IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DO FIM DA CIVILIZAÇÃO SCUT

 

Uma pequena história portuguesa. Verdadeira, mas que se pode tomar por fábula.

Havia um homem que, com imaginação e talento, construíra um razoável império económico. Tinha pegado numas indústrias arruinadas pelas loucuras da revolução, relançara-as, e ganhava bom dinheiro. Tinha umas centenas de empregados, relativamente bem pagos e satisfeitos.

Um dia, chegada a moda dos computadores e da net, o nosso homem montou, num quartinho lá do escritório, uma espécie de sala de dealing, onde um truta qualquer se dedicava a operações financeiras, ligado a Nova Iorque, Tóquio, Frankfurt…

Depressa tais operações tomaram corpo na cabeça do nosso homem. Ganhava quase tanto no quartinho como nas suas indústrias. Pagava ao truta, e pronto. Quase não havia despesas e, com algum bom senso, a coisa dava, e dava bem.

Um dia, apareceu-lhe uma empresa “nacionalizada nossa”, a oferecer uma sonora maquia pelas suas indústrias. O homem exultou. Ia passar de rico a multimilionário!

Alguém do seu inner circle o aconselhou a não vender, ou a vender só metade. Veja você, disse-lhe, que a indústria é o que o mantém na vida económica, é o que o liga à realidade palpável, ao que, afinal, sustenta e justifica os seus investimentos financeiros.

Nada feito. O cash venceu. O nosso homem passou a ter só dinheiro, o conselheiro deixou de ser preciso, o truta foi aumentado, a vida continuou.

Anos passados, a empresa “nacionalizada nossa” passou a elefante branco do regime e o milionário não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, para além de o ver desaparecer em operações falhadas. Pensa voltar a produzir alguma coisa, mas é tarde. Os anos passaram, ele já não tem nem estaleca nem know how para se meter noutra, nem tempo para apanhar o comboio outra vez.

 

Mutatis mutandis, é mais ou menos o que se passa com o chamado primeiro mundo.

Atolado em serviços, especulações e ilusões, o primeiro mundo esqueceu o primário e o secundário, como se estes fossem o décor que as transacções e os investimentos financeiros proporcionavam, isto é, pondo as coisas de pernas para o ar.

Ao mesmo tempo, as regalias de vida que o primário e o secundário tinham permitido criar transformaram-se em “direitos sociais”, ou seja, os habitantes foram levados a achar que viviam num mundo “scut” e que os Estados, ainda que cobrando impostos, taxas e “contribuições”, eram uma espécie de deuses que não podiam falhar nem tinham um deve/haver, à la limite igual ao de cada um.

Durante umas décadas, a superioridade científica e tecnológica do primeiro mundo manteve a capacidade de funcionamento do sistema. Mas a globalização, por tantos idiotas acusada de ser uma manobra do primeiro mundo para explorar o terceiro, provocou fenómenos globais inevitáveis e de sinal contrário.

O terceiro mundo produzia mais barato. Guardada que fosse a superioridade tecnológica, o primeiro mundo acreditou que deixava de precisar de trabalhar em actividades “menores”: imaginaria, investigaria, inventaria, inovaria, investiria, e daria aos demais para produzir, comprando-lhes um produto final onde as mais valias realmente importantes eram suas e pagas à cabeça. O resto era mão-de-obra, mal paga e sem “direitos sociais”. Daí as deslocalizações, as joint ventures e as inevitáveis transferências de tecnologia. Resultado: em meia dúzia de anos, o terceiro mundo passou a ter tecnologia própria – como, no pós-guerra, sucedera com o Japão – os fluxos de capitais mudaram de direcção e as mais valias sumiram-se.

O dinheiro tinha migrado. Os “direitos sociais” já não tinham cobertura. O capitalismo tinha deixado de ser liberal. Mas as suas incontornáveis regras continuaram a funcionar, já não a bem dos povos, mas contra eles.

A saída foi a anti-liberal corrida ao dinheiro, isto é, o esquecimento das tais incontornáveis regras, a primeira das quais é a de que o dinheiro, ou corresponde aos bens que se produz e é fruto deles, ou vai embora.

Em vez de o recriar, o primeiro mundo entrou em espiral financeira. Acusado de ser “liberal”, passou a “social”. Começou a distribuir dinheiro sem se dar conta que jamais o recuperaria, já que o colocava em mãos que produziam menos que o que deviam. Passou a viver-se como se houvesse almoços grátis. Mas não havia, nunca houve.      

Os cidadãos, esses, ficaram entregues às suas ilusões e aos seus “direitos”. Continuaram – e continuam! – a achar que “alguém há-de pagar”. Pior, continuaram convencidos que o que pagavam ao Estado lhes podia ser devolvido com juros, o contrário do que passou a suceder. O Estado não só nem em singelo devolve como gasta mais de metade para se auto sustentar.

O mundo scut acabou.

A realidade, longos anos disfarçada, veio ao de cima.       

 

Agora, há que começar de novo.

Bater no fundo, tomar balanço para voltar ao de cima.

Acreditar no renascimento da Fénix.

Fazer das tripas coração.

O resto é cantarolar de ideólogos, de demagogos, de tecnocratas falhados e de políticos pataratas.

 

Com a razão da moda e do “correcto”, chamem simplista ao IRRITADO.

Depois queixem-se.

 

5.11.11

 

António Borges de Carvalho



73 respostas a “DO FIM DA CIVILIZAÇÃO SCUT”

  1. Caro IRRITADO,Na realidade, a ganância e o “dinheiro fácil” tomaram os sistemas produtivos e a própria vida profundamente desequilibrados; o nosso futuro e o das próximas gerações não vai ser nada fácil e ainda não “levámos com a onda”. Estamos no princípio do que vai ser a próxima “idade das trevas”.Sem desenvolver o tema (por motivos óbvios), ouso afirmar com alguma segurança que o problema económico que assola o mundo tem por origem a total promiscuidade entre o poder político e o poder económico, adicionam-se generosamente a ganância e a falta de consciência colectiva, acaba-se na impunidade dos responsáveis até que, por fim, a miséria tome conta da situação. O Capitalismo (ideologicamente perfeito), tornou-se num gigantesco casino desregrado e destravado em benefício de 1% da população (mundial). Pior, não há vontade política de o travar.Permita-me sugerir que veja o documentário “Inside Job” … (que não é do M Moore!). Muito oportuno e esclarecedor.Tenha um óptimo dia,M

  2. Oxalá eu pense errado, mas o cenário faz pensar em situação de pré-guerra.

  3. O Irritado lembra-me alguns comunistas ortodoxos. A URSS, o baluarte do comunismo, afundou de vez há 20 anos. Os inegáveis êxitos que o sistema havia alcançado em prol da sua população, eram superados em muito pelos seus falhanços. Fizera milhões de vítimas, empobrecera muitos mais milhões, e só beneficiara realmente a pequena minoria do topo. E ainda há quem defenda o mesmo sistema – que caiu de podre. Quando cremos cegamente em algo, como um sistema político-económico ou uma religião (passe o pleonasmo), a nossa crença nunca pode estar errada: foi sempre outra coisa que falhou. Os dirigentes, os executores, os abusadores, a conjuntura, o eixo da Terra, ou a famosa natureza humana, que tem costas largas. Assim são as crenças do Irritado, e de muitos que pensam assim. A Mónica recomenda-nos o filme “Inside Job”, que eu vi, e que tem um único problema: não vai suficientemente longe. Limita-se a explicar como o sistema foi abusado durante a última década, e a mostrar-nos os autores desses crimes. Isso é louvável, só que os abusos começaram muito antes, e até já tinham falido o Mundo inteiro, há 82 anos. E porquê? Porque as causas radicam no próprio sistema financeiro e monetário. É intrinsecamente PODRE, e é mantido assim por quem beneficia com ele. Tal como a nossa Partidocracia caseira, que também é defendida pelo Irritado.

    1. A História demonstra à saciedade que, ao contrário do sociaslismo real, o sistema não é intrinsecamente podre, nem intrinsecamente mau. A ele se deve quase tudo, desde tempos imemoriais, em diferentes circunstâncias e diferentes teatros.Tem os seus baixos, os seus vícios, os seus falhanços. Mas é preciso nãoos conundire a essência com a circunstância, ou o vício. Sem ele, nunca houve liberdade. Por isso que seja um erro ainda maior que os seus erros, querer pô-lo, globalmente, no caixote. As alternativas, até ver, são piores.Seria como dizer que a água é má só porque o rio está poluído.Por outras palavras, seria negar a própria natureza humana.

      1. TUDO tem «os seus baixos, os seus vícios, os seus falhanços». Pode-se dizer o mesmo do Socialismo, cuja teoria igualitária nunca chegou a ser concretizada: foi sempre usada por uns poucos, para explorar os restantes. Tal como o sistema actual. O feudalismo, por comparação, era mais honesto: não prometia igualdade nenhuma. Havia os senhores e os servos, predeterminados à nascença, e a malta que se conformasse. Só passámos dessa cepa torta, há relativamente pouco tempo. Será de estranhar que a mentalidade de senhores e servos tenha subsistido, corrompendo as ideologias? Poderá argumentar: o Socialismo – ou melhor, o Comunismo – matou mais pessoas. Será? Quando o grande capital e a indústria do armamento fomentam guerras mundiais, e bombardeiam países distantes em nome da “democracia”, essas contas são complicadas. São também inúteis, sobretudo para as vítimas. Poderá ainda argumentar: o sistema liberal / capitalista deu-nos mais liberdade, e melhor qualidade de vida. Mesmo que isso tenha sido verdade, e acredito que sim, nenhum modelo é eterno. A Banca, os casinos bolsistas, as agências fantoches de ratings, toda a canalha financeira, os economistas, professores, e jornalistas a soldo dessa gente, o dinheiro inventado ou negado conforme a conveniência de alguns, a dívida perpétua em que vivemos, tudo isto é um cancro que cresceu sem controlo nos últimos cem anos. E, ao invés de se controlar ou combater o cancro, é este que está a ganhar. Alguns, como o Irritado, conformam-se. Outros, não. Se há coisa que a História demonstra à saciedade, é que uma civilização dominada por uma ínfima minoria, com uma maioria crescente de descontentes, está condenada a ter que mudar. Se não muda a bem, muda à força. E aí, a minoria que se cuide.

        1. Você tem toda a razão, ou seja, acaba por me dar razão.Aos que pensam assim, ocorre-me perguntar qual é a terceira solução. Não vejo outra que não passe pelo “saneamento” do sitema. Como? gostava de saber. Não me venham é com teorias de terra queimada.Lembra-se do fim da DC (e do PS, e do PC) em Itália?

  4. A solução não está certamente em tornarmo-nos formiguinhas que trabalham por 50 dólares por mês, 7 dias por semana, como os chineses. Aliás, até os chineses deixarão eventualmente o fazer. Que valor tem uma vida assim? O Irritado diz que não são explorados. Uma única semana numa fábrica na China, talvez mudasse a sua opinião de liberal bem instalado, cujo maior contratempo é ter de viajar para Paris em classe económica. Perdoe a crueza, não pretendo atacá-lo, é apenas um “reality check”. Mas não está sozinho: ironicamente, muitos “contestatários anti-sistema” exibem orgulhosamente os seus ténis Nike e os seus iPads, cosidos ou montados pelos mesmos chineses. Isto encerra outro paradoxo: as grandes corporações enchem-se à conta dos escravos do 3º Mundo, deixando as populações dos seus próprios países no desemprego. Devido a isto, estas perdem poder de compra. E as corporações admiram-se de vender menos. E ao evitarem pagar impostos nos seus países, preferindo paraísos fiscais, admiram-se de os Estados ficarem falidos. Com menos empregos, e menos impostos, é de facto um mistério… Acima de tudo isto, vivendo no seu mundo de fantasia, sem sequer produzir nada, está a BANCA e a canalha financeira. Acumulam lucros impossíveis, graças ao dinheiro que inventam do ar. Como é possível todos os países, até a China, estarem endividados? Se todos devem, afinal onde está o dinheiro? A resposta: 1) muito desse dinheiro nunca existiu; 2) o que existe, está cada vez mais concentrado na mesma canalha. Os “direitos sociais”, que tanto repugnam o Irritado, poderão ser parte do problema do 1º Mundo, mas o actual sistema financeiro é um problema bem maior. Um paradigma assente em consumismo desenfreado, mão-de-obra barata, e uma élite que cria dinheiro irreal, juros e dívidas impagáveis em seu exclusivo benefício, não é sustentável. Nem para o planeta, cujos recursos são finitos, nem para as pessoas, cuja sobrevivência e qualidade de vida são – deviam ser – os principais objectivos da Economia. Não para o Irritado: prefere acabar com os “direitos sociais”, e o resto logo se vê. Bancos, casinos financeiros, os sacrossantos juros, uma economia irreal de triliões, crises artificiais, bónus obscenos a quem nunca produziu NADA, tudo isso logo se vê. Ou seja, e como já aqui afirmei: o Irritado espera manter o mesmo sistema, (quase) inalterado, fazer exactamente a mesma coisa, e obter resultados diferentes. Há anedotas sobre esse tipo de lógica – geralmente, passam-se em hospícios.

    1. “Na mouche”!O problema está em explicar isto aos “normais”. Na verdade não querem saber e olharão para si como um “alienado”.Daí o IRRITADO, como político, “vende” o seu produto: “tretas”!

