IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • DESMATERIALIZAÇÃO

     

    Uma das medidas mais populares da nova modernidade consiste na chamada “desmaterialização”, coisa que, segundo as finanças, vai custar uns milhões.

    Um pequeno exemplo de desmaterialização. A veneranda autarquia de Lisboa, através da EMEL, dá o exemplo.

    Assim:

    Após várias horas perdidas ao telefone para obter dois dísticos de estacionamento, foi este cidadão informado de que deveria fazer uma “marcação”. Como? Enviando à odiada organização uma mensagem solicitando uma audiência e fazendo acompanhar o pedido do seguinte: documentos das viaturas, certificado de residência passado pelas finanças, cartão do cidadão, carta de condução e não sei mais quê. Após algumas diligências, o cidadão envia tudo, direitinho, sem espinhas.

    Dias depois (hossana, caso raro!), lá vem a tal marcação: deverá vossa excelência apresentar-se na loja do cidadão às 09,45 do dia tal, munido dos documentos das viaturas, certificado de residência passado pelas finanças, cartão do cidadão, carta de condução e não sei mais quê.

    Obediente como compete, o cidadão apresentou-se à hora marcada munido de uma pasta com a papelada toda. A menina que o atendeu pegou na pasta, pô-la de lado, tratou dos dísticos do estacionamento, cobrou pelo multibanco, e pronto. Um inusitado triunfo.

    Depois de ter na mão os preciosos dísticos, o cidadão atreveu-se, temeroso, a perguntar à menina: então não olhou para os documentos? E ela, cheia de desmaterializador orgulho, respondeu: já cá tinha tudo no computador! Pergunta o cidadão: por que carga de água me obrigaram a vir perder uma manhã à loja do cidadão, cheio de papelada, se já cá tinham tudo? Ela respondeu que é sempre bom verificar se os cidadãos não são mentirosos.

    É a “desmaterialização” à portuguesa.

     

    21.6.20

  • SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

    Durante vários anos viveram os nossos ilustres representantes na contemplação servil e admirativa de uma senhora que por aí apareceu, cheia de dinheiro e ostentando no passaporte o nome do pai, o senhor Dos Santos, mui ilustre presidente da República de Angola.

    Perante ela, ou perante os milhões que ostentava, curvaram-se governantes, diplomatas, banqueiros, pessoal maior e menor da nossa sociedade. A senhora passeava, imperial, na nossa economia, acompanhada por tutti quanti. Toda a gente sabia que, de uma forma ou de outra, a criatura gozava da presidencial, e paternal protecção. A ninguém ocorreu pôr em causa que os seus milhões tinham origem no poder totalitário do homem. Aliás, tal poder era reconhecido como legítimo pelo nosso Estado e seus agentes. Se tal poder era legítimo, legítimas eram as suas decisões, legítimos os privilégios financeiros de que a senhora gozava.

    Ninguém se preocupou com eventuais irregularidades, pela simples razão que tais irregularidades, à face da lei, não existiam. A cidadã comprou, vendeu, trocou, pagou, recebeu, depositou, fez o que queria e podia, montou o seu império, sempre com o aplauso e até a gratidão das nossas “autoridades”, sempre acompanhada por ministros, secretários de Estado e dignitários de todos os tamanhos e feitios.

    Nunca se pôs em causa a origem ou as voltas e reviravoltas dos milhões que ela usava. Nem o governo, nem a Procuradoria, ninguém da área da soberania se preocupou.

    As coisas deram a volta lá na terra dela. O novo chefe, servindo-se exactamente das mesmas pessoas e poderes que apoiavam os feitos económicos e financeiros da dona Isabel, virou tudo de pernas para o ar: os mesmos passaram a condenar o que, na véspera, defendiam. O que era bom passou a mau, o que era dela passou a não ser, as loas passaram a motivo de perseguição judicial.

    Sic transit gloria mundi.

    E por cá? Os mesmos que tudo ignoravam, atentos e veneradores, passaram a ferozes perseguidores. A subserviência continua igualzinha. Os critérios é que são outros.

    Você confia nisto? Será isto o tal “Estado de Direito”.

      

    21.6.20

  • DA MORTE DO SNS

     

    Se a sua sogra tiver uma dor no peito e você a levar ao hospital, os tipos não a levam a um cardiologista. Não há lá disso. Põem-lhe o termómetro, fazem a análise aos covides e, se tiver febre e/ou der positivo, tomam conta dela e nunca mais a largam, no hospital, em casa, se calhar na rua. Se não tiver febre nem covides, mandam-na para casa. Você diz: mas… e a dor no peito? A resposta quase certa, será: vá para casa, ou procure um médico. Se a senhora morrer, não morreu com a dor no peito, se não tinha covide, foi morte natural. Se morrer da dor no peito e tinha covide, morreu de covide. É óptimo para as estatísticas.

    Isto não é um exagero. Passados meses de loas ao Serviço Nacional de Saúde, aos heróis do dito (algum morreu de covide?, algum está, ou esteve, nos cuidados intensivos por causa do covide?), o tal serviço deixou simplesmente de existir. Ou tens covide, ou vai morrer longe. Se precisares de uma cirurgia, de assistência médica, de uma simples consulta, vai bater a outra porta, se houver outra porta.

