IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • DO CARTEL

     

    O chamado ministro da saúde anda a fazer concorrência à dona Constança. Quer ser mais patareco do que ela, e até do que o canmarada da defesa, a ver quem é mais nabo. Talvez não seja uma questão de concorrência. É que há uma espécie de cartel do disparate, da incompetência e da aldrabice, de que os três incríveis já citados são a guarda a vançada, ou a ponta do iceberg.

    Para ele, o da saúde, a legionela estava controlada ao décimo nono caso. A mesma história ao vigéssimo quinto, depois ao quadragéssimo terceiro. Nada estava controlado. Ninguém sabe, nem, pelo andar da carruagem, ninguém jamais saberá onde está o viveiro das bactérias, nem quando deixará de morrer gente.

    A falta de dinheiro para as cirurgias no IPO (mais de dois mil mortos à espera do bisturi) não conta, o dinheiro do Paulo Macedo (cinco milhões para equipamentos cirúrgicos) deixou de se aplicar porque o Centeno, grande ministro!, não deixa.

    Mil milhões em dívida à praça, que se lixem os privados, a economia, viva o 1% do défice.

    A cáfila da saúde anda entretida com greves. Carradas de razão. Também querem comer, alguém há-de pagar. O chamado ministro não ata nem desata.

    De resto, quem tenha dúvidas que vá até às bichas dos hospitais para apreciar o funcinamento do SNS nas mãos da geringonça.

    Mas o chamado ministro sabe bem o que se passa e porquê: nas suas palavras o porquê desta desgraça toda está no país. O país é “velho”, “pobre” e “anda ao abandono”, mas a geringonça é linda.

     

    Yes minister!

     

    12.11.17

  • IMPERDOÁVEL FALHANÇO

     

    Dado o ribombante avanço da UGT para a professoral barulheira, com tambores e foguetório, algo mexeu nas catacumbas do PC, vulgo comité central. Então vamos ficar para trás? Nem pensar, chamem o Nogueira, ordenou o Chico depois de uma conversinha com o Jerónimo.

    De cabeça baixa, sem saber o que fazer às mãos, o ex-bigodes e actual barbaças entrou, tremebundo, nas instalações.

    – Camaradas…

    – Chiu, caluda, então o camarada deixa que os reaccionários protocapitalistas da UGT lhe passem a perna, que apareçam à frente, que tomem iniciativas antes de si? Esta história dos professores é sinal de um comportamento não científico da sua parte, parece que não leu os manuais, que está tíbio, hem!

    O Nogueira, que não sabe o que tíbio quer dizer, olha para a perna direita onde tem umas comichões, e pensa: será da tíbia? Como é que eles sabem?

    – Você ainda não percebeu que isso de greves, de paralizações, de acções de rua, é connosco, que temos o monopólio, que, se pagamos aos seus agitadores e aos tipos da televisão, é para manter sempre a vanguarda nas nossas mãos? E agora?

    – Agora…

    – Agora, acabe o namoro com o camarada Tiago, o gajo anda a falhar o penico, ainda não percebeu?

    O ex-bigodes matutou um pouco no assunto. Não percebia. Então o Tiago já não é de confiança? Não quer receber a malta? Esta história das carreiras tem que se lhe diga e eu não apanhei a oportunidade como devia, preciso de fazer uma profunda auto-crítica com verdadeiro espírito leninista. E o raio da tíbia que não me larga. Que chatice.  

    – Com certeza, camaradas, toda a razão, parece que o rapaz anda com hesitações… à fé de quem somos, vou actuar usando com toda a força a nossa vanguarda, se os tipos marcarem dois dias de grave nós marcamos quatro, ou cinco, se eles quiserem duas manifestações nós arranjaremos trinta, enfim, o que for necessário para a gloriosa vitória das massas organizadas.

    – Bom, isso é que é falar, olhe, aconselhe-se com a Avoila e com o Arménio, que eles lhe darão as devidas instruções.

    – Mas… e se o Tiago não resolver nada?

    – Porra, camarada, realmente parece que precisa reciclado. Não sabe que é esse o objectivo? Se o Tiago resolver o problema está tudo estragado, teremos que procurar outras maneiras de agitar, está a perceber? Nos bons tempos mandávamo-lo a uma formação especializada em Novosibirsk.

    – Sim, camaradas, percebo, vou agir em conformidade. A luta continua.

    – Isso é que é falar! Vá andando.

    Nogueira, ainda meio abananado, deu consigo na rua, a pensar se a culpa não seria da tíbia.

     

    12.11.17

  • RIDICULO, PATÉTICO E TRISTE

     

    O indivíduo que é suposto ter o cargo de ministro da defesa não pára de nos estarrecer. Então não é que veio à televisão, feito peru, papo inchado, declarar que tinha tido uma conversinha com o secretário geral da NATO na qual este lhe tinha dado os parabéns pela recuperação do material do “grave” roubo de Tancos, o que prova “o funcionamento das instituições”?

    Com toneladas de boa vontade, procuremos acreditar no que a criatura diz que o outro disse. Se for verdade, o que temos é uma palavrinha diplomática do senhor Stoltenberg, de certeza abordado sobre o assunto pelo nosso ignorante ministreco.