    2. Que inusitada dureza, meu caro!Quem o ler há-de pensar que o IRRITADO nada em dinheiro e que v. pede esmola à porta das igrejas!Esta semana, o Expresso publicou uma interessante notícia: há uma nova tendência na política das multinacionais americanas: voltar à pátria. É que os salários estão a subir na China e, se chegarem a um terço do que são nos EUA, deixa de interessar andar por lá: a produtividade dos americanos é três vezes a dos chineses!Seria vivificante que a tendência se espalhasse. Não há, como eu disse, economia sem produção industrial, sem mais valias, sem lucros.Tem razão quando se revolta contra a “financeirização” da nossa vida. Tem razão quando se revolta contra os juros e a especulação. Mas, se pensar que a maior parte dos fundos que especulam são fundos de pensões e de pequenas aplicações, pelas quais os seus gestores são responsáveis, talvez ponha, nos seus métodos de pensar, algum tempero.Já leu o artigo de hoje do Bagão Félix? Leia, e realize onde nos meteram! Alimentar ilusões nunca foi grande coisa. Disparar à maluca contra tudo não leva a parte nenhuma. A realidade é muito pior que os nossos piores pesadelos. Ou aprendemos a lidar com ela, ou estamos “feitos”. Desculpe que lhe diga, mas tem uma perigosa tendência para meter a cabeça na areia, isto é, para não passar da mera condenação dos culpados, ou dos bodes expiatórios. A aceitar os “remédios” que propõe (escavacar o que resta e punir os culpados), então assuma que só uma guerra nos salva, ou salva quem cá ficar.Se quisermos “renascer”, a primeira cois a fazer é perceber onde estamos. Depois, pensar, e não esbraceja, tipo “indignados”, sem ideias nem soluções nem outra motivação que não seja a raiva e a ânsia de destruir ainda mais.

      1. Todos nós, neste blog, somos muito mais ricos do que qualquer operário chinês. Ou vietnamita. Ou romeno. Foi apenas isso que quis dizer. As multinacionais podem voltar, resta saber se voltam os respectivos impostos – lembre-se da GE. E não deixa de ser revelador que apenas voltem, porque os próprios compatriotas lhes saem mais baratos do que os chineses… A especulação, qualquer especulação, é inimiga da economia real. E incluo toda a canalha financeira no problema: Lehmans e Deutsche Banks, intermediários, brokers, e também os nossos “pequenos” chulos tugas, a começar pelo Sr. Salgado. Todos mamam, nenhum produz, todos vivem da produção alheia. E ajudam a arruiná-la. Quando o Estado distribui “direitos sociais”, alguém os terá de pagar – certo? E os juros de dinheiro irreal? Esses já está bem pagar? Esses não o chocam? ———— Não li a notícia do Expresso, nem o artigo do Bagão, mas farei por ler. E que tal seguir a sugestão da cara Mónica: veja o filme “Inside Job”, e diga, ou melhor, escreva alguma coisa. Está aqui: http://vimeo.com/25142692 . Repare nas expressões dos entrevistados, e na sua linguagem gestual. Vai-se divertir. O melhor vem no final – o papel das Universidades, sobretudo as mais conceituadas, e o que podemos esperar de quem lá se forma. Ajuda a explicar muito da América, e do Mundo actual.

        1. Penso que há medidas a serem implementadas; por exemplo, regulamentar de imediato a banca, fazer um controlo sério do consumo de cocaína em WS (esta gente descontrolou-se!), acabar com as off shore durante três anos, confiscar de imediato (e na totalidade) as contas bancárias e património destes 20 (?) banqueiros e suas famílias directas (contas em paraísos fiscais ou não) e dividir estes fundos pelo mundo inteiro.Dar uma lição para memória futura; contrariamente ao Irritado, penso, mesmo, que estes “senhores” da “alta finança” deveriam ser julgados por crimes contra a humanidade. Os crimes contra a humanidade não se limitam ao genocídio … Este foi, é (e, infelizmente, vai continuar a ser) um CRIME ECONÓMICO contra a HUMANIDADE, tecnicamente explicado, que deveria ser punido com muita, muita força. Estes são os Hitlers da finança. São Nazis económicos que estão levar o mundo à miséria.E subscrevendo as acções destes delinquentes exactamente na mesma medida, se não há lei que os condene, cria-se ou muda-se a que existe. Esta gente tem de ser punida.É bom não esquecer que uma das piores coisas que podem acontecer à economia é, justamente, a falta de liquidez nos mercados e estes senhores secaram o mundo. Aliás, os próprios reconhecem, publicamente, que são gananciosos e necessitam de travão. São delinquentes miseráveis autorizados a roubar, especular, deixar o colectivo num imenso vazio sem dignidade.Perante este despautério, a passividade e estupidez profunda dos governos é … Do filme, gostei muito de rever do exemplo da Irlanda e, especialmente, da explicação do senhor George Soros, na qual desenvolve a analogia entre a arquitectura de um petroleiro e o sistema bancário. Para os que não viram o documentário, aqui fica um breve resumo: a construção do depósito do petroleiro é dividido em vários compartimentos estanques, de forma a que barco se mantenha estável no movimento das ondas e não se vire com as oscilações mais fortes. A compartimentação absoluta da estrutura assegura o equilíbrio do barco. Também a banca deveria ter mantido este equilíbrio (que já existiu), foi suprimido por vontade destes novos Hitlers por pura ganância, com a conivência política.Repor o equilíbrio é fulcral, sob pena de irmos todos ao fundo … o pior é que não há Homens à altura e tudo vai piorando de dia para dia.Por último, gostaria de deixar claro que acredito num sistema capitalista e, o que está a acontecer ao mundo, é resultado da acção de seres inferiores com um poder desmedido. Tal como Hitler. Não estou indignada … estou perplexa com a escala e com medo do futuro: do nosso e das próximas gerações.

    3. O que eu quero é que cada um perceba que ten que se responsabilizar por si próprio, o que sertia uma bom resultado desta crise.

      1. Mas manifestamente insuficiente. Concordo que é um princípio fundamental, a nossa responsabilidade pessoal, mas é também indispensável trabalhar em simultâneo outras plataformas para restabelecer alguns equilíbrios no âmbito da responsabilidade pelo colectivo.O modelo gerador de riqueza que teoricamente é o nosso, tem de assegurar e defender pilares inabaláveis contra a ganância e o egoísmo (características intrínsecas ao homem); ainda não vi qualquer acção concreta para alterar a perversão nascida nas últimas décadas e, ainda por cima, há prova de muito mau resultado. “…Bater no fundo, tomar balanço para voltar ao de cima.Acreditar no renascimento da Fénix.Fazer das tripas coração.”Pois é … com as mesmas regras desregradas? No mesmo Casino?

  5. Dançarino de boate gay….A Professora pergunta na sala de aulas:- Luizinho qual é a profissão de teu pai?- Advogado, Sra. Professora.- E a do teu pai, Mariasinha?- Engenheiro.- E o teu, Aninhas?- O meu pai é médico-E o teu pai, Pedrinho, o que faz?-Ele… Ele é dançarino numa boate gay!- Como assim? (pergunta a Professora, surpresa)- Sra. Professora, ele dança na boate vestido de mulher, com uma cuequinha minúscula de lantejoulas; os homens passam a mão nele e enfiam dinheiro no elástico da calcinha e depois saem para divertirem-se juntos.A Professora rapidamente dispensou todos os alunos, menos o Pedrinho.Ela caminha até ao miúdo e novamente pergunta:- Ora diz-me lá, o teu pai realmente faz isso?- Não, Sra. Professora. Agora que a sala está vazia, eu posso dizer-lhe:Ele é Deputado na Assembléia da República….. Mas eu tenho vergonha de dizer isso na frente dos outros!!!E não te esqueças:”A Assembléia da República é um lugar que:se colocar grades vira jardim zoológico,se construir um muro vira cadeia,se cobrir em cima vira circo,se colocar lanternas vermelhas vira casa de prostituiçãoese puxar o autoclismo não sobra ninguém.”

    1. Peço perdão. Se puxar o …., sobra o Relvas!!!

  6. Caros Irritado e Filipe Bastos (não me dirijo aos outros por não termos sido ciberneticamente apresentados, excepto ao XXI, a quem envio igualmente um aceno).Certamente caio nesta discussão, aliás de elevado nível, como um anacoreta protocristão, daqueles que se refugiavam no deserto, alimentados a gafanhotos, e surge-me o exemplo do africano Santo Antão, talvez o primeiro drogado da história, que mitigava a fome com umas bagas alucinogéneas, cujas visões por elas provocadas por sua vez alimentaram toda a arte de “diablerie” do séc. XVI, para lucro do Bosch e afins, e gozo de quem hoje olha as suas obras.Talvez por esse ascetismo a que me tenho imposto nos últimos tempos, não tanto por falta de comida, que ainda não chegámos à aflição de passar fome, mas pela “comida estragada” que nos é servida diariamente nos telejornais e imprensa, a tal ponto tóxica e alienante que decidi fazer deles rigorosa dieta. Já chegou o MFA para me azedar a juventude. Hoje já não tenho paciência para me irritar se não com quem eu quero. Assim sendo, estou de todo por fora destas discussões e fenecem-me argumentos, por desconhecimento do que se tem passado. Volto ao meu axioma: se não posso mudar o mundo, posso mudar a forma de o olhar. E isso faz toda a diferença, porque vivo sossegado, e agora tanto se me dá que governe A ou B, porque é a EU quem manda nessa vogal ou na consoante.Ainda no outro dia correspondia-me com uma conspícua escritora da nossa praça, que me perguntava, divertida, onde me escondera todos estes anos. E respondi-lhe, recorrendo ao poeta:Sou um evadidoDesde que nasciFecharam-me em mimAh! Mas eu fugi…E respondi-lhe ma brincadiera que fugira na verdade, não por aí, como ela que hoje é publicada, lida e elogiada – mas como a Anne Frank, que se refugiou no famoso anexo, dia após dia, andando em bicos dos pés, falando em surdina, vertendo em si mesmo os seus pensamentos, para não se deixar encontrar e subjugar aos politicamente correctos de então, que eram os nazis. Hoje são os “democratas”, que são pau para toda a colher.Não estarei como Nietzche que nihilisticamente sustentava que tudo o que o Estado diz é mentira e tudo aquilo que tem foi roubado, mas não discordo tanto assim da tese, que tem muito de verdade e tudo de actualidade.O que sei é que o Estado Social é uma ideia boa, mas uma concretização péssima, sobretudo a partir de Guterres, que cumpriu com os cânones socialista de tornar dependentes do Estado o maior número de pessoas, através de um Estado tão grande quanto lhe fosse possívelE uma vez que um governo se torna o provedor das carências populares, deixa de para elas haver limite, que a partir de então serão entendidas como direitos essenciais, básicos, adquiridos e irreversíveis.No outro dia, à falta de paciência para ler a Visão ou coisa do estilo, (que porventura até é uma publicação meritória, mas do que pude constatar quando tinha conhecimento directo daquilo que imprimiam, devo dizer que achei a “verdade” deles um tanto poliédrica e elusiva, para ser cortês e generoso), no outro dia, dizia, topei na minha estante com o livro do António Ferro, entrevistando Salazar, em 1932, assim que este subira a presidente do governo.Onde é que tudo isso já vai! O papel é tosco, a composição desagradável de ler, a redacção barroca e obsoleta.O ponto é que o povo e as “elites” politicas da época são precisamente iguais às hodiernas. E o que surpreende mais – sem pasmar verdadeiramente – é que sempre foi assim.Um exemplo só, entre centenas. A dado momento, Ferro pergunta a Salazar sobre a sofreguidão dos políticos. Eis a resposta: “”Os homens mudam pouco e então os portugueses quase nada. Às vezes quando tenho vagar ou um pouco de descanso leio o padre António Vieira. No século anterior tinham escrito João de Barros e Fernão Mendes Pinto. Comparo os quadros da Índia, do Brasil e de Lisboa, como o que me passa pelas mãos – os séculos XVI e XVII com o século XX. Os vícios da nossa administração, os defeitos da nossa mentalidade e da nossa acção privada e pública são ainda os mesmos. Se não fosse bizarria, podia ter-se posto, como relatório do decreto sobre incompatibilidades e acumulações, um trecho de sermão do notável jesuíta”.(continua)

    1. (continuação)Não vi, nem conto ver o “Inside Job”, sinceramente acho que o mal não está tanto nos regimes, que idealmente são sempre apelativos aos nossos bons sentimentos. Os interesses de cada um, pessoais ou nacionais, é já outra conversa, sobretudo conversa de que se não fala, porque aquilo que invariavelmente se invoca são “os valores”. E desde o séc. IV que ele ensinou que só há 3 valores, de que decorrem todos os outros: o amor a Deus, o amor à Verdade e o amor ao próximo. Olho para os nossos governantes, para qualquer prisma que seja, e não os encontro plasmados, se não na forma de Maquiavel: o amor ao poder, o amor ao dinheiro e alguma simpatia aos do partido, nimbada com inveja e traiçãoPor isso, imito a Anne Frank, refugio-me quanto posso e em vez me sujeitar ao telejornal a transmitir futebol ou política tratada no mesmo registo, opto por Bach, Fauré ou Chopin; em vez de me deixar ludibriar pela Visão ou Expresso, saboreio Maupassant, António Vieira ou Pessoa (mesmo em prosa).Grande abraço doManuel PS – Claro que aguardo com algum interesse a publicação que o novel filósofo Sócrates certamente dará à estampa, no Domingo em que obtiver a sua licenciatura na Sorbonne. O outro quis-se matar por ser acusado de corromper a juventude, este foi mais cauteloso: deixou-se corromper a ele mesmo – e a juventude que se mate a trabalhar por sua causa.

