Carta de um assediado a que o IRRITADO teve acesso:
Caro Asdrúbal
Venho lembrar-te que, há vinte e dois anos – estávamos a discutir política – me deste uma palmadinha num joelho. Estou a pensar pôr o assunto nos jornais. Não sei sei se eras ou és maricas, mas, bem vistas as coisas, como estás cheio de bago e isto está a dar, há duas soluções: uma é mandares-me uma boa transferênca (mando-te o NIB por SMS), outra é eu dar corda ao trombone e aproveitar da celebridade, da universal compreensão, dos elogios, dos aplausos e da fama que a minha justa denúncia não deixará de proporcionar.
Lembra-te que, por um caso do género passado com uma tipa qualquer, já caíu um ministro de Sua Majestade. Lembra-te daquele milionário americano, um tipo do cinema, que foi acusado de várias “aproximações” por um magno lote de públicas e timoratas virgens, todas elas do melhor, como é evidente. Também, entre muitos, há aquele caso de um maricas que, há trinta anos, com uma bebedeira das antigas, resolveu sugerir umas porcarias a um rapazito de 14 anos. Não chegou a fazer nada, mas o rapazito, hoje quarentão, resolveu chamar-lhe uns nomes e dar-lhe cabo da vidinha.
O assunto, por mor do politicamente correcto, ainda não chegou à zona das fufas. Dado tratar-se de fêmeas, estão ao abrigo dos ditames da filosofia triunfante e podem meter-se com rapariguinhas sem que tal tenha qualquer importância. Em rigoroso exclusivo, abusadores são os homens, o resto é conversa. O conceito de abuso tem assim a sua primeira, e única, característica conhecida: aplica-se a quem tem pilinha, seja hetero (straight, em proper English) ou homo (gay, em popular English).
De resto, não se sabe ao certo o que é isso de “assédio”. Tanto pode ser quando o patrão exige favores em troca de promoções como quando o Zé Quitolas diz à Vânia Natasha que a acha muito gira. Segundo a filosofia que está a dar, basta o segundo caso para receber tal classificação.
Continuando a universal tendência para a moral progressista, teremos em breve o total banimento dos prevaricadores. Ai de quem faça fosquinhas a uma miúda ou a uma mulher feita. Se ela não está receptiva, vai para os jornais, o caso é entregue à Judite, e o tipo vai preso, como é de inteira justiça. Se se tratar de mariquismo tem mais desculpa, mas não deixa de ser condenável, desde que a iniciativa seja de um ser humano considerado do sexo masculino. As especialidades a cargo do Bloco de Esquerda (LGBTZHUIPROQUO++) também têm direito a compreeensão. Os verdadeiros maus são os straight. Não têm perdão.
Portanto, meu caro, daqui por diante nada de elogios, nada de olhares, muito menos de gestos como a mãozinha no joelho. Nada de pedir namoro, muito menos casamento. Os pedidos de união de facto atenuam a culpa.
Esta breve descrição do estado de coisas deverá servir-te de orientação no futuro. Quem bem te avisa teu amigo é.
Para já, ou tratas da transferência ou estás feito.
Cumprimentos do ofendido.
3.11.17

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