quando nova intervenção surge a iluminar-nos o caminho. O escrito da brigada do reumático, coisa barata e ridícula, ou patética como muito bem disse o Pulido, já tinha três ou quatro dias de vida, o que é muito para tal patetice. Havia que insistir.

    Para embrulhar o pacote, o autor de “O tempo e a memória” tratou de dar à diatribe o inocente título “A Palestina na ONU”. Em compensação, os arautos do amigo Oliveira espetaram em manchete de primeira página, com fotografia e tudo, a frase fundamental do escrito: “O povo não existe para o primeiro-ministro”. Tem piada que, no tempo do senhor Pinto de Sousa, o jornal escrevia Primeiro-Ministro. Pormenores.

    E lá vem a Palestina. O homem tece umas considerações mais ou menos anódinas, não diz nada de novo. Se quisermos tirar alguma coisa do arrazoado, lá está nas entrelinhas a condenação do Netaniau e do lobby judaico dos EUA. Como é de timbre e fica bem.

    Chega a cassete. O tolerante, o simpático Soares, perde mais uma vez a tineta, esperneando a intolerabilidade e a antipatia que é isto de haver um governo onde o PS não mete o bedelho. Malhas que o eleitorado tece, mas Soares não reconhece. Para ele, ninguém, mas absolutamente ninguém em Portugal apoia este governo. E descreve-nos a todos, dos médicos aos sacerdotes, dos militares de todas as patentes aos cientistas e aos rurais, numa interminável lista que a toda a gente inclui. Todos. Todos contra o governo. A este respeito “não há qualquer dúvida”. Não se sabe onde o ilustre articulista mete os 35% de pessoas que, segundo as sondagens, votam na coligação. Devem ser espanhóis, cartagineses ou visigodos.

    A propósito do orçamento, entra em cena a sacrossanta Constituição. Ninguém gosta do orçamento. Esta magnífica descoberta tinha já sido feita pelo Primeiro-Ministro, que também não gosta e já o disse. Chega então, por uma questão de credibilidade, a trupe dos constitucionalistas de serviço, quer dizer, do PS ou apaniguados.

    A Grécia, que está no estado em que está, também merece loas do senhor. Diz ele que não somos como a Grécia, mas “antes fôssemos”. O sono da razão engendra monstros, não é?

    O artigo do ex-Presidente, ex-Primeiro-Ministro, ex-etc., já tinha dito o fundamental: morte a este governo! Depois, reembrulha a coisa com um capítulo sobre o congresso do PC, onde diz coisa nenhuma, para além de lamentar que não seja possível, com este PC, um verdadeiro governo de esquerda. Exactamente o mesmo que diz o camarada Jerónimo acerca do PS.

    Finalmente, o raminho de salsa cultural. O fim do programa “Câmara Clara”. Um “crime”, acabar com o “melhor programa cultural da RTP”. “Uma indignidade”.

    Correndo o risco de ser linchado na praça pública, o IRRITADO atreve-se a dizer que o tal programa, há uns sete anos no ar, talvez fosse intelectualmente uma maravilha, mas era também o programa cultural mais chato, monocórdico, entediante e pretensioso de que há memória. Que saudades do “Assim Acontece” ou das arengas históricas do doutor Hermano Saraiva!

    Venham mais programas culturais, mas dos que não afastam as pessoas da cultura ou não a transformem em covil de “altas mentes”. Todas do PS, como é evidente!

     

    4.12.12

     

    António Borges de Carvalho       

  • COISAS QUE CHEIRAM MAL

     

    1.Esta história da greve dos estivadores já cheira demasiado mal. Porquê?

    Algumas respostas:

    a) Trata-se, evidentemente, de abuso de direito e de abuso de poder, ambos tipificados no Código Penal;

    b) Os prejuízos já causados a um país na situação do nosso são puro terrorismo económico;

    c) É público e notório que os estivadores incitaram e incitam à violência e ao vandalismo;

    d) Moralmente falando, estão a fazer troça de quem sofre mesmo com a crise;

    e) As reivindicações que apresentam não têm outra razão de ser que não seja a manutenção de privilégios de classe de que os demais não gozam nem nunca gozaram;

    f) O direito à greve, como todos os demais, tem limites;

    g) Tais limites foram, há muito, ultrapassados.