      1. E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho. (…) Em nenhuns reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há-de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino. Padre António Vieira, in ‘Sermões’

        1. Estimada Mónica,Escrevi ontem, quase oniricamente, tal era o meu sono. Por isso lhe peço condescenda em relevar alguma gralha que haja pousado no texto.O mesmo não se pode dizer de Vieira. Li há muitos anos uma carta do Eça ao Oliveira Martins, em que dizia estar a lê-lo – e rematava com um comentário do estilo:- São tantas as vezes que lhe peço a absolvição!Também de memória (que espero não desmereça da irrepreensível arte do perseguido jesuíta) me ocorre o seu dito “… e perguntado um santo sábio em que terra gostaria de viver, respondeu que qualquer lhe servia desde que fosse a mais longe dos homens.”Claro que alguns séculos volvidos encontra-se uma certa dificuldade, não em encontrar tais paragens, mas em descrever como “homens” os anões morais que nos regem ou tangem como gado ovino, acrítico e abúlico – muito contente desde que possa exercer o seu direito de voto.Bela página dos Sermões! Muito obrigado.ManuelB

          1. Obrigado pelo seu “regresso”.Na verdade, ouvir (melhor dito: ler) as suas brilhantes prosas originou “continuar por aqui”.

          2. Mui estimado XXI,Agradeço do coração aquilo que me diz por escrito, de tal forma desvanecedor que chega a coarctar as minhas palavras de gratidão pelas suas de apreço. O preceito zen reza que “uma palavra amiga aquece o nosso coração por 3 invernos”.Pelo número daquelas que amavelmente me dirigiu, pode bem imaginar a tranquilidade com que passarei a encarar as amenas estações rigorosas que me esperam.Um abraço amigo e sobretudo grato doManuel

          3. O onirismo é um estado anormal da consciência.E pode ser causado por drogas e alcool!!!

        2. Tinha dito à Mónica que redigira ensonadamente. E a prova é que onde escrevi “ele”, ao nomear o ensinamento do Doutor da Igreja que discorria sobre os verdadeiros valores, deveria haver referido tratar-se de Santo Agostinho, esse sábio santo africano.Só ao reler agora, dei conta de como um cérebro ensonado é quase tão irresponsável e indigno de crédito como aquele que habita sem o menor préstimo na caixa craniana de um socialista a quem em 15 anos de poder, a súcia dos apparatchiks súcias lavaram – ou conspurcaram, consoante o ponto de vista – por completo: de memória, de sentido de justiça, de remorso de culpa, de noção de responsabilidade – em suma, de inteligência das coisas e por fim da inteligência em si mesma. Para além da doutrina que lhe enfiaram à força de repetir sempre a mesma cartilha, como outrora sucedia com a tabuada, na tentativa de contrariar a imutável lei da impenetrabilidade da matéria, para que a matéria escolar penetrasse a matéria cinzenta, estes pategos nada mais sabem dizer que necedades, sempre iguais a si mesmos e uns aos outros, muito satisfeitos da sua mediocridade, como um judeu que gritasse “Heil Hitler” porque julgava que assim salvaria a sua vida.Não se pode pedir a uma pessoa aquilo que ela não tem para dar, sobretudo aos socialóides, que na sua grande maioria aderiram ao partido para “receber”. Por isso escuso de esperar espírito de alguém que é pobre dele ou demandar discernimento a alguém desprovido do menor vestígio do que isso seja – excepto na mira de tentar tomar posse daquilo que pertence a outros. Que foi o que essa gente sempre por cá fez, a começar pelo chefe Soares, que guardava numa conta pessoal os donativos dos partidos irmãos da França e Alemanha, e a acabar nas nacionalizações/roubo, pois nada deram por aquilo que tomaram. Os Varas, iguais aos Dias Loureiros, em bancos diferentes perseguiram um mesmo fim: roubar ao máximo. E porque Sócrates quis proteger o bloco central, nada como nacionalizar o BPN, roubando-nos a todos como Loureiro saqueara os seus depositantes. Mas Dias Loureiro sabia muita coisa que a Sócrates convinha desconhecêssemos.É para isso que existe propaganda – e patetas para a papaguear.

          1. Caro Manuel,Na sua análise omitiu a fantástica supervisão do regulador da época, Dr. Victor Constâncio, agora empoleirado no BCE … Só por si daria um post.Ensonado ou não, o seu “regresso” foi muito acarinhado até pelo T, à sua maneira. Cumprimentos,M

          2. Estimada Mónica,Está coberta de razão. Constâncio teve a sorte (e nós o azar…) de nascer com aquela cara de quem não parte um prato, tal como Sampaio, que lembra um bebé chorão do “Biaggio Flora” (loja de brinquedos que já não é do seu tempo), ainda que algo defeituoso nas proporções cranianas e ainda lactente já devia gastar da Chapelaria Roxo (números grandes), em vez do Adão Juvenil.Mas Constâncio, essa apoteose da mediocridade, foi cúmplice na monumental mentira com que Sócrates iniciou o seu consulado. E esteve calado que nem um rato (como afinal é por dentro, todo ele) enquanto nos despenhavam no vórtice que agora obriga à obediência de estrangeiros – e finalmente obedecendo a alguma coisa que faça algum sentido.Daqui a uns anos, a mais distância, veremos melhor o que foi a loucura insana (pleonasmo ainda assim pouco enfático) desta gente, com Constâncio de guarda à cancela. O BPN é só um caso, mas os milhões são a perder de vista. E o supervisor, numa brilhante dedução, ainda se queixou que a culpa era… dos ladrões e não dele, o “polícia”. Por mim, tinha-o posto a fazer rondas nocturnas à estátua do Terreiro do Paço, como antigamente se castigavam os guardas municipais mais ralaços. As parvoeiras do T são como que uma agulha magnética que faz manter-me no rumo, por saber que estou a dizer as coisas certas pelo modo como reage. Não tenho muitos medos na vida (até porque o medo é um inimigo interior, não um perigo real) mas talvez me sinta assustado no dia em que aquela alminha se chegue amistosamente a mim. Já vi o fim do “fascismo”, o fim do comunismo, estou a assistir ao fim da UE – já tenho a minha conta. Ter o tal liliputiano mental a concordar comigo é algo deveras assustador, que peço aos deuses nunca suceda.Cada um é para o que nasceu, tal como as moscas têm a serventia de nos testar a paciência. E temos que concordar que esse exercício é bem útil, pelo que o socialista faz aqui muita falta.Sabe o que a Mónica suscitou em mim? Que fosse buscar um volume das obras completas do Vieira e voltasse ao convívio com o maior dos oradores portugueses. Ainda agora nos conhecemos e já lhe sou tão devedor.Com amizade, doManuel

          3. Caro Manuel,Estou (quase) sem palavras … considero o Padre António Vieira um visionário e um maravilhoso registo. Nas mãos certas, muito gostaria que fosse, também, uma inspiração de trabalho.A sua prosa levou-me intuitivamente ao Padre António Vieira (sublinho intuição) e, quem sabe, a boa surpresa da minha resposta o sugestione, a si, a entrar noutro mundo, para ver o documentário que repudiou como ideia. Com carinho,M

          4. Estimada Mónica,É tão verdade (rara é a semana que não profiro o anexim) que “uma palavra dita sem se pensar primeiro é como uma pedra atirada de olhos fechados”.Peço desculpa que a minha impensada “pedra” a possa haver ferido, ao de leve que fosse. Reparei na altura que teve o cuidado de prevenir que não era um filme do Moore, com ponto de exclamação e tudo, para diferençar o documentário que propunha dos desse Louçã morbidamente obeso, ou imagem simétrica do Rumsfeld, naqueles espelhos da Feira Popular, que reflectiam distorcidamente a silhueta daqueles que se contorciam de riso com o grotesco da coisa. Olho para um e para o outro e leio-lhes aquele mesmo lumezinho no olho, que me faz não acreditar numa palavra que digam, se os ouvisse com gosto ou atenção, o que nunca foi o caso. Vi curtos excertos do filme de Moore e talvez num “60 minutes” o falcão americano a tentar levar-nos à certa – e chegou-me de um e outro. O Louçã nem o vejo, porque raramente ligo a televisão. Imagino o que seria o Bloco de Esquerda – esse alguidar de lacraus que se detestam uns aos outros – a governar.Assim como leio “para trás” (Proust, Wenceslau de Moraes, etc. mais Gedeão) e oiço música “para trás” (Puccini, Schubert ou Beatles) – em matéria de filmes, não vou a um cinema há bastante tempo. E fujo da invariável manipulação dos filmes políticos, tal como nunca visto uma T-Shirt com dizeres, porque me irrita levemente servir de placard publicitário (“I love NY” e coisas do estilo), também evito perder o meu tempo a tentar formar uma nova opinião sobre a política, um tema que Maquiavel esgotou com brilho e eficácia há 500 anos, mesmo dando ao caso (e aqui cito a sua expressão) “o benefício do tempo”, que realmente resolve muita coisa, mas infecta não menor porção de matéria – ainda que os homens se mantenham iguais no essencial, enquanto ao menos as épocas foram mudando. Prefiro portanto ler “para trás” e voltei recentemente ao Maquiavel, numa esplêndida edição de “O Principe”, que me deram de presente há 30 anos – e que presente, porque é uma edição anotada por Napoleão, cujo volume foi encontrado na sua carroça saqueada por militares, no fim do dia de Waterloo e depois de muitas peripécias foi parar às mãos de um abade que teve a paciência de, através da caligrafia do corso, situar os comentários nas épocas do generalato, consulado, império e Ilha de Elba. Ao pé disto, o Moore não desperta o menor interesse, nem creio que daqui a 5 séculos alguém sequer saiba quem foi o enxundioso cineasta, quanto mais o que ele disse ou deixou de dizer.É bem verdade que temos sempre o poder de escolher. De facto somos mesmo a soma das nossas escolhas. A minha não é certamente a mais feliz, só que é a minha, acertando umas vezes, enganando-me outras, mas o erro é em si mesmo aprendizagem, portanto tem razão de ser. Se me diz que o filme é bom, irei tentar o download (aventam-me sempre que isso é roubo, mas fui criado no tempo em que gravava da telefonia o “Em Órbita” e mesmo no ominoso regime que antecedeu a transparente luminosidade deste, tal não era delito, por isso dispenso-me de pruridos e se for crime, não o ponham na net) e verei se a Mónica me dá azo a ter o gosto de lhe pedir desculpa – como agora o faço, repeso, pela insensata rejeição de um alvitre tão simpaticamente expresso quanto levianamente rejeitado.Com sincera gratidão, doManuel

          5. Caro Manuel,Não é justa a analogia entre Maquiavel e um bom documentário recente; mas o Manuel interesse-se sobre a actualidade. Refugia-se mas não é autista, pelo contrário, tem ideias claras e está muito informado.O registo proposto oferece-nos um olhar inteligente (e um pouco técnico) sobre as origens desta crise medonha que assola o mundo e nos esmaga a todos, deixando um rasto de vazio colectivo. Confesso que já estava longe do assunto (só o Filipe foi receptivo à sugestão), mas a minha natureza (feminina) não resistiu ao sorriso da alfinetada … especialmente porque encontrei o António Vieira. Tenha uma óptima noite,Mónica

          6. Prezada Mónica, (temos que fazer alguma sobre estes vocativos, tão complicados, tão sensaborões em que a nossa língua, normalmente copiosa e expressiva, é exígua (ainda que o galaico-duriense haja infelizmente conservado os horrendos palatais “ch”, “lh” e “nh” ou os cacofónicos nasalados “ão”, que Beckford descrevia ao amigo como “semelhantes ao som que se obtém batendo com um pau numa grande folha de latão”). Que felizes são esses que se servem da língua inglesa, onde mesmo homens de negócios podem decentemente tratar-se por “dear” sem receio de levantar suspeitas sobre a sua virilidade, tanto quanto por cá o “querida” se presta a afigurar amorosa uma carta que apenas pretende ser amável. Não consigo, positivamente custa-me, tratar uma senhora por “minha cara” sem ver… a minha cara, o que inibe qualquer vontade de prosseguir a carta, logo na primeira linha.Tal como não me sei despedir, como sucede com as cartas comerciais que recebo de senhoras, com “um abraço”, e que me deixam algo interdito, por o achar bem menos decoroso do que um beijinho, porque não se abraça uma senhora a quem não nos liga uma intimidade que está muito além da inocuidade de um beijo. E entre beijo e beijinho também pressinto uma gradação que não é despicienda.Mas é claro que quando todos pensamos do mesmo modo, isso significa que não se está a pensar muito. Por isso, esforço-me por saber dar-me na perfeição com os outros, sem deixar de conviver pacificamente comigo mesmo.Tudo resumido, já inferiu que regressi de um copioso jantar – não bebido, apenas cansado, (nunca me empiteirei, garanto-lhe) – mas não consigo deitar-me sem passar aqui a responder-lhe e ao Filipe, que me pareceu tão desanimado, que de bom grado troco uns minutos de sono pelo remorso de lhe não responder. Mas as senhoras primeiro, até porque o plectro das suas palavras pede eco, ainda que hoje me sirva em parte de algumas que só são minhas no sentido translato do termo, pois foram escritas por outro, ainda que sentidas por mim há muitos anos, só que não as vertera ainda no papel – nem o saberia fazer com a maestria que lhes valeu algumas sístoles no meu músculo cardíaco, que se convencionou abrigar a nossa sensibilidade, como no Antigo Egipto estava estipulado que os sentimentos eram gerados no fígado.Depois deste confuso e espraiado proémio, asseguro-lhe que concordo com a sua primeira alegação, não só porque em caso nenhum se contradiz uma senhora – mas sobretudo por que lhe assiste válido fundamento. Realmente comparar Maquiavel com um filme lembra um pouco aqueles absurdos problemas em que se pedia somássemos metros quadrados com litros, e metros lineares com graus centigrados, coisas assim, sem qualquer relação entre si e utilidade para mim, pelo menos até ao dia de hoje.Aproveitei para fazer o download do “seu” documentário, que verei amanhã, pelo fim do dia, pois o tenho todo tomado e fora de portas.Não estou sem ver que quando estou carente de “maternage” é no passado que a encontro. O futuro, como dizia alguém (Wilde?) é um lugar onde arrumamos comodamente os nossos sonhos, a maioria deles para nunca serem concretizados. Sobre o presente, chegaram-nos documentos com mais de 4 milénios em que a mesma vertigem que o Filipe agora sente e sofre já foi partilhada por outros, quase palavra por palavra. Não começou no tempo de Vieira – e nunca acabará.Claro que o passado teve coisas terríveis, e não foram poucas. Mas eu posso escolher, enquanto as presentes me são impostas e as futuras simplesmente podem nunca vir a existir.Perdoe as vulgaridades pela vontade que tenho de, lutando contra o sono, não deixar que o silêncio filho do cansaço seja entendido por descortesia.(continua)