    Stoltenberg sabe, e de ciência certa, que as “instituições” não funcionaram. Está bem informado, por dever de ofício. Facto é que, nem a PJ, nem a PJM, nem a PSP, nem a GNR, ninguém “funcionou”. Quem funcionou foi um desconhecido que sabia onde estava o material e o denunciou. As “instituições” não faziam a mais remota ideia do que se passava com as munições, nem fazem ideia de quem seja o denunciante, nem consta que, sequer, se tenham interessado por sabê-lo.  As “instituições” têm tanto a ver com o achado como os joelhos com as calças. Os ladrões continuam descansadinhos, sem que ninguém sequer suspeite quem serão, nem porquê ou para quê assaltaram o paiol. Ou seja, continuam a não “funcionar”

    Mais. O apalhaçado membro da geringonça, de repente e sem mais nem menos, descobriu que o roubo foi “grave”. Então não foi só sucata, como disseram os generais da geringonça? E o ridículo ministro não disse que, se calhar, não houve roubo nenhum?

    É difícil aldrabar e trocar tanto o passo em tão pouco tempo. Mas a criatura deve estar muito contente: comunicou à Pátria que o secretário geral da NATO, quem sabe se pela primeira vez, falou com ele! Se falou, claro. Uma grande vitória, uma honra a crédito da importância atlântica do chamado ministro!

    Ridículo, patético e triste.

     

    9.11.17    

  • O DISCURSO

     

    No seu afã informativo e dando mostras da sua indiscutível independência, a TV do Estado presenteou-nos ontem com uns intermináveis dez minutos do inflamado discurso do camarada Jerónimo no comício comemorativo da gloriosa revolução de Outubro. Ainda bem. A entusiástica prelecção foi clara e elucidativa e, para almas menos avisadas, inacreditável.

    Parecia que estávamos a ouvir uma leitura do “Avante”, em edição de em 1950. Um morto-vivo como o das séries negras, ressuscitado de mal cheirosas catacumbas. Verdades, nem uma. A cartilha de há um século ressuscitada: libertação de um povo, justiça para todos, alfabetização, progresso científico, pleno emprego, dignidade, bem-estar generalizado, protecção da cultura, tudo os sovietes realizaram na perfeição. Não houve Gulague, os culaques viveram felizes, ninguém foi perseguido ou morto, não houve progromes, nem escravos, nem trabalhos forçados, nem manipulações, nem assassínios, nem KGB, nem censura, nem deportações, nem sibérias, nada, só progresso e liberdade, maravilha total e indiscutível. Cá fora, o imperialismo capitalista teceu as piores calúnias contra a gloriosa coisa, e continua a tecê-las.

    A utilidade da parlapatice foi a de haver quem ficasse a perceber que o PC não evoluiu um milímetro, que a sua aceitação da democracia é uma treta, que o objectivo continua a ser o mesmo, só falta oportunidade. A luta continua, arrotaram as massas no Coliseu.

     

    Fui a Moscovo antes da perestroica, durante a perestroica, e depois da queda da ditadura. Gente famélica nas bichas a lutar por um papo-seco, nada de restaurantes, nem livrarias, lojas raríssimas sem nada nas prateleiras, miséria para todos, excepto a nomenclatura, claro. Tirando o metropolitano, nada funcionava, tudo era ridículo, paupérrimo, absurdo. No tempo da perestroica, havia uns resquícios de “liberdade”, havia a rua Arbat onde os pintores, os que não eram do partido, eram tolerados, os taxistas vendiam caviar em moeda boa, os criados do nauseabundo hotel vendiam dólares, para as desgraçadas que vigiavam os corredores a felicidade era um saco de plástico, o céu um par de meias. Havia sete meninas na recepção do hotel. Cada uma trabalhava 24 horas, um dia por semana, pleno emprego! As avenidas pareciam as autoestradas do lá-vai-um do socialismo português, a cada quarto de hora coxeava um calhambeque chamado Trabant, a cada dez minutos um carrão do partido, tipo Oldsmolbile de 1940. Moscovo era a capital dos sovietes, a dar-nos uma ideia do que seria fora dela.

    Já depois do desmoronar da odiosa URSS, fiz uma viagem numa carrinha a cair aos bocados, de Erevan para Tbilissi, o que me deu uma imagem clara do que era a riqueza do império. Picadas imundas, nada de asfalto, fábricas do tempo da revolução industrial, a fronteira uma barraca de lata, aldeias com prédios decrépitos, sacadas apinhadas de lenha para o Inverno, postes de energia caídos, nem uma tasca, nem uma bomba de gasolina, o império tinha caído mas os seus sinais e as suas consequências lá estavam.  

    Fico por aqui. A terrível verdade da mais carniceira de todas as ditaduras metia-se pelos olhos dentro.

    Mas Jerónimo não tem olhos. Gosta daquilo, e quer levar-nos para lá. A ideologia paralisou-lhe o bestunto. O número de apoiantes que ainda tem dá-nos uma ideia do nosso atraso. E do poder que nos “governa”.