    2. Posto isto, ainda cheira pior que o governo ainda não tenha tido coragem para decretar a requisição civil deste bando de energúmenos.

     

    25.11.12


    António Borges de Carvalho  

  • CML E JUÍZES

     

    Uma das reformas mais perniciosas que a III República introduziu no nosso sistema judicial foi a do acesso à magistratura.

    Anteriormente, os candidatos a juízes eram licenciados em direito que ingressavam no ministério público e faziam um “tirocínio” de vários anos em diversos tribunais, assim adquirindo ums experiência da “vida real” da Justiça. Quando faziam a transição para a magistratura judicial, traziam consigo, tanto ou mais que a sua formação académica, um conhecimento alargado do funcionamento dos Tribunais, das manhas dos advogados, do funcionamento das secretarias, da irresponsável responsabilidade de julgar, do senso comum ou não comum dos juízes, etc.

    A reforma veio alterar os passos necessários para chegar ao mesmo. Os candidatos são instruídos numa espécie de colégio que, com incontestável valor simbólico, veio a ser sediado na antiga cadeia do Limoeiro. Assim, desde há muitos anos, os nossos juízes passaram a sê-lo quando ainda miúdos de vinte e poucos anos, teoricamente instruídos para a profissão, mas quantas vezes totalmente incapazes de a exercer com um mínimo de real preparação, qualidade ou vera capacidade de julgar.

    Quem não foi, como testemunha, declarante, assistente, réu, autor, queixoso, advogado, solicitador, já confrontado com um juiz deste tipo?

    O IRRITADO não se atreve a dizer que a alteração do sistema de acesso à carreira é a causa maior dos males da nossa Justiça, mas que tem a ver com eles, disso não duvida.


    Vem isto a propósito, ou a despropósito, da brilhante decisão camarária de reinstalar a escola do Limoeiro na Boa-Hora. Num momento em que as carências de tesouraia são mais que muitas, que sentido faz gastar milhões em obras no velho convento, edifício que, dada a sua localização, a sua qualidade e respeitando esta, se poderia colocar no mercado para os mais diversos tipos de localização, assim encaixando uns milhões em vez de os gastar?

    Alguém poderá dizer que a qualidade do ensino judiciário melhoraria por mudar de sítio? Julgo que não.

    Alguém dirá que o prédio do Limoeiro não tem condições para funcionar como funciona, mau grado alguma necessidade de manutenção ou conservação? Julgo que não.

    Dizem-me que já houve propostas, ou projectos, para fazer da Boa Hora um hotel de prestígio, um centro de empresas, a sede de uma grande instituição, etc.. É provável. Mas seriam coisas privadas, o que não deve poder compaginar-se com a mentalidade socialista que entre nós vigora. Será isso O que leva a CML a cometer mais um pesado desmando financeiro? É difícil encontrar outra explicação que não seja a meramente ideológica.

    Já “devemos” muita asneira a esta Câmara. É mais uma. Que se lixe, não é?  

      

    Voltando à primeira forma, não seria melhor voltar às velhas práticas no acesso à magistratura judicial, pondo os candidatos a “amargar” por esse país fora em vez de os ter sentadinhos numa escola que muito lhes ensinará mas que, verdadeiramente, não os prepara?

     

    24.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • SEGURANÇA E INFORMAÇÃO


    Para “sua segurança”, você é filmado por câmaras de vídeo em repartições, supermercados, elevadores, etc.. Se telefonar à EDP, à EPAL, à ZON, à MEO e a mais uma infindável série de organizações, a sua chamada é gravada. Se for ao multibanco é, muitas vezes, filmado.

    Isto quer dizer que há uns milhares de fulanos que sabem onde você foi e a que horas e com quem, até fazer o quê, que dinheiro levantou, que contratos fez ou deixou de fazer e em que condições – se não decorou o paleio dos meninos e das meninas dos centros de tortura (vulgo call centers), está frito, porque ficou gravado que o menino ou a menina disseram o que disseram (e podem prová-lo!), você é que é meio surdo, ou burro ou, pior ainda, quer fugir aos encartes.


