É difícil “encaixar” a desgraça que por aí anda e por aí vai continuar a andar e a ser cada vez mais desgraça.
Até quando? Ninguém saberá dizer. O mais provável é que a desgraça se instale e passe a ser “normal”.
Já toda a gente pensou, até há quem o tenha dito e escrito, que não é possível recusar a herança do senhor Pinto de Sousa como se ele tivesse sido nosso tio, nem evitar as dramáticas consequências do que vai por essa Europa fora, como se à Europa não pertencêssemos.
Apesar de perceber e até aceitar que não pode deixar de haver austeridade, e da dura, da difícil, todo o bicho careta acha que ela deve parar à sua porta.
Os tipos das SCUTS acham que não têm que pagar as portagens. Os funcionários, que lhes não devem ir ao ordenado. Os reformados, que nas pensões não se toca. Os meninos, que os empregos devem ser garantidos, universais, bem pagos e vitalícios. Os sindicatos nem sequer percebem que quanto mais greves fizerem pior para eles. Os partidos comunistas dizem que é possível fazer omeletas sem ovos ou acham que quanto pior melhor, porque abre caminho às vanguardas. Os professores acham que há lugares para todos, nem que seja um professor para cada aluno. Os médicos que isso das horas extraordinárias tem que ser garantido.
E por aí fora. Toda a gente acha que é preciso que os outros paguem. Bodes expiatórios não faltam, os bancos, os ricos, os políticos, os corruptos, o diabo a quatro. Se se tirasse o dinheiro aos bancos, aos ricos, aos políticos, aos corruptos, ao diabo a quatro, resolvia-se o problema! Não se resolvia coisa nenhuma, mas a malta vai alimentando estas revolucionárias ilusões.
A última “indignação”, expressa em ameaças de pacotilha, é a dos tasqueiros e quejandos. A bica a setenta cêntimos em vez de sessenta e cinco? Nem pensar! Vai tudo à falência. As camas de hotel a oitenta euros em vez de setenta e cinco? Acabou-se o turismo! E por aí fora. É o pânico fabricado por mais uns que não querem pagar, em vez de cortar as unhas.
Para além de todas as asneiras “sociais”, bancárias, dos governos, do welfare, há uma realidade que ninguém reconhece como tal: o dinheiro mudou de residência. Não desapareceu. O dinheiro nunca desaparece. Muda-se. Migra.
Se o dinheiro migrou, é preciso ir buscá-lo onde está. Como com as pessoas, é preciso atrair esse ilustre emigrante. O dinheiro, como as pessoas, só volta se lhe oferecerem boas condições de vida.
É aqui que bate o ponto. Fazer voltar o dinheiro, a bem, não é fácil. É preciso esquecer uma data de sentimentos nacionalistas, coisa, essa sim, que regressa e por aí grassa, como há cem anos. Sabe-se o que dá, e onde conduz. Sabe-se ao que levou, no século passado.
Julga o IRRITADO que, um dia, o dinheiro vai voltar. A bem ou a mal. Essa tão odiada categoria económica, condição de liberdade, pode voltar como tal, ou como ferramenta de guerra ou de domínio. É aqui que bate o ponto.
Entretanto, a opção de não pagar deixou de ser opção. E quanto mais se quiser resistir, pior.
13.10.11
António Borges de Carvalho

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