          7. (continuação)Durante anos, todos os dias, quase uma vez por hora, cruzava-me com o Rómulo de Carvalho, no recreio do liceu. Era um bonito homem, daqueles que os franceses dizem “il s’observe”, com muito cuidado na sua apresentação e mesmo linguagem gestual, comedida, senão rígida. Mas dentro daquele espesso escafandro volteava uma borboleta, para me servir da metáfora do Bauby. Era a poesia, que já lhe vinha do Avô e até a sua irmã era uma boa poetisa, que se deixou disso quando casou, a instâncias do cônjuge, que preferia uma proficiente dona-de-casa, varredora e doceira, que uma inspirada vate, preocupada com a métrica e as anástrofes que lhe facilitassem a rima.Só muito mais tarde, quando saíram as suas memórias (700 páginas!) é que lhe conheci o melhor o retraído retrato (não resisto a um boa aliteração grega, figura de muito efeito estilístico!). Todos conhecem a “Pedra Filosofal” que o tornou mais popular, mas que confessava lhe “saíra” sem grande esforço – e também não é das minhas preferidas. And without much ado, aqui vão uns versos do Gedeão, que saberá expressar melhor que eu o poderia fazer, aquilo que pressente em mim.Resolvi andar na rua Com os olhos postos no chão.Quem me quiser que me chameou que me toque com a mão.E quando a angústia embaciarde tédio os olhos vidrados,olharei para os prédios altos,para as telhas dos telhadosAmador sem coisa amada,aprendiz colegial.Sou amador da existência,não chego a profissional.É mais ou menos esta a minha perplexidade existencial. Não cabe nela o medo pela crise nem dou a essa gente o crédito de temê-los. Decerto é uma vulgaridade dizer que “o sábio só tem um desejo: não ter desejos”. Esforço-me (hoje já nem esforço faço, quase me sai naturalmente) somente por não deixar abrigar em mim aversões (por isso, nem me preocupo em responder ao têxtil amigo-dos-pobres que continua por aí, a bolçar inanidades repletas de solecismos; o homem é assim, que lhe havemos de fazer?), não me temer de nada, viver simplesmente, dar mais e esperar menos. O meu Avô materno era presidente do conselho de um banco, num tempo em que esses cargos eram ocupados por gente honesta, morreu em 60, a minha Mãe sempre viveu com parcimónia, eu tinha ali, à espera dos meus 21 anos, uma razoável fortuna em acções, que o Tribunal de Menores me impedia de tomar posse, por lei. Só que fiz anos em Setembro e os capitães preocupados com sua escala de promoções deram o golpe de estado em Abril, pelo que em Setembro me limitei a apagar as competentes velas e seguir em frente. Só preciso do dinheiro suficiente para não passar fome e se um dia tornar a perder tudo o que tenho, desde que me tenha a mim, já não é mau de todo para recomeçar.Quando ardeu o enorme pavilhão onde Edison guardava praticamente tudo o que tinha, além de mil planos para futuras patentes, chamou o filho com alguma vivacidade. Este julgou que iria ouvir tudo, menos o que ouviu:– Vai chamar a tua mãe. Ela nunca mais terá oportunidade de ver um espectáculo desta magnitude, um incêndio assim!Isso é que é ser homem. Posso fazer mais uma citação, a última da noite? É do Lampedusa, um dos meu heróis (tenho um fraco pelos artistas que não foram reconhecidos em vida, ao contrário dos Saramagos e outros fátuos que por aí peroram, tomando-se a sério eles mesmos. Se não leu o livro, deixe-me que lh’o dê. Compro-o na Ferin, por exemplo, e fica em seu nome próprio. Quando suceder lá passar, pede e recebe-o. Parece-lhe um plano bem traçado?Aproveito para lhe juntar a gravação do Sermão aos Peixes, uma hora com o Ary, já talentoso e mariquinhas (não tinha culpa, aquilo já lhe vinha do pai) ainda não comunista. Vale a pena ouvir, tem eco e tudo, como no púlpito de uma catedral.(continua)

          8. (fim)Ora relembre estas linhas do Padre Pirrone, capelão do Salina, num diálogo com um ervanário adormecido, portanto um monólogo quase:~“(…) Vede, Dom Pietrino, os “senhores”, como dizeis, não são difíceis de entender. Eles vivem num universo particular que foi criado não directamente por Deus mas por eles próprios durante séculos de experiências especialíssimas, de aflições e alegrias muito suas; eles possuem uma memória colectiva bastante robusta e por isso perturbam-se ou alegram-se com coisas que a vós e a mim não importam nada, mas que para eles são vitais, porque são postas em relação com este seu património de recordações, de esperanças, de temores de classe.(…) Com isto não quero dizer que são maus: muito pelo contrário. São diferentes; talvez nos pareçam tão estranhos porque alcançaram uma etapa para a qual caminham todos os que não são santos, a do menosprezo dos bens terrenos devido à saciedade. É talvez por isso que não ligam a certas coisas que a nós importam muito; quem está na montanha, não liga aos mosquitos das planícies, e quem vive no Egipto, descura os chapéus-de-chuva. O primeiro porém teme as avalanchas e o segundo, os crocodilos, coisas que a nós pelo contrário pouco nos preocupam. Para eles, contam novos temores que nós ignoramos: já vi Dom Fabrizio aborrecer-se, ele, homem sério e sensato, por um colarinho de camisa mal passado a ferro; e sei de fonte segura que o príncipe de Láscari com o furor não dormiu uma noite porque num jantar na lugar-tenência lhe deram um lugar errado. Ora, não vos parece que o tipo de humanidade que só se perturba com a roupa branca ou com o protocolo é um tipo feliz, e portanto superior?(…) Estes nobres também têm pudor dos seus problemas: já vi um, coitado, que decidiu matar-se no dia seguinte e tinha o ar sorridente e brioso como um rapaz na véspera da Primeira Comunhão; (…) A ira e a ironia são senhoriais, a elegia e o queixume, não. Aliás, até vos dou uma receita: se encontrardes um “senhor” choroso e lamuriento, olhai bem para a sua árvore genealógica: dareis logo com um ramo seco.Uma categoria difícil de suprimir, porque no fundo se renova continuamente e porque quando é preciso sabe morrer bem, ou seja, sabe lançar uma semente no momento do fim.Olhai a França: deixaram-se massacrar com elegância e agora ali estão como antes, digo como antes porque não são os latifúndios nem os direitos feudais que fazem o nobre, mas sim as diferenças. Contaram-me que agora em Paris há condes polacos que as insurreições e o despotismo constrangeram ao exílio e a miséria; são cocheiros, mas olham para os clientes burgueses com tanta altivez, que os desgraçados entram para as viaturas, sem saberem porquê, com o ar humilde de cães dentro de uma igreja”. (…)Não quero com isto presumir que sou “senhor”, a minha árvore está cheia de ramos secos, mas a minha preocupação não é superior aos outros, como algumas considerações são por aqui tecidas por artesões desse ofício – mas tornar-me, dia após dia, superior a mim mesmo. É isso que me interessa. E não são os socialistas ou sociais-democratas deste torrão à beira-mar empenhado, que me farão vacilar um momento. Vivemos em frequências diferentes, eles transmitem em onda curta, só recebo em frequência modelada. Sem me fazer valente, quando encontro algum ministro no meu trabalho, trato-o com urbanidade, porque ali não estou eu, está um representante da firma. Mas se mpre que vejo um Soares ou Sá Fernandes, lixo desse, digo-lhes na cara o que penso que são – e devo pecar por omissão de muita coisa que não sei.Perdoe o comício, e baixar o nível da conversa ao deixar nela entrar gente deste jaez.As minhas musas já devem estar todas no seu “beauty sleep” e não lhes posso exprobrar isso, a hora é de dormir, e vou deitar o Manel, assim que deixe umas palavras no nosso consternado Filipe.A si, que dorme no mesmo sossego que as minhas musas, atiro daqui um aceno às estrelas, desejando que elas continuem a dar o seu magnificente e gratuito espectáculo silente e sideral, por muitos e bons.Deste seu amigo, tão recente quanto admirador,Manuel

          9. Que bom e que boa surpresa; a Ferin parece-me um óptimo plano. Até agora, fiquei com um ligeiro desconforto causado pela deselegância da minha “sorridente alfinetada”. Não é tanto a crise que me incomoda mas a total ausência de integridade, valores e amor pelo próximo a que a condição humana desceu; o senhor seu avô ficaria aterrado com a actual perversão dos princípios e, pior que tudo, concluí que o equilíbrio está a uma galáxia de ser restabelecido.Porque fui perdendo clarividência até ao nevoeiro denso, interessei-me pelo momento económico, vi todos os filmes sobre o assunto, documentários e afins (Moore incluído) sobre o que nos assola, sobre esta energia negra e descontrolada que paira sobre as nossas vidas, sobre o espírito de alguns. A ausência de vislumbre, o imenso nada e o desequilibro sentido foram os motores do meu interesse. Em certa medida e com as respectivas reservas, de todos os registos retirei novos elementos de consciencialização e percepção sobre o jogo financeiro que secou o mundo, os invertebrados que o jogaram e continuam a jogar, sobre as consequências na vida real das pessoas. Como sabemos, não é coisa circunscrita, é global, planetária; estamos perante o fenómeno da perversão de valores, disseminada e instalada à velocidade da luz. Não é o erro, é perversão. O Manuel colocou-me no lugar, isto é, dentro de mim outra vez. Devolveu-me alguma paz e agradeço-lhe muito por isso. Também eu deixarei na Ferin, ao seu cuidado, um pequeno grande deleite da alma que sei que o vai tocar. Por tudo (também pelo meu desconforto de ontem), escolhi um pequeno texto de alma feminina e simplicidade absoluta para lhe deixar …”Ao fim são muito poucas as palavras que nos doem a sério e muito poucas as que conseguem alegrar a alma. São também muito poucas as pessoas que tocam o nosso coração e menos ainda as que o tocam muito tempo.E ao fim são pouquíssimas as coisas que na nossa vida a sério nos importam: poder amar alguém, sermos amados e não morrer depois dos nossos filhos.”Amália Bautista CUÉNTAMELO OUTRA VEZ (1999)Um beijo amigo,Mónica

          10. Ora viva!Sabe uma coisa? Eu até não desgosto que apareçam outros posts, porque assim podemos ficar aqui a falar – até a Mónica se fartar, porque falo sempre bastante, ainda não aprendi a dizer coisas sem usar palavras – no sossego desta sala, tal como por vezes sucede nas festas, em que depois de muito ruído, todos se afastam e fica-se ali a falar com um amigo – olhe, um bocadinho o que sucede com o Salina na cena do baile, em que se retira para a biblioteca e vai lucubrando perante um quadro que representa um homem moribundo, com a família à sua volta, a ponderar como serão os seus próprios últimos momentos. Eis-nos aqui, tranquilamente, enquanto o homem-das-palavras-de-ordem (já reparou como só diz lugares-comuns, como aqueles que gritam nas manifestações slogans cretinos, em rimas absurdas, repetidas até à exaustão [“Se querem união, não nos tirem o pão!”] e outras megafónicas palermices, a que chamam “luta” – muitos desertaram, durante a guerra do Ultramar?) lá estará assolando os outros que vêm dar a sua opinião, melhor ou pior, para esse litigante compulsivo despejar logo duas bacoradas, sem pelos vistos jamais haver ouvido a famosa frase de Emerson, “aquilo que fazes fala tão alto, que nem oiço aquilo que dizes”.Passei hoje na FNAC e comprei uma maravilha “Le Concert Espiriturel” de Corelli, Telemann e Rameau, que ouvira no outro dia na Emissora 2, e é de auscultadores que lhe escrevo.Logo de manhã telefonei para o João Paulo Dias Pinheiro, a encomendar o seu livro. Diz que deve demorar uma semana. É claro que na FNAC, onde fui ao fim do dia, encontrava-o de certeza, mas não da edição que eu quero – além que sinto o dever moral de ajudar a Ferin quanto possa, um pouco ao estilo do “You’ve Got Mail” (viu? Se não, faça download  porque é uma curiosa comédia, apesar de um remake da “Shop Around The Corner”, do fim dos anos 30).Desta forma, os leopardos (aproveitei e encomendei mais dois, para o que der e vier) só descerão à Baixa pombalina dentro de dias.Ainda bem que apreciou o meu plano – e vai gostar do livro, certamente. Por norma, não costumo fazer grandes encómios para não criar enormes expectativas, mas o Lampedusa é mesmo um caso fora de série. Quando li o livro pela primeira vez, procurei tudo o que havia sobre a figura do autor, e creio que estarei sofrivelmente informado, pelo menos assim o constato quando de longe em longe o assunto vem à baila, na mesa de almoço do clube, ou noutro lado, e eu vou talvez um tanto mais longe que os outros. Ainda há uns tempos houve um que teimou comigo num pormenor, ao ponto de querer fazer uma aposta, que é algo que não me sucedia desde a adolescência. Admirado, aceitei “apostar”. Passados uns dias, veio ter comigo e disse:- É a primeira vez que perco uma aposta!Olhei-o atónito, sem saber porque é que ele me estava a contar essa “desgraça”, pois já nem me lembrava do caso. Então relembrou-me da conversa semanas antes e fiquei a era melhor exteriorizar a honra de lhe haver ganho a primeira aposta na vida dele.Bem, vamos finalmente falar de si. Esta desconfortável? Foi deselegante? Então só mais uma pergunta: acredita em mim? Se for o caso, digo-lhe que não senti nenhuma alfinetada, com toda a sinceridade. A ironia deve ter sido tão subtil, tão feminina, tão educada, que nem notei. Não é que não leia os seus belos textos com cuidado e deleiter, mas devo ter interpretado a alfinetada como algo bem mais inofensivo, e portanto não houve deselegância, o que implica que não sinta desconforto.(continua)

