Um britânico qualquer, rapaz esperto, sugeriu que, para resolver o problema da falta de dinheiro, o Brasil tomasse conta disto.
Falam a mesma língua, dão-se bem, o Brasil é uma grande potência, Portugal não é viável sozinho, a Europa, enquanto espaço comum, deixou de existir ao primeiro abanão, tudo aponta para uma solução mais imaginativa do problema português, dizia, mais ou menos assim, o nosso bife.
Uma data de portugueses, malta patriótica, desatou a protestar, chamando-lhe uma série de nomes.
E, no entanto… a ideia não tem nada de estúpido. O Brasil, como a Madeira e os Açores, não é território povoado que Portugal tenha ocupado. Não tinha presença humana, à excepção de algumas tribos índias que ainda hoje se escondem nos confins do Brasil ou que, melhor ou pior, são absorvidas.
O Brasil foi povoado por portugueses, por africanos para lá levados pelos portugueses no tempo do comércio de escravos, foi desbravado por portugueses e transformado por portugueses, à custa de muito suor e muitas vidas, no maior território da América do Sul. Os portugueses da Europa – o seu Rei! – outorgaram a independência aos portugueses do Brasil e enquadraram-lhes os primeiros passos de grande Nação americana. Os brasileiros, neste sentido, são portugueses. O Brasil tem boas relações com Portugal, políticas, económicas, sociais, culturais e humanas.
No momento que passa, em que a Europa, simplesmente, deixou de funcionar, talvez não fosse estúpido que Portugal se repensasse como Nação marítima, transformando de novo o Atlântico em traço de união da civilização luso-tropical de que falava Gilberto Freire. Não foi só há 50 anos que Portugal assumiu uma posição continental, pela primeira vez depois da Idade Média?
Daí que a ideia de uma Federação Luso-Brasileira não seja nem utópica nem pouco inteligente.
Dir-se-á que o que move quem defende esta hipótese não é mais que a procura de novas especiarias, de outro ouro, por outras palavras, de resolver, à custa de terceiros, os problemas que os desvarios da terceira República causaram.
Há que ir um pouco além da circunstância e tentar pensar em termos de futuro. De sonho, se quiserem. Não foi o sonho que fez de Portugal alguma coisa?
Portugal não representaria, para o Brasil, um mero encargo financeiro. O apport português seria muito mais valioso que tais custos. Seria a porta da Europa, pelo menos marítima se tivéssemos que sair da União. Seria a maior zona marítima da Europa somada a uma das maiores das Américas à disposição da federação, seria um imenso ganho cultural e social para os dois países. Seria a entrada do Brasil num concerto muito mais vasto que o de que hoje dispõe.
Por isso que a ideia do inglês, posta de outra maneira, nada tenha de despiciendo. Merece ser discutida e disseminada.
À atenção de quem pensa.
4.4.11
António Borges de Carvalho

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