    Quem lhe quiser mal e tiver um amigo “magnético”, pode usar as informações que ele lhe der para lhe fazer a vida negra, etc., e ninguém apanhará o seu amigo, porque eles são tantos, tantos (às vezes estão na Índia, ou coisa do género), que jamais se saberá quem foi o bufo.


    Mas se você for mandar umas pedradas à polícia, pode ficar descansado. A polícia só pode ter acesso ao que foi gravado após “edição” pelos profissionais da “informação”. Isto é, se você tiver um amigalhaço na TV, telefona-lhe e diz: ó Fulgêncio, edita lá isso à maneira, não quero que a bófia me veja! E o Fulgêncio, que é um gajo porreiro, lá corta a sua furibunda fuça a atirar coqueteiles molotov. Se a polícia de investigação quiser ver as gravações au complet, terá que ser por ordem  de um juiz. Mas as outras, as “editadas”, onde você se calhar até está, são do domínio público, porque a TV não as “editou” e as pôs no ar.

    Por outras palavras, os profissionais da “informação” têm muito mais poder que os polícias ou os juízes, e até é do seu exclusivo critério divulgar ou não situações de flagrante delito, ou de só divular as que lhes der na gana, e ao público, porque, aos investigadores, nem por sombras!


    Mais. Põe-se em causa, com fortes “argumentos” jurídicos, a legitimidade de a polícia gravar seja o que for! O senhor Bava, o senhor Belmiro, o gerente do banco ou o porteiro lá do prédio estão autorizados a seguir-lhe os passos e a gravá-los, em vídeo ou som, “para sua segurança”. Mas a polícia não pode, para sua segurança, filmar os que põem em causa… a sua segurança.


    Para tratar destas matérias há para aí uma série de “comissões”, de “protecção de imagem”, de “dados” e de coisas do género. Todos, com certeza, bem pagos e cheios de critérios. Todos igualmente inúteis e parasitas, mas muito “modernos” e “indispensáveis”.


    Esta a situação, que vem a propósito de um estranho episódio que hoje agita o país, em estertores de indignação. Um tipo qualquer da RTP resolveu pedir a demissão, cheio de brio profissional.  Porque? Porque parece que apareceu, não se sabe onde, um DVD com as imagens dos vandalismos por ocasião da greve dita geral, dia em que não trabalharam os grevistas mais umas centenas de milhar de portugueses que os ditos impediram de trabalhar, isto no uso do sacrossanto direito de impedir de trabalhar os que querem fazê-lo.

    Parece que o dito fulano, quando lhe disseram que o tal DVD andava por aí, sem que se saiba ao certo que contém, desatou em profissional frenesi e, perante a informação de que ia haver um inquérito por causa do assunto, ofendeu-se de tal maneira que se demitiu do cargo.


    Ao IRRITADO é soberanamente indiferente que a polícia tenha visto tudo ou só o que os donos da “informação”  determinaram que visse, que o DVD exista ou não, que contenha o que contiver, que seja preciso um juiz para ordenar a coisa (a troco de uns cobres, os arquivos da RTP, normalmente, fornecem o que qualquer macaco lhes pedir), que haja inquérito ou não haja, que a polícia veja o que quer ver (diz que não quer ver nada, para alimentar a bagunça) ou não veja cosa nenhuma, ou que o tal artista se demita ou deixe de se demitir.


    O que não é indiferente é saber que o que sabe ou deixam que saiba é o que o demissionário e quejandos têm o direito de lhe dar ou não dar a conhecer, isto acima e para além de toda e qualquer autoridade que não a dos próprios.

    O que não é indiferente é que o IRRITADO, como todos nós, seja vigiado por qualquer bicho careta, seja ele o porteiro, a menina do call center, o Bava, ou outro marreta qualquer.

    O que não é indiferente é que as mais normais e comezinhas atitudes do cidadão comum sejam objecto de uma chusma de big brothers, e que as imagens de vândalos e díscolos de vária ordem tenham protecção legal, policial e “informativa”.