    Ninguém sabe a causa das mortes. Se um paciente, com DPOC, com falhas cardíacas, com infecções bacterianas, com doenças oncológicas graves, com 85 anos, tinha covide, morreu de covide. As estatísticas agradecem pela ajuda dada ao terror. Havemos de chegar ao caso de um tipo que morreu atropelado: se na autópsia encontrarem covide, morreu de covide.

    Não sei quantos portugueses dão a devida atenção ao valor das estatísticas oficiais. Mas não vejo, não leio, não ouço vivalma a perguntar quantos teriam morrido se não houvesse covide, qual é a real influência do vírus na letalidade geral.

    A coisa está minuciosamente montada para manter o medo. Se o medo alimentasse alguém, estávamos todos no melhor dos mundos.

    Eu sei que a psicose é universal, não é só o nosso governo que aproveita para mascarar a verdade.

    Só sei que perdi o direito à verdade, à liberdade, ao arraial de Santo António, ao futebol e a outras coisas que, no meu caso, funcionam como o martelo lá de casa – só raramente o uso, mas sei que está na dispensa. O Estado roubou-me o martelo. Resta saber para quê. Com que resultado já se sabe.

     

    13.6.20

  • CRIME, NEM PENSAR!

     

    O mais que pode dizer-se, a acreditar na vasta peroração sobre as pinturas na estátua do padre António Vieira ontem vista e ouvida na SIC, é que se trata de vandalismo, fruto de ignorância e impreparação cívica.

    O menos que posso dizer é que se trata de grave crime de lesa História, de lesa cultura, de lesa sociedade, de lesa património, não planeado e executado por analfabetos, mas por sabichões com intenção de o cometer e plena consciência, um acto perpetrado com fins políticos e sociais claros, crime de ódio, sem desculpa nem direito a compreensão.

    Mas, por obra e graça da SIC (foi o que vi), pasto de historiadores e antropólogos apostados em “amaciar” o acto, foi o assunto colocado sob a diáfana capa de explicações várias, vandalismo de gente mal informada  e pouco educada – culpa de uma sociedade racista, evidentemente. Tudo mentira, ou quase. Os criminosos foram “formados” nas madrassas do Bloco de Esquerda, são amantes dos extremismos racistas do senhor Bó, ou Bá, da dona Joacine, ou Joaquina, e de outros que, por todos os meios, crime incluído, estão apostados em instilar o ódio social, não em resolver problema algum, mas em criá-lo, em acicatar e pôr em acto a malquerença da multidão de idiotas úteis que têm ao seu serviço.

    Talvez os executores do crime não tenham sido mais do que isso. Os piores criminosos são, sem dúvida, os que os “educam”, para depois se acoitar em suaves acusações de mero vandalismo.

     

    13.6.20

  • DUPLICAÇÃO

     

    O nosso tão estimável governo, coitado, tem sido acusado de ser o mais vasto de que há memória. Uma data de ministros, uma chusma de secretários de estado com confusas ou redundantes competências, as mais delas próprias de directores de serviço, numa esquisita confusão que dificilmente se percebe como pode funcionar.

    Não contente com esta proliferação de gentes e de tarefas, o PS, sequioso de tudo dominar, vai duplicar o cargo de ministro das finanças, nomeando para elas um de entre os fiéis seguidores de Centeno, avatar do nosso Visnu, e pondo o próprio a governar (também) o Banco de Portugal.

    A Centeno, contra a maioria dos deputados e escapando burocraticamente à aplicação de uma lei que “não interessa”, será oferecida a execução da vingança com que há anos sonha por nunca ter passado de funcionário de segunda linha no tal banco. Ao governo caberá ter mais um membro, isto é, dar cabo dos restos de independência de que o banco gozava.

    Fica fechado o círculo do poder. É a democracia trumpista à moda do socialismo nacional.

     

    13.6.20

  • MEC

     

    Em longes tempos, Miguel Esteves Cardoso tinha imensa piada. Hoje, raramente o leio, deixei de lhe achar graça e não aprecio a chuva de fait divers que nos oferece, diariamente, no jornal.

    Hoje, venho avisá-lo: corre perigo! É que, cheio de inesperada coragem, publicou um elogio a alguns liberais que ainda resistem à onda de iliberalismo em que nos vamos afundando: João Pereira Coutinho, Rui Ramos, etc., pessoas que insistem em defender a liberdade e em condenar a falta dela.

    Não sei quantos desses heróis intelectuais resistirão aos saneamentos em vigor, ou à situação de toleráveis raminhos de salsa em várias publicações não afectas a “liberalices”. Mas sei que, no violento mar de alterosas ondas socialistas em que o jornal onde escreve se transformou – ou sempre foi – é pouco provável que MEC continue a ter lugar por muito tempo. Se precisa da avença, o melhor é voltar aos fait divers.

    Aqui fica o aviso. Quem bem te avisa… não sou teu amigo, mas.

     

    13.6.20

  • AS BOTAS E AS PERGIGOTAS

     

    O inexcedível brilhantismo do 10 de Junho de 2020 veio alertar-nos para algumas diferenças entre botas e perdigotas.