     

    8.11.17

  • NOTAS

     

    O espantoso Cabrita anunciou à Nação que vai disponibilizar a fabulosa quantia de 1.200.000 euros para salários dos bombeiros voluntários. A distribuir por 400 corporações dos ditos. Tendo tais corporações, em média, 40 bombeiros, verifica-se que a cada um caberá o fabuloso aumento de cinco euros por mês. É assim mesmo, ó Cabrita! Assinale-se ainda que, afinal, os bombeiros voluntários não são tão voluntários como se pensava.

     

    Dona Constança recusou à Protecção Civil o acesso a um programa informático de controle do SIRESP ou coisa que o valha. Interrogado sobre o assunto, o camarada Cabrita não foi de modas: declarou que o tal programa não interessa nada. Faz lembrar o caso de Tancos que, segundo os generais da geringonça, não tinha importância nenhuma: o material roubado era sucata. Afinal não era, mas a geringonça, a resolver problemas, é uma máquina!

     

    Segundo o chamado ministro da saúde, as falhas na segurança do hospital que causaram o surto de legionela não têm nada a ver com falta de dinheiro. Sabendo-se do que a casa gasta, a dúvida é legítima.

    Uma saudação especial à nova directora geral de saúde. Coitada, ainda não tinha aquecido o lugar e já apanhava com a legionela na cara. Não precisava era de descansar a malta dizendo que os doentes eram “só” dezanove. Já são mais de trinta, e dois já lá vão. É de temer que, em matéria de informação, a senhora tenha recebido instruções da geringonça.

     

    8.11.17  

  • ASSÉDIO!

     

    Calcule-se que fui assediado, e não gostei, por uma doidivanas, tão esperta quanto absurda e perigosa, dona Catarina Martins de seu nome. Dando jus a uma ideologia não confessa mas evidente, vem, das catacumbas do mais profundo bolchevismo, dar as suas dicas quanto ao brilhante futuro que nos ajuda a alcançar. Segundo uma entrevista que deu por aí, a solução está, tout court, em acabar com a iniciativa privada em tudo e mais alguma coisa, reinventando a “economia” dos planos quinquenais, de tão brilhante memória. Tudo na mão do Estado, leia-se do partido que está a ajudar a formar, para já pondo o PS às ordens (o PS não se queixa do assédio desta patroa, e até gosta). Ela tem a certeza que o PC alinhará com justificado gáudio ainda que vá fazendo umas queixinhas de vez em quando para entreter o pagode. O assédio tem várias frentes, na economia, é claro, mas também na saúde, na educação e em tudo o que mexa. Todos funcionários públicos, todos escravos políticos (não sexuais por enquanto), todos felizes às ordens da sádica criatura. Quando as liberdades burguesas acabarem, aí estará ela com direito a estátua implantada no meio da miséria geral, mas cheia de gozo e de poder.

    A seu lado, o rapazola que entrou para a Câmara de Lisboa, cheio de afectos em relação ao melífluo boquinhas eleito presidente, vem, para começar, pôr os privados fora dos programas de “reabilitação”, falar em linhas de metro a rodos, todas ao mesmo temo, anunciar uma série de “medidas” tidas e aceites como “sociais”. O Medina, coitadinho, todo contente com o assédio, deu-lhe tudo, salvo umas coisitas que ficam para “apreciação” e que, a seu tempo, veremos e sofriremos. Podemos contar com novos impostos, taxas e taxonas, tipo a da “protecção civil” (protecção civil uma ova), que não deixarão de ser lançadas para pagar a evolução da CML, ou seja, o caminho para a bolchevização autárquica. A presidencial criatura até já anunciou o aumento da taxa de turismo, que é peanuts e paga maioritariamente por estrangeiros, para que a malta se vá habituando à política em marcha: pagar e não bufar. É preciso criar condições para custear os custos do assédio do rapazola, tão simpático, a arreganhar a taxa, a ver se passa. E já passou!

    Nestas coisa do assédio, há quem goste, não se queixe, e até alinhe.

     

    6.11.17   

  • NADA DE FOSQUINHAS

     

     

    Carta de um assediado a que o IRRITADO teve acesso:

     

    Caro Asdrúbal

     

    Venho lembrar-te que, há vinte e dois anos – estávamos a discutir política – me deste uma palmadinha num joelho. Estou a pensar pôr o assunto nos jornais. Não sei sei se eras ou és maricas, mas, bem vistas as coisas, como estás cheio de bago e isto está a dar, há duas soluções: uma é mandares-me uma boa transferênca (mando-te o NIB por SMS), outra é eu dar corda ao trombone e aproveitar da celebridade, da universal compreensão, dos elogios, dos aplausos e da fama que a minha justa denúncia não deixará de proporcionar.

    Lembra-te que, por um caso do género passado com uma tipa qualquer, já caíu um ministro de Sua Majestade. Lembra-te daquele milionário americano, um tipo do cinema, que foi acusado de várias “aproximações” por um magno lote de públicas e timoratas virgens, todas elas do melhor, como é evidente. Também, entre muitos, há aquele caso de um maricas que, há trinta anos, com uma bebedeira das antigas, resolveu sugerir umas porcarias a um rapazito de 14 anos. Não chegou a fazer nada, mas o rapazito, hoje quarentão, resolveu chamar-lhe uns nomes e dar-lhe cabo da vidinha.