    Só mais um pequeno apontamento. Se o cidadão comum, lá na empresa onde trabalha, resolver demitir-se, vai para a rua e acabou. Se não queres fazer o que a empresa te encarregou de fazer, vai bugiar! Na RTP não é assim. Aqui há tempos, o insuportável piscador de olho que, aliás legitimamente, está rico a vender livrinhos de histórias, qual prima dona, demitou-se de RTP por razões que a razão – o senso comum – desconhece. Foi embora? Nem pensar! Continuou empregado e bem pago. A este, que ontem resolveu bater com a porta em tremuras de “honra”, ou me engano muito ou demitiu-se uma ova; vai continuar bem empregado e bem pago.

           

    É assim o Estado, as empresas públicas, o garrote económico, a mordaça informativa. Então, que venham as reformas! Não a dos demissionários, a do Estado!

     

    22.11.12

     

    António Borges de Carvalho


    E.T.

    23.11.12, 11 da manhã:

    Abro o Sapo:

    a) Afinal a polícia pediu as imagens a toda a gente. Ontem, não tinha dito a verdade.

    b) A AR vai pôr 20 câmaras de vigilância à volta do edifício. Para quê, se não servem para a polícia identificar os desordeiros? Terão as imagens que ser “editadas”? Por quem? Para quê? Será que só servem para haver uns tipos a vender as câmaras e ganhar algum com isso? Verdade seja dita: se for só para isso, já valeu a pena, não é?


  • SOARES AO ATAQUE

     

    Umas semanas antes do golpe de Estado constitucional perpetrado por Jorge Sampaio para pôr a esquerda no governo, dizia-me um amigo que, dadas as sondagens, a dissolução da AR seria necessária e legítima. É claro que nos desentendemos.


    Ao passar, excepcionalmente, os olhos pelo excerto do artigo de Mário Soares no DN de ontem, publicado pelo Sapo, vejo retomado o extraordinário argumento do meu amigo. Com uma nuance, talvez mais “democrática”: Soares acha que o governo se devia demitir, não que outra golpada seja protagonizada pelo PR. Ou seja, acha que é a melhor altura para abrir uma crise política. O que se compreende, se olharmos para as sondagens, que dão ao articulista a esperança de repor o PS no poder. A mesma filosofia de Sampaio, sem tirar nem pôr. À boa maneira socialista, os fins legitimam os meios, não é?

    As sondagens justificam tudo: se o ou os partidos do governo, estão minoritários nas sondagens, o governo tem que se ir embora. É por estas e por outras que, por cada governo espanhol das últimas três décadas, nós tivemos uns quatro ou cinco. Quanto ao amor à “estabilidade” política, estamos conversados.

    Mas há mais: é da natureza do regime que os governos legítimos o são por um período determinado. O princípio geral é que, a ser substituídos, o devem ser por decisão eleitoral ou por impedimento do PM, neste caso, estando a legislatura a correr, respeitando os últimos resultados eleitorais. Nunca por sondagens. É da natureza destas dar meras indicações. Se, nos países democráticos, os governos que estão em queda em sondagens se demitissem, havia, nestes dificílimos tempos, eleições todas as semanas nalgum país europeu. Lindo.

    Quantas vezes estiveram os governos de Soares em queda nas sondagens? Quantas vezes Soares se demitiu por causa disso?

    Ninguém duvida que Soares deitou ao lixo alguma réstia de bom senso que ainda insistisse em ocupar-lhe as meninges. Há quem diga que é da idade. Não é. O homem é mesmo assim. Para ele, o que está certo é o que lhe convém. E o que lhe convém tem a ver cosigo e com os seus. O resto que se lixe.

     

    21.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • FUMAÇA


    Qual a magna questão que, neste fim de semana, mais inquietou os media? Saber se foi o ministro que deu ordens para a carga da polícia em São Bento. Manchete do Expresso, letras gordas por toda a parte, telejornais uns atrás dos outros, um sururu dos diabos.

    O IRRITADO atreve-se a perguntar: o que é que isto interessa, e a quem? É evidente que o responsável máximo pela carga é o ministro da tutela. Tenha ou não tenha dado, pessoalmente, ordem para tal. Notícia seria que, tendo o ministro dado ordem em contrário, a polícia tivesse carregado na mesma. Ou vice-versa.

    O comissário, ou coisa que o valha, da PSP, encarregado das relações com os media, portou-se como um leão: “a ordem veio da cadeia de comando”. Perante a insistência da bestialidade jornalística, disse: “a ordem veio da cadeia de comando”. Como quem diz: vão àquela parte. Muito bem. Chapeau.

