– Boa noite, senhores telespectadores (espetadores, em novi-língua). Temos hoje como tema principal a suspensão da vacina da Zaneca. O senhor Primeiro-Ministro esclareceu a questão no parque de diversões da nova ponte sobre o Douro.
Imagens. O PM no relvado, farripas ao vento:
– Estou ansioso pela segunda dose da vacina da Zeca.
– Mas suspendeu a vacina. E agora?
– Suspendi mas não suspendi, está a perceber?
O entrevistador, filiado no PS, não percebe, mas não insiste.
De volta ao estúdio:
– Depois de o PM instilar mais uma dose de confiança na alma das gentes, vamos ouvir o senhor doutor Jeremias da Purificação, empregado do covide, sobre este ingente problema. Senhor professor Jeremias, acha bem a suspensão da vacina da Zanaga?
– Boa noite e obrigado pelo convite. A suspensão da vacina da Zeta é uma maravilha, uma necessidade, uma prevenção de alto nível.
– E porquê?
– Ora, é muito simples. Entre 50 milhões de vacinados, houve três mortos, um de diarreia, outro com uma unha encravada e, em Tegucicalpa, uma senhora diabética de 98 anos.
-Mas…
– Não há mas nem meio mas. É a ciência!
– Muito obrigada, doutor Jeremias, – a apresentadora sacude as melenas e continua – temos agora entre nós a professora catedrática de matemática na universidade da Arrentela, dona Eufrásia Malacueca, a quem pedimos mais esclarecimentos. Senhora professora, acha bem a suspensão da vacina?
– Boa noite e obrigada pelo convite. É evidente que o senhor primeiro ministro é de uma genealidade a toda a prova. Segundo os modelos matemáticos estabelecidos pela minha equipa, os três casos citados pelo doutor Jeremias, uma vez tratados pelo nosso algoritmo, redundam no perigo universal de uma avassaladora onda de covide.
– Mas não será um pouco exagerado?
– Exagerado? Garantido. É aciência, a ciência de alto nível! Tem dúvidas?
– Nenhumas. Muito obrigado, professora Gervásia. Boa noite. No seguimento da nossa política informativa, não quisemos deixar de consultar a ilustre professora Pancrácia Caralta, da Nova SCE, especialista na influência do capitalismo na evolução da produção de papel higiénico. Quer dar-nos a sua opinião sobre a suspensão da vacina da Zaragata?
– Boa noite e obrigada pelo convite. É evidente, à luz da mais actualizada ciência, que a suspensão da vacina muito contribui para o esclarecimento da população. A Zaragata é uma organização do mais horrendo capitalismo, apostado em matar indefesos cidadãos, o que está em curso de prova em várias universidades. Os três mortos em 50 milhões estão aí para não deixar dúvidas.
– Mas, diz-se, são poucos, e não se sabe se morreram por causa da vacina…
– Não se sabe? Não diga disparates. Quem diz coisas dessas é a extrema direita, os racistas, os machistas, os fascistas, os burgueses do teletrabalho! Eu falo de ciência, minha senhora, de ciência, que é coisa que não é dada ao povo trabalhador, a burguesia possidente é que estraga tudo!
– Muito obrigada, professora Caralta. Boa noite.
Pausa.
– Da Régie informam-nos que bateu à porta um geógrafo que quer dar a sua opinão. Vamos chamá-lo, a seguir a um curto intervalo.
– Boa noite, senhor geógrafo, especilista do IPCA (Instituto do Mal e do Covide). Boa noite, professor.
– Boa noite e obrigado pelo convite.
– Qual é a sua opinião sobre a actual situação da vacina da Zacota?
– O que posso dizer é que a vaciana da Zacreta traz um problema gravíssimo, justificando-se plenamente o ambiente de terror que a a decisão de a suspender não deixará de causar, e ainda bem. Temos que agradecer ao senhor primeiro-ministro e ao senhor Presidente a brilhantíssima decisão que tomaram. Averdade é que, diz a ciência, segundo a tendência dos ventos alísios e as novas fissuras da placa tectónica do triângulo das Bermudas, o vírus, ajudado pela vacina, tende a penetrar nas meninges da população causando furúnculos nas axilas, o que, sem dúvida, entre outros males, pode provocar uma galopante vaga de eutanásia.
– Obrigada, professor. Boa noite… Breaking news: acabámos de enviar um colega para a porta das nossas instalações, a fim de reportar sobre uma manifestação de alguns cidadãos mal informados que gritam contra o governo da Nação, dizendo, entre outros disparates, que se alguém levasse à risca as bulas dos medicamentos, dados os efeitos secundários por milhão de utilizadores ninguém os tomaria. No entanto, comunicam-me agora, a direcção da nossa empresa já proibiu qualquer referência ao assunto e abriu processos disciplinares aos profissionais que foram à porta. Depois do intervalo teremos uma aula de futebol em que, durante 32 horas, vários cientistas se debruçarão sobre as últimas novidades, designadamante sobre o último discurso do senhor Pinto da Costa. Tenha uma boa noite.
17.3.21

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