IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • CIGARRADAS VENEZUELANAS

     

    Esta de o nosso bem amado primeiro-ministro fumar a sua cigarrada nos aviões dá que pensar.

    A reacção dos moralistas de serviço também.

    O senhor Pinto de Sousa fuma. De certa forma, isto confere-lhe um rosto humano, coisa que ainda ninguém tinha notado. Parabéns. Isto confirma, também, uma característica que lhe á peculiar, e que toda a gente conhece. O fulano é cínico, exige dos outros aquilo a que a si próprio não impõe, e prega sermões legislativos sobre virtudes que não pratica.

     

    Os moralistas constitucionais de serviço – a começar pelo douto Miranda e a acabar no propagandista socretino Vital Moreira – são unânimes em achar que não é permitido fumar em aviões fretados. Nenhum foi capaz de perceber que a interpretação da lei totalitária do tabaco tem algumas nuances que deveriam aplicar ao seu protegido. Se é proibido fumar em meios de transporte, não pode haver outra interpretação que não leve a entender a expressão “meios de transporte” como meios de transporte colectivo. De outra forma – que muito agradaria ao barbichas da saúde – teria que se entender que é proibido um tipo fumar no seu próprio avião, no seu automóvel ou até em cima de uma bicicleta, que são meios de transporte. O que, convenhamos, seria, pelo menos, absurdo. Nesta óptica, é óbvio que um avião fretado é um transporte particular, não “colectivo”, ou scheduled, para aplicar o conceito anglo-saxónico. Por conseguinte, mesmo para a nossa lei totalitária, é perfeitamente legal que quem paga o frete determine se se pode fumar ou não dentro do meio alugado. Quem se sentir incomodado com a coisa, que não embarque. Ninguém obriga ninguém a aceitar convites, ainda por cima, como é o caso, para ir à Venezuela e, ainda pior, em companhia tão desinteressante como a do senhor Pinto de Sousa.

     

    O pior é que o senhor Pinto de Sousa, não resistindo à habitual demagogia, em vez de defender a sua posição com dignidade, veio, estupidamente, desculpar-se, chegando aos píncaros do ridículo quando prometeu, com certeza sem intenção de cumprir, que ia deixar de fumar.

    Agora, o que é preciso, perante a pública, notória e confessa contravenção do senhor Pinto de Sousa, é saber qual a multa que a ASAE, ou seja lá quem for, vai aplicar a Sua Excelência. Ou será que eu pago multas por fumar na tasca da esquina e o senhor Pinto de Sousa não paga nada por fumar nos aviões?

    Afinal, o que anda a ASAE s fazer? A perseguir o povo e a “limpar” o fulano? Ai ai…

     

    Dando de barato este episódio, que só é importante por ser indicativo do carácter do homem, ergamos bem alto o nosso júbilo pelas novas relações que ele foi abrir com esse admirável democrata que é o senhor Chávez. Se não fosse o velho adágio que reza “diz-me com quem andas…”, a coisa assumiria foros de grande vitória para esta Pátria, tão escassa em tal matéria.

     

    E, se o dito senhor Chávez merecesse alguma confiança, então, se calhar, estávamos de parabéns. O futuro, a muitos, dirá se os merecemos. Para mim, o presente chega. Não para parabéns, como é de adivinhar…

     

    António Borges de Carvalho
  • DOS MEANDROS DA SARJETA

     

    I

    A nariguda senhora Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa considera “exemplares” as suas relações com o PS e o BE. Nada mais democrático, nem melhor indicador se poderia inventar acerca das tendências da senhora.

    Haverá que fazer um pouco de história. A senhora, eleita pelo PSD, partido maioritário na AML, dedicou-se, desde o primeiro dia, a fazer a vida negra ao infeliz Carmona. Ou seja, ao PSD. Ele era a recusa de propostas por razões formais, ele era a oposição a toda e qualquer iniciativa da maioria ou da Câmara, ele era a crispação permanente nas suas relações institucionais com o partido camarário a que dizia pertencer e no qual se tinha pendurado para ser eleita, ele era a prontidão em aceitar tudo o que viesse da esquerda, ele era as declarações bombásticas, narizinho arrebitado, bocas de ciência certa, superioridade pesporrente, auto-convencimento agressivo e antipático. De tal maneira que os deputados do PSD tinham, e têm, razões para achar que o ex-presidente da AML, militante do PC, era muito mais correcto, muito mais aberto e, institucionalmente, mais cooperante, como aliás lhe competia, que a nobre banqueira consorte.

    As tropelias da senhora, de sociedade com as asneiras do suicida Mendes, acabaram por demolir a mais importante câmara do país, e fizeram o seu caminho na alma da distinta mulherzinha. De consciência pesada, como é normal se a tiver, vem, mais de um ano depois (há dois dias), sangrar-se em saúde. Não se sabe a que propósito, em vez de fazer o mea culpa que se impunha, dona Paula dispara, a despropósito, em feroz arrancada anti-Carmona. Que a culpa foi dele, que o homem não tem capacidade de liderança, que se devia ter demitido (por alma de quem?), que “não restava outra alternativa senão fazer cair a câmara”, dá-la de mão beijada ao PS, passar o PSD (o partido dela!) do primeiro lugar para o terceiro, tudo por causa dos “escândalos” e das “alegadas irregularidades”.

    Quer dizer, para a senhora, as bufarias do caloteiro Fernandes & Cª. são coisas nobres e credíveis, a defesa do seu partido e da dignidade dos seus representantes não vale um chavo.

    Aqui temos um exemplo claro do que é a “política de sarjeta” de que um tipo qualquer falava aqui há tempos.

    Quem quer ser “independente”, quem quer dar abébias a quem lhe apetece quando lhe apetece, quem quer escolher, a cada momento, o que mais convém para se coçar, a primeira coisa que deve fazer é não se filiar num partido. Os partidos, como é normal em qualquer organização, implicam alguma cedência da “soberania” de cada um.

    E o moralismo é o pior inimigo da moral.

     

     

    II

    Quando falo em bocas ordinárias vem-me sempre à lembrança um tipo do Porto, de seu nome Miguel Qualquer-coisa, ao que se diz agora “fundador” (fundador uma gaita) do PSD.