    O assunto, por mor do politicamente correcto, ainda não chegou à zona das fufas. Dado tratar-se de fêmeas, estão ao abrigo dos ditames da filosofia triunfante e podem meter-se com rapariguinhas sem que tal tenha qualquer importância. Em rigoroso exclusivo, abusadores são os homens, o resto é conversa. O conceito de abuso tem assim a sua primeira, e única, característica conhecida: aplica-se a quem tem pilinha, seja hetero (straight, em proper English) ou homo (gay, em popular English).

    De resto, não se sabe ao certo o que é isso de “assédio”. Tanto pode ser quando o patrão exige favores em troca de promoções como quando o Zé Quitolas diz à Vânia Natasha que a acha muito gira. Segundo a filosofia que está a dar, basta o segundo caso para receber tal classificação.

    Continuando a universal tendência para a moral progressista, teremos em breve o total banimento dos prevaricadores. Ai de quem faça fosquinhas a uma miúda ou a uma mulher feita. Se ela não está receptiva, vai para os jornais, o caso é entregue à Judite, e o tipo vai preso, como é de inteira justiça. Se se tratar de mariquismo tem mais desculpa, mas não deixa de ser condenável, desde que a iniciativa seja de um ser humano considerado do sexo masculino. As especialidades a cargo do Bloco de Esquerda (LGBTZHUIPROQUO++) também têm direito a compreeensão. Os verdadeiros maus são os straight. Não têm perdão.

    Portanto, meu caro, daqui por diante nada de elogios, nada de olhares, muito menos de gestos como a mãozinha no joelho. Nada de pedir namoro, muito menos casamento. Os pedidos de união de facto atenuam a culpa.

    Esta breve descrição do estado de coisas deverá servir-te de orientação no futuro. Quem bem te avisa teu amigo é.

    Para já, ou tratas da transferência ou estás feito.

     

    Cumprimentos do ofendido.

     

    3.11.17       

  • CARBONO A RODOS

     

    Em imponente chamada de primeira página, o DN de ontem informa: Estamos perante a maior concentração de carbono em 800 mil anos.

    Por seu lado, no mesmo dia, o Público não está com meias medidas. Também em chamada de primeira página faz saber que Há pelo menos três milhões de anos que não tínhamos tanto CO2 na atmosfera.

    Não sei se se trata de concorrência, a ver quem mete mais medo. Sei que a malta é sensível a estas boutades “científicas”, e sei também que a origem delas é uma coisa chamada IPCC (international panel on climate change), comissão da ONU formada por burocratas de nomeação política que, sob a direcção de um engenheiro de caminhos de ferro indiano, tem por expressa missão provar a) a existência do aquecimento global e b) que tal aquecimento é causado pelo homem.

    A “precisão” das informações acima transcritas é suficiente para ajuizar da credibilidade desta gente.

    Talvez haja em curso o tal aquecimento global. Parece que é coisa passível de medições mais ou menos exactas. Daí até culpar a humanidade vai uma distância literalmente cósmica. Aceite-se que haja, para bem, uma mudança dos paradigmas energéticos. Aceite-se as soluções que a tecnologia vem proporcinonando. Aceite-se a limpeza possível das emissões de CO (o CO2 é outra coisa…). O que não é aceitável é o argumentário do politicamente correcto, da ONU, dos “cientistas”, as ameaças, o terrorismo ecológico. Limpemos os rios, tratemos os lixos, arranjemos maneiras de pôr os motores a funcionar por processos mais limpos, tratemos da qualidade do ar, mas, pelas almas, deixemos de bater com a mão no peito e de condenar o que tem sido a inexorável marcha humana para melhores dias.

    Para os terroristas do ambiente, três mil milhões de anos ou oitocentos mil é mais ou menos a mesma coisa, desde que se “prove” a antropogénese da história do CO2. Mesmo aceitanto que o CO2 é a causa do alegado aquecimento global, não há dúvida que o planeta tem aquecido e arrefecido n vezes, com humanidade ou sem ela. Não há dúvida que, na história do planeta, tem havido mais e menos concentração de CO2, pela simples razão que o maior produtor de tal coisa é o próprio planeta, cuja vida depende muito mais de fenómenos cósmicos, conhecidos e desconhecidos, do que da presença humana. Houve idades do gelo como houve tórridos tempos, aquecimentos e arrefecimentos, bruscos ou lentos. Sabe-se isso como se sabe que o homem nada a ver com o assunto.

    O que irrita não é que se tome as medidas possíveis para acautelar as consequências dos fenómenos naturais, é que se meta os dedos pelos olhos dentro de cada um, a fim de diminuir a alegria de viver e de sujeitar a humanidade às estratágias de domínio que, oficial e triunfantemente, por aí vicejam.

     

    1.11.17

  • A LAGARTIXA

     

    A última entrevista do chamado primeiro-ministro foi uma jornada notável. O homem não respondeu a uma única das questões que o jornalista de serviço lhe pôs, a uma única das perguntas que as pessoas gostariam de ver respondidas. Aquilo foi um diálogo de surdos, foram alhos em vez de bogalhos e bogalhos em vez de alhos. Bla bla bla, está tudo nos carris, vamos “agir”, somos os maiores. E pronto. Ficou tudo na mesma, ou confirmado o que de pior se esperaria.

    O homem usou aquilo a que chamarei a “estratégia da lagartixa”. Quando perseguimos uma lagartixa, a dita foge a sete pés, esgueira-se, serpenteia e, as mais das vezes, acaba por fugir. Acontece que, se a perseguição for dura, a lagartixa fica sem rabo. Assim aconteceu com o Costa. Andou a lagartixar e saiu de lá satisfeito, safo, mas sem rabo.

    O pior, meus amigos, é que as lagartixas têm artes de auto-regeneração do apêndice caudal. Nada nos diz que ao fulano não vai acontecer o mesmo. Preocupem-se.

     

    1.11.17  

  • PRIORIDADES

     

    Quando eu era pequeno, havia lá em casa três cães: a Andorinha, o Leão e outro de que já esqueci o nome. Nunca houve gatos, não sei porquê. Os canídeos viviam felizes, eram nossos amigos e não gostavam de estranhos que o faro denunciasse.

    Comiam o que se lhes dava, andavam gordinhos e limpos, tinham uma saúde de betão, não se queixavam, não tinham carraças.

    Deles, o menu era constituído por restos da galinha do jantar, bons ossos de pernil de porco, arrozadas e sopas de sobra, etc., uma petisquice pegada.

    A que propósito, dirá quem ler, vem esta desinteressante historieta do IRRITADO?

    Resposta: a propósito dos novos tempos.

    Milhares de portugueses têm acorrido como podem às vítimas do fogo e da incompetência da geringonça. Ao ponto de os receptores das dádivas acharem que algumas já excedem as necessidades. Ainda bem. Que a distribuição corresponda à generosidade de cada um e às reais necessidades das vítimas, o que quer dizer que a geringonça não se meta no assunto.

    Uma simpática voluntária veio à TV explicar a situação. Disse ela que já não precisavam de roupa, nem de arroz, nem de outras coisas de que já não me lembro. E pedia encarecidamente que mandassem comida para animais, vacas, ovelhas, porcos etc.. E acrescentava: mandem rações para cães e gatos.

    Numa situação destas, ocorre perguntar se tais rações são precisas, prioritárias, isto é, se os cães e os gatos não podem comer o que comiam os do meu tempo. Eu sei que o tipo do PAN acha que sim, mas o tipo do PAN é uma besta.

     

    1.11.17

  • CORTINA DE FUMO

     

    Um despacho meio maluco de um juiz da relação do Porto veio prestar à geringonça um precioso serviço. O país pensante, opinante e manifestante passou a andar cem por cento ocupado com o tal juiz. O absurdo despacho foi glosado, condenado, estraçalhado, demonizado segundo os ditames de todo e qualquer pensamento, opinião, religião, tendência, partido, filosofia ou necessidade de aparecer nos media.

    Ultrapassados foram os incêndios, a guerra da estupidez socialista – trauliteira e ultramontana à moda do Santos Silva – contra o senhor de Belém. Ultrapassado foi o maior escândalo nacional, que vai timidamente emergindo por aí, sem comentários ou “pensamentos” que se vejam: o chamado governo deixou morrer sem assistência mais de dois mil doentes oncológicos; o senhor Centeno “cativou” as verbas (cinco milhões) consagradas pelo governo anterior ao reequipamento das cirurgias oncológicas; o SNS, alimentado por greves e reivindicações, está comatoso e inoperante nas mais diversas frentes.

    Que interessa isso? Maus eram os ultrahipersuperneoliberais que andavam a destruir o estado social.

    O “pensamento” socialista está acima deste tipo de pormenores. A morte faz parte da vida, não tem a importância que a “direita” lhe atribui. No caso dos incêndios, para o ano há mais, diz o chamado primeiro-ministro. E pronto. Caso encerrado. Estupidamente, foi reaberto pelo senhor de Belém, que resolveu, à segunda, dar à casca, ele que, à primeira, se tinha portado tão bem. Burro!, diz a opinião do PS profundo, com o apoiante silêncio dos tergiversantes e geringonciais parceiros. No que se refere à oncologia, a posição é a mesma. Moita-carrasco. Dez por cento dos doentes morrem à espera do bisturi. Que importância tem isso perante a universal e super versada sentença de um juiz machista, marialva e reaccionário?

    Bem aproveitada, a sentença serve à maravilha de cortina de fumo. Óptimo!

     

    29.10.17     

  • FAÇAM FIGAS

     

    No seu derradeiro despacho, dona Constança – já demitida ou em vias disso – determinou que a GNR, entidade de reconhecida competência em electrónica de comunicações, como é universalmente sabido, passasse a tomar conta do SIRESP. Uma atitude tendente a pôr a coisa sob a alta eficácia técnica a indiscutível experiência da GNR neste tipo de matérias. Dona Constança foi à vida, mas não se sabe se o seu douto despacho está em vias de execução. Se não estiver, é uma pena.