          11. Sobre aquilo a que a condição humana desceu… não creio que haja decaído tanto assim. Crê que o tempo do meu Avô não havia gente má, péssima, vil? Então deixe-me dizer-lhe uma coisa. Aquilo era tão mau que ele ficou aterrado logo naquela época, não precisaria de esperar pela nossa. Vivia num palacete cujas traseiras deitam para a rua de S. Marçal, mesmo em frente do British Council, (que era a casa do Alves dos Reis, o escroque que conseguiu ludibriar a Waterlow no fabrico das notas portuguesas) e como o Avô era cônsul honorário da Bélgica (filho de um belga que fundou o Banco Burnay com o conde do mesmo título), tinha uma bela bandeira na varanda do andar nobre, como se usa nas embaixadas. Mas ainda assim, os tempos andavam tão turvos, que achou melhor pôr-se ao fresco (no sentido figurado e directo), que os revolucionários não eram propriamente timoratos em criar incidentes diplomáticos, sabiam lá onde era a Bélgica, quanto mais que bandeira teria (porventura pensariam ser algum clube, o Oriental ou assim) e pregar-lhe um balázio. Porque alguém do governo o aconselhou a sair de Lisboa, que vinha aí algum pronunciamento, daqueles em que a 1ª república era pródiga (havia de sê-lo em alguma coisa), agarrou na família e zarpou para o Monte Estoril, que nessas eras se podia considerar um remoto recesso. Como dizia, admirado, um revolucionário qualquer: “Que ameno país é Portugal, onde a sua Sibéria é na ilha da Madeira!”Por essa razão a minha Mãe no nasceu lá, na famosa Noite Sangrenta (19 de Outubro de 1921), em que uma camioneta-fantasma, atulhadaa de marujada amotinada, alcoolizada e sanguinária (dois líquidos deveras miscíveis) e chefiada pelo “Dente-de-ouro”, andou por uma Lisboa escura e amedrontada, recolhendo de suas casas e mandando desta para melhor Machado dos Santos (o Otelo de então), António Granjo, chefe do governo resignatário, o José Carlos Maia (uma espécie de conselheiro da revolução) e outros, tudo ao bom estilo soviético, com uma bala na nuca.O Alfredo da Silva, avô do Jorge de Mello, equivalente ao que hoje seria o Amorim (pessoa que nem se sabe estar à mesa) sofreu três atentados.Quer que pare? Os exemplos são infindáveis.Aquilo de que a Mónica se queixa é de ser vítima de uma espécie de Matrix, uma lavagem ao cérebro, que faz dos fumadores uns criminosos quase assassinos, do políticos corruptos exemplos morais que ganham eleições – e dos mariquinhas uns heróis (nada tenho contra eles,coitados, desde que sejam como os de antigamente, que eram sossegados, sem espevitamentos amaneirados: um Marco Paulo, que se chamava Tucha no começo de carreira e parecia que tinha um “caniche” cravado, com unhas e dentes ao crânio, de tal forma os caracóis se sobrepunham em cachão ou o António Calvário, de sobrancelhas retocadas e ademanes ridículos que até mulheres desdenhariam compor, eram suportáveis porque não alardeavam, mais que isso, a sua “orientação sexual” como hoje dizem os desorientados nesse particular. ~Mas estavam sossegados e limitavam-se a agradecer os aplausos depois das actuações, em vez de se portarem como o Carlos Castro, que acabou mal. João Paulo II, dizia, com toda a razão, que eram pessoas que devemos tratar com respeito e caridade, porque sofrem – o que os deixava fulos).Tenho um cunhado 10 anos mais novo, belo profissional, que agora ensaia comigo a tentativa de um negócio em que precisamos de contactar com gente do governo. A Mónica não imagina – decerto imagina! – o nada que aqueles sujeitos são. Olho para eles e só me ocorre a cena da tentativa de suicídio do Rei Lear, por estar momentaneamente cego. Pediu para ir passear pela mão do tontinho da aldeia, para se atirar de um penhasco e acabar com ele. Quando um dos criados lhe fez notar como era perigoso ele confiar-se a um demente, responde o Lear, furibundo:- Tristes tempos estes, em que os cegos são guiados por loucos!Passaram 500 anos e não pode ser mais actual – porque os homens não mudam. No acessório, parece que sim, mas essencial nem para melhor nem para pior.E quando lhes escrevo mails, o meu cunhado arrepia-se um tanto por eu não me usar do “politiquês”. Aqui ou ali, transijo, mas nunca me impeço de dizer o que penso e não me tenho dado mal com isso. (continua ainda, desculpe!)

          12. (finalmente, o fim)Se ganhar, muito bem, não foi trabalho em vão; se não tiver que ser, paciência. Repito-me quase diariamente “Apego é limitação, desprendimento é expansão”, e por isso – como dizia Salazar – por muito pouco estou preso à roda da fortuna. O que é uma sensação óptima, de libertação.O luxo de uma geração torna-se indispensável à seguinte: hoje ninguém consegue passar sem televisão, e cá para mim, ela é em grande parte responsável por aquilo que a Mónica e tantos sentem. Há uns dias de calor? Fazem logo um mapa de alertas vermelhos, laranjas, etc. Tente amanhã, se tiver paciência, ver um telejornal com um papel ao lado, apontando de um lado as boas notícias, a puxar por nós, e as más, a deprimirem-nos e há-de constatar a desproporção. Para já não falar naquilo que se queixava o Marcelo Matias, quando era embaixador em Paris: num dia de crise qualquer, com mortos no Iraque, raptos não sei onde, desgraças, para o nosso telejornal dedicar os primeiros 15 minutos à saída do Jardel (era um futeblista) do clube para o estrangeiro. É estupidificante demais, e por isso preferível que eu faça por vezes figura de marciano, sem saber o que por aí vai – do que andar acabrunhado por causa da troika (antigamente um trenó russo puxado por 3 cavalos, depois 3 juízes da NKVD no tempo do Lenin e agora é um misto disso, eles os comissários políticos que decidem a nossa sorte e nós as alimárias que puxam a carroça).A parte final do seu texto é mais difícil de comentar, pois toca-me. Sempre lidei menos bem com elogios, não sei se por ouvir em pequeno “não se faça interessante!” ou porque a nossa crença judaico-cristã ensina que somos pecadores e seremos pó, tudo coisas que não constituem a minha ambição de vida. Aliás, fiz outro diz um teste (acho que lhe contei) chamado “Dilema de Valores) em que tinha que escrever 20 qualidades que prezasse. Só no fim, vi que “ambição” não me ocorrera.Mas fico feliz por me dizer que a ajudei, fico feliz do fundo do coração – porque na quieta mudez dos nossos monitores, as palavras silenciosas são talvez mais expressivas que aquelas que se dizem e expiram no segundo seguinte. A expectativa do presente também me alvoroça um tanto – e a sua citação é muito bela, ainda que tocada de uma tristeza que deve sacudir de si quanto possa, ou seja, sempre. Os orientais dizem “as aves da tristeza podem voar à volta da tua cabeça, mas nunca as deixes poisar” – ou mais eloquente ainda – “rio calmo, margens floridas”.Devolvo-lhe com prata da casa, do Eça/Fradique: “Mas nós que vivemos neste globo, formamos uma imensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma Natureza inconsciente, impassível, mortal como nós, que não nos entende, sem sequer nos vê, e donde não podemos esperar nem socorro nem consolação. Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, suma divina de toda a experiência humana: “Ajudai-vos uns aos outros!”Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam –– cada um ceda metade do seu pão àquele que tem fome; estenda metade do seu manto àquele que tem frio; acuda com o seu braço àquele que vai tropeçar; poupe o corpo daquele que já tombou.E se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas simpatia de almas, que as almas se abram para ele, transbordando dessa simpatia… só assim conseguiremos dar alguma beleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte.”É essa simpatia que lhe devo e agradeço.Um beijinho amigo doManuel PS – Quando ontem à noite lhe ia enviar isto… deixei de ter ligação à internet. Caiu-me a alma aos pés, cheguei a encomendar-me a Santo André Avelino, o patrono da morte súbita – até me lembrar que o meu “rio” não podia transbordar, sob pena de roubar o perfume das flores que o ladeiam, e como sabe, “esse perfume é o pensamento das flores” (zen), por isso respirei fundo, deitei-me, dormi, acordei com um Sol coruscante, vou daqui ao Alentejo, mas antes vim deixar-lhe este meu preito de gratidão.Tenha um dia feliz como a luz que faz: claro, diáfano e leve. 1 b.

          13. Bom dia Manel,É sempre maravilhoso abrir esta caixa de Pandora e ver uma mensagem sua. Vi “You’ve got a mail” e vi, também, “O Leopardo” do Visconti. Tenho o livro (edição da Teorema, Tinta Permanente) que confesso nunca ter lido; já o tirei da estante e está ao meu lado. Tenho a “teoria” de que não somos nós que encontramos os livros mas o contrário, são eles que nos encontram a nós. Enfim, tolices …Ontem, também eu andei na FNAC a tentar (arduamente) encontrar a primeira obra que intui para si. Claro que já não existe; era editada pela Erato, que uma vez comprada pela Universal (?), foi colocada e permanece em arquivo, muito bem guardada e distante até virar poeira, com sorte, poeira cósmica. Deixarei na Ferin, talvez ainda hoje, o meu exemplar manuseado. É uma obra alquímica, uma fusão perfeita de elementos interpretada por duas almas unidas sob o manto da paixão (soube anos depois). E agora que não me apetece, terei de mergulhar rapidamente no mundo lá fora, à minha espera. Um beijo,MónicaP.S. Também eu gosto do “fim de festa”, mais precisamente, é a minha parte favorita das festas. A propósito de luz, embrei-me de um texto do Raúl Brandão mas, infelizmente, terei de deixar para mais tarde … A vida imediata atropelou-me.

          14. De regresso … depois de um dia bonito, oxigenado e luminoso. Consegui passar na Ferin (aguarda-o um pequeno embrulho branco) e foi muito engraçada a reacção do João Paulo Dias Pinheiro, que vou tentar ilustrar: – Senhor João Paulo Dias Pinheiro?- Sim, sou eu- Posso deixar para Manuel B? (entrega do pequeno embrulho)- E quem deixa?- Mónica A – Sabe a quem posso telefonar a avisar?- Não tenho ideia. Acha estranho? (não resisti à possibilidade de uma boa resposta)- Já não faço perguntas – respondeu.- Dou-lhe uma pista … Este senhor fez uma encomenda recente de 3 ou 4 livros do autor Lampedusa…- Sei muito bem quem é … (de telefone na mão) vou ligar já- Não, não … não precisa, eu avisarei- A senhora avisa?- Sim, não se preocupe- Então deixo em cima da minha secretária à espera…- Sim, por favor faça isso.Boa tarde, boa tarde.De antologia … ao fim, espero que não lhe dê o mesmo destino que ao “Inside Job”; pelo menos é Bach (sorriso).”Rio calmo, margens floridas” … bom, na realidade tem dias; também ainda estou sob o efeito da conclusão de um processo nada fácil, que exigiu força, persistência e negociações várias num curto espaço de tempo. Não poderia ter acabado melhor mas, em mim, os ecos do percurso persistem algum tempo. Vou registar o seu sábio conselho; se através das minhas palavras sente peso, tal deve corresponder à verdade e peso é coisa de que uma senhora foge como o diabo da cruz.Deixo-lhe o texto do Raúl Brandão para despedida de um dia de luz bonita:”Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia – mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer – e eles vão morrer. A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei – o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) – é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.Se vale a pena viver a vida esplêndida – esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? … Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.” Um beijo,Meg Ryan