    Coisa que não impediu a manchete do Expresso et alia.

    Estupidez? Não é de crer. A coisa tem que interessar a alguém.

    Se atentarmos nas abalizadas opiniões que por aí andam, não será difícil. Ondas de indignação são dadas à estampa e ao monitor sobre a carga ter sido “indescriminada”. Isto é, pela primeira vez na história das democracias ocidentais dever-se-ia ter assistido a uma criteriosa escolha dos tipos a zurzir. Portanto, a carga nenhuma. Dever-se-ia ter assistido à imediata chegada de inúmeros advogados à esquadra, a fim de dar cumprimento aos direitos dos cidadãos, gravemente ofendidos pela polícia. Não consta que seja que detido for tenha sido privado de advogado. Que interessa isso? Então, e a prontidão?

    Parece que havia só uns trinta vândalos. As outras centenas de indivíduos estavam lá por acaso. Para ver as vistas. Alguns até achavam mal o vandalismo! Alguns até disseram que estavam lá porque eram da manifestação da CGTP, portanto do PC, outros que eram do BE. Mirones, poucos. Na generalidade, eram todos da greve geral, coisa tida, até pelo governo, por ordeira, civilizada, “cidadã”. Oficial e oficiosamente, da malta dos sindicatos, nem sombra! Uma maravilha.

    Na matéria, o PC tem sido mais moderado. O BE, esse, grande defensor dos “direitos humanos”, mesmo instado, nem o vandalismo condenou. Ainda ontem, o Fazenda, apertado na TV, não conseguiu dizer uma só palavra de desagrado ou de condenação. Fugiu com o rabo à seringa que nem um macaco do Jardim zoológico.

    Também se devia analizar o que diz a propaganda generalizada: foram os tipos do Benfica e do Sporting, foram os anarquistas, foram uns turistas estrangeiros.

    Por tudo isto e muito mais se pode ver a quem interessa a fumaça do “Expresso” e quejandos. Nem vale a pena explicar.

     

    18.11.12

     

     António Borges de Carvalho

  • O QUE SE SABE

     

    O IRRITADO é, rigorosamente (como diria o Crespo), incompetente em matéria económica, seja ela micro ou macro.

    Assim, vistas as coisas por um ignorante, dá ideia que duas linhas de pensamento de confrontam em Portugal. Uma, acha que a austeridade deve ser violenta, para que dure menos, outra que deve ser leve, e mais longa. Como nos tratamentos para emagrecer. Uns acham que se deve enveredar por uma dieta de choque e umas drogas, até estabilizar e poder recuperar um bocadinho. Outros defendem que, step by step, se deve ir alterando os hábitos alimentares, até obter resultados. Como diria a magra Drª Jonet, passar já do bife com batatas fritas para o chispe com feijão branco ou, nas sábias palavras da gorda Drª Isabel do Carmo, continuar com umas bifalhadas, ainda que menos vezes.


    Hemos de convir que,com razão ou sem ela, defender o alívio imediato da austeridade, bem como a intocabilidade de todas as contribuições do Estado para a felicidade do povo, é fácil, compensa, tem efeitos nas sondagens. À la limite dará resultado? Ninguém sabe.

    Insistir no contrário é doloroso para quem insiste e para quem é insistido. Não é fácil, não compensa, vê-se nas sondagens. À la limite dará resultado? Ninguém sabe.


    Mas há coisas que se sabe.

    Antes de mais, sabe-se que os resultados não dependem, nem só nem principalmente, de quem nos governa.

    Sabe-se que o tão desejado aumento das exportações dificilmente se compagina com a crise europeia, ainda menos com greves de privilegiados como os estivadores, gente para quem a Pátria se resume ao Cristianao Ronaldo, não merecendo outra consideração.

    Sabe-se que isso de renegociar condições com os credores não é coisa que se possa fazer às claras. Ainda menos se pode anunciar que se está a pressionar neste ou naquele sentido. É um trabalho de sapa, que só se revela quando conseguido, sob pena de dar cabo do negócio. Foi o que aconteceu com aquele ano a mais que, para bem ou para mal, nos foi “concedido”.