    Entretanto, previstos que foram mais uns calores para este fim de semana, o chamado governo resolveu dar mostras de eficácia e trombeteou toneladas de medidas. Vai haver milhares de bombeiros em alerta, cinco mil polícias, soldados, marinheiros, aviadores, parequedistas, comandos, vigilantes, torres de controle, aviões, helicópteros, secretários de Estado, ministros, directores gerais, amanuenses, o SIRESP vai funcionar às mil maravilhas, os incendiários serão condenados ao degredo, bestial, pá.

    Este súbito ataque de “competência”, este repentino alarde de responsabilidade, esta diarreia de decisões, em si bemvinda, é a confissão, preto no branco, do que foi o seu contrário ao longo dos últimos meses. A interminável série de erros, falhas, fugas para a frente, desculpas de mau pagador, assobios para o ar, irresponsabilidade política, desprezo pelo povo, abandono, declarações estúpidas e frias, tudo fica provado, ainda que não reprovado ou confessado pelos seus autores. Esses não se molham, só a Constança, tarde e más horas.

    Depois da casa roubada… De qualquer maneira, sauda-se a nova cautela e espera-se que funcione.

    Um pequeno pormenor: o novo esquema tem prazo, como de costume. Funcionará, não quando as previsões  meteorológicas assim o determinarem, mas a prazo: até ao fim do mês, quer chova quer faça sol. Se chover a 29, 30 e 31, mantém-se o esquema. Se vier calor depois disso, não haverá esquema.

    Façam figas.

     

    28.10.17

  • A GRANDE TRAIÇÃO

     

    Eis senão quando acorda, furibunda, a casca grossa.

    Então, o gajo não percebe que a democracia somos nós? Não sabe que a República somos nós? Que a Pátria somos nós? Não sabe que a geringonça está acima de qualquer crítica? Que ninguém é mais que nós? Então, depois de, com inteira justiça, andar dois anos connosco ao colo por tudo e por nada, resolveu armar aos cucos? Isto é o da Joana, ou quê? Que lata!

    À boa imagem do “Jornal de Angola”, o pasquim oficial do PS revolta-se contra a ilegítima e repentina postura do senhor de Belém, sem perceber que o PS é uma espécie de MPLA cá do sítio, superior, inatacável, soberano, protector do povo, salvador da Pátria, acima e para além de qualquer órgão de soberania ou seja do que for. Não sabe que a aliança do bolchevismo com o comunismo caviar, a maçonaria, a nova carbonária, o jacobinismo e o que resta da social-democracia é o garante do futuro, dos amanhãs que cantam, do Estado poderoso, do homem novo? Então não está cem por cento comprometido connosco, resolveu assacar-nos responsabilidades, sem perceber que o socialismo se acata, não se ataca? O que é isto?

    Insonuere cavae, gemitumque dedere cavernae! No Largo do Rato, os porões ribombaram de indignação, o cavername gemeu perante a traição de Belém. Nos templos das irmandades rezou-se ao Grande Arquitecto do Universo, cobriu-se os altares com bordados panos de luto, os irmãos choraram de frustrada indignação. Para os lados do Bairro Santos, o Lenine, o Estaline, o Fidel, o Che, foram invocados, pedida a iluminadora intervenção das suas salvíficas ideias. Não sei onde, as esquerdoidas, o careca e o Fazenda, histéricos e ansiosos, troaram aleivosias, recordaram-se os ensinamentos do Trotsky, do Enver Hoxa e de outros salvadores do socialismo ameaçado. Tudo minha gente a salvar o povo da pernicosa influência de Belém, da inominável traição.

    Como eu os compreendo!

    *

    Não se sabe o que fará, a seguir, o senhor de Belém. O mais provável é que, passada a borrasca, volte aos elogios. Dali, tudo se pode esperar.

     

    27.10.17

  • ACÇÃO!

     

    Segundo dizia a dona Constança, “é tempo de acção, não de demissão”. Como é habitual nestas coisas da geringonça, passou-se tudo ao contrário. Houve demissão, não houve acção. Durante quatro meses andou a geringonça à espera de “relatórios” enquanto, no terreno, a acção era pouca ou nenhuma: bocas na televisão, beijos, abraços e pouco mais. Quase cinco meses passados sobre a desgraça de Pedrógão, veio o não eleito primeiro-ministro visitar, com hordas de jornalistas à perna, as primeiras casas em recuperação. De resto,nada, ou quase.

    Numa coluninha da esquerda, um jornal deu-nos novas da Galiza. Menos de uma semana  depois dos incêndios os trabalhos de reabilitação e reflorestação do terreno queimado começaram a ser feitos em 10.500 hectares dos 35.000 afectados que a Junta da Galiza considera prioritários. Outros se seguirão. Para estas primeiras impressões, três milhões de euros foram de imediato destinados. No próximo mês e meio trabalhar-se-á para evitar a erosão e humidificados os solos. Serão feitas drenagens e canalizações para água e construídas barreiras para prevenir derrocadas aquando das primeiras chuvas. A Junta está a colocar texteis de protecção para evitar a contaminação por cinzas em vivieros. Para cada primeira casa destruída a Junta põe à disposição até 100.000 euros e, para cada segunda casa, 40.000. Mais três mil para cada curral ou barraca agrícola.

