Em cenário de grande standing, o “serviço” público de televisão entrevistou sua excelência o primeiro-ministro. Umas seis câmaras foram postas à disposição. Havia-as até no jardim, a apanhar a doce figura do chefe através dos vidros, diáfano e só: o poder! O salão rebrilhava de luzes, de quadros, de cadeirões, de ricos tapetes, de raras tapeçarias. O esplendor do Estado, da riqueza, a imponência de quem manda, de quem sabe, de quem é “pai”.
Um luxo indescritível e obsceno.
Comediante? Farsante? Aldrabão de feira? Vigarista? Qual será, afinal, a verdadeira profissão do senhor Pinto de Sousa?
Venha o diabo e escolha.
Comício? Sessão de propaganda socialista? Venda de banha de cobra? O que foi aquilo?
Venha o diabo e escolha.
Durante intermináveis três quartos de hora de chata lengalenga, o homem presenteou-nos com algo só comparável à célebre história do Bocage, quando desculpou a descuidada senhora que a seu lado se sentava: o traque que esta senhora deu, não foi ela, fui eu. O farsante inverteu o argumento, coisa em que é mestre: o mal que eu fiz, não fui eu, foi o Passos Coelho.
Passos Coelho foi o bombo da farsa: cínico, impreparado (vocábulo inexistente nos dicionários, mas que faz jeito), salta-pocinhas, oportunista, um interminável chorrilho de insultos.
Depois, com a mesma inocente tromba, o aldrabão sublinha: eu nunca disse mal dos líderes da concorrência, eles é que, malandros, se atrevem a dizer mal de mim! A verdade de pernas para o ar: há para aí um mês que o vigarista e seus sequazes não fazem outra coisa que não seja bolsar insultos sobre o adversário! Este, por virtude ou por desgraça, não lhes paga na mesma moeda. O que faz é o que todos fazem, o que concluiu foi o que não há quem não tenha concluído: com Pinto de Sousa, não!
O que se disse de mal do vigarista, enquanto pessoa, foi sempre motivado pelas suas próprias acções, que tudo fez para esconder, desculpar, cobrir com o pesado manto da mentira. Passos Coelho, bem ou mal, nunca a tal se referiu.
O farsante não desarma: ele que, coitadinho, nunca insultou ninguém, foi sempre a favor dos acordos, da cooperação, da negociação, do compromisso. Afirma-se fervoroso adepto de tudo o que sempre negou. Quer o poder todo, mas diz que o quer partilhar.
A festa teve mais bombos.
O FMI, por exemplo. Apesar de o próprio Soares já ter vindo declarar que tal organização, de que somos sócios contribuintes, já nos tirou da lama duas ou três vezes, o FMI é o inferno!
Aqui, a boca do aldrabão fugiu para a verdade: disse ele que o FMI impõe regras, e que temos que as cumprir! O problema é que não cumprir regras é a regra do vilão, nem que as regras sejam dele mesmo: foi assim que não cumpriu o orçamento, nem o PEC 1, nem o PEC 2, nem o PEC 3 e, como é evidente, também não cumpriria o PEC 4. Cada PEC foi vendido pelo farsante como a salvação final. O PEC 4 também. Mas a abjecta criatura, como sabe que não o cumpriria, criou as condições para que a culpa de ter que cumprir regras seja assacada aos outros, ou ao outro. Que crime, este de cumprir regras!
A criatura quer, ou queria, “medidas criativas”. Mas exime-se a dizer quais. É que, diz ele, “não as pode revelar”. Os outros, esses, malandros, canalhas, deviam ter já dito, em detalhe, que medidas querem tomar. Ele, porém, está no pleno direito de não revelar as suas.
A criatura é grande! Está a “salvar a Europa”! Sim, meus senhores, a salvar a Europa! A Europa espera ansiosamente que o senhor Pinto de Sousa a salve! Isto é que é grandeza, lucidez, sentido de Estado.
Uma inominável vergonha.
Quem não está com ele, não está de boa-fé. Só ele, o grande engenheiro dos projectos marados, o grande estudante de inglês técnico, o legal promotor do Freeport, o homem da Cova da Beira e de tantos outros notáveis feitos, é o único, em Portugal – se calhar também na Europa – que está de boa-fé!
Uma inominável falta de vergonha.
Tudo o que é mentira lhe serve. A Irlanda, por exemplo, teve que baixar o salário mínimo por causa do FMI. Falta dizer que o salário mínimo na Irlanda é, ou era, de quase mil e quinhentos euros. Nós não queremos o FMI, como a Grécia, a cobrar 4,5% de juros, queremos os mercados, que cobram mais de 9%.
Uma brutal quão aldrabona estupidez.
O défice aumentou de 6,8 para 8,6? Com certeza. Foram os malandros do Eurostat que a tal obrigaram: alteraram as regras em Julho e, pobre dele, viu-se obrigado a aplicá-las… oito meses depois!
Aqui, o argumento também é verdadeiro: é que o “objectivo” do governo é “tirar as empresas de transportes do “perímetro orçamental”. Quer dizer, quando tudo, para além das estradas, das empresas de transportes, das empresas públicas, etc., estiver fora do “perímetro orçamental”… deixa de haver défice!
A genialidade desta trafulhice, assumida como “objectivo” ultrapassa o que se poderia esperar, mesmo de um tipo do calibre deste palhaço!
Outro grande “objectivo nacional” é o CAV (TGV no galicismo oficial). O CAV, poço de virtudes, condição de progresso, não pode deixar de ser construído!
O que o farsante quer dizer, mas não diz porque é aldrabão, é que não tem dinheiro para pagar as indemnizações àqueles com quem o governo já assinou contratos burros para o efeito. Uma das muitas e pesadíssimas heranças que vamos receber do socretinismo. O dobro das dívidas, o triplo dos juros, a nula confiança no futuro, são só pequeninos itens do inventário.
Mas, apesar de tudo, podemos ficar descansados. O truão vai dialogar com todos, “fará o seu melhor”, que é um zero e uma aldrabice, para “negociar” um governo com os demais, se não tiver maioria absoluta. E que fique claro: não participará no governo se Passos Coelho estiver nessa situação. Uma coisa e o seu contrário na mesma frase!
E mais, muito mais guinchou o comediante.
Quem não percebeu que, se quiser ter uma, mesmo que tremeluzente, luzinha ao fundo do túnel, tem que contribuir para a maioria absoluta de Passos Coelho, mesmo sendo habitual votante socialista ou outra coisa qualquer, não percebeu nada do que se está a passar.
5.4.11
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário