Ando a dar voltas à cachimónia a ver se me lembro do nome do fulano que é agora presidente de uma coisa que se chama Conselho Económico-Social, entidade por certo existente mas cuja utilidade me escapa. De qualquer maneira, dizem, tem uma data de funcionários e de manda-chuvas, todos parece que bem pagos pelo orçamento do Estado, dos quais o referido inominável presidente. O indivíduo, em tempos, até provocou em mim alguma simpatia, coisa rara, reconheço. Era ele contra a geringonça, achava que o seu PS não devia sair das fronteiras da democracia, não devia aliar-se aos comunistas e quejandos. Depois, dei com ele a apoiar a dona Gomes, o que fez desaparecer por completo a simpatia que acima refiro.
Quando se entra por maus caminhos é muito difícil sair deles, sendo especialmente grave que nem sequer se queira tentar. É assim que o tal indivíduo – raio, como é que se chama? – voltou à ribalta anunciando uma das mais estúpidas e ordinárias iniciativas desde que tenho memória de iniciativas ordinárias e/ou estúpidas. Ao arrepio da língua portuguesa e da respectiva gramática (coisas que, apesar de aturados e escritos esforços, aquela loira já gasta do PS ainda não tinha conseguido destruir) avançou com uma proposta que estropia elementares regras, fortes tradições e meros ditames da mais simples lógica. Tudo isto, diga-se, com o desejo de dar nas vistas, já que outro objectivo se não descortina tão nobre quanto esse. Trata-se de “dessexualizar” a língua portuguesa, ainda que, que se saiba, ninguém o tenha pedido, exija ou de tal precise. Parece que a criatura (ou o criaturo, para ir ao encontro da lógica do camarado) quer que nos revoltemos contra palavras gramaticalmente masculinas ou até de duplo género. Por exemplo, quando se fala de “gestores”, pensa o díscolo, deveria dizer-se qualquer coisa mais simples, por exemplo “pessoas com responsabilidades de gestão”, porque só gestores, naquela privilegiada cabeça, implica a exclusão das mulheres. Isto na mesma lógica, por exemplo e ainda que de pernas para o ar, quando se diz os avós se está a excluir os avôs, ou quando se diz “direitos do Homem”, com H grande, se está a excluir as caras metades e demais senhoras e meninas, que assim deixam de ter direitos. Direitos humanos não são direitos “homanos”, assim como, quando, a contrario sensu, quando se diz “um rebanho de ovelhas” se está a excluir os carneiros ou, num “bando de pássaros”, se está, evidentemente, a excluir as pássaras. Cristalino, não é?
Por pudor e higiene não vale a pena citar, criticar ou denunciar em pormenor os múltiplos exemplos da produção intelectual do fulano.
O que talvez valha a pena é alertar para o alarmante facto de ser capaz de haver quem admire a iniciativa. Que diabo, não chegava o “acordo ortográfico” para dar cabo do que resta?
17.3.21

Deixe um comentário