          15. [aviso prévio: estive a escrever, entretanto ao telefone e voltei ao texto para lhe enviar. Só há um minuto vi o seu comentário que ainda nem li. Mas de relance vi a assinatura. Garanto-lhe que não retoquei o texto, nem preciso de escrever isso em maiúsculas. Vou deixar este e depois ler o seu. Há desencontros – que são como encontros…]Deveras prezada Mónica,Com que então pode haver-se dado o caso de nos termos cruzado na FNAC? Sabe que tenho frequentes manifestações mediúnicas? E no entanto, não sinto a menor inclinação para o assunto nem alimento pretensões a Crowley. Mas sucede-me quase diariamente (não é exagero ou força de expressão, acontece mesmo) ligar pelo telefone para uma pessoa que me responde de lá:- É espantoso! Estava agora mesmo a pensar em ti… ia ligar-te – e eis que recebo uma chamada tua!Já nem me dou ao trabalho de responder qualquer coisa. Pode parecer-lhe um tanto “gaté”, só sei dizer que é a pura verdade, é raro o dia em que isto não ocorre. A lotaria é que anda um tanto arredada, essa sim, seria uma boa coincidência, a de acertar no décimo premiado. Mas não gosto tanto de dinheiro como isso, um dia há-de ser.Se calhar estive ontem logo atrás de si, para pagar, ou subir na escada rolante. E isso sim, tem a sua emoção – e encanto.Além da graça do entrecho, o filme “You’ve Got Mail” tinha a presença cativante da Meg Ryan, que exala uma feminilidade muito bem escolhida pela produção, em vez de outras vedetas, talvez mais bonitas e cheias de sex-appeal mas sem essa aura despretensiosa que quadra na perfeição para o papel. No “The Shop Around The Corner” que inspirou este remake, os enleados à distância que se detestam ao vivo servem-se de cartas, em vez de computador e lá aparece (em Budapeste!) o James Stewart, que sempre achei um bocadinho canastrão, tal como o Hanks que é bom actor, mas quanto a mim – medíocre cinéfilo – tem “caligrafia própria” na maioria dos papéis que interpreta, talvez com excepção do “Forrest Gump”.A edição do “Leopardo” que considero melhor é mesmo essa da Teorema, sem a Claudia Cardinale na capa, o que tira muito da seriedade à obra, porque ela vale mais pela beleza e frescura que na verdade empresta à personagem Angelica, mas não representa lá muito bem, a morder o beicinho durante meia hora, quando da cena da apresentação em Donnafugata. Afinal ela era apenas uma Miss-qualquer-coisa, mistura de sangue italiano e tunisino, a que o Visconti, apesar de não ser grande apreciador de mulheres, deitou a mão para os seus filmes. Este em particular vale mais pelas paisagens e décors que pela representação. Os produtores queriam que fosse Laurence Olivier, Visconti teimou que fosse Burt Lancaster (por cá conhecido pelo “Bruto Lancaster”, de tal forma esse ex-trapezista era fisionomicamente pouco expressivo), porque na verdade é a cópia viva do bisavô do Lampedusa, que é o inspirador do personagem Salina. O Delon parece-me um tanto excitado demais, sempre aos saltinhos e pouco credível, além de ter uma posição a cavalo que até faz impressão, de tão má. Mas o Visconti estava apaixonado e o amor é cego.Fico portanto sem livro para lhe poder deixar em troca daquele que me empresta (nunca perdi um livro que me emprestassem, mas é por mais sabido que isso é imprudente, como dizia aquele escritor francês: “Os livros são os meus mais seguros amigos, dizem-me tudo o que deles quero saber, nunca mudam de opinião, ouvem os meus segredos e não os contam a ninguém, só têm um defeito: se os empresto, zangam-se comigo e nunca mais voltam”). Vou pensar em algo que possa gostar, mas antes tenho que lhe perguntar, porque já vi que tem uma biblioteca bem provida.De qualquer modo, como amanhã almoço para os lados do Chiado, deixo na Ferin a gravação do Ary. Conto que chegue em boas condições, pois não sou grande habilidoso no iTunes.(continua)

          16. (continuação)Hoje estou um tanto lerdo, não sei se da quilometragem feita, se de me haver expressado em inglês durante todo o dia. E amanhã, pelas 8 e pouco, tenho de estar equipado no Holmes Place, pronto para despender a minha energia em todas aquelas máquinas inventadas para nos obrigarem a fazer agora o esforço que nos foi poupado por outras máquinas, que nos deixaram flácidos e barrigudos. Portanto estamos sujeitos a ter aparelhos para nos deixarem engordar e outros para nos obrigar a emagrecer. E a carteira, essa, emagrece mesmo.Estou curioso (coisa que nem é muito costume) por saber que livro será o seu. Perdoe que hoje esteja tão insípido como o James Stewart. Há dias assim, como dizia o Aleixo (“Lá tinha que vir poesia!” quase a oiço daqui): “Depois de um dia tristonho/Cheio de mágoas e agonias/Vem outro, alegre e risonho/São assim todos os dias”).Acho que já lhe disse que só envio coisas que saiba de memória, senão seria fazer batota. Bem, o trecho do Eça não era o caso, mas poesia é sempre. Decoro uma por semana, para tentar combater a degenerescência, “your brains use it or lose it”, etc. e tal.Um beijinho amigo doManuel

          17. Por favor leia a continuação do texto de 15 de Nov, enviado por equivoco para mim própria às 0.50 de dia 16.

          18. Querida (pronto, fica “querida”, em tom amável, como eu escrevia aos meus irmãos ou escrevo ao meu Tio Diogo, de quem creio já lhe falei) Mónica,Tenho tanto para contar e tão pouco tempo para tal. Agora lembrei-me que no “You’ve Got Mail” os personagens falavam ao momento, em diálogo, o que tornava aguçava o engenho – e adoro sair da minha zona de conforto, sempre que posso. Antigamente não, hoje não sei viver de outra maneira.Amanhã, vou ter que erguer o cavername do catre pelas 4.30 am, começo a trabalhar por volta das 6.00, depois uma corrida ao escritório, a escrever meia dúzia de mails que de modo nenhum devo postergar, dali a buscar um amigo para ir almoçar a casa desse meu Tio (fez 81 anos há 3 dias) e depois arranco para Cascais a buscar uma amiga inglesa que vive ao pé de Estremoz, que veio a Lisboa fazer umas análises e não pode guiar, portanto guio eu. Adivinha que música virei a ouvir, nesses 200 km?Mas não podia “deitar a pinha na palha”, sem lhe contar do dia de hoje. Lembra-se daquela cena da “Cidade e as Serras”, quando Jacinto ordena ao feitor Silvério que trate de arranjar as casas dos pobres rendeiros, dispersas pela serra? E o comovido Zé Fernandes, diz só isto:- Não perdeste o teu dia…Pois hoje tive o gosto enorme de poder ajudar, numa reunião matinal, duas amigas minhas, que talvez nunca chegassem ao contacto de um famoso gestor da nossa praça que, fino que nem um coral, fez dessa reunião um prazer, de tal forma é agradável ver alguém a raciocinar a 100 à hora, antecipando penosas apresentações. Dali fui almoçar com o adido comercial italiano, a um restaurante onde não ia há 30 anos, junto ao elevador do Carmo. Mas antes passei na Ferin, onde o João Paulo me quis contar, empolgado, a sua evanescente aparição da véspera, que lembra a definição de Sandburg sobre a poesia: “an echo asking a shadow to dance”.Estava sobretudo maravilhado, para meu espanto, com o primor do embrulho e aposto singelo contra dobrado que desprezou o meu, feito com o mesmo gosto (não confundir com “bom gosto”) mas pela inabilidade de dedos movidos a testosterona, além de ter feito tudo em passo acelerado, pois a reunião foi adiantada e se não aproveitasse aquele momento, as minhas amigas teriam que esperar mais um mês, de tal modo ele tinha a agenda preenchida.No restaurante, em conversa com o adido, falámos de tudo, como se nos conhecêssemos desde sempre, ao ponto de ele se ter oferecido para fazer um contacto com uma multinacional italiana, muito necessário a um amigo meu, que vai pular de contente, quando amanhã lhe contar.Da parte da tarde, estive com outro grande cá do burgo – parece que sou importante, não sou nada, apenas calhou! – e reunião correu sobre esferas, tendo o grato gosto de enquanto tratei da minha vida, ainda se proporcionou dar um empurrão que espero possa ser decisivo no negócio de alguém que precisa bem dele.E não é que ao chegar ao escritório (8.00 pm) vejo isto no meu computador, de um site que me envia, esse sim, uma frase por dia:“Le but, c’est d’être heureux. On n’y arrive que lentement. Il y faut une application quotidienne. Quand on l’est, il reste beaucoup à faire: à consoler les autres. (Jules Renard). Nem de propósito, hein?Parece que me estive a gabar, quando apenas estou a partilhar consigo a alegria de o meu dia não ter sido em vão, e ainda por cima, sempre escorreitamente álacre.Deixei o melhor para o fim: o seu presentinho, que me faz estar a escrever-lhe deliciado, quase diria num verdadeiro Bachanal… (a palavra não é feia em si, etimologicamente, se nos ativermos à mitologia).Até agora, o que gostei mais foi o Concerto em Lá, mas nem sempre o que aprecio primeiro é aquele que perdura como preferido.Sempre que oiço a Maria João Pires, lembro-me de um Tio meu, grande pianista retirado, e que um dia encontrei num concerto dela na Gulbenkian. Eu sabia que ele, que a conhecia desde menina, não era bem o que se poderia chamar um admirador seu.- Então, Tio, veio ouvir a Maria João?!- Bem, há ali umas passagens onde duvido que consiga sair-se bem, porque tem a mão pequena demais – e sempre quero ver como é que resolve o problema… (continua)

          19. /continuação intermédia)Mas deixe contar-lhe do embevecimento do João Paulo, que quase parecia relutante em separar-se do seu presente para mim. E dizia:- Foi um diálogo tão engraçado, e a senhora parece uma pessoa tão fina, tão especial…E eu respondi, a atalhar:- Meu caro João, agradeço-lhe muito, mas não me descreva como ela é. E tirei o meu embrulho, amachucado e feito às 3 pancadas (desculpe! Não podia, de modo nenhum, chegar atrasado àquela reunião. Muito raramente não sou pontual.) que muito certamente concitou o seu (dele) desagrado.Não é que não sinta alguma curiosidade, mas gosto tanto da situação que prefiro assim. Decerto sabe que a nossa comunicação é 70 % gestual, 23 % pela entoação que emprestamos à fala – e só 7 % pelas palavras que trocamos. Gosto tanto desses 7 %, que prefiro saboreá-los, a querer imitar o Falstaff, um glutão exagerado em tudo.Os árabes dizem que Alá criou a palavra para o homem esconder o pensamento. Isso será lá na terra deles e em S. Bento, comigo não. Também é muçulmana a asserção – e essa sim, sigo-a à risca – “cuida no que pensas, porque os teus pensamentos se transformarão nas tuas palavras; cuidado com o que dizes, porque serão os teus actos; está atento com os teus actos, porque se com o tempo mudarão os teus hábitos; vigia os teus hábitos, porque em breve constituirão o teu carácter; zela pelo teu carácter – é ele que dita o teu destino”. A frase anda por aí na net – e já não sei se me repito, e talvez seja melhor estar mais atento ao que digo, pelas razões acima expostas.O “seu” maravilhoso Bach chegou agora ao fim. Tratei-o como uma relíquia: fiz cópia para o gravador e guardei-o de imediato. Do computador para um CD, que levo amanhã para o Alentejo. Estive a ler a bula (como nos remédios) e achei muito curioso o assunto das transcrições que Bach fez, porque ainda há 2 ou 3 dias estava a ouvir a gravação das Variações Goldberg, na versão do Glenn Gould em 1980 (tem outra, bem mais rápida, de 1955) e no fim, durante uma entrevista de uma hora ele vai discreteando sobre os “puristas” que não toleram senão o cravo (o meu amigo João Antas de Campos tem um programa sobre música barroca na Emissora 2, agora aos Domingos de manhã, creio eu – e não suporta o cravo substituído pelo pianoforte.Tem essa gravação? A Mónica tem tudo… tem as duas? Se tiver uma, dou-lhe a outra, pode ser? A de 80 é francamente superior, mais lenta, e com as curiosas murmúrios do pianista a fazer os contrapontos, o que exasperava os técnicos de som, para gozo do artista, que sempre apreciou ser caprichoso, como fosse tocar em sala sobreaquecidas (30º?) e quem quisesse ouvi-lo que se sujeitasse a suá-lo.Muito estimada Mónica, agradeço-lhe deveras, das mais fundas veras do meu pobre e hipertrofiado coração. Já tem lugar cativo no ventrículo direito. Direito porque é o lugar que pertence, por direito, às senhoras ou a quem desejamos homenagear especialmente. E ventrículo, por ser ao fundo do coração.Conto passar, no começo da semana que vem, na Ferin – o João Paulo queria mostrar-me uns livros, mas eu estava com pressa – e deixar, obviamente pior embrulhado, o seu raro CD. Sobre o que me diz de serem os livros a escolherem-nos, nisso nunca tinha pensado. O que penso há muitos anos (pelos anos 80 e 90, comprei furiosamente, mas nos livreiros. O Zeca Tarouca, que Deus gasalhe na eternidade, era muito meu amigo, raro era o dia em que não ia a casa dele. Conhecia-me de pequeno, era amigo dos meus Tios, mas depois foi bastante mais meu. Era o melhor livreiro da cidade. E tinha em casa dele uma cantoneira onde ia guardando aquilo que julgava me pudesse interessar. Quando estava bem-disposto, vendia-me preciosidades por uma ninharia. Outras vezes, “carregava” nos preços, também não podia ser sempre ao preço da sardinha. Depois, quando ele morreu em 94 (um dia conto-lhe mais uma coincidência de médium passada com ele) passei a ir ao seu émulo Toni Tavares de Carvalho, mas com esse os preços já fiavam mais fino. Mas arranjei muita coisa antiga, rara – e cara.Tudo isto para lhe dizer que sempre achei que eram os livros que coleccionavam os donos e não o contrário, por muitos ex-libris e super-libris que estes lhes aponham.(continua para o fim)