    Trata-se de um fulano notável. Nunca se apresentou ao eleitorado, nunca foi nada na política a não ser produtor de bocas contra os seus “companheiros”. Tem um estatuto verdadeiramente extraordinário, adquirido à custa não sei de quê. A verdade é que, assim que alguma coisa corre mal no PSD, os jornalistas acotovelam-se no comboio para o Porto, a fim de ir ouvir a palavra esclarecida deste guru da Foz.

    O homem era contra o Sá Carneiro, o homem insultava Cavaco, o homem não queria, de maneira nenhuma, que ele chegasse a líder do partido. O homem vituperou Santana Lopes com as mais rasgadas aleivosias. E por aí fora. Jamais deu a cara por nada, jamais arriscou um milímetro da sua regalada vidinha para dar fosse o que fosse ao partido a que diz pertencer, ou à coisa pública.

    Mas, compreenda quem quiser, há uma “informação” que não passa sem o ouvir, já que se trata de uma reserva de opinião para quando é preciso lançar intrigas e anátemas, criar confusões ou pôr os demais à bulha.

    Disto, não precisa o país.

     

    III

    Dona Manuela, apresentada ao povo como altíssima figura, responsável, séria, honestíssima, fidelíssima, etc. etc., desgraçadamente começou a meter água. E não pouca. Ela, que faria uma campanha “positiva”, centrada nos “reais” problemas do país, que não entraria em acusações nem insultos aos seus adversários, que se portaria à altura das suas responsabilidades, não precisou de mais que uma semana para desatar a asnear. Primeiro, veio dizer que não confessava em quem tinha votado nas últimas legislativas (rasquíssima brutalidade!); segundo, veio dizer que tinha votado no PSD mas que, como o que lhe tinham perguntado era se tinha votado em Santana Lopes… Ainda mais rasca, não é?

    Dona Manuela mergulha de cabeça naquilo em que tinha prometido não se meter!

    Depois, negando a “inteligência” que lhe atribuem, vem perorar que o partido “não tem credibilidade” e que quem a tem são o PC e o BE! Com mais “inteligência” ainda, promete ao país mais “social-democracia”, como se não fosse a estupidez social-democrata de inspiração comuno-constitucional o que nos tem levado onde estamos.

    Parceira radical e amicíssima das teses cavaquistas, dona Manuela coloca-se no saco dos piores defeitos de Cavaco, os que o levaram a sair de um cartaz “por razões académicas” (aldrabice!) ou a escrever o célebre artigo sobre a moeda boa e a moeda má, grande esteio e “justificação” do golpe de Estado sampaísta que havia de correr com o PSD do poder por muitos anos e maus.

    Esta gente, para quem é mais importante safar-se a si própria do que ajudar os seus pares, devia pensar duas vezes e tentar, se fosse capaz, sair da sarjeta moral em que se rebola.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • ORA BOLAS!

     

    O governo que temos merece todas as censuras, por toneladas de razões: aldrabão, matreiro, dizendo que o preto é branco e o branco preto, arruinando a classe média, tiranizando o povo por via fiscal, mantendo as despesas do Estado, desorçamentando e arranjando receitas extraordinárias (tudo aquilo de que acusava os outros) para fingir que não tem défice, hipotecando o futuro, fazendo a educação e a justiça funcionar cada vez pior, abusando da propaganda, usando da mais vil arrogância, sei lá que mais. O primeiro-ministro tem todos os defeitos do governo, aos quais junta os que lhe são pessoais, vendedor de projectos abomináveis, frequentador de cursos que parece não ter frequentado, provincianeco de meia tigela, e por aí fora.

    Perante este quadro, o que faz a direita? Acha que o governo, com o mijarete das alterações ao código de trabalho, tem toda a razão. Vai daí, num alarde de “coerência”, abstém-se na moção posta pelos comunistas do PC e do BE.

    Em vez de aproveitar a boleia para censurar o senhor Pinto de Sousa por tudo o que há de evidentemente censurável, incluindo o mijarete, não senhor, abstém-se. Ora Bolas!

     

    António Borges de Carvalho
  • GNR, ARMADA DE CAMAROEIRO, APREENDE BORBOLETAS

     

    Um jovem de 14 anos foi agredido por um colega por uma borboleta, um navalha considerada arma branca. GNR fez duas apreensões.

     

    Chamada de primeira página do Diário de Notícias de hoje
  • DA ESTUPIDEZ GENERALIZADA

     

    De repente, o governo do senhor Pinto de Sousa descobriu o que toda a gente já tinha descoberto há muitos anos. Que isto de andar a comprar casa sem mais nem menos não é mais que uma diabólica ratoeira para os que dispõem de menos meios financeiros. Que isto de o mercado de arrendamento estar a ser destruído ao longo dos últimos cem anos, dos quais os piores são os últimos trinta, é uma desgraça social de efeitos devastadores.

    Pois é, descobriu, mas não percebeu.

    Há para aí um ano, o governo actuou sobre o regime do arrendamento, produzindo a mais burra de todas as leis de que há memória no nosso ordenamento jurídico, o chamado NRAU. A reacção da sociedade portuguesa foi lógica: ninguém ligou à porcaria, e tudo ficou na mesma.

    Agora, a somar a esta asneira, vão aparecer mais umas tantas. O governo vai substituir o investimento em bairros sociais por benesses ao arrendamento. Não, não se trata de actualizar as rendas antigas, nem de proporcionar a restauração do património que a estupidez política degradou, obtendo, com isso, um aumento brutal da oferta com a correspondente baixa de preço dos novos arrendamentos. Nem pensar! O espantoso governo que temos prepara-se para “adquirir” fogos a fim de os alugar baratos. O socialismo não acredita no mercado, nem quando faz algumas “cedências”. Prepara-se para mais umas parcerias público-privadas, o que, como está demonstrado à saciedade, redunda em mais um encargo para o contribuinte, sobretudo para as novas gerações. É assim, o socialismo. Alguém há-de pagar, de preferência quem tiver menos meios de defesa. Como já estávamos condenados a pagar o TGV para Caneças, que é como quem diz para o Porto, mais o aeroporto de Alcochete, desgraça das desgraças, mais a desorçamentação das estradas (e não só…), mais os “investimentos” “público-privados” que se avizinham, mais a ponte nova cuja verdadeira utilidade ninguém conhece e nem o próprio governo sabe onde será construída nem com que vocação ou filosofia, mais, mais, mais areia nos olhos dos vivos e mais encargos para os vindouros.