    Do lado das botas, punhamos, aleatoriamente, os notáveis exemplos do 1º de Maio, as manifestações racistas, os espectáculos do Nogueira e a futura festa do Avante. No das perdigotas, o 13 de Maio e o 10 de Junho. Meros exemplos.

    As botas não dizem com as perdigotas, pelo menos parece: estamos no mundo ideal. As botas, com multidões q.b., chegam a ter honras da presença das mais gradas figuras da Pátria, desconfinadas, a libertar o povo dos ditames do covide.  As perdigotas lembram a todos o contrário: que devem estar afastados uns dos outros, a nadar em desinfectantes, ou metidos em casa ou nada de ajuntamentos, de vida em sociedade, de “contactos”. Altíssimas autoridades assim o determinam, resta-nos obedecer, frequentando as botas e abominando as perdigotas.

    É claro que isto não é maledicência, é mera constatação de que há quem tenha o direito de meter coisas no rol das botas ou no das perdigotas, a seu livre alvedrio. Às supracitadas botas, como é do conhecimento geral, não se aplicam, ou pouco se aplicam, os ditames da moda. Às perdigotas, pelo contrário, aplicam-se com toda a força  da lei, ou do que passou a tal se chamar.

    E bem se justifica:

    O 13 de Maio, como toda a gente sabe, é, segundo a filosofia triunfante, uma mera manifestação do mais obsoleto obscurantismo, não sendo de admitir que os seus adeptos se manifestem. Ao 10 de Junho, sabendo-se que Camões mais não fez que louvar salteadores, esclavagistas e torcionários, dê-se-lhe o que merece, sem prejuízo de fazer uns mariatos para consolar alguns raros indígenas. Faça-se alguma coisa, mas sem a participação do que resta daqueles, burros, que ainda não acreditam na história contada pelo Boaventura e pelo Rosas; dê-se-lhes uns discursos, uns tiros no Tejo e uns aviões a passar, tudo sem perigo de contágio. A bem da televisão, dê-se-lhes até o espectáculo de um combatente (um torcionário, um assassino, um canalha) a mostrar saudades do tempo em que se juntava com os seus camaradas para recordar os massacres.

    Se calhar, só aparentemente as botas não dizem com as perdigotas. No fundo, está tudo rigorosamente bem pensado para “educar as massas”, metendo-lhe aos poucos pela cabeça dentro as novas verdades a que chamam “novo normal”.

    Podem os racistas, os “progressistas”, os animalescos, os herbívoros e quejandos ficar descansados. A nova moral, oficialmente, viceja.  

     

    11.6.20

  • O ESPANTALHO

     

    O primeiro-ministro terá todos os defeitos que lhe queiram atribuir, mas há um que não tem: não é parvo, é homem de jogadas cheias de inspiração. Hoje, jogou uma de leão com a entronização do Leão, indivíduo eventualmente cheio de sabedoria e de fidelidade costista, mas que ninguém conhecia, nunca ninguém vira, de que ninguém, para além de círculos mais ou menos fora da informação popular, tinha boa ou má impressão.

    Porquê esta cena, hoje? Arrisco uma teoria que não é de conspiração, antes é corroborada pela “linha do tempo”. Numa altura em que toda a gente (Costa incluído) já percebeu que o novo salvífico programa de estabilização económica – se não é assim que se chama, paciência – não passa de blabla, sem qualquer verdadeira substância, havia que desviar atenções para outra coisa qualquer. Vai daí, Costa, o não parvo, atirou à cara de toda a gente com a retumbante substituição do Centeno, coisa que vai ocupar jornalistas, comentadores, uma vasta maralha, durante uns dias, a desviar as atenções do tal programa e, porque não dizê-lo, do orçamento rectificativo (“suplementar”, em geringoncês).

    Uma jogada de mestre.

    A ver vamos qual será o espantalho, quando algum for outra vez preciso.

     

    9.6.20

  • OS TOIROS E O COISO

     

    Num estardalhaço de de incontível alegria, o coiso do PAN gargalhou “que maravilha!”, ao ver profissionais tauromáquicos algemados, em protesto à porta do Campo Pequeno. Conclusão: o coiso é o que toda a gente sabe que é: um potencial tirano, um prosélito de ideias anti-humanas, armado em bonzinho, em defensor dos animais perseguidos e torturados por pessoas, essa raça de impiedosos canalhas.

    Ao mesmo tempo que se diz “ecologista”, defensor da diversidade genética – hoje conhecida por biodiversidade – faz o que pode para acabar, de uma vez por todas, com duas espécies de mamíferos superiores, os touros de lide e o cavalo lusitano. Isto, dando de barato os seres  humanos que, em nobres actividades, dependem da manutenção e da defesa delas. Por outras palavras, o que o coiso quer é reduzir à miséria milhares de seus concidadãos, acabar com enraizadas tradições e honestas profissões, dar cabo de preciosos habitates, aniquilar inegáveis defensores da natureza, entregar muitos milhares de hectares – onde não há incêndios, nem especulação imobiliária ou de outra natureza – à exploração de espécies e actividades que passa  a vida a condenar.

    O projecto do coiso é mudar a humanidade, obrigando-a a seguir os seus estúpidos ditames e a alterar a sua própria, e vital, condição de omnívoros, reduzi-los à condição de herbívoros, quais vacas ou carneiros.