          20. (final)No cofre do Zeca Tarouca, estive com “O Francesismo” do Eça em manuscrito nas mãos – e sobretudo com o do “Guardador de Rebanhos”, como sabe, escrito de rajada pelo Alberto Caeiro, numa noite, e de madrugada o Pessoa ainda lhe mandou com dois sonetos ortónimos “para assentar”. Era muito interessante ler as emendas e ver como se foi construindo cada poema. Há uma edição fac-similada. Enfim… já está tudo na Terra da Verdade.Eu tenho que ir para vale de lençóis. E a Mónica tem que descansar deste prolixo seu amigo, decerto palavroso, mas acima de tudo agradecido,Um beijinho amigo doManuel

          21. Querido Manel,Hoje, ao contrário de ontem e anteontem, tive um dia emocional pesado. Livre de mim conspurcar este momento balsâmico com realidades pouco interessantes … de que nem me apetece falar. Saí do meu almoço, no Chiado, a tentar interiorizar o “rio calmo de margens floridas” para me elevar, mas tenho o tremendo problema da minha mente afectar o meu corpo. Vai perdoar-me estar a escrever neste estado de espírito, sem filtro e um pouco frágil. Mande-me dar uma volta se algures a minha prosa o enfadar … O CD é seu … muito seu; foi a minha intuição para o seu “pobre e hipertrofiado coração”. É uma passagem de mim para si e, talvez, um dia, quando o Manel casualmente lhe pegar, possa recordar esta nossa pequena história um pouco diferente do habitual. Ouça-o a olhar as estrelas. Claro que a obra poderá ser tecnicamente discutível ou pelo som, ou pelo que se gosta ou não da pianista ou, ou, ou … nem me interessa. Há muito que aprendi a ignorar a crítica, a ouvir o coração e, normalmente, assumo as minhas preferências. Por razões misteriosas sempre gostei muito desse disco, sempre me senti muito bem a ouvi-lo e, por fim, adorei a história da paixão que lhe deu origem. Maestro e pianista apaixonados … gosto da fusão de estados de alma e o M Corboz é profundo e especial.Antes do meu pesado almoço passei na Ferin para levantar os “meus” sermões e deixar um outro embrulho branco para si. O JPDP, esse sim, está em êxtase:- Vem levantar a … encomenda?- Sim- Tem alguma coisa para deixar?- Sim … está aqui- Oh! O que eu gosto desta história (literal, não estou a inventar nada). Em 30 anos de livreiro tenho visto algumas histórias “pitorescas” … – Tenha um óptimo dia e obrigada …Adorei que ficasse nos 7% e vou partilhar consigo algumas coisas: O Manel tem características mediúnicas, claro que tem … também eu e também não lhes ligo muito. Também por experiência própria, sei que existem formas particulares de comunicação, por exemplo, é do conhecimento geral que os gémeos podem sentir da mesma forma quando estão separados, até a dor. Eu tive essa experiência com a minha Mãe; eu estava em NY e a Mãe em Lisboa. Um dia conto-lhe. Sei (quase) sempre quando há tempestade próxima do meu irmão. Há elos, alguns explicáveis outros nem por isso, entre algumas pessoas mais receptivas ou mais sensíveis, talvez. Em 1995 fiz testes psicotécnicos (porque tive de os fazer!) a que não liguei nenhuma e os resultados andaram a rebolar no meu carro durante semanas sem que os tivesse lido. Um dia quando estava a chegar a casa chovia a cântaros, estava sem guarda-chuva e decidi esperar um pouco que o dilúvio acalmasse para sair do carro. À espera, procurei com o que me entreter, vi o diabo do resultado dos testes e decidi, finalmente, que seria a altura ideal para meter o meu nariz naquilo. Fiquei siderada. O teste determinava que a minha característica mais forte era a da visão do futuro, em que o potencial (medido numa escala de 0 a 10) era igual ao que, teoricamente, eu já praticava. Na época, nem sonhava que seria possível medir uma coisa destas. Era muito jovem e, hoje, tenho uma consciência mais clara de como os elementos vão confluindo até o jogo virar; sem saber como, sei antever o resultado positivo ou negativo de determinado assunto, o caminho a percorrer e percepciono o momento em que … Por vezes, quero acreditar que o resultado possa ser diferente da minha primeira intuição, mas nunca é.Sou fisicamente muito diferente da Meg Ryan; se é ela o seu ideal de beleza feminina, só posso estar feliz por não me conhecer. O que melhor me caracteriza é a voz: é fortíssima. O meu Avô deslumbrava-se com os meus olhos e eu, do que mais gosto, são das extremidades (mãos, pés e nariz). Até hoje a raça que mais apreciou as linhas do perfil que me reveste foi a Árabe. Lembro-me de viagens que fiz em que essa evidência foi excessiva, embaraçosa e quase perigosa. O seu texto veio a calhar. Acredito em química mas não nos químicos, melhor, acredito nos elementos, em fusões, em alquimia. Interesso-me por simbologia mas não aplicada a rituais. Detesto rituais mas a espiritualidade faz parte de mim. Gosto de assistir ao nascimento de obras de arte, também porque tenho o privilégio de poder ver nascer algumas.(continua)

          22. (continuação)Claro que não tenho tudo mas tenho as duas gravações das Variações Goldberg, a de 1955 e a de 1981; não tinha a gravação dos sermões, que muito agradeço, irei ouvir um pouco mais tarde, quando chamar por mim. E no meio desta catarse de sei lá o quê, fiquei bem … Parafraseando um amigo especial, vou deitar a Mónica, que amanhã é outro dia. “An echo asking a shadow to dance” …Um beijo,M

          23. Querida Mónica,Eu bem sabia. Claro que esta é a pior frase para começar uma carta, uma conversa, o que seja. Quase parece que nem precisamos de ouvir o outro dizer de si. Até porque nem é bem verdade que “eu bem sabia”, pois havia muita coisa que não sabia, mas escrever tudo isto que mal cabe num parágrafo, mais imperfeito fica ainda, se limitado a uma frase de 3 palavras, onde uma delas é o sujeito (ele mesmo e o elemento sintático).Algures eu suspeitava que poderia ter, qual um fauno apressado e bronco (é assim que os imagino), trincando e cuspindo frutos mal sazonados, emitindo roncos guturais – também, se falassem não teriam muito para dizer – e, isso sim, em absoluto imperdoável, pisando com os seus cascos bravios, sem o menor rebuço ou consciência do flagício cometido, frágeis lilases, que tombavam inanimadas – as flores são sempre femininas, sobretudo esta – num delíquio sem um ai, muitas delas para sempre. E a tudo isto, de todo (fica doravante combinado que os meus pleonasmos são sempre premeditados) eles eram intrinsecamente insensíveis. Pois sempre que o trabalho ou outra companhia deixavam desocupada a minha alma, esta voltava, como a prontidão obsessiva de uma agulha magnética ao Norte, à pergunta “o que terei dito, que a houvesse magoado?”. Batia com os meus punhos imaginários, mas furiosamente cerrados, na minha própria imaginação, que uma vez mais esta se cerrara ao conselho de Voltaire, de constituir uma perigosa inadvertência procurar fazer espírito com alguém que não conhecemos bem – e também esse homem arguto, que se escondeu detrás de um nome que soube tornar famoso, comentava com desprezo, que os trocadinhos são o excremento do espírito a voar. E eu, sabendo disso há tanto tempo, incorrera como um tecelão (refiro-me ao operário, não à opereta – ou, se quisermos, e muito apropriadamente ao caso, “opera buffa” que ostenta esse apelido), nessas duas imprudências.Na volta do Alentejo, onde fora deixar a minha amiga Susanna, ao som do seu Bach, com o coração em muito semelhante ao da Nossa Senhora das Dores, com o punhal da dúvida cravado fundo no pericárdio e víscera por ele envolta – eu, que nem sentira a sua primeira “sorridente alfinetada”, afinal sentia-o com uma velha pregadeira, e dizia para mim”Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.Coitado do Álvaro de Campos!Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!”Mas simultaneamente, recitava-me a tão sabida e sábia – tenho que convir, apesar de não fazer parte da minha galeria de heróis – definição que Hemingway encontrou para coragem: “grace under pressure”.Pesava-me haver devolvido uma alfinetada, agradecidamente aceite como tratamento de acupunctura (que equilibra as energias) com uma bruteza qualquer, desferida com rombo acicate, decerto energicamente, mas sem o menor equilíbrio.Depois, em plena contrição sabia-lá-de-quê, lembrava-me da sua metáfora do vaso de Pandora, que permitiu a saída de tudo o que de mal existe neste mundo, apenas ficando lá no fundo, muito ao fundo, uma única coisa – a Esperança.(continua, e talvez por mais 3 prestações)

          24. (continuação)Assunto Meg Ryan. Mas porque é que eu havia de querer achar em si parecenças com ela, ou ela prefigurar o meu ideal de beleza?! Também acho interessante a Louise Brooks ou a Silvana Mangano. Havia de ouvir as nossas conversas, entre mim e o Tio Diogo, a falarmos de belezas que recuam quase ao tempo de Cleópatra – e depois, lá consigo o download de um filme antigo e vemo-lo em conjunto, como ecos de tempos idos. No mês passado foi o “Arroz Amargo”, na Itália do pós-guerra, em que as dactilógrafas iam nas férias para a safra do arroz, a juntar mais uns cobres – e no filme o realizador viu nisso uma oportunidade da Silvana poder mostrar as pernas sem que a censura pudesse emitir um pio – nem o Pio XII se atreveu a censurar raparigas a fazer pela vida, desde que apenas apanhassem arroz.As palavras… julgamos que mandamos nelas, mas pelo menos as minhas, são os tais indolentes escravos manhosos que me servem o pior que podem, e a quem nem a alforria que lhes concedo sequer suscita nele/as a grata cortesia de cumprir a sua função com menos desmazelo e ralassice. Já Platão se queixava, na VIIª carta, meio irritado por ter que se servir delas, afinal servindo-as ele, para que o restante dessa revoltada irritação chegasse aos nossos dias: “Nenhum homem razoável se arriscará a confiar as suas reflexões às palavras, sobretudo se forem imóveis, como é o caso dos caracteres escritos.”Maria João Pires, maestro suíço apaixonados… bem, não posso/devo/quero “burst your bubble”, e do Corboz nada sei, mas que ela já “aviou” muitas paixões, um pouco como o motto do Grandella, “soma e segue, sempre por bom caminho”, isso é incontroverso. É curioso como achamos que o artista para fora é artista por dentro. Projectamos neles o sonho que evocam em nós. Enfim, muitas vezes é assim, um amor sublime e etéreo, respeitoso e cristalino. Mas por uso, a luta entre essas personalidade sobredotadas é feroz, e se ambos tiverem sorte, apenas banal. Olhe o Picasso, (outro meu não-herói) tão especial, tão apaixonado, tão-o-que-se-quiser, e afinal um bruto como as casas, no que tocava a mulheres, a quem tratava como se fosse camisas, que mudava de uma para outra sem pedir licença às duas, à resignatária e à designada, prestes a ser usada e lançada ao cesto, sem a menor cerimónia, como as anteriores. Se olharmos para um Dali, o cenário não é muito melhor, pois a cabotinice doentia dele e da Gala até faz impressão, senão asco.Vou cometer uma pequena inconfidência, e digo pequena porque não me foi contada “de bouche à oreille” mas num jantar onde estavam umas 10 pessoas – e como sabe, um segredo está melhor guardado por um guarda só: nós mesmos.O João Ferreira Rosa, que até nem é grande femeeiro, foi casado com ela, Maria João Pires. Não por muito tempo (não sei se mais ou menos que o maestro, sinceramente) mas sei o tempo que foi: 6 meses, disse-me ele. E passados uns 20 anos, encontram-se os dois numa recepção diplomática ou o que fosse do estilo. Dirigiram-se um ao outro, perguntaram um pelo outro, disseram um ao outro umas coisas. E no fim, quando se iam despedir, pergunta o João: “Ó Maria João, estivemos aqui a tratarmo-nos por “você”. Mas não nos tratávamos por “tu”?Resposta dela: “Já não me lembro muito bem, mas também me parece que sim…”Tableau.Perdoe o estilo Marconi, tenho um cocktail ajantarado e queria ainda lá passar, mas não posso ir sereno, quando pressinto em si algum desânimo.“O tímido rouba a si mesmo e é como um barco que naufraga sem tempestade” dizia um avozinho medieval que tinha tanto a mania de deitar sentenças cá para fora (apesar de serem boas, o que me fica um tanto mal em dizê-lo), que lhe valeu o cognome de “o Catão português”, mas que numa forma hodierna se pode traduzir por “quem teme aquilo que sofre, já sofre aquilo que teme”.(continua para terminar, creio)

          25. (sprint final…)O “never complain, never explain”, o tal conselho à jovem rainha Vitória, que se atribui a Gladstone ou Disraeli (confundo qual fosse, creio que o primeiro) é um pouco isso. A vida vive-se melhor se, em temporal, caçarmos a escota e mantivermos o rumo. Para isso é preciso persistência e sobretudo paciência.Como gosta – e eu também – de frases que fiquem no ouvido e dali ao coração, aqui lhe envio mais esta, apre(e)ndida num consultório de um homeopata americano, que recebia um jornal “Course of Miracles” (creio que existe na net): “Infinite patience brings immediate results”. Obstáculos são aquilo que os nossos olhos vêem, quando deixam de ditar os objectivos. Há mil formas de expressar a ideia, mas só uma de a concretizar.Passei na Ferin, o João Paulo tinha ido almoçar, ainda esperei uma boa meia hora que voltasse, o que me valeu comprar livros e mais livros, tal a força centrípeta que aquela loja exerce em mim. Parei aos 30 minutos e 150 euros. Tinha que voltar para o trabalho. Por isso, deixei lá um contra-presente para si, não levantando aquele que me cabia.E mais telegraficamente ainda, venho alvitrar que se achar por bem, quando mais não seja por comodidade de não ter que repartir os textos, etc. – além do “abuso” que isso constituiu num espaço cibernético que não nos pertence, escreva para o meu mail, claro que só se assim preferir. Se não, compreendo perfeitamente e conto obter autorização do IRRITADO para prosseguirmos esta correspondência via SCUT, ainda que com portagens a cada 4.300 caracteres.O meu endereço é manueldebra…(obviamente sem cedilha) @yahoo.comPerdoe muito e muito esta saída em alta velocidade. Estou no limite do tempo – e detesto chegar tarde.Um beijinho apressado doManuel (ou Manel? Já não sei como é que nos tratamos, estou como a/o Joões Pires e Ferreira Rosa. Manel está perfeito)

