IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


REFLEXÕES

 

Há para aí uns dez anos, o autor do IRRITADO publicou um livrinho em que, entre outras coisas (algumas em que, hoje, já não tem razão, ou já não a tinha na altura), se pronunciava sobre o número de deputados e a sua forma de eleição.

Tanto tempo depois, o tema volta às páginas dos jornais e à luta política.


A primeira verificação é a da própria Constituição, que diz dever haver um número de deputados entre os 180 e os 250. A lei eleitoral veio a consagrar os 250, mercê de raciocínios ou conveniências cujas justificações já escapam.

Se formos buscar uma democracia que, ainda que não escrita, funciona bem melhor que a nossa, a Britânica, veremos que, para um universo de cerca de 70 milhões de cidadãos, há quase 700 deputados, sendo a Câmara dos comuns tida por superpovoada. Seguindo proporção semelhante, deveríamos ter por cá um máximo de 100 representantes.


À altura, pensava o autor que os círculos uninominais não eram desejáveis. Isto porque, diz a nossa experiência parlamentar, os chamados “deputados da província”, escolhidos pelas concelhias e distritais dos partidos, as mais das vezes se limitavam a votar no plenário segundo as ordens dos partidos e a sentar-se nas comissões fazendo figura de corpo presente. De quando em vez lá se valiam de alguna prerrogativa regimental para arengar do púlpito sobre os anseios lá do sítio. Ninguém ligava bóia ao que diziam (nem os jornalistas), mas tinham a suprema glória de ver o discurso publicado na gazeta local, referidos nas missas de Domingo e, talvez, discutidos no café e na sociedade recreativa. Raras vezes tinham qualquer importância. E, se a tinham, nem sempre era da melhor maneira. Basta lembrar o orçamento do queijo limiano, em que aqueles a quem o deputado local queria agradar nada ganharam, e só foi útil a quem o partido do deputado se opunha.

Não há dúvida que o nosso sistema proporcional é, teoricamente, o mais justo. Os deputados são eleitos por partidos, e cada partido tem o número deles exclusivamente dependente da sua percentagem por círculo, entre nós por distrito.

O escopo, segundo a vox populi, está na falta de conhecimento dos eleitores em relação às pessoas que elegem, a que que se segue que os deputados lhes pagam na mesma moeda, pouco se preocupando com os que os elegeram.


O problema é complicado, porque, segundo os princípios da Democracia Representativa, uma vez eleitos os deputados representam a Nação no seu todo e não só quem os elegeu. É estranho, mas compreende-se: trata-se de impedir a criação de uma assembleia orgânica, coisa própria de ditaduras.

Segundo este correcto princípio, e sendo o universo eleitoral um só, deveria haver um só círculo. Como, aliás, se passa com as eleições para o parlamento Europeu.


Voltando um pouco atrás, verifica-se que, praticamente, não há democracias avançadas que não tenham uma câmara alta, normalmente um Senado, onde, desejavelmente, se encontram representadas regiões, universidades, personalidades “indiscutíveis”, certas figuras da cultura, da economia, etc. Uma câmara mais orgânica, destinada a moderar e informar o processo partidário parlamentar, tendo muitas vezes e em certos casos poder de veto sobre as decisões da chamada câmara baixa.


Entre nós, o processo constitucional foi inquinado pela “fuga” ao “fascismo”. Como a assembleia da ditadura se chamava “nacional”, resolveram chamar-lhe “da República”. Como a ditadura tinha uma câmara Corporativa, decidiu-se que devia haver uma só câmara. Ao contrário de todos os que nos são próximos – o Reino Unido, a França, A Espanha, a Itália, a Alemanha… – escolhemos o unicameralismo. Em termos de sistema político outras asneiras se cometeram, como essa coisa bacoca do semi-presidencialismo à portuguesa, coisa que em parte alguma existe. Mas não é isso que, de momento, importa. Estamos a falar do número de deputados e do sistema eleitoral.


Quando se fala de diminuir o número de deputados, coisa com que, virtualmente, qualquer cidadão de bom senso não pode deixar de concordar, logo se levanta o coro dos partidos mais pequenos, que acham que vão ter menos representantes. Não se percebe bem porquê, já que, se forem só cem deputados, todos os partidos, proporcionalmente, os perderão.

A coisa atinge as raias de loucura com as propostas recentemente avançadas. Como o PSD sempre foi a favor, mas está coligado com o CDS, o PS resolveu vir à liça, não para baixar o número de deputados, mas para, ou criar atritos dentro da coligação, ou poder acusar o PSD de ter abandonado a sua histórica posição, ou ainda de esta ser mais uma mentira. Depois, é o PS quem cai no ridículo, já que umas dezenas de “locais” que iriam, fatalmente, perder a oportunidade de ser eleitos, começaram a fazer negaças ao Seguro. Uma pessagada idiota.


Tudo isto quer dizer que, entre nós, é muito difícil falar de coisas sérias.

Se falássemos a sério, trataríamos de eleger um parlamento com, por exemplo, dois deputados por província, mais uns tantos por lista nacional, sendo que os eleitos provinciais seriam obrigados a dispôr, como nos países mais evoluídos, de escritórios locais para atendimento dos eleitores, escritórios onde, obrigatoriamente, prestariam serviço pelo menos dois dias na semana, Sábados incluídos.