    O Estado vai passar a ser proprietário de andares, não de bairros sociais, vai gastar uma fortuna para os gerir, muito mais do que gastava. Entretanto, o que degradado estava continuará a estar ou a degradar-se ainda mais, a classe protegida pelo Estado à custa de uns, que não dele, continuará a viver sem pagar habitação, as novas gerações continuarão a não ter casas para arrendar em condições decentes e, dentro de poucos anos, a crise do Estado deixará de ser crise para se tornar em ruína. Esta cairá sobre as cabeças dos nossos filhos com o colossal peso das consequências do Pintodesousismo, ou seja, da utopia socialista. Da estupidez socialista. Só o Estado será cada vez maior e, por consequência, mais miserável, mais arruinado, mais caloteiro e mais injusto.

     

    Já que se fala em estupidez, note-se que os tipos que, não sendo socialistas, dizem que o senhor Pinto de Sousa faz política de direita, conseguem ser ainda mais estúpidos que ele. Para já, o senhor Pinto de Sousa, agarrado à barriga, deve rir como um doido à custa deles.

     

    Mal de nós, se elegermos um governo PSD que continue o mesmo tipo de política.  

     

    António Borges de Carvalho
  • SUGESTÃO JUDICIÁRIA

     

     

    Exmº Senhor Doutor Juiz Baltazar Garção

     

    Quando Vossa Excelência mandou Prender o senhor Pinochet, houve alguns reaccionários e anti-comunistas primários que se atreveram a perguntar porque, ditador por ditador, não mandava prender também o senhor Fidel. Várias almas bem informadas, sensatas e sabedoras, vieram em socorro de Vossa Excelência alegando que, tratando-se de Chefe de Estado, não assistiam a Vossa Excelência, para tal, os indispensáveis poderes.

    Assim se provou a indesmentível coerência de Vossa Excelência.

    Agora, porém, o senhor Fidel já não é Chefe de Estado. As coisas alteraram-se.

    O Irritado atreve-se, por isso, a vir à mui nobre e douta presença de Vossa Excelência no sentido de o exortar a mais uma vez demonstrar a sua coerência pessoal, política e jurisdicional, emitindo, com a maior celeridade – antes que o homem bata a bota – o competente mandato de captura internacional.

    Está o Irritado certo de que Vossa Excelência não deixará, mais uma vez, de fazer jus à independência e à coerência que constituem reconhecidas características da sua ilustre personalidade.

    Até porque as vítimas do senhor Fidel têm, ao que julgo, a mesma dignidade que as do senhor Pinochet.

     

    Com respeitosos cumprimentos

     

    Irritado
  • SOLUÇÃO SOCIALISTA PARA O PROBLEMA DO DESEMPREGO

    O autor destas linhas estava em Moscovo no dia em que abriu o Mc Donalds. Pela primeira vez nos últimos setenta anos, os russos estavam autorizados a comer um bocado de carne picada com pão e alface, e a usar ketch up, maionese e batatas fritas, coisas de que, se calhar, jamais tinham ouvido falar. À volta de uma enorme praça e nas ruas adjacentes, uma bicha colossal, uns dez metros de largura por dois ou três quilómetros de comprimento. A multidão, habituada a não levantar o rabinho do selim, era ordeira. Pudera! Além disso, esperança de comer um hamburger pela primeira vez bem justificava umas dez horas de ansiosa espera, e sem protestos para não excitar as autoridades.

    Fiquei, como se pode imaginar, extasiado com esta demonstração de liberdade. Centenas de milhar de pessoas autorizadas a estar na rua ao mesmo tempo! E a comer trampa capitalista! Uma coisa inédita, revolucionária. Ou reaccionária, segundo o ponto de vista.

     

    À altura, uma viagem de táxi entre a Praça Vermelha e a rua Arbat tanto podia custar 10 dólares ao câmbio oficial, como 10 cêntimos ao câmbio paralelo. Uma nota de vinte dólares cientificamente colocada dentro do guardanapo, no restaurante do hotel (não havia outros restaurantes, ou quase, para além do Mc Donalds), dava direito a guardanapo lavado com uma quantidade astronómica de rublos nas dobras. Na Rua Arbat, demonstrando a libertária evolução dos direitos humanos que a perestroika proporcionava, havia uns barbudos miseráveis e porcos que vendiam uns quadros de fugir e umas artesanias arrepiantes. Nas ruas, os sinais de “liberalização” saldavam-se por dois ou três pares de sapatos por montra, ou duas blusas que nem na Rua dos Fanqueiros, em cada (raríssima!) loja de pronto a vestir.

    A criada do hotel quase chorou de alegria quando lhe dei dois sacos de plástico do free shop de Lisboa. Um amigo meu, provectos 75 anos, resolveu, no dia partida, dar à criada que fazia as camas os restos de trocos, em rublos, que tinha no bolso. Contentíssima, a rapariga foi fechar a porta e começou a despir-se.

     

    A que propósito vêm estas recordações? A título de exemplos do bem-estar soviético? Não!

    O que o Irritado quer é ajudar o senhor Pinto de Sousa a resolver o problema do desemprego. É que, na URSS, não havia desemprego! Há que ir buscar a genial receita. Passo a explicar:

    Naqueles inolvidáveis dias, querendo telefonar para casa, dirigi-me à menina da recepção do hotel. Depois de tomar nota do número, a menina, muito simpática, agarrou-se ao telefone e, após ter conferenciado, julgo, com entidades várias, anunciou-me que, no dia seguinte, por volta das 19 horas, teria, no meu quarto, a almejada chamada. À hora aprazada lá estava eu à espera. Mais de uma hora depois, como chamada alguma viesse, lá fui falar com a menina. Só que a menina era outra. Fez-me uma cara de pau do caneco. Não sabia nada do assunto, nem tinha nada com isso. Nem sequer percebia o meu problema. Pois se eu tinha pedido a chamada à Natasha , o que é que a Ludmila podia fazer? Esmagado por esta irrefutável lógica, desisti da reclamação, e pedi nova chamada. Ficou marcada para as 19,30 do dia seguinte. Escusado será dizer que, no dia seguinte, se passou exactamente a mesma coisa: à Irina, que substituía a Ludmila, o problema era alheio. Resolvi, então, perguntar quando é que a Natasha voltava ao serviço. Ao que me foi respondido que só na segunda-feira seguinte, isto é, uma semana depois do serviço anterior. Aprofundado o assunto, concluí que tudo se passava como segue: cada menina trabalhava 12 horas no hotel, de oito em oito dias. Ou seja, aquele posto de trabalho, que, no desgraçado mundo ocidental, daria para três pessoas, em Moscovo dava para 16! O pleno emprego no seu melhor.