    Sabe-se que o coro universal sobre a intocabilidade do Estado Social – ainda por cima confundindo este com a democracia – é coisa de oposição pela oposição, o pior da democracia e do sistema partidário.

    Sabe-se que a recusa sistemática do diálogo pode ajudar as sondagens, mas não ajuda o país.

    Sabe-se que as privatizações são fundamentais e urgentes, menos por razões ideológicas que por motivos pragmáticos e morais. É que, enquanto o Estado for proprietário da economia, julga em causa própria, o que é, pelo menos, ilegítimo. Enquanto o Estado, em vez de “gastar” em fomento e “agitação” económica, andar a sustentar elefantes brancos – transportes, BPN’s, RTP’s e tanta outra cangalhada – o cinto dos cidadãos vai deixando de ter furos que cheguem, não por causa da dívida e do défice mas por razões internas de raiz ideológica e constitucional.

    Sabe-se que isso de “reforma do Estado” é, felizmente, inevitável. E também se sabe que quem sabe disto tão bem ou melhor que toda a gente, se nega seja a que reforma for, a começar pela da hidra de sete cabeças que se meteu na Constituição e nos rói os ossos.


    Muita coisa se sabe. O problema é que também se sabe que os mais próximos e mais violentamente responsáveis pela culpas internas da nossa desgraça, não só, a tal respeito, assobiam para o ar, como se entretêm a destruir por destruir, sem escrúpulos nem qualquer sombra de decência política.

    Sabe-se que esta estratégia tem resultado. Pelo menos nas sondagens. Coisa que, afinal, parece ser o que mais importa.

     

    18.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • BOAS NOTÍCIAS. HÁ DISSO?

     

     

    Boas notícias são coisa que não interessa a ninguém, ou quase.

    Talvez com algum empurrão de dona Ângela, parece que se avizinham alguns investimentos alemães. A Fisipe foi adquirida por 29 milhões de euros por uma firma alemã. Há fortes possibilidades de uma fábrica da Bosh (500 empregos) vir cá parar, em vez de ir para a Roménia.  Um grupo alemão estará à frente na corrida à ANA.

    Em princípio trata-se de boas notícias. E, no entanto, de todos os media, parece que só um (um!) tomou a iniciativa de falar delas. Se calhar porque estava com falta de assunto. Os restantes ignoraram olimpicamente a coisa.

    Consta que há várias luzes ao fundo do túnel no que diz respeito aos estaleiros de Viana do Castelo. Mas os media estão muito mais interessados em greves e protestos que em sublinhar as hipóteses de solução ou chamar a atenção para os culpados da desgraça (os socialistas dos Açores e o camarada Chavez, por exemplo).

    As exportações desceram, ainda que não muito. A culpa não é da crise europeia, nem da greve dos estivadores, nem do insucesso de uma ou outra empresa. É, evidentemente, do governo.

    O odiado ministro da economia anuncia vastos avanços na exploração mineira. Solícitos, os media sublinham a ingente questão dos pastéis de nata.

    Os media transformaram-se em arautos de más notícias (há muitas, é certo), super interessados em esgravatar tudo o que possa prejudicar qualquer sombra de esperança e em sujar o país internacionalmente. Se for o governo a dar más notícias (ou a dizer duras verdades), então é porque o governo destrói a auto-estima dos portugueses e cria revolta social. Sendo os media a fazê-lo, diária e reiteradamente, estão a prestar um serviço ao povo e a santificar revoltas. A culpa, essa, continua a ser do governo.         

    O IRRITADO não quer com estas observações inculcar que o governo é a maravilha das maravilhas. É, com certeza, o menos pior dos possíveis. Já imaginaram o que seria uma crise política nesta altura? Já imaginaram o que seria um governo do Seguro ou do Costa, cheio de ignorantes e de socrélfios? Já imaginaram a dona Martins ministra da moral socialista? Já imaginaram o que seria o Jerónimo ministro da ortodoxia estalinista?

    Não, não imaginaram. Mas não brinquem com coisas sérias.

     

    15.11.12

     

    António Boges de Carvalho

  • DA CANGALHADA POLÍTICA


    Uma militante do Bloco de Esquerda dizia ontem que os vândalos que andaram por aí à solta não passam de hordas de “neonazis” que a polícia bem conhece, mas que não distingue de “pessoas de idade” e “pais de família”.