          26. Querida Mónica, Não sei como devo interpretar o seu silêncio, se ele tem a ver comigo ou consigo. Não sou mediúnico a esse ponto, tal como não quero macerá-la com mais parágrafos pastosos, revoltos e infindos.Já nem sei se lhe contei que tal pretérito caudal palavroso se deveu ao efeito colateral de um novo beta-bloqueante que tinha começado a tomar; entretanto mudei de remédio e se não estou a salvo da hipertensão, fiquei-o da hiperactividade, graças a Deus. Afinal o meu “fulgor” era apenas químico, como um Hendrix menos estrepitoso – logo eu, que nem um charro fumei em toda a minha vida, e espero continuar assim até ao fim dela.Por associação de ideias com o que acima lhe disse (os efeitos da medicação ainda não são extintos de todo, pelos vistos), lembrei-me do que escrevi no outro dia a uma amiga minha, a tal escritora, decerto menos elusiva que a Mónica mas igualmente um labirinto, bem mais complicado que aquele que Dédalo ideou, e onde a própria Ariadne se perderia, sobre as coisas que vejo para aí, únicas e mediúnicas. É bem verdade que o fundo do coração de uma mulher é mais longe que o fim do mundo.Dizia-lhe eu: “Sabe qual o número de páginas do meu diário no ano passado, quando cheguei ao último dia de 2010? Houve dias em que não passei de dois parágrafos, em outros vagueei como romeiro sem destino, apenas interessado em fazer caminho, não em chegar a qualquer lado em especial (como se aconselha no Tao), autor e leitor apenas, pois não tenciono, de modo nenhum, mostrar aquilo a quem seja. Sabe quantas páginas? 365, nem mais uma nem menos meia.Já tinha um exemplo parecido algumas gerações antes: uma minha trisavó Maria Carlota, retirada com a família para Paris das guerras liberais, de tal modo “boazinha” que o pai dela, fugido da morte às garras dos mercenários liberais de então, ao tratar do seu casamento com o procurador em Lisboa grafa estas palavras, que o fariam finar-se às mãos das feministas hodiernas, empalado em auto-de-fé e ardendo por entre os soutiens-gorge que serviriam de combustível, como convém nestas ocasiões. Escrevia ele: “… entretanto quase que posso antecipadam.te afirmar que a M. C. se tem mostrado sempre o mais favorável que he possível a este arranjo; V. Sª muito bem sabe como ella he, de um excellente carácter, positivo, e inteiram.te isento de tudo que são ideias romanescas e que aceitará com gosto para Marido hum homem honrado e bom ainda que elle não seja hum Adónis; isto que venho de referir he exactam.te conforme com a verdade e segundo as conversaçoens repetidas que com ella tenho tido sobre este assumpto.”Ainda assim, a cláusula primeira do contrato estatuía irrefragávelmente: “Desejamos que a nossa filha resida comnosco aonde quer que estejamos.”Pois esta avózinha tinha, desde a juventude, um livro de despesas em que guardava metodicamente uma folha para o deve/haver de cada mês, onde assentava “une paire de gants”, “aumône”, etc.; depois, quando começou o namoro com o não-Adónis, lemos já coisas do estilo “cigares pour Pedro”, e por aí ao diante, vamos acompanhando o nascimentos dos filhos, pelos presentes que nele anotava metodicamente. E lá vem a coincidência: a última página é já escrita na guarda do livro, em letra insegura. Não restavam mais páginas, mas não chegaram a ser precisas, pois nesse mesmo mês morreu, com 45 anos, como se as Parcas estivessem atentas a esse pormenor e houvessem lido Lamartine: “Le livre de la vie/Est le livre suprême/Que nul ne peut/Feuilleter à son gôut./ Quand en pense être encore/À la page ou l’on aime/Voilá qu’on arrive/À la page ou l’on meurt.”.Depois desta espaçosa digressão no tempo, sobre coincidências em que tropeço e se contam por dezenas, peço desculpa de haver tergiversado, sobretudo porque lhe quis vir agradecer o segundo presente.(a continuar)

          27. (2ª parte, maçuda como a anterior)Tenho pena que não me responda, mas deve ter uma boa razão para tal e portanto cabe-me aceitar que ela seja boa, com o tal fatalismo muçulmano do Carlos da Maia (esse sim, metido em grandes sarilhos), “de nada desejar e nada recear… não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranqüilidade com que se escondem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo. Não ter apetites, e sobretudo não ter contrariedades.”Fui à Ferin no Sábado buscar o meu presente (sou tão cauteloso consigo, Mónica, que nem perguntei ao João Paulo – e estivemos a falar uns 20 minutos – se passara a levantar o seu), para ter uma surpresa, que já não o devia ser e lhe conto como e porquê.Quando cheguei aos meus 21 anos, arranjei uma “garçonniére”, onde pudesse gritar “finalmente só!”, no singular, ao contrário dos noivos, ainda que de quando em vez tivesse companhia.Uma das minhas primeiras preocupações foi prover-me de boa música, sem televisão para me maçar. Claro que tinha o James Taylor, que nesses dias sabia acompanhar razoavelmente na minha guitarra, tal como o Cat Stevens, Elton, Beatles, etc.Mas fazia-me falta música de qualidade, não para escoltar à guitarra, antes para ouvir em sotto voce, aspergindo as minhas leituras e lucubrações. Mandei vir da Reader’s Digest as sinfonias de Beethoven (lembre-se que nessa altura era mais trabalhoso descobrir boa música, não havia CD’s nem FNAC’s) e passei na Baixa a comprar o “1812” e um disco com uma capa em que figurava a pacífica e algo desolada paisagem de um rio escandinavo. Era a versão acrílica daquele que me deu agora e que lhe agradeço mil vezes, pois já não o ouvia (na versão Radu Lupu) desde que apareceram os CD.Ao fim de todos estes anos, nunca havia visto o aspecto externo do virtuoso romeno (notável hipertricose!)Constituiu portanto uma muito especial revisita ao passado, cheia de significados, o maior deles que a Mónica haja “pressentido” proporcionar-m’a.Nunca lhe saberei agradecer como gostaria.De Grieg, gosto de quase tudo, mas aprecio sobretudo a suite Holberg, não só pela originalidade de se compor algo tão recuado no tempo (está a ver o Almada a pintar um quadro como o Sequeira?), mas também porque tem pouco de folclórico, que será o único senão a apontar à obra do norueguês, mas na sua época quase todos faziam isso.Não a posso demorar mais. Mas antes de ir, deixe-me “dar” dois presentes virtuais, que não me admiraria já conhecer (prevendo que um dia alguém lhe iria mostrar isto, a Mónica adiantou-se, como é óbvio)Quando tiver uns 20 minutos livres e quiser dar-lhes sentido, veja este link.http://www.ted.com/index.php/talks/benjamin_zander_on_music_and_passion.htmlTrata do maestro a dissertar sobre o famoso Prelúdio nº 4 em Mi menor, que foi tocado no enterro de Chopin, por ser aquele que o polaco preferia.Também gosto muito do Nocturno nº 4 em Fá, o mais bonito de todos, para mim. No ano passado foi o encore perfeito de um recital do António Rosado no São Luiz.http://www.youtube.com/watch?v=-iFpJ8kLVqoUm beijinho amigo doManel PS – Reli hoje o tal ditado chinês, que deturpara e me parece nem sempre a Mónica aproveita:”Não se pode impedir as aves da tristeza sobre as nossas cabeças, mas pode-se impedi-las de fazerem ninho nos nossos cabelos.”Não deixe.

          28. Querido Manel,”Há desencontros que são encontros” … Tal como sugeriu respondi para o yahoo, para libertarmos o IRRITADO e sairmos rapidamente as SCUT. Escrevi fora de horas, em palavras que não domino e não tive eco…Por favor, confirme se o Manuel Debra tem algo para ler … Também o seu livreiro é especial … A que horas esteve na Ferin? Um beijo e até já, no Y,Mónica

          29. ;-)Só agora vi a sua mensagem. Expliquei-me malmanueldebraganca@yahoo.comestive lá no Sábado por volta das 6.00 pm.Não se deite tarde por minha causa!Só queria saber se está bem. Nada de tristezas!BjsMB

          30. Pois é … não se devem fazer trocadilhos especialmente com endereços. Pensei que (inteligentemente) tinha criado um e-mail de nome leve, coisa natural dada a minha natureza.Vou enviar o que escrevi ao M Debra, juro, sem alterar uma palavra.Até ao Y … Adeus Scut.

          31. Como sempre,muita parra………..Está-lhe na massa do sangue a vacuidade da verborreia.VIVA! Chegou o intelectual cá do blog,se os intelectuais fossem desta espécie,os homens ainda andavam de tanga!!!

      2. Amor a deus? que deus?Com tantos que os homens criaram,que deus se deve amar?É incompativel ter amor á verdade e a um hipotético deus.A verdade não compagina com dogmas e crenças!!!

      3. Não há, na pobre cabeça do IRRITADO, palavras que cheguem para fazer justiça à alegria que lhe causa o regresso do ManuelB a esta “família”. Fique por cá, meu rapaz, que poucos haverá que tanto nos enriqueçam.

        1. Estimado IRRITADO,Se há sentimento que dispense palavras, a amizade é decerto um deles, porque os amigos que a partilham pressentem bem quando/quanto ela é verdadeira e mútua.No que respeita a enriquecer o blog é que somos um tanto discrepantes, pois é nele que tenho vindo buscar com que me informar e ilustrar.E é um refrigério constatar como o IRRITADO trata tão benévola e pacientemente gente que não o merece. É um belo exemplo de caridade cristã aplicado às novas tecnologias.Um abraço muito amigo doManel

  7. Questiona o “IDIOTA”, «…que deus se deve amar?».Para esse “IDIOTA” a resposta é óbvia: Sócrates (o “inginheiro”) e Passos Coelho (o “retardatário”), porquanto representam o “BLOCO CENTRAL” (de interesses).É só escolher “um dos dois” (andamos nesta “merda” há ,ais de 30 anos!!!).

    1. !queria dizer “há mais”. Saiu “há ais”!!!Fugiu a resposta para a verdade.Com efeito, “há mais de 30 anos” que andamos a dizer “ais” (devido à dor provocada por essa “merda”).

  8. Avatar de Lenine & Salazar, Lda.
    Lenine & Salazar, Lda.

    “cscudfz” (“chave” para o “IRRITADO”) significa CDS F(fode) no CU do Z (zé).

    1. Que finesse! Que nobre comentário! Que boa companhia!

  9. Venho apenas saudar o regresso do Manuel, a quem envio um abraço. Espero que encontre tempo para voltar mais vezes.

    1. Grande Filipe,Muito obrigado pelo seu abraço, que sei valioso por só ser dado a quem dele se mostrar merecedor.Tenho tido trabalho “até ali”, absolutamente em contra-ciclo. Só por isso tenho andado daqui arredado. Só para lhe dar uma ideia, vou daqui para tomar um rápido e bem quente chuveiro e meter-me já na cama, de tal forma estou cansado.Consigo está tudo bem, menos o facto de havermos sido privados das cómicas burrices do menino-de-oioro do PS, ainda que elas nos tivessem deixado na penúria. Mas lá que era material histriónico de primeira qualidade, nisso não podemos dissentir.E o homem a estudar para filósofo? Ganha-se um mau pensador, mas perdeu-se um bobo accompli…Um abraço amigo doManuel

      1. Vê como estou cansado? Quis perguntar por si – e estive a falar de mm.Está tudo bem consigo?Um abraço amigo doManuel

        1. Como Narciso,continua a olhar para o espelho de água.Os outros não passam de meros elementos egocêntricos!!!

      2. Caro Manuel, Obrigado pelas suas palavras, é sempre um prazer lê-lo. Também não me tem faltado trabalho, felizmente. O pior são alguns pagamentos. Grande parte das PMEs, e eu lido com umas boas dúzias, está numa situação terrível. Mesmo empresas outrora sólidas, que facturavam vários milhões, estão a pagar-nos facturas de 800 euros em prestações. Creio não estar a exagerar, se lhe disser que estamos à beira de um colapso generalizado. Dizem que a esperança é a última a morrer, mas até essa está moribunda. Não se vê nenhuma luz ao fundo do túnel. Enfim, presumo que não esteja a dar-lhe grande novidade. Resta-nos pôr os olhos nos bons exemplos: precisamente o nosso novel filósofo. Engenheiro técnico, engenheiro sanitário, engenheiro civil(…), político, e agora filósofo. Eis um homem(…) multifacetado. Conseguiu duplicar a dívida pública em 6 anos, além das PPPs que nos esperam em 2013, impulsionou dez rentáveis estádios novos (a Áustria e a Suíça, tristes tesos, fizeram 2 ou 3), aproximou-nos de Kadhafi e de Chavez, colocou-nos na vanguarda da tecnologia com o Magalhães, educou a populaça, rodeou-se de amigos sábios e íntegros (