     

    Para o senhor Pinto de Sousa, aqui fica a solução: se a força de trabalho, em Portugal, for de 5 milhões de infelizes, e se há 500 mil desempregados, com a receita soviética arranja-se emprego para todos e, em caso de necessidade, ainda sobra para muitos mais.

    Vêm como é fácil? Não há problema que o socialismo não resolva.

     

    António Borges de Carvalho
  • UM PRIMOR

     

    “Efeito do caso Maddie parece ter tido um efeito pouco duradouro.”

    Legenda de uma fotografia publicada na página 11 do DN de 2ª feira.

     

    ABC
  • TRICAS DO PODER

    Monumental bagunça reina já na história da chamada zona ribeirinha. Ainda a procissão vai no adro, isto é, ainda ninguém foi capaz de congeminar o que pode vir a ser a nova “agência”, “empresa”, ou seja lá o que for em que imperará, qual Alexandre da Macedónia, o recém convertido xuxa/advogado/tasqueiro/boquista Júdice, e já o senhor Pinto de Sousa começa a trair tudo e todos, a deitar promessas para o caixote do lixo, a tratar a Câmara e o camaroeiro Costa como se fosse lixo, ante o olhar aparvalhado da dona Helena, a indignação bacoca do senhor Negrão, o incrédulo espanto do senhor Carmona, a incontinência bolchevista do senhor Carvalho e o riso sardónico do caloteiro Fernandes.

    As ambições de poder dos notáveis autarcas que Lisboa tem está a ter o tratamento governamental que merece. Em vez de chegar a um acordo qualquer com a APL, que tem dinheiro a rodos, resolveu a notável vereação – porque o que lhe interessava era o poder, e mais nada – arranjar uma estrangeirinha de tal ordem que até SEPIIIRPPDAACS mandou o decreto às urtigas, deixando tudo à nora. O senhor Pinto de Sousa, por seu lado, tratou de arranjar um esquema que pusesse o seu alegado número dois (olhem o Gordon Brown!) nos varais e mostrasse quem manda. E aí vai ele!

    Numa das habituais rábulas de propaganda, anunciou que ia gastar mais uns quatrocentos milhõesitos, que não tem, mas que, inevitavelmente, há-de arranjar maneira de esportular ao contribuinte, para construir uma indispensável via férrea, uns túneis, coisa gloriosa e emblemática.

    A vereação ficou banza. Então, enquanto nós trabalhamos afanosamente para conquistar mais poder, vem o governo e, sem nos dar cavaco, tira-no-lo?

     

    É bem feita! Ó Costa, toma lá mais esta para não te armares em mandão!

     

    António Borges de Carvalho

  • COISAS DO AMIGO BANANA

    I

    Como diria o amigo banana, Segunda-feira chama-se Segunda-feira porque é o segundo dia da semana. Ou seja, o primeiro é o Domingo. No caso presente, Domingo foi ontem, 4 de Maio.

    Vêm estas notáveis afirmações a propósito da secção “A Semana que vem”, do semanário “Expresso”.

    Reza a coisa, anteontem, dia 3 (na semana passada) que na semana que vem, que começa a 4, se comemora o primeiro aniversário do desaparecimento da Maddie… que foi a 3. Ou seja, na opinião do “Expresso” vai passar-se na semana que vem o que já se passou na semana passada.

    Faz lembrar a grande obra literária do intelectual Mendes Bota que se chama “No décimo aniversário de doze anos de poder local”, ou a conferência do embaixador Reyno (o inimigo da dona Ana Gomes), pronunciada em Madrid, sob o título “Portugal e Espanha: dois caminhos paralelos que raramente se encontram”…

    Hi, hi.

     

    II

     

    Resulta de um académico inquérito sexual que 0,9% dos portugueses e 0,6% das portuguesas são homossexuais.

    E tanto barulho se faz para meter na cabeça das pessoas a imperiosa necessidade de atender a todas as exigências destas tão significativas minorias!

    Por outro lado, parece que há 70% dos portugueses que não apreciam positivamente as actividades sexuais das ditas minorias, sendo que se fica sem saber se os outros 30% apoiam activamente tais práticas mal cheirosas ou se, simplesmente, não ligam ao assunto.

    Isto faz com que, aflita e indignada, a Exmª intelectual responsável por tão importante estudo diga que Portugal é um país altamente “homofóbico”.

    O Irritado, que é uma besta, diria que os portugueses, à excepção do “fracturante” senhor Louça e da doutora do inquérito, se estão marimbando para o assunto.

     

    III

     

    Dizem para aí, com foros de escândalo, que um polícia, sozinho na esquadra, viu entrar na dita um bando de díscolos, e teve ficar quietinho para não perturbar as destruidoras intenções e ilegais práticas dos invasores.

    O senhor Pereira já produziu indignadíssimas declarações sobre o assunto. Da mesma forma se pronunciaram inúmeros jornalistas, comentadores, intelectuais e propagandistas.

    Numa linha de jornal, porém, pode ler-se que a esquadra em causa tem nada menos que vinte e três efectivos. O que permite ao respeitável público imaginar como se passaram as coisas. Quatro polícias estavam de folga. Outros quatro andavam a passear de pópó. Dois estavam a tomar conta de uma ocorrência. Cinco andavam em serviços particulares, pagos por fora. Um estava na esquadra. Dos outros sete não se sabe, sendo de presumir que se encontravam no gozo de merecido desenfiamento.

    Consta que, para obviar a casos como este, e a fim de não perturbar o equilíbrio psicológico dos senhores guardas e do respectivo sindicato, o senhor Pereira vai meter mais sete mil e quinhentos efectivos. Procurando fazer alguma justiça, o Irritado acha que, se calhar, é exagero. Três mil devem chegar.

     IV

    Ainda a este propósito, cite-se a observação de carácter profundamente filosófico produzida no “Expresso”.

    Reza assim:

    “Um Estado incapaz de assegurar o grau zero da segurança demite-se de quase tudo”.

    O Irritado curva-se respeitosamente perante a clarividência desta doutíssima opinião.