    É claro que o coiso – carrasco da civilização dizendo-se civilizado (como a comprovada tonta da “cultura”), destruidor da Natureza no que ela tem de mais bem gerido pelo homem, propagandista da mais básica e acrítica estupidez ao mesmo tempo que clama pela “inteligência” – tem apoios de monta, os primeiros dos quais são o governo, por acção, e o Presidente, por omissão. De outra maneira não se explica que as corridas de toiros, ao contrário de outros espectáculos “culturais” ou políticos (desde que de esquerda), não sejam incluídas no cardápio dos “bons”, não por acausa do covide, das máscaras, dos afastamentos, mas por mero e primitivíssimo ódio, o ódio do coiso.

    Morram os toiros de lide, morram os cavalos lusitanos, morram os campinos, morram as lezírias, as tradições, os direitos de quem a corridas gosta de assistir, os ganadeiros, os cavaleiros, morram forcados, peões de brega, bandarilheiros, morram todos, morra a própria Natureza que os sustenta, cesse tudo, que outro de mais alto se alevanta: o coiso.

    O coiso tem o apoio da Catarina, é adorado pelo Costa, incensado pela Fonseca, admirado pelo Medina, os parvos coçam-se e assobiam para o ar, as hostes estão na imprensa, na rádio, um pouco por toda a parte, nem Natureza, nem gente, nem espécies, nem prazeres públicos, nada tem importância, a ideologia do coiso, à revelia da vida, é capaz de triunfar.

     

    9.6.20  

  • DIREITOS DO HOMEM

     

    Você quer manifestar-se na rua, com mais uns milhares? Não há problema. Filie-se no PC, vá aos primeiros de Maio, vá à festa do Avante, acompanhe o PM e o PR nos “concertos” do Nogueira. Vai ver: se for correcto, se se der bem com eles, não há normas que o impeçam. As normas são para os outros, os que, não acreditando nelas, se lhes submetem e aceitam, que remédio, as parvoíces dos restaurantes, os afastamentos nas praias, as máscaras, o diabo a quatro. É tudo para nosso bem! Eles estão acima do bem e do mal, podem dizer hoje uma coisa amanhã outra, hoje abrir amanhã fechar, ir aos ajuntamentos e condenar os ajuntamentos, os dois marmanjos é que sabem, você entregou-lhes a sua liberdade a troco de uma coisa a que chamam vida. Você ou acredita ou cede ao medo que lhe instilaram na cabeça, tem o cérebro na cadeira de rodas, as meninges encolhidas de terror, está feito ao bife. E depois?

    Acabado o vírus do corona, ficará (para sempre?) o domínio dos seus actos, a sua independência deixará de ser independência, haverá n apps a condicioná-lo, o Google informará o governo de todos os seus passos, o governo saberá quando foi ao supermercado, à farmácia, ao barbeiro, às gatas, ao bar quando eles deixarem que haja bar. À sua volta, milhares de falidos, novos pobres aos milhões, vidas desfeitas, tudo minha gente à espera das esmolas do Estado, e o Estado com poderes como nunca teve, nem na primeira nem na segunda repúblicas, nem no absolutismo nem no liberalismo à portuguesa.

    Segundo o poder, você vai viver as maravilhas do “novo normal”, ou seja, a conversão do anormal em normal e a sua entrada, via lavagem quotidiana do seu bestunto matraqueado e moribundo. Quando toda a gente estiver nos braços do “novo normal”, aí estará você a aceitar como normal tudo o que o poder lhe impingir, como a tanta gente aconteceu no tempo da ditadura. Havia pessoas felizes no tempo da ditadura, não é? Desta vez será pior, porque a ditadura, enquanto tal, não era aceitável, agora será “democrática”, impecável, justificada, constitucional. E você, se quiser sentir-se livre, meterá a máscara no bolso quando sair das lojas que ainda houver, a fim de respirar outro ar que não aquele que os seus pulmões deitaram fora.

    Prepare-se, mas contenha-se, não se enerve. Talvez os seus netos, um dia, descubram outra vez a liberdade. O problema é como.

     

    8.6.20     

  • TUDO ISTO EXISTE

    No correr dos últimos cinco anos, o SNS levou pancadaria do governo em geral e do Centeno em particular. A coisa cada dia funcionava pior, não havia obras, nem equipamentos, nem pessoal, nem dinheiro, nem cirurgias, nem consultas, uma degradação que, até na quinta dos socialistas, era reconhecida, ainda que obrigatoriamente negada.

    Eis senão quando, veio o Covides, surgiram milhões aos pontapés, obras, equipamentos, pessoal com fartura, um nunca acabar. Ouvir o Costa a debitar maravilhas é uma alegria. Não há nem haverá austeridade, os desempregados estão protegidíssimos, quem precisar de euros é só pedir. Tudo mentira, mas é o costume.

    Fica uma pergunta. Então, se há tanta largesse, tanta massa disponível para a saúde, porque é que não houve durante uma carga de anos? Descobriram agora a árvore das patacas? Tiveram algum rebate de consciência?

    Vou mais pela primeira hipótese. A segunda não é coisa que eles tenham. Fica a impressão de que os tipos estão a contar com o ovo na cloaca da galinha, ou seja, da Europa. É que, afinal, não havia milhões e milhões escondidos no nosso colchão. Era só propaganda.