    Está a ver-se, não está? Na distinta opinião desta “cidadã”, os polícias, antes de desatar à marretada às pessoas, deveriam perguntar a cada uma: V. Exª é neo nazi, pessoa de idade, ou pai de famíia? É evidente que os neonazis assumiriam imediatamente a sua condição e levariam na touca. Pelo contrário, as pessoas de idade e os pais de família seriam tratados com merecido carinho. Assim se faria Justiça, pelo menos no democrático conceito da mulher.


    Lidas as coisas de outra maneira, o que se passou foi o seguinte: a malta que fez feriado foi encanada pelos controleiros do PC e do BE até que, como cereja em cima do bolo, ouviu cordata e pacificamente o discurso do Carlos. Nas entrelinhas do discurso, lá tinha ficado o incitamento à bagunça.  O mesmo se passou com as entrevistas do careca do Bloco. Depois, o Carlos foi-se embora e o careca sumiu-se. Com eles, desapareceram os coletes da greve geral e as pancartas da CGTP e afins. A coisa estava bem preparada. A tropa de choque, já sem coletes nem pancartas que a identificassem, ficou por lá, com o evidente fim de fazer o que fez. Tudo neonazis, gente de idade e pais de família, não é? Nem um só da CGTP, do PC ou do BE, não é?


    Conseguido o descrédito internacional do país, devidamente minado o que, com mais ou menos êxito e mais ou menos razão, pode levar a alguma solução, estava atingido o objectivo: desorganizar, amedrontar, destruir, vandalizar. Tudo a pretexto do exercício do sacrossanto direito à greve.

    Só faltava o ramalhete final:

    – o Carlos, angelicamente, decretou que, nem ele nem os seus camaradas, tinham a ver com o vandalismo;

    – o careca, ainda que dizendo mais ou menos o mesmo, tratou de manifestar a sua “compreensão” pelos neonazis, velhotes e pais de família. Menos esperto que o Carlos, como é evidente;

    – mais cordato, o PS tratou de mandar o Soares filho à SIC manifestar, melífluo e sibilino, a mesma “compreensão”.


    Quem quiser perceber, perceba.

     

    15.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • OS INVEJOSOS


    A Drª Isabel Jonet disse há dias umas coisas que parece terem chocado inúmeras almas, a começar pelo eminente Francisco Louçã, que teve a ambilidade de dizer que a senhora era uma reedição do Movimento Nacional Femenino. É evidente que o fulano não faz a mais pequena ideia do que foi o MNF, até porque não tem idade para ter estado nas guerras ultramarinas e, se a tivesse, teria obviamente fugido delas.


    Ora a obra da senhora a) nada tem a ver com o antigo MNF, b) não se rege pelos mesmos princípios, c) não prossegue os mesmos objectivos e d) não tem nada a ver com o poder político.


    Então, o que disse a senhora que tanto incomodou a gentil alma do Louça e de mais uma série de bem-pensantes esquerdocráticos? A resposta é simples: disse, melhor ou pior, um data de verdades. Coisa que faz arrepios àquela repugnante gente. Ao ponto de pedir a demissão da senhora e de lhe chamar os mais terríveis nomes.


    A chamada solidariedade social, para tal vilanagem, ou é de esquerda, ou inspirada pela esquerda, ou simplesmente não presta. Ora a tal esquerda, declarando-se “solidária”, serve-se da tal solidariedade para convocar manifestações, apoiar greves, excitar as indignações, e coisas do género. Mas não consta que alguma vez tivesse dado um prato de sopa fosse a quem fosse. Por isso, o que a senhora consegue arrecadar para dar a terceiros, ou não serve para nada, ou faz mal à tripa.


    Em alternativa, se a esquerda conseguisse tomar conta da coisa, a paparoca passaria a ser da melhor quaidade, e servida com panfletos do BE, do PC, do PS, para além de um retrato a cores do Vasco Lourenço.