     

    ABC
  • MEDICAMENTOS PARA O POVO

    Quem não conhece o tenebroso senhor de estranha barbicha que aparece todos os dias na televisão, maquiavélico e poderoso, e que é patrão de uma das mais poderosas financeiras do país, a associação das farmácias?

     

    Sabe-se, embora haja pouco quem queira mexer nisso, que Portugal é vítima, não só do socialismo, de esquerda e de direita, como de uma série de estruturas jurídicas mais ou menos medievais, como a lei do arrendamento, as leis do trabalho… e a lei das farmácias. Postulava esta que só os farmacêuticos diplomados podem ser proprietários das ditas e que as ditas tinham que estar a não sei quantas centenas de metros umas das outras.

    Após as estrondosas declarações “modernizantes” do senhor Pinto de Sousa, com honras de discurso de posse, parecia que, no que às farmácias diz respeito, as coisas iam mudar. Mas a montanha pariu (mais) um rato. O que aconteceu foi o aparecimento de umas lojecas a vender produtos semi-farmacêuticos, lojecas que, como é óbvio, praticam os preços mirabolantes das farmácias*, e o limite de quatro farmácias por proprietário, o qual (aleluia!) poderá não ser farmacêutico.

    De resto, com meia dúzia de investidas do  senhor da barbicha, as coisas foram ficando mais ou menos na mesma, não vá o homem irritar-se e exigir, já!, os milhões que o senhor Pinto de Sousa deve à sua prestimosa organização.

    De tal maneira escandalosa é a coisa que a Comissão Europeia processou o Estado Português, a fim de acabar com a rebaldaria.

     

    Espera-se que o senhor Pinto de Sousa se encolha, a ver se passamos a ter alguma concorrência e se os preços que nos esmagam entram nos varais.

     

    António Borges de Carvalho

     

    * Por imposição médica, usamos cá em casa uma coisa que não é sabão, mas lava como se fosse. Um frasquinho daquilo custa, em Lisboa, números redondos, 20 euros. Exactamente o mesmo frasquinho, em Paris, custa 10 euros. Contas feitas, se eu for a Paris fazer o abastecimento para um ano, dá para o avião (low cost) e para um belo fim de semana num hotel de quatro estrelas. Bonito, não é?
  • À ATENÇÃO DO DR. CAPUCHO

    Mais um Domingo. Almoço no paredão. Gente a mais. Já devia ter aprendido que, ao Domingo, não se vai almoçar ao paredão.

    De qualquer maneira, a errada decisão teve as suas vantagens. Consistiram elas na observação da “segurança” e dos seus agentes.

    Entre velhinhos e velhinhas, criancinhas aos pulos, selvagenzitos de skate board, pêssegas suadas com as maminhas aos saltos ao ritmo do fitness, enfim, no meio do povão, duas ou três vezes, da minha mesa do “Escotilha”, vi, imponente e importante, um agente da “autoridade”. Ainda bem, dir-se-á. Só que o dito agente se passeava de peidociclo no meio das pessoas, aos esses, a acelerar quanto podia. Aos que andavam de bicicleta, dizia o homem, do alto do peidociclo, que se fossem embora, que é proibido andar de bicicleta no paredão!

    Mas a “segurança” não se fica por aqui. Duas vezes – duas!, passou, a enxotar as pessoas, uma ramona monstra, carregada de polícias de negro fato de combate. Uns seis ou sete, de cu tremido, que andar faz calos. Olhavam o pessoal com a superioridade do costume. O machimbombo subia e descia a rampa a suar dos injectores.

     

    É assim que o senhor Pereira toma conta das nossas pobres almas.

     

    À saída, no parque de estacionamento, um jipe da polícia marítima, devidamente estacionado em local proibido. Mais uma demonstração de segurança, desta vez a dizer aos desgraçados que a Polícia tem uma legitimidade que aos demais não assiste, desta vez uma legitimidade estaciono-marítima.

    E muito bem! Muito bem porque é preciso que o pagode ignaro e estúpido perceba como a Polícia lhe é superior! A verdade, para quem insista em não perceber, é que os polícias não podem, não se devem cansar, coitadinhos, a fim de estar fresquinhos para quando for preciso. Não podem, por outro lado, ficar com a sua capacidade de manobra reduzida nos casos em que não têm, coitadinhos, um lugar para estacionar mesmo ao pé do sítio para onde vão: é que, compreensivelmente, seria para eles uma canseira ter de procurar um lugar, como acontece à canalha.

     

    À atenção do Dr. Capucho.

     

    António Borges de Carvalho
  • CITAÇÃO

    CITAÇÃO

    …

    A geração de Abril assusta-se com a possibilidade de despedimentos na função pública. As novas gerações estão fartas da incompetência da função pública. A geração de Abril considera que a segurança no emprego é essencial. As novas gerações sabem que a segurança no emprego depende da evolução da economia e da competências de cada um naquilo que faz. Gostavam que a geração de Abril se ouvisse a si própria e se lembrasse do que ouvia aos dinossauros do regime, antes de Abril. Gostavam que a geração de Abril saísse da frente e deixasse a vida avançar. Porque sopram ventos de mudança, que já não são os de Abril, esses já sopraram, foram bons, úteis e importantes, mas pertencem ao passado e já não servem.

     

    Tiago Tribolet de Abreu

    “Público”, 2 de Maio de 2008
  • PARALISIAS

    Anteontem, naquele chatíssimo programa da dona Maria Elisa, uma menina, dita arquitecta, queixava-se de já ter sido por duas vezes corrida do emprego por estar a recibos verdes. Pois é. A rapariga tem razão. Nem subsídio de desemprego, nem segurança social, nem abono de maternidade, nem nenhuma das vantagens do Estado “social”. Não será tudo verdade, isto é, se pagava as suas contribuições como é devido pelos passadores de recibos verdes, tinha várias destas regalias asseguradas. O que não lhe tira, na base, a razão. Ficou desempregada, sem indemnização nem subsídio. Coitada.

    O problema não é que ela se queixe, é que faça, dos seus males, diagnóstico tão habitual quanto burro, apesar dos aplausos da dona Elisa e da sua malta: os recibos verdes e os contratos a termo são um malefício do patronato, da “direita”, de um sistema “neo-liberal”, é indispensável acabar com a “precaridade”, (neologismo bacoco!), dar às pessoas “estabilidade de emprego”, ir para a rua gritar atrás do Silva, do Louça e do Jerónimo, etc.