    O que fizeram ao SNS, e não só, é imperdoável. O que irão fazer nos (sete?) anos em que vai chover o dinheiro, dado e emprestado, que a dona Ângela e o senhor Macron desencantaram nas máquinas da tipografia virtual da União Europeia (se a Finlândia & Cª aceitarem)?

    Na melhor hipótese, o pior não deixa de se adivinhar. O novo guru, a nova inspiração instilada pelo Costa Silva, irá salvar a Pátria, o SNS, a educação, a segurança…? Não me cheira. É que o novo salvador parece querer entrar na ruinosa senda do estatismo vigente, e crescente, que nos arruina. Pois. Entreguem a massa aos altos critérios do Estado, quer dizer, dos geringonços e apaniguados, tipo Rui Rio, e vão ver os euros despejados no cada vez mais fundo abismo dos funcionários e dos “privados amigos”, sem qualquer sombra de impulso à liberalização da economia, sem recurso à inicitiva, pelo menos à iniciativa nacional. Para a estrangeira, o Rio colabora com benesses e isenções.

    Como diz o faduncho, tudo isto é triste, tudo isto existe. É o socialismo.

     

    6.6.20     

  • COSTA SILVA OUTRA VEZ

    Há, num canal qualquer, um debate, julgo que semanal, que desde há muitos anos nos dá banhos da mais informada opinião, gente importantíssima, impecáveis democratas, que falam aos gritos sem que muito se perceba, ora por causa de rebuscados raciocínios, ora devido a defeitos de articulação que, misturados com a gritaria, tornam a coisa difícil mesmo para ouvidos bem treinados. Estas coisas têm o seu tempo, o “Eixo do Mal” tem anos e anos e, se exceptuaramos a dona Clara (às vezes), já não se pode ouvir os mânfios, três tonitruantes barbaças.

    De um modo geral, esta gente comenta os mais recentes acontecimentos, mostrando profunda informação e opiniocrática postura.

    Ontem, a coqueluche do programa foi o Prof. Costa Silva. A indignação institucional foi geral, sim, não se pode pôr um fulano a debitar projectos, tal é coutada de “eleitos”, não está aberta a outsiders sem licença de porte de arma. Os três barbaças atiraram-se ao homem como lobos esfaimados. Estarão no seu direito. Mas não o estão na unânime declaração de que não sabem quem o homem é e o que pensa. De há muito, o cidadão em causa publica artigos nos jornais e aparece de vez em quando na TV. É fácil ter uma opinião, positiva, negativa, ou as duas, sobre este novo amigo do Costa. Portanto, os “eixistas”, ou são ignorantes ou mal intencionados, ignorando propositadamente uma coisa que está na cara de qualquer cidadão que tenha alguma atenção ao que se passa.

    Passarei a explicar o que acho ser a razão desta “ignorância”. É que o tal Costa Silva pensa fora da peniqueira. Contradizê-lo, para esta gente, é difícil. O homem, com razão ou sem ela, costuma borrifar no status quo da política e reger-se por critérios que pouco têm a ver com ela. Tem uma visão prospectiva das coisas, está-se nas tintas para as lutas e mexericos que fazem a alegria dos comentadores do eixo e são, quase em exclusivo, parte da suas nobres funções.

    Sobretudo o mais barbudo estava histérico com o facto de o contratado se propor trabalhar sem ser pago. Vejam se percebem: diz ele que os tipos que não recebem não podem ser independentes. Fico de rastos com esta demonstração de inteligência da criatura.

    Em termos de futuro, não sei se o contributo do homem será útil ou não. Se sim, sei que o que disser será objecto de tortura, sobretudo se não se coadunar a cem por cento com as exigências da cartilha esquerdista. Se não, talvez seja louvado pelo socialismo de pacotilha em que vegetamos. Mas sei que está fora do limitadíssimo “pensamento” do esquerdófilo Oliveira, do parlapatão Lopes e de um histriónico cujo nome, de momento, me escapa. Estar fora do penico é imperdoável, se calhar até inconstitucional.

    Não se pense que dei em “adepto” do Costa Silva. Como já escrevi, o simples facto de aceitar trabalhar com o outro Costa nada abona em seu favor. O seu passado de ultra-esquerda também não. Mas, reconheço, o que tem dito e escrito tem pés e cabeça. É por isso que os tipos do “Eixo do Mal” não gostam dele.

     

     5.6.20

  • BAZUCA

    Os noticiários de ontem form preenchidos com o habitual: futebol, futebel, futebol, Costa Costa e mais Costa, Trump, Trump, Trump, Madie, Madie, Madie, e pouco mais.

    Não sei se repararam, a notícia mais inquietante, e importante, do dia, não teve direito a mais que uma referenciazinha naquelas linhas miúdas que aparecem na parte de baixo do ecran: a Finlândia não aceita o plano da Comissão Europeia, a chamada bazuca.

    Por causa da estúpida unanimidade em vigor na União (julgava que o tratado de Lisboa tinha acabado com ela, mas não acabou), vêm os tipos lá do frio com o respectivo balde de água. Diga-se que as coisas ainda vão ser conversadas, negociadas, que ainda há hipóteses, etc., bla bla.