    Dadas as dificuldades ideológicas que os canalhas têm em penetrar em organizações tipo Misericórdias, Caritas, Cruz Vermelha, Banco Alimentar, etc., não há nada a fazer senão tratar de as insultar, decapitar ou chamar-lhes nomes do piorio, a ver se arranjam lá uns lugarzinhos para a sua miserável propaganda. Invejosos.

     

    13.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • CRIMINOSOS

     

    Quando se assiste indefeso, a meses de greve dos estivadores de Lisboa, há que pensar várias coisas:

    1. Os estivadores de Lisboa são ricos. Se o não fossem, não aguentavam estar tanto tempo sem ganhar, sem que lhes faça qualquer diferença.
    2. Os estivadores de Lisboa, objectivamente, são criminosos. Numa altura destas, prejudicar violentamente o comércio externo, empurrar clientes para portos estrangeiros, engarrafar os transportes marítimos de forma irremediável, não pode deixar de ser crime de abuso de direito ou de poder.
    3. Os estivadores da Lisboa, em linguagem de que muito devem gostar, são “traidores de classe”. Os dos demais portos chegaram a acordo sem dificuldades de maior.
    4. Não se percebe, não se pode perceber nem aceitar, que o governo não tenha há muito decretado a requisição civil destes energúmenos, aproveitando para pôr na rua os que fizessem greve de zêlo. Que falta de “fruta”!

     

    13.11.12

     

    António Borges de Carvalho

  • O VELHO, A MIÚDA E O BURRO

     

    Às vezes vêm à memória coisas do passado, por exemplo as velhas “Farpas” e o gozo que as tricas partidárias davam. Os Reformistas tinham várias tendências, ferozes inimigas umas das outras: os Reformadores, os Reforminhos, os Reformagófagos, os Reformagogos… não seria bem assim, mas mais ou menos.

    Agora, mais sofisticado, temos o inenarrável Bloco de Esquerda: bolchevistas, mencheviques, estalinistas, leninistas, revisionistas, trotzquistas, maoístas, enverhoxistas… A diferença é que não são piada de escritor, correspondem à verdade dos factos. Um conjunto da sacos de gatos a fingir que vêem dois palmos à frente do nariz e a bradar que estão “unidos”. Não passam de figadais inimigos, como sempre foram e serão as várias “facetas” do comunismo. Não se assassinarão uns aos outros, a moda ja não é essa , mas vontade não lhes deve faltar.


    Reconheça-se, são coisa importante, pelo menos na esclarecida opinião dos produtores de “informação”. Dando de barato as inúmeras parangonas sobre a despedida do camarada Louça, há para aí três dias que a organização têm por conta horas e horas de telejornais e de primeiras páginas nos media – cá no sítio conhecidos por “mídia”, em brasileiroanglosaxónica manifestação de ignorância.

    Um desses tipos que têm a mania das estatísticas devia fazer as contas a quantas páginas de jornal, quantas horas de televisão, e rádio, quantas entrevistas com o camarada Louça e quejandos, quantos editoriais, quantos artigos de opinião, quantas reportagens, quantos abraços, quantas palmadinhas nas costas, quantas fotografias, etc..

    Esta noite tem sido um fartote. A miúda já apareceu 47 vezes no ecran, sempre a dizer a mesma coisa. O mesmo se passa com o velho. E até o burro, coitado, tem direitos de antena especiais para além dos de que já goza na SIC e no Expresso, e que acha que, do pedestal da negra barba, convence seja quem for, para além da já gasta dona Clara.

    Qual Merkel, qual Cavaco, qual Benfica, qual Seguro, qual Passos, qual Pinto da Costa, qual governo! O que é esta gente? Nada. Nada, a comparar com o frenético ódio dos verdes olhinhos da miúda, com a verve melíflua do velho, com o estentor da voz do burro.

    As martingalas do Bloco “emocionam” os jornalistas. As “receitas” do Bloco oferecem-se ao povo com o destaque que merecem aos donos da opinião, ainda que só sirvam para enganar pacóvios e agravar os problemas.


    E é nisto que estamos.

    O que vale é que amanhã chega a dona Ângela.

    Vai ser recebida em conformidade, isto é, o nobre povo vai tratar de a convencer que, entre isto e a Grécia, o diabo que escolha.

    Depois queixem-se.

     

    11.11.12

     

    António Borges de Carvalho