    Nem o diagnóstico é verdadeiro nem os alegados remédios curam seja o que for.  

     

    O que se passa com o emprego é, mutatis mutandis, o mesmo que se passa com o arrendamento.

    A estupidez, o obscurantismo, a ignorância acerca do mundo em que se vive e trabalha, a prepotência do Estado, a burrice pseudo social, dividem os portugueses em duas classes: a dos que pagam rendas antigas parasitando terceiros (classe A), e a dos que querem uma casa para alugar em condições suportáveis, e não encontram (classe B). Não havendo mercado de arrendamento, as pessoas são empurradas para o de compra, com fatais consequências, das quais o aperto financeiro nem sequer é a mais grave, em termos de futuro: a paralisia social é bem pior.

    No emprego, as coisas são da mesma natureza: há a classe A, que tem emprego fixo para toda a vida, regalias sociais e direito a actualizações anuais de salário, quer trabalhe quer não. E há a classe B, de que faz parte a dita arquitecta. Uns, não precisam de fazer qualquer esforço de especial para ir governando a vidinha e gozar das regalias do Estado. Outros, por mais esforços que façam, andam à nora, vivem mal, e não têm acesso às prestações sociais ao alcance dos da classe A.

    Ao mesmo tempo que brama com a necessidade de evitar a “precaridade”, o Estado socrélfio promove o alargamento da classe B e é o primeiro empregador a termo e a recibo verde. Os Bês saem mais baratos que os Ás. Voilá.

    Na actividade privada, os paralisantes imperativos do estado “social” levam a consequências similares. A esquerda, os sindicatos, os louças, os jerónimos, os silvas, vão metendo na cabeça das pessoas, como se de um direito se tratasse, que a sociedade (o que quer que ela seja) tem a irrecusável obrigação de garantir emprego e regalias sociais a todos, como se fosse possível fazer omeletes sem ovos.

     

    É nesta floresta de enganos que vive a dita arquitecta e seus semelhantes. Não percebem que a estabilidade de emprego é fruto da competência, da produtividade, da honestidade, do não oportunismo, da boa relação humana, do êxito empresarial. Não da Constituição, da lei ou dos ditames da social bem-pensância. Nem que o emprego é, por sua própria natureza, ou precário ou falso. É para obviar às consequências negativas e injustas desta substancialidade humana e social que o Estado existe. Ou seja, que o Estado devia existir.

     

    O socialismo, letalmente incrustado nas veias das pessoas e agarrado à cabeça dos políticos, tem por base uma sociedade que não existe nem nunca existiu ou existirá, actua sobre dados imaginários e legisla na base de um wishful thinking completamente falso, talvez fruto racional de erróneas premissas, talvez pura fabricação da “correcção” dos tempos.

     

    AntónioBorges de Carvalho
  • O DEBUTE

    Dona Manuela debutou.

    Nos salões, nos dourados corredores, pelas solenes escadarias, nos jardins, nos pátios, nas ruas, o povo amontoou-se para a ver e aplaudir.

    Sorridentes, barões e foliões, tecnocratas e gerontocratas, gestores e assessores, autarcas e administradores, senhoras e senhores, até meninos, sérios e rabinos (decoração para a televisão) e, mais na sombra, meninas, atinadas e ladinas, aparatchicks todos chiques, tudo minha gente, vamos para a frente, olé, olé, olaré, olaré.

    Dona Manuela mal disfarçava a emoção. Nos olhos, uma ligeira névoa traía as profundas inquietações que trazia na alma. E disse. Disse que. Nas suas palavras o vazio do momento, vazio que só a sua pessoa poderá preencher, não se sabe – ainda – com quê, mas certamente com algo que as malhas do orçamento moldaram e a inteligência a seu tempo ditará.

    Esperança? Pouca. Os circunstantes, na circunstância, circunstanciavam dúvidas. Tapavam-nas com o entusiástico entusiasmo da entusiasmante e circunstancial circunstância.

     

    Todos sabem que dona Manuela fará política estatista, como fez o seu guru, depois de ser levado aos píncaros pelos que queriam o contrário. Em relação ao senhor Pinto de Sousa, trará algo de precioso: a honestidade, coisa que ao homem escasseia. De resto, tudo ficará mais ou menos na mesma. O orçamento continuará a ser o nosso guia, o nosso big brother, a nossa má sorte. Os professores continuarão a não ensinar, os juízes a não julgar, os procuradores a não procurar, os funcionários a não funcionar, a produtividade a não produtivar. Dona Manuela herdará as muitas centenas de milhões de compromissos do Estado, fruto das parcerias que a fúria desorçamentadora do socrelfismo criou e que não deixaremos de ter que pagar. Os “empresários” continuarão pendurados ao governo, o pagode ignaro continuará dominado pelo Jerónimo e pelo Louça, apesar de toda a gente já saber que um país onde doze por cento dos eleitores votam nessa gente é um país que jamais sairá da cepa torta.

     

    Shortly, não é com social-democracia que se cura as feridas que o socialismo abriu, abre e continuará a abrir.

    O que faz um homem como o senhor Borges no meio disto não é difícil de prever. Se houver um governo “manuélico”, acontecer-lhe-á, pelo menos, o mesmo que àquele tipo cujo nome já esqueci e que foi o ministro das finanças do socretinismo antes do senhor Santos.

     

    É indiscutível que o consulado do guru da dona Manuela foi o período de “ouro” do regime. Mas, enquanto os espanhóis, até os socialistas, na mesma época, perceberam o que se estava a passar, o guru achou que o melhor era não mexer muito nas estruturas e “dominar as artes” na economia. Resultado: os espanhóis descolaram e nós, num instante, voltámos à cepa torta. Veio o senhor Guterres e, com a melhor das intenções, atirou-se de cabeça para o pântano. Antes de dar à sola, gastou o que tinha e o que não tinha. Veio a dona Manuela e concluiu que outra coisa não havia a fazer senão conter o défice. Verdade seja que o conseguiu, ainda que acossada pelos gritos histéricos do Pinto de Sousa e dessa desgraça em figura humana que se chama Sampaio. Veio o Bagão Félix e continuou, embora tendo aberto janelas por onde o ar e o sol não chegaram a ter tempo de entrar. Coroado, o Pinto de Sousa deitou galhardamente para o lixo os dados – meras “bocas”! – do Eurostat, encomendou um défice putativo ao camarada Constâncio, e passou a lavar o cérebro ao monte de idiotas que são os cidadãos, convencendo-os, depois de os massacrar com uma política fiscal que faria inveja ao Salazar dos anos trinta, de que tinha conseguido o extraordinário feito de diminuir o que começou por brutalmente aumentar.

