IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


MEC

 

Em longes tempos, Miguel Esteves Cardoso tinha imensa piada. Hoje, raramente o leio, deixei de lhe achar graça e não aprecio a chuva de fait divers que nos oferece, diariamente, no jornal.

Hoje, venho avisá-lo: corre perigo! É que, cheio de inesperada coragem, publicou um elogio a alguns liberais que ainda resistem à onda de iliberalismo em que nos vamos afundando: João Pereira Coutinho, Rui Ramos, etc., pessoas que insistem em defender a liberdade e em condenar a falta dela.

Não sei quantos desses heróis intelectuais resistirão aos saneamentos em vigor, ou à situação de toleráveis raminhos de salsa em várias publicações não afectas a “liberalices”. Mas sei que, no violento mar de alterosas ondas socialistas em que o jornal onde escreve se transformou – ou sempre foi – é pouco provável que MEC continue a ter lugar por muito tempo. Se precisa da avença, o melhor é voltar aos fait divers.

Aqui fica o aviso. Quem bem te avisa… não sou teu amigo, mas.

 

13.6.20



2 respostas a “MEC”

  1. Creio que já comentei ao Irritado que li o MEC desde novo: os meus pais tinham várias das suas compilações. Isto nos anos 80/90. Lembro-me de A Causa das Coisas, Os Meus Problemas, As Minhas Aventuras na República Portuguesa. Marcaram-me bastante. Ninguém cá escrevia tão bem e com tanta graça, provavelmente desde O’Neill. MEC era uma genuína promessa, uma lufada de ar fresco nas letras, no jornalismo, na política. Isto a escrever; a falar não tanto. Além da inteligência tinha ‘afectos’, embora estes não estivessem ainda na moda. Não era demasiado cerebral, emocionava-se, era lamechas, tentava ser terra-a-terra, até benfiquista, apesar do seu ar de betinho inglês. Tentava ser tuga. O que aconteceu? Talvez a bebida. Talvez a vida. A época de ouro acabou, o Independente também, ele desapareceu por uns tempos, quando voltei a vê-lo (e lê-lo) parecia outra pessoa. Foi como se tivesse murchado. Nunca consegui gostar muito dos seus livros, os artigos perderam a wit, tornou-se um escriba a metro sem grande chama ou graça, um cozinheiro(?) amador, um gordo que gosta de comer e andar de chinelos. Agora elogiou uns liberais? Lá calhou, talvez um lampejo doutros tempos. Mas já não é o MEC. É um velho badocha.

    1. “Primeiro, as verdades.O Norte é mais Português que Portugal.No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal.Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, etc, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro. Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular.É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o “O Norte”. Defendem o “Norte” em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.”O Norte – Miguel Esteves Cardoso

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