    Muito bem, acredito. O que não acredito é nuns media que não dão por isso.

     

    5.6.20

  • AFINAL, COMO É?

     

    Tenham cuidado, diz o Costa do costume, afastem-se, não se cheguem, se puderem ficar em casa, fiquem, não larguem a mascarilha, vão às compras, crianças na escolas nem pensar, Lisboa continua confitada – perdão, covidada – nada de centros comerciais, nada de espectáculos – perdão, espetáculos – nadinha nadinha nadinha.

    Não há bota que diga com a perdigota no primitivo linguarejar do chamado primeiro-ministro. A prová-lo, sua excelência foi ontem a um concerto no Campo Pequeno, com mascarilha e desinfectante. Fotos ainda não vi, mas calculo sejam gloriosas. Compreende-se, era uma exibição do celebérrimo senhor Nogueira, mais célebre até que o outro, o Nogueira condotieri dos professores, um divo consagrado e intocável. É isso. Tratando-se de tal figurão, levantou-se o confinamento, fase h8, ou xis4, para poder ouvir a certamente indispensável exibição de cultura nacional, ou nogueiral. Por isso, é inteiramente justificável que o alívio do confinamento dos espectáculos, que não há em Lisboa e arredores, tenha havido em Lisboa.

    Vejamos, para melhor entendimento do que se passou: todo o país está em desconfinamento, ou desconfinação. Todo? Não! Lisboa fica de fora. A não ser que, com irrefutável coerência, com indiscutível lógica, com admirável respeito pelas pessoas, o senhor primeiro-ministro ache que as suas ordens são para cumprir, a não ser que ele ache que não são para cumprir, como no caso do senhor Nogueira. Já percebem agora? Eu também não.

     

    2.6.20

  • COSTA SILVA

     

    Há uns anos, o impossível Costa, actual substituto das loiras do covide na televisão, teceu as mais desbragadas críticas a Passos Coelho por ele tar recorrido à expertise de António Borges, uma espécie de guru económico do governo.

    Mas, dando largas à “coerência” que o caracteriza, acaba de tirar da cartola o seu próprio guru, assim fazendo o mesmo de que antes tinha dito cobras e lagartos. Nada de surpreendente, dada a qualidade da palavra do indivíduo.

    O professor António Borges era um liberal assumido sem complexos. Do professor Costa Silva não se pode dizer que seja socialista, nem que seja outra coisa qualquer. Tenho-o ouvido e lido muitas vezes e tenho dele uma opinião positiva: não se guia por ideologias, mas por factos, projecções e pensamento estratégico e independente, o que é bom. O seu maior defeito é ter aceite colaborar com Costa, provavelmente por não o conhecer bem. Na primeira oportunidade, isto é, quando lhe convier, Costa fará dele gato-sapato sem qualquer rebuço ou sombra de escrúpulo.

    Costa Silva vai meter-se num vespeiro de populistas de esquerda e de incompetentes de direita. Ficará para a história como o homem que quis criar horizontes e foi metido entre muros. Apesar das “agendas” que lhe serão impostas, apesar de aceitar muitos dos objectivos da moda, Costa Silva é capaz de defender a exploração de petróleo, as minas de lítio, e de entrar noutras matérias de há muito colocadas no index dos populistas, dos tarados e dos demagogos. Se o deixarem fazer algumas propostas, verá erguer-se o paredão da nacional estupidez, chamar-lhe-ão todos os nomes da cartilha das esquerdoidas, dos bolchevistas, dos pan-parvos e dos guardas armados da correcção, abundantes no PS e nos media, com adjacências várias à direita.

    Enfim, se o IRRITADO tivesse alguma dose de esperança, prognosticaria que a influência de Costa Silva no nosso triste futuro seria positiva. Mas acha que, no actual estado dos cérebros nacionais, nada se pode esperar para além da patética “gestão” do dia-a-dia.

    A ver vamos, diz o cego.

     

    2.6.20         

  • ELOGIO

    A contrariar os que, com uma certa razão, acusam o IRRITADO de só dizer mal, vai hoje elogiar uma pessoa de cuja existência não suspeitava e cujo desassombro é, pelo menos, raro. Não era um tipo qualquer nem fazia parte dos que, em quantidades industriais, vêm dando cabo da nossa cabeça acerca do covide.

     Trata-se de um médico, professor, vice-reitor de uma Universidade – julgo que a de Lisboa – que, com irrefutável lógica e conhecimento de causa, sem levantar a voz nem se meter em considerações políticas, destapou uma série de espantalhos que, com crescente vozearia, se ocupam dos assuntos da sua profissão. Não, não veio falar do covide, não se entreteve a elogiar ou a condenar as “autoridades” em tal matéria. Falou de uma coisa que, depois de, durante anos, ter sido abandonada e entregue a ideólogos de pacotilha (as palavras são minhas), com falta de dinheiro ou com dinheiro mas sem reformas nem gestão apropriada – o dinheiro é capaz de não ser o mais importante –  continua mergulhada numa infindável crise: o Serviço Nacional de Saúde.