Sempre de forma a não ultrapassar os cem. Uma espécie de numerus clausus.

Trataríamos, como por exemplo em França, de permitir, distritalmente, a candidatura de qualquer cidadão, com ou sem apoio partidário. Umas tantas assinaturas e pronto.

Trataríamos de eleger uns vinte senadores, de arranjar outros na academia, nas Forças Armadas (reservistas ou reformados de grande prestígio), nas IPSS, outros de nomeação presidencial com critérios semelhantes, num máximo, por exemplo, de quarenta, com duas ou três reuniões mensais.

Trataríamos de arranjar um sistema político mais equilibrado e mais representativo.

Mas não tratamos de nada. É um, mais um, dos nossos problemas.


Não se pense que o IRRITADO está a “impôr” o “seu” sistema. Não. Está, muito simplesmente, a pensar no assunto.

Haja quem pense. Haja mais quem pense, desde que sem um só elemento de interesse pessoal, partidário, doutrinário ou de clube.

 

12.10.12

 

António Borges de Carvalho



4 respostas a “REFLEXÕES”

  1. ara alguém que escreveu um livro sobre o assunto, e que até integrou a AR, é curioso cometer (duas vezes) um erro tão básico: 250 deputados? Enfim, acontece aos melhores. Temos então uma das questões mais importantes do nosso tempo: que forma de Democracia? Para mim, será a Democracia Directa; para o Irritado, isto será uma fantasia. Tenho apenas uma vaga ideia do que pensará das teorias de Schumpeter, por exemplo, mas creio que acredita sinceramente na Monarquia. Ora, uma vez que a malta não quer nenhuma Monarquia, e nenhum Rei (muito menos o actual), resta a suposta “democracia representativa” – em que os políticos tomam o lugar dos monarcas. Daí a obrigatória «dignidade» das instituições, e dos nossos supostos representantes – mesmo num país pelintra e (cada vez mais) miserável como o nosso, temos de manter a «dignidade» da coisa. Custe o que custar! Mesmo quando as instituições são as pessoas que as representam, e não há qualquer Audi ou BMW que possa resgatar a dignidade que nunca se teve… ou responsabilizar quem é cronicamente inimputável, sejam quais forem as decisões que tome. Enfim, nem tudo é mau: pelo menos o Irritado deixou de fazer propaganda contínua ao Governo, e escreveu um post válido. Merece respostas mais construtivas.

    1. Sim, também eu errei: Para… no início, falhou o P, como é evidente. Sou um asno, é a vida.

      1. Não é nenhum asno.Mas, se o post merecia resposta construtiva… vou ali e já venho.Não falei em Monarquia, nem foi nesse sentido que critiquei o nosso “semi-presidencialismo”.A democracia directa redunda sempre em ditadura. Pode ser, como na Suiça, aplicada a assuntos menores. Mas, como na Suíça, integrada numa democracia representativa, e basicamente inorgânica. O problema do funcionamento da democracia é o balanço de poderes. Um jogo de pesos e contrapesos, como o imaginado pelos pais da América. Com aquela ou outra forma. É isso que a minha “tese” procurava demonstrar. Misturar os BMWs do PS na discussão não é bonito nem vem a propósito. O que não quer dizer que concorde com o cabaz de compras do Zorrinho.

        1. Tem razão, fui eu que trouxe à liça a Monarquia. Vamos então à “sua” Democracia. Como já disse, as instituições são as pessoas que as representam. Reduzir os deputados é fundamental, mas nada mudará enquanto a sua origem for a mesma: os partidos que temos. O Senado, ou Câmara Alta, é uma boa ideia, desde que um pré-requisito seja o total e comprovável apartidarismo dos seus membros. O voto uninominal também é fundamental, e a abertura da política ao cidadão comum – leia-se, fora dos partidos – é indispensável a uma democracia digna desse nome. Como vê, concordamos no essencial; a nossa principal diferença será a vassourada no establishment. Portugal tem, em teoria, um sistema razoável; olhando para o resto do mundo, há bem pior. O problema é que o sistema é abusado, e nenhuma solução pode passar por quem abusou e abusa dele. Responsabilizar e punir a classe política, e os seus inúmeros boys, é o primeiro passo seja para o que for. É mostrar que acabou a brincadeira; é dar o exemplo, e virar a página. Do mesmo modo, a Democracia Directa não é um remédio milagroso, é apenas um meio para retirar poder a elites corruptas, e distribuí-lo pelos cidadãos – que são quem PAGA as decisões, sejam boas ou más. Quem se opõe a isto, está na prática a dizer que os cidadãos NÃO SÃO aptos para decidir; ora, sendo assim, também não são aptos para decidir os seus representantes. É lógico, não é? Não há sistemas perfeitos, mesmo com Câmaras altas ou baixas, e políticos melhores ou piores. Mas esta democracia paternalista em que uns poucos podem e decidem tudo, e a maralha é que paga as contas, já provou que NÃO FUNCIONA – muito menos em Portugal.

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