IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


FLOP!

Acordei cedo. Lá fora, os carros não eram mais do que de costume. Havia autocarros na avenida a despejar e a engolir passageiros.

As pessoas que trabalham no meu prédio apresentaram-se ao serviço a tempo e horas.

Pequeno-almoço no bucho, fui beber uma bica à pastelaria da esquina. Depois, fui comprar o jornal ao centro comercial cá do bairro. Tudo aberto, tudo a funcionar. Um dia como os outros.

Fui então pagar um buraco que tinha nas finanças. Pouca gente, a malta julgava que havia greve. Foi óptimo. Não havia bichas para nada. Mais tarde, fiz vários telefonemas, sempre devidamente atendidos, comprei uma bomba (de imersão!) e uns produtos para a “ajuda de berço”. E fiz mais o que tinha a fazer, sem perturbação alguma.

Em suma, na parte que me toca, um dia como os outros.

 

Não, não estou a defender o governo, chiça, caraças, t’arrenego!

 

Afinal o que aconteceu?

Para além dos idiotas da Auto-Europa, que obedeceram ao malandrão do Louça, entraram na greve alguns dos quem tem o emprego garantido até à morte: uns funcionários públicos, uns tipos da Carris que até têm barbeiro de borla, e mais uns quantos que não têm muito com que se preocupar, designadamente com mostrar serviço ou qualidade no trabalho.

Os que trabalham, ou seja, os que têm um trabalho propriamente dito, aqueles para quem o trabalho é uma coisa digna e não uma sinecura vitalícia, não fizeram greve.

Há os outros, os desempregados propriamente ditos – também os há, e muitos, que o são por opção ou conveniência – que não podem fazer greve. Esses são os verdadeiros prejudicados, não o governo ou os patrões. Mas isto não entra na cabeça dos condotieri destas coisas, porque não estão, nem de longe, interessados no problema dos desempregados. O que querem é manter as clientelas.

 

Há quem diga que o IRRITADO é contra o direito à greve. Não é verdade. É contra os que o utilizam como utilizam.  

Podem até dizer que o IRRITADO acha que não há razão para protestos. Também aqui não acertam. Há razões, inumeráveis razões, brutais razões. Só que não são as do Carvalho da Silva nem as do careca da UGT.

 

Resumindo:

A greve foi um flop. Os sindicatos que baralhem os números e falem de um grande triunfo. A ministro do trabalho que diga, com a propriedade que a caracteriza, que foi entre 5 e 90 por cento. Não interessa. O país que trabalha, que trabalha mesmo, trabalhou na mesma.

O efeito da greve, para além de privar os grevistas de um trigésimo do ordenado, foi nenhum.

O governo continuará a aldrabar-nos a todos e a fazer asneiras umas em cima das outras, exactamente como se não tivesse havido greve.

 

Tudo como dantes, quartel em Abrantes.

O abismo lá está, calmo como um mar sereno, à nossa espera. Não precisa esperar muito.

 

24.11.10

 

António Borges de Carvalho



6 respostas a “FLOP!”

  1. Pouco andei na rua, mas do meu escritório, garanto-lhe que não vi um dia igual aos outros. Recebi talvez 1/3 dos telefonemas, e metade dos emails, de um dia normal. Lido diariamente com muitas dezenas de empresas, logo isso há-de querer dizer alguma coisa. Isto das greves, e por mim falo, funciona por contágio. Quando fui trabalhar, já ia com o preconceito de que encontraria um semi-feriado. Logo, condicionei (mais ou menos conscientemente) a minha própria agenda, aproveitei para fazer coisas que não dependiam tanto de contactos, etc. Provavelmente, os meus clientes e parceiros, pensaram o mesmo. E assim, temos uma greve com (suponhamos) 300.000 grevistas, que acaba por afectar (como bola de neve) talvez o dobro ou o triplo desse número, porque as outras pessoas CONTAM com a greve – mesmo que não a pratiquem. Quanto à ineficácia da greve em si, estamos de acordo. Mas ainda não disse, qual a ALTERNATIVA que propõe.

    1. Alternativa?Se queremos uma alternativa é porque achamos que a greve quer atingir um fim e achamos que esse fim se atinge de outra forma, que não a greve.Mas a greve, esta greve, não serve para nada, nem que seja para “assustar” o patrão ou para projectar uma reivindicação qualquer. Por isso, não há alternativa, nem é preciso que haja.Se me perguntar qual é a alternativa para o país, então acho que, em matéria de princípios, de filosofia política e de filosofia de vida, o IRRITADO, modéstia aparte, tem, em muitos posts, conteúdo bastante a tal respeito.

      1. Esta greve pode ter sido mal parida, e pior executada, mas tinha um destinatário claro: o Desgoverno de Pinto de Sousa. E tinha um segundo destinatário, que terá passado mais despercebido: o sistema político português, os partidos, os políticos em geral. Em particular, como é óbvio, o PS e o PSD. As pessoas estão cada vez mais FARTAS. A crise e a austeridade são a gota que faz transbordar o copo, mas este descontentamento vem de trás. Tudo o que o faça crescer, tudo o que acelere uma ruptura, em vez de uma mera mudança de moscas, é para mim uma coisa boa. Quer-me parecer que o Irritado defende certa manutenção do status quo, que é diametralmente oposta a isto. Perdoe-me se estiver enganado.

        1. A sua postura faz-me lembrar a do Cunhal: é preciso terra queimada para “construir” o “futuro”. Resta saber que futuro.A sua justa fúria, se tomada à letra, levaria às mais dramáticas consequências. Estou de acordo consigo se me disser que o pessoal político tem que ser refrescado, mudado, reciclado, moralizado, o que se queira. Mas as soluções radicais levam sempre ao mais radical buraco. Olhe o que se passou nos últimos cem anos, cá e lá fora….

        2. (Continuação)Desculpe voltar à carga, mas acho que esta greve foi feita por e para os mais bem instalados da nossa classe média, os que vão ganhando alguma coisa e têm emprego certo. Não teve nada a ver com a situação que o país vive, a qual continuará a agravar-se, com greves ou sem elas.

          1. Ou seja, e tal como escrevi há dias, a sugestão do Irritado parece ser: – por agora, pagar e não bufar. – aguardar calmamente a reeleição de sua Exa. Cavacal. – esperar que ele demita este Desgoverno – se lhe apetecer. – quando nos convocarem a ir botar o botinho, vamos como carneiros obedientes, e rodamos o tacho para o PSD. – se tivermos a sorte de o PM não se pirar, como o inefável Burroso, tudo irá melhorar… daqui a uns anos. O Irritado menciona o futuro que Cunhal queria construir, como o pior dos males. Talvez fosse. Mas olhando para os últimos 30 anos, ele tinha razão numa coisa: ficou muita terra por queimar. Sobretudo entre Belém, e S. Bento. Como não o fizemos quando podíamos, todo o país acabou queimado.

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