IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


MULTIDÕES

 

Anos sessenta. Corria no país uma onda de entusiasmo patriótico sobre a guerra do Ultramar, que dava os seus primeiros passos.

O regime aproveitou para organizar uma imponente manifestação de apoio ao Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar. A cidade foi invadida por autocarros vindos “espontaneamente” das mais desvairadas partes para glorificar o grande homem, Lancheiras, piqueniques, gente maravilhada com a grande metrópole, capital do Império ameaçado por gentes há pouco saídas do tribalismo como sistema político e do canibalismo como regime alimentar, com o apoio do imperialismo soviético, da cobardia dos EUA e da decadência do Ocidente.

Nesse dia, ficou célebre a história de uma velhinha que, entrevistada pela Emissora Nacional, ao ser perguntada sobre o que vinha fazer a Lisboa, respondeu: “venho ver um grande homem”. Entusiasmado, o entrevistador perguntou quem era esse grande homem. Ao que a senhora respondeu: “um tal Baltazar”.

Era um directo, a censura não teve oportunidade para cortar o dito da velhota. O pessoal riu durante semanas à custa do episódio.

 

Na altura, o Terreiro do Paço era mais pequeno. Levava só umas cem mil pessoas, talvez porque havia menos autocarros ou porque o orçamento da União Nacional não dava para mais.

Hoje, tudo é diferente. O Terreiro do Paço foi alargado ao ponto de lá caber uma multidão de, pelo menos!, trezentas mil almas. Os autocarros são em muito maior quantidade e o orçamento da CGTP parece inesgotável. A malta, em vez de vir de lancheira, enche os cafés e as cervejarias. Ninguém vem para ver o Baltazar, mas para adorar o camarada Carlos, também conhecido por Arménio. Não se tecem loas ao Império. Ameaça-se com a revolução de Outubro. Ainda que não haja um Czar para matar nem a quantidade de carne para canhão de que o santo padroeiro do Carlos, de seu nome Vladimir Ilitch Ulianov, dispunha à época. Mas, no dizer esclarecido do camarada Carlos, a luta continua, a burguesia será destruída a seguir à nobreza, havendo então ocasião para dar cabo dos traidores da própria classe operária. Não é dito assim, mas quer dizer o mesmo.

De resto, tudo igual. As camionetas, o Sábado bem passado em Lisboa, o transbordante entusiasmo popular, as miúdas, as velhotas, os organizadores e condutores de massas, as vanguardas da União Nacional, perdão, da CGTP, as palavras de ordem muito melhor ensaiadas dada a existência de megafones, um nunca acabar de demonstrações de profissionalismo.

 

O milagre das trezentas mil pessoas, a magnífica organização, os meios financeiros, a obediente disciplina das massas, a ausência de gafes das velhinhas da província, a cobertura jornalística, tudo demonstra que a CGTP, nestas matérias, mete a União Nacional num chinelo.

 

12.2.12

 

António Borges de Carvalho



5 respostas a “MULTIDÕES”

  1. Em tempos do anterior PM escrevi que o Irritado e Tecelao eram “faces da mesma moeda”.Hoje, verifico que ambos o reconhecem.Tristeza…

  2. Não me reclamo de esquerda, nem sou adepto do Carlos, nem do Sousa, Coelho, etc. Uma coisa eu sei. As revoluções nascem dos submissos e são roturas que acontecem porque aqueles que tinham o dever de actuar através do direito e do justo o não fizeram. Aqueles que as lideram fazem-no de forma tirânica até à legitimação do estado perante a sociedade que ficará de novo sobre a tutela de uma nova soberania. Para uma melhor compreensão do 25 de Abril e da chamada crise mundial, aconselho: – De António de Oliveira Salazar, Como se reergue um Estado, Esfera do Caos Editores. – De Vladimir Ilitch Ulianov , O Imperialismo Fase Final do Capitalismo, Ed. Estampa, Lda. – De George Soros, A Crise do Capitalismo Global, Ed. Circulo de Leitores.

    1. Agradeço o conselho “literário”. Infelizmente, recomenda-me três autores que, por razões diversas, não aprecio.É possível que a revolta dos calados venha a ser terrível. Prouvera que tal não tenha lugar.O que não colhe (isto para si e outros generosos comentadores) é arranjar bodes expiatórios e achar que é dando cabo deles que a crise se resolve. Não é, ainda que haja que acabar com muita aldrabice que por anda. Para já, porém, não há outro remédio senão aguentar e procurar ter esperança.

  3. O Irritado bem quer malhar nos sindicatos, e comunas em geral, mas em manifestações/comícios ninguém leva a palma ao PS. O PS Socrático (ou Sócretino) até importava figurantes da Índia, do Paquistão, do Bangladesh… muitos nem devem falar Inglês, imagine-se a complexidade logística. Entre camionetas, sandochas, bancadas, luzes hollywoodescas, bandas sonoras triunfais, efeitos pirotécnicos… qualquer comício PS, metia um concerto da Madonna no chinelo. Aliás, a actuação da estrela da companhia, hoje estudante parisiense, deixava a milhas qualquer cantora pop. Só lhe faltava um soutien bicudo.

    1. O PS é mais “moderno”. Vamos a ver se o Seguro, em matéria de tecnologia propagandística, faz jus ao seu antigo chafe!

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