    Tudo receitas que o socialismo inventou, a inteligência desconhece, a razão abomina e o povo vai “comendo”.

     

    Nestes aspectos, dona Manuela pouco fará para melhorar as coisas. Gerirá o socialismo com argúcia, autoridade, honestidade e frontalidade. Mais do que isso não lhe será dado, nem quererá fazer.

     

    Ou seja, tudo ficará mais ou menos na mesma.

     

    António Borges de Carvalho
  • UM FUTURO RISONHO

    Não sei se se lembram de que o Irritado, quando o dr. Meneses ganhou as eleições ao dr. Mendes, disse que o PSD tinha substituído um suicida por um parvo.

    O homem foi-se embora, e muito bem. Tinha um jeito para a política tipo elefante aos saltos em cima da manteiga, convencido que não deixava rasto.

    O problema é que, como se vê agora, o fulano é muito pior que parvo. Anda para aí a fazer o que pode para arrumar com a única pessoa que, dando o litro por ele, fez alguma coisa de jeito pelo partido nos últimos meses: o dr. Santana Lopes, pois então. Supriu-lhe as insuficiências parlamentares, aguentou que nem um touro as intervenções, asnáticas ou contraditórias, que ia debitando. Agora, quando toda a gente pensava que o clínico iria, sossegada e modestamente, tratar dos seus munícipes, eis que manda o fi-fi dar apoio ao Coelho e se prepara para fazer o mesmo. Tanta estupidez e tanta deslealdade juntas é demais.

    Ou acontece algum inesperado milagre, ou teremos, com a dona Manuela – estimável, inteligente, mas nhurra – via cavaquismo recauchutado, mais uma mortífera dose de social-democracia.

     

    António Borges de Carvalho
  • SANGUE ESTRAGADO

     

    Francisco de Sousa Tavares foi um homem polémico. Senhor de invejável cultura, impunha-se pela palavra, tão fluente quão profunda, e pela escrita, prosa bem informada, sempre entusiástica, quase sempre elegante.

    Aprendi com ele muito do que, ainda hoje, subjaz ao que penso e digo.

    Zangámo-nos e des-zangámo-nos muitas vezes. Era sempre o entusiasmo da opinião assumida com exagerado vigor o que nos afastava e voltava a juntar.

    Tinha uma forma muito própria de se exprimir, com laivos ou de genialidade ou de loucura. Talvez por isso, toda a gente o conhecia por Tareco, umas vezes com desdém, outras com carinho. Assumia causas, por vezes sem razão, mas sempre com a mesma fibra, o mesmo entusiasmo , a mesma sinceridade. Defendia-as com pés e cabeça, informação, fundamento, preocupação intelectual.

    Dele me ficou a herança dos princípios e a lição da vida.

     

    Quando um pobre jovem de 16 anos, que me era querido, acabadinho de entrar para a faculdade, se enredou nas malhas da extrema esquerda e foi encarcerado pela PIDE, dos advogados “especializados” que, aflito, contactei (não me esqueço de nenhum – toda a gente os conhece, mas não refiro os seus nomes para não sujar este texto), foi o Tareco o único que indagou, requereu, barafustou, e até se pôs à porta de Caxias, aos gritos, que estava lá um menor, que era uma vergonha, arriscando-se por ele muito mais do que lhe poderia ser pedido. O jovem acabou por se suicidar, vinte anos depois. Votava CDS, era professor universitário, mas jamais recuperou dos traumas que três meses em Caxias lhe causaram. Saiu de lá com perturbações de que jamais se libertou. Saiu, diga-se, porque alguém meteu uma cunha a um grandalhão da PIDE, o qual toda a vida afirmou que a polícia política jamais prendera um miúdo de 16 anos. Nem a “honra” de uma “boa” ficha lhe outorgaram!

    De pouco terá servido o trabalho do Francisco de Sousa Tavares, mas o gesto ficou para sempre na minha memória, como sinal de nobreza e de coragem.

     

    Era o Francisco casado com uma das mais distintas artistas do nosso tempo. Tudo o que possa dizer de Sofia de Mello Breyner será demenos, ou demais.

     

    Da junção do sangue destes dois ilustres portugueses nasceram muitos filhos. Mas a Natureza tem rebuscadas maneiras de se manifestar. Um desses filhos, talvez a querer imitar o Pai, o que, mesmo sem que com ele haja comparação, só lhe fica bem, é o story teller Miguel, do mesmo nome. Um homem mais de prosápia que de prosa. Um monumento de petulância, de convencimento, de sobranceria. Um fulano que se vê ao espelho e se acha o melhor do mundo. Um tipo que comete os mais incríveis erros – o que, em ficção até pode não ser mau – e que desafia quem sabe a demonstrar que errou, isto para que as almas simples o considerem. E consideram.

     

    O motivo próximo destas linhas é o artigo do tal Miguel que o “Expresso” desta semana publica com as habituais parangonas. “Factos” completamente falsos, ignomínias inqualificáveis, zarolhismo militante, tudo sem outra justificação que não seja o ódio puro, rebuscado, a malvadez, a demolição pela demolição. Abaixo do mais baixo dos cães.

     

    A Natureza tem destas coisas. Do cruzamento de dois sangues tão insignes sai uma coisa destas!

     

    António Borges de Carvalho
  • REFORMAS O CARAÇAS!

     

    Com a habitual propaganda, foi apresentado pelo governo aos chamados parceiros sociais o seu ingente trabalho sobre as leis do dito.

     

    A luta socialista contra o povo e a contra a economia continua.

     

    Em vez de reconhecer os problemas que existem – desemprego, salários baixos, falta de produtividade, etc. –, em vez de perceber que a chamada precaridade, ou seja, a mobilidade, a responsabilidade, a liberdade, a competência, o trabalho, a carreira, a vida, é indispensável ao funcionamento da economia e base dos mercados de trabalho mais dinâmicos, justos e progressivos (sistemas social-democratas incluídos), em vez de perceber que a proliferação dos contratos a prazo e dos recibos verdes “falsos” – “mercado” em que o próprio Estado é o principal patrão! – outra coisa não é senão o resultado de uma realidade social e económica (a precaridade) que existe quer o Estado e o senhor (Doutor!) Silva a reconheçam ou não, a queiram ou não, e que, em si, não é um mal (até pode ser um bem), vai o governo, dizia, gloriosamente, “simplificar” os “modelos processuais – leia-se a burocracia – dos despedimentos com justa causa, que continuam a ser determinados judicialmente, sem mexer uma palha, nem no conceito nem no paralisante congelamento do mercado, causa primeira do desemprego, dos salários baixos e da falta de produtividade.

    Em vez de legislar acerca das compensações mínimas em caso de despedimento por “inadaptação” – o que quer que isso queira dizer – quando não haja acordo, não senhor, o governo legisla no sentido de o empregador ter que “provar que há quebras de produtividade” e que “oferecer alternativas de formação e ocupação”. Tudo a ser provado em tribunal. E se o tribunal levar mais de um ano a decidir, o que acontecerá em 99% dos casos, então o povo (o Estado) paga os salários, ficando o desempregado “empregado”, a ganhar um salário a que trabalho algum corresponde.

    Tudo isto, e muito mais do que é público quanto à “reforma” das leis do trabalho, significa que tudo vai ficar na mesma, se não pior. A “luta” pela estabilidade de emprego vai, como toda a gente sabe, criar mais desemprego e mais precaridade. E mais contratos a termo certo, mais recibos verdes, mais impostos – desta vez, nada de contas, que o estado vai “presumir” o que cada um ganha, o que cada um gasta para poder ganhar e o que cada um arrecada através do trabalho!

     

    O socretinismo já fingiu que reformava o arrendamento, já fingiu que reformava a educação, já fingiu que reformava a justiça, já criou pelo menos uma dúzia de “autoridades” e “entidades” para tomar conta disto. Ocupa agora páginas e páginas de jornais e horas e horas de televisão e rádio a dizer que vai “reformar” as leis do trabalho.

     

    Reformas, o caraças!

     

    A mais necessária de todas as reformas seria a que mandasse para o desemprego a aldrabice e a propaganda, ou seja, o senhor Pinto de Sousa e os seus amigos.

     

    António Borges de Carvalho
  • CARTA ABERTA AO PRSIDENTE CAPUCHO

     

    Senhor Presidente

     

    É Vossa Excelência um autarca exemplar, probo, sério, interessado, experiente, capaz. É, além disto, o Presidente da melhor autarquia do país, em termos de qualidade de vida.

    Razões pelas quais me atrevo a expor-lhe o meu descontentamento, melhor dizendo, a minha indignação e a minha revolta pelo que passo a expor:

     

    Desde há uns anos, havia, dentro de Cascais, no começo da estrada que leva à Malveira da Serra, junto à primeira rotunda, a estrutura de um hediondo mamarracho, cujas obras estavam paradas. Pensou a minha inocência, como é lógico e se impõe a qualquer pessoa minimamente atenta, que tais obras tinham sido paradas por intervenção camarária, dada a violência do atentado que as mesmeas representavam em termos estéticos, ambientais, de mobilidade e de mero bom gosto.

    Neste Sábado, dou com tais obras em re-andamento. Estão identificadas por um cartaz do ministério do senhor Pereira, em que se declara tratar-se de “acabamentos” de um edifício destinado à PSP de Cascais, com acordo e o aval da respectiva Câmara.

     

    Senhor Presidente

     

    A inenarrável porcaria a que me refiro, de monstruosa arquitectura, intolerável chaga urbanística, encontra-se a cinquenta centímetros da via pública, mais não permitindo para circulação de peões, e obstando a estacionamento de qualquer ordem. Horrível poliedro rectangular, sem qualquer sombra de sentido ou sentimento estético, em contradição e agressão a tudo o que a cerca. Ofende Cascais, ofende a sua obra, senhor Presidente, ofende os mais elementares princípios do urbanismo, ofende a própria essência do que Cascais é e representa.

     

    Por isso lhe peço, senhor Presidente, que exerça os poderes que tem para parar, com a maior urgência, o atentado que o governo do senhor Pinto de Sousa está a fazer à sua autarquia. Mais que não seja para que não fique, na história de Cascais, que foi sob a presidência de António Capucho que se cometeu tal crtime.

     

    Já basta, ou já sobra, para vergonha de todos nós, o que se está a fazer no lote do Estoril Sol.

     

    Com os melhores cumprimentos

     

    António Borges de Carvalho

     

     
  • MEDIDAS PARA PROTEGER O POVO

    A fim de não seguir o exemplo dos Estados Unidos, e possuído de extremosos sentimentos em relação aos portugueses mais tesos, o senhor Santos resolveu prolongar o prazo de pagamentos dos empréstimos devidos por compra de casa por mais uns vinte anitos. Cinquenta, ao todo. Se coisa correr mal, não tarda passe para os cem.

    Grande medida!

    Se você comprar um andarzeco aos trinta anos, acabará de o pagar aos oitenta! O mais provável é que venham a ser os seus herdeiros a ficar com um andar todo podre, que não lhes interessa nada, cheio de prestações para pagar. Os seus herdeiros, como você, sua besta, vão ficar ali, amarradinhos à casota, a pagar e a não bufar, estrangulados pela tesura a que a estabilidade de emprego os condenou. Viva o Pinto de Sousa!

     

    Consta que o senhor Salgueiro, mui sábio presidente da associação de bancos, vai dar um banquete comemorativo, precedido de um Te Deum de acção de graças. Vai ser um fartar vilanagem, em juros e alcavalas.

     

    Resumindo: o senhor Santos, em vez de pegar no NRAU que os seus camaradas inventaram e de o deitar para o lixo, em vez de relançar, mediante actualizações rápidas e automáticas, o mercado de arrendamento, em vez de criar linhas de crédito para a recuperação dos prédios com cujas rendas o Estado se abotoou durante um século, resolve agravar a vida das pessoas, manter os yields abusivos – por defeito e por excesso – do mercado de aluguer, continuar no inacreditável absurdo em que vegetamos e que nem no quinto mundo, nem nos manicómios, nem na mais primitiva sanzala existe.

     

    Alternativas para as pessoas, nem pensar, que isto do socialismo tem que se lhe diga.

    Depois, venham cá dizer que o senhor Pinto de Sousa governa à direita. O tanas. Governa à esquerda, e à mais estúpida das esquerdas.

     

    António Borges de Carvalho