     É que, enquanto os portugueses são levados, sob inqualificável pressão, a pensar, ou aceitar, que tudo funciona como deve ser, a verdade é que, tirada a questão de epidemia, tudo continua a funcionar demasiado mal. As pessoas, sem qualquer informação credível a tal respeito, fogem dos hospitais com medo da gripe, das infecções hosptilares, dos contactos com gente infectada. As cirurgias estão em lista de espera, há doentes graves ao abandono, não há consultas, tudo isto enquanto os políticos se entretêm com a peregrina luta ideológica que põe o público contra o privado e o social, em vez de procurar formas de intregração que proporcionem o alargar da oferta de serviços e o respeito pelas as liberdades dos cidadãos.

    Tudo isto foi dito de forma calma, cortês, lógica, sem preconceitos nem politiquices. O IRRITADO não tem, nem os conhecimentos nem a civilizadíssima verve do Senhor que elogia, mas congratula-se pela forma e pelo conteúdo do que lhe ouviu dizer.

    Isto, sem prejuízo de temer que, dada a evidente “incorrecção” do que afirmou, venha tal senhor a ter os maiores aborrecimentos.

     

    28.5.20  

  • REGRAS E EXCEPÇÕES

     

    Segundo as loiras de serviço, os jogos de futebol podem voltar, mas sem espectadores (espetadores, em novilíngua). Ao mesmo tempo, coerentemente, as fulanas congratulam-se com a presença de 180.000 pessoas nas praias da Caparica no último Domingo, um sinal de “desconfinamento”

    Nada tenho contra os banhistas, a não ser contra o presidente da República que, se tivesse juízo, tomava um duche lá em casa e apanhava sol no telhado, em vez de vir exibir o fraco físico perante os “espetadores” de Cascais e os trabalhadores das TVs, estes por certo para o efeito convocados, ou convidados com hora marcada e tudo.

    Nada tenho de especial a favor do futebol, apesar de, de vez em quando, ver um jogo na televisão.

    Tenho tudo contra as loiras. À semelhança de milhões, já nem pintadas (não estou a a falar de cabelos)  as posso ver. Bem podiam deixar se armar em estrelas e produzir um relatório a ser lido pelos fulanos dos media. Chegava, ou até sobrava.

    De volta à bola, verifica-se que as incríveis autoridades que nos dão cabo das liberdades mais básicas e simples, são as mesmas que arranjam maneira de deixar o PC fazer manifestações na Alameda, com autocarros aos montes, sim, os autocarros que proibem a quem não é do PC, que põem 130 mânfios a comemorar o 25 (de Abril!) na AR, ao mesmo tempo que proíbem à canalha que junte mais 100 em ocasiões especiais e especialmente autorizadas por quem de direito. Os mesmos que tecem loas às organizações “devidamente programadas” (do PC), com máscaras e afastamentos, são os que proíbem que, num estádio com 50.000 lugares, possam entrar dois, cinco, ou dez mil, mesmo que devidamente afastados, cheios de máscaras, de pára-brisas, de luvas, batas, fatos espaciais ou outras paspalhices da cartilha.

    Para conveniência do texto, acreditemos que é perigoso estarmos juntos, e cumpramos as regras: que decidimos, ou decidiríamos? Talvez assim: 1- só pode haver “espetadores” que não espetem o vírus uns nos outros; 2 – vamos cancelar 2 terços das bancadas, fila sim, fila não, fila não; 3 – obriguemos as pessoas a sair e a entrar uma de cada vez e à distância regulamentar; 4 – outras patacosadas deste género. Talvez fossem soluções que não causassem muitas erisipelas às loiras nem às restantes, e sobejantes, “autoridades”. Mesmo assim, uma ideia a pôr, liminarmente de lado. Elas querem é silêncio nos estádios.  

    E eu que julgava que jogos sem espectadores é que não, mas não contava com as cabeças privilegiada das loiras, com a sede de poder do PS, com a cobardia generalizada da plebe e, quem sabe, com a democracia à moda do PC, desde que garantida a festa da outra banda.

    Deixem a bola girar sem ser no silêncio dos cemitérios.

     

    25.5.20

  • CENAS

    – Meu caro Tó, isto correu às mil maravilhas!

    – Sem espinhas, Celinho, nos conformes! Se continuarmos assim, está tudo no papo. Vai mais uma cotovelada? Ora dá cá.

    – Depois da cena dos automóveis, esta foi a completar. No outro dia, tratei da saúde aos meus gomistas, hoje foi a vez dos rioistas recalcitrantes.  

    – E eu, hoje, que tal achaste a volta que lhes dei, até disse que sou um deles, calcula!

    – De mestre, Celinho, de mestre. Viste os teus, todos contentes, no almocinho, com uns coronéis à mistura para abrilhantar?

    – Se vi, se vi. Há muito tempo que não gozava tanto! Os meus, babados com os elogios, a Pátria, a cooperação institucional, o cardápio inteirinho a funcionar, os tipos das televisões e dos jornais a rejubilar, uma maravilha, somos os maiores, como sempre tenho dito. E o gajo do covide e do pão-de-ló, ali, direitinho como um fuso, venerador e obrigado, orgulhoso, a julgar que aquilo é com ele! Hi,hi.

    – Com mais umas destas, ficamos na mó de cima mais uns anos, pá.

    – Não digas pá, que faz lembrar os outros.

    – Quem, o Socratoso, o Bacoso, o Pastoso, o Centenoso? Não te preocupes, três já lá vão, o outro, com o tratamento que lhe temos dado, nem queiras saber. Já não sabe para que lado se virar, um dia é bom, no outro é uma besta, num dia é o Ronaldo, no outro nem para lavar as sentinas do Desportivo da Badalhufe servia, anda para aí aos bordos, às duas por três nem se tem nas pernas. Ainda acaba ao balcão do banco, a chatear outro, a armar-se em bom mas só lá em casa. Com esse não precisamos de nos preocupar, a Martinsosa e o Venturino tratam do assunto.

    – Bom, agora temos que pensar numa nova encenação. Dizem para aí que os actores & companhia estão em crise. Não é o nosso caso, somos dramaturgos, encenadores, actores, pontos, puxamos os cordéis do palco, temos plateias cheias de pategos a bater palmas, não temos crise nenhuma. E os nossos queridos jornalistas? Maravilha!

    – O que há-de ser?

    – Estou cá a pensar que podíamos arranjar uma cena das antigas para dar cabo da Gomesosa, uma chata acabada. Xiça!

    – E outra dedicada ao Venturino, antes que passe a Venturoso. Xiça!

    – Olha, para já, não sei que cena havemos de arranjar, mas talento não nos falta. Olha a marcha do covide!

    – Sim, pá, é uma cena de gritos. Eu ando no Chiado, e tu não sei onde, a dizer à populaça que vá para a rua, às compras, gastar o que resta, numa boa. Ao mesmo tempo, mandamos as televisões, as auto-estradas, o caneco, dizer que fiquem em casa. Não é lindo? Quanto menos a matilha perceber, melhor, fica cheia de medo, sem saber o que fazer. Nós, como sempre, cá por cima. Até gostam, já viste?

    – Então venha de lá esse cotovelo, que mais rábulas não faltarão. Estas têm sido um sucesso.

    – OK. Vai telefonando. Tenho ali o avião à espera.

     

    23.5.20

  • MAS AS CRIANÇAS, SENHOR,…

    …porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?, dizia Augusto Gil.

    É o que me ocorre quando vejo as nossas criancinhas da instrução primária fechadas em casa, sem amigos, sem brincadeiras, a olhar para um monitor, sem exercício físico, estagnadas entre quatro paredes, a cultivar complexos que jamais as largarão, a aceitar, coitadas, as determinações de tarados, de malfeitores, de sádicos, de terroristas, ou seja, das chamadas “autoridades”.

    E as creches? Em notável demonstração de “abertura”, as creches passaram a funcionar. Como? Desde que o Zequinha não dê beijinhos a ninguém, que a Joaninha não brinque com a boneca da Quica, que o Fernandinho não se aproxime da Zica, que todos os brinquedos sejam desinfectados quarenta e duas vezes por dia, que no recreio não haja contactos entre as crianças, que as vigilantes cumpram escrupulosamente as instruções das “autoridades”, que, que, que, tudo bem. Caso contrário… as “autoridades” chamam os fuzileiros especiais e vai ser o bom e o bonito.

    Vivam as autoridades, os malfeitores, os sádicos, os terroristas!

    Viva Portugal!

     

    21.5.20      

  • MEMÓRIAS

    Às vezes, há coisas que nos irritam sobremaneira. Não que tenham importância, que façam alguma mossa, ou que mudem o curso dos acontecimentos.

    No caso, só irritam o próprio, atingido na sua memória. Eu sei que a memória de cada um não serve para nada, já que, com o tempo que passa, se vai, se calhar, alterando. E diz a sabedoria popular que quem conta um conto junta-lhe um ponto.

    Assim, começo por pedir desculpa aos leitores, primeiro por esta arenga mais ou menos idiota, depois por vir pôr em causa a memória de terceiros, no caso a da Sua Excelência o Presidente da República, conhecido nestas páginas por senhor de Belém.

    Louvou ele a sua participação na revisão constitucional de 1982. Não precisava de tal coisa, mas a memória é uma chatice. O senhor, para além de uma boca aqui, uma boca ali, de um puxar de cordelinhos aqui outro ali (uma das suas especialidades) não participou em tal revisão. O IRRITADO, muito antes de ser IRRITADO, foi, em tempos que já lá vão, deputado. E, nessa qualidade, coube-lhe ser presidente da comissão de revisão constitucional, composta essa por mais de trinta deputados, sendo vice-presidente o célebre Almeida Santos, que já cá não está para testemunhar e que, se estivesse, testemunharia ou não, segundo as suas conveniências. Adiante. O que me traz é o meu testemunho. O deputado Marcelo Rebelo de Sousa, à altura secretário de Estado dos assuntos parlamentares, jamais integrou tal comissão e, se teve alguma influência no assunto, ninguém terá dado por isso. Por fora da comissão, moviam-se os senhores Mário Soares e Pinto Balsemão. O professor Marcelo não consta que andasse em tais andanças. À altura, não tive disso qualquer sinal.

    Aceito que, agora, se venha gabar de ter feito o que não fez, sem que se perceba lá muito bem com que objectivo. Talvez se tenha movimentado em bastidores, mas terá sido tudo. Fica-lhe mal o auto elogio, mas há tanta coisa que lhe fica mal que, mais uma menos uma, qual é a importância?  

     

    21.5.20