    Já ouviram falar, em Portugal, nalguma coisa parecida?

    Por cá, é o que se sabe. Discussões, desresponsabilizaçõs, nomeações, teorias à fartazana. A água sacudida do capote da geringonça daria para apagar os fogos. É de aplaudir, não é?

     

    26.10.17

  • APONTAMENTOS DE TERÇA FEIRA

     

    O Estado vai apropriar-se de 54% do SIRESP, disse o extraordinário Cabrita, sem mais informação. Como a coisa é, ou era, uma PPP, não foi dito qual era a participação do Estado, nem o que o Estado andava por lá a passarinhar. Não se deu satisfações sobre o que muda, nem sobre o que se vai fazer: expropriar, comprar, obrigar os privados a vender, como, por quanto, qual o propósito, porque é que o aumento de poder do Estado põe a coisa a funcionar melhor e como, de que investimento público se trata (compra mais o quê?), ou se trata de atirar areia para os olhos dos portugueses que, na opinião da geringonça, não devem passar de uma chusma de parvos.

    O mesmo indivíduo declarou que, por causa dos fogos, é preciso “educar as populações”. Deve tratar-se de educação de adultos. Ou, mais provável, de pôr as culpas para as costas do tal povo, deseducado e estúpido?

    *

    Sem mais nem menos, a ANACOM, uma “reguladora”, veio dizer que descobriu que as centrais de comunicações estavam cheias de lixo, folhas, papéis, pó, terra, etc., razão pela qual, aquando dos fogos, não funcionaram. É caso para perguntar o que anda tal gente a fazer, já que, como confessa o seu presidente, tais centrais nunca foram limpas.

    *

    Apertado por um deputado, Costa disse “se quer que eu peça desculpa, eu peço desculpa”. Acrescentou que “ficava com esse peso na consciência até morrer”. Resta saber o que lhe ficava na consciência: se as toneladas da monumental pessegada de que é culpado, se o facto de ter dobrado a espinha perante o aperto da oposição.

    *

    Santos Silva declarou que, por causa dos acontecimentos na Catalunha, os portugueses que lá vivem não têm, nem vão ter, qualquer sombra de problema. Faz lembrar o Álvaro Cunhal quando, vindo da Ucrânia, declarou que aquilo de Chernobil era um pequeno acidente sem importância nenhuma.

     

    Assim vão as coisas.

     

    24.10.17

  • CORRECÇÃO

     

    Uma correcção correcta, não no sentido da geringoncial filosofia, isto é, mesmo correcta.

    Há dias, referiu o IRRITADO que havia mais de 20.000 indígenas à espera de cirurgias no SNS, dos quais uns 10% acabaram por morrer sem honras cirúrgicas. Hoje, as notícias referem números diferentes. Assim: “No final de 2016, havia mais 27.000 doentes em lista de espera para ciriurgia, do que no ano de 2014”.

    Fico sem saber ao cero que números estão mais correctos ou menos correctos, mas não deixo de assinalar a notória diferença entre o Estado Social da social-comunista geringonça e aquele dos horríveis tempos do governo “liberal” e “anti social” de Passos Coelho.

    Para ver se as pessoas percebem melhor com quem andam metidas.

     

    23.10.17

  • INFORMAÇÃO ISENTA

     

    Anda para aí muita gente, e muitos “reguladores”, assustadíssimos com as virtuais consequências da compra da TVI pela Altice, no que se refere à isenção informativa.

    Aqui vai um exemplo de isenção informativa.

    A respeitável TSF anuncia hoje, em magnas parangonas, que nos vai brindar com as isentas opiniões de um isento leque de opinativas criaturas, a saber: Carlos Carvalhas, Francisco Louçã, João Cravinho, Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite.

    Dois comunistas, um socialista de esquerda, um tipo, ex-“independente” do CDS e habitual companheiro do Louçã e de outro xuxa nos jornais, e uma fulana que anda há seis anos a dizer cobras e lagartos do PSD, não tendo hoje outra que não seja essa “credibilidade”.

    Quando há tantas e tão tremebundas inquietações por causa da Altice, bem podiam os inquietos virar-se para a “isenção” já hoje presente em órgãos “de referência” como a TSF.

     

    23.10.17    

  • O MISTÉRIO DAS PERNAS

     

    Num dos seus habituais artigos de Domingo, o jornalista/socialista Vicente Jorge Silva, depois de judiciosas considerações sobre os incêndios – que revelaram a “insensibilidade inexplicável de Costa”, bem como a sua “cegueira” e a sua “rendição inevitável” às “exigências” do senhor de Belém – entra numa acerba crítica ao governo.

    Na douta opinião do homem, este governo tem duas pernas, uma boa, que “funciona”, e uma má, que não presta. A perna boa é o Costa e o Centeno, a perna má é o resto, sobretudo os chamados ministros da defesa, dos negócios estrangeiros, da administração interna, da saúde, da justiça, da educação, da cultura, tudo fulanos “incapazes” e/ou “decorativos”. Um executivo “disfuncional”. Por isso, não basta uma demissãozinha “parcial e de emergência”, é preciso uma “remodelção global”.

    É um gosto ver socialistas a ter consciência das coisas. Mas fica um mistério por resolver, o da perna boa. Então o Costa, “insensível” “cego”, chefe de um governo “incapaz” e “decorativo”, é a perna boa? E o Centeno, primário ambicioso, comprador de votos, clientelista de gema, a cavalo no que outros fizeram, lançador de impostos, inimigo das empresas e da economia, fabricante das mais discutíveis e ruinosas manigâncias propagandísticas, impulsionador da dívida, faz parte da perna boa?

    O raciocínio está de pernas para o ar, o homem leva o seu “pêèssismo” estrebuchante aos píncaros e finge não perceber que acha boa a pior das duas pernas, Costa e Centeno. Os outros, a perna má, não são mais que uma triste mas lógica consequência dos primeiros.

    Não sei se o chamado governo tem ou não tem duas pernas. Mas, como quem se preze e aos demais não deixará de concordar, sei que uma remodelação “global” seria bem vinda, isto é, não devia ficar ninguém fora dela, a começar pelo Costa e pelo Centeno.

     

    23.10.17

  • É PENA

     

    Não conheço os Azevedos, nem Belmiro nem Paulo. Vi uma vez o primeiro, num funeral, nunca vi o segundo.

    Mas são, por boas razões, o que se chama figuras públicas. O patriarca tem a enorme vantagem de nunca, que se saiba ou veja, se ter metido em trafulhices nem em politiquices. Fez caminho sem se lhe notar especiais privilégios ou favores suspeitos. Com muito dinheiro, tem uma vida comum, um carro velho, não parangona helicópteros, aviões, ilhas no Brasil ou férias milionárias em sítios “exclusivos”.

    Posto isto, vamos à parte chata. O filho, herdeiro e CEO do formidável grupo, deu em vir à praça mandar bocas. Triste originalidade.

    Não sei se a compra dos restos mortais da PT pela Altice, bem como a projectada compra da TVI pela dita, são coisas boas, más ou assim assim. A tal respeito, sei que o Costa, em manifestação do mais primário socratismo, odeia a coisa, o que muito abona em favor dela. Mas fico por aqui.

    O que choca é que o Paulo tenha vindo dar à casca para os jornais, ainda por cima com insinuações de corrupção, e de corrupção a meter num chinelo as “negociações” que motivaram a Operação Marquês. Não estamos habituados a este tipo de “intervenção” por parte da Sonae. Sempre foram discretos, nunca mostraram medo da concorrência, nem se lhes conhecia tendências para a “fama”. Insatisfeitos com não decisão dessa ridícula, profundamente inútil e desnecessária organização que “regula” a comunicação social, rebentaram com as suas melhores tradições e vieram – veio o Paulo, tão ridículo quanto ela – mostrar os dentes à Nação.

    É pena.    

     

    22.10.17

  • DESCANSAI, Ó GENTES

     

    Nos já recuados tempos da II República, conheci um alto funcionário público que, quando alguém lhe pedia um favor, respondia: “fique descansado…”. Quando o outro virava costas, o nosso homem continuava “…que eu também fico”.

    Mutatis mutandis, é mais ou menos o que se vai passando na III República, ainda que corrigido, aumentado e desgraçado. O ministro Costa, há para aí dez anos, fundou a “protecção civil”. Disse-nos que ficássemos descansados. Ficou descansado. O mesmo indivíduo, com a desculpa da “poupança”, tirou meios ao SIRESP. Ficou descansado. Este ano, veio a tragédia de Pedrógão. A criatura disse que era uma chatice, mas que ia fazer mundos e fundos. Ficou descansado, e não fez nada. Responsabilidades, zero. Ficou descansado. De tal maneira que informou as hostes de que estava à espera de um relatório. À espera, ficou descansado. A sua amiga Constança recebeu mais uns relatórios. Ficou descansadíssima, ao ponto de desactivar aviões, bombeiros e vigilantes, decretando, com o apoio do chefe, o fim da fase “Charly”. O chefe descansou com ela. Veio nova tragédia. Costa disse umas coisas com a alta frieza do poder, e até pediu que não o fizessem rir. Ficou descansado. Veio o senhor de Belém, e deu-lhe uma memorável descasca. O homem anunciou um conselho de ministros para tratar do assunto. Ficou descansado. Amanhã, no conselho de ministros, tomará sonoras medidas, a concretizar sine die, e ficará descansado outra vez. Se a oposição discordar de alguma vírgula, mandará passear a oposição e dirá que é tudo chicana, partidarite e manobras dilatórias. Se houver azar, a culpa será da oposição. Voltará ao descanso. Daqui a um ano haverá menos incêndios porque já há menos para arder. Dirá que foi obra sua. E ficará descansado. Daqui a dois anos – o tempo suficiente para ficar descansado, espera-se que definitivamente – estará tudo mais ou menos na mesma.

    Um descanso.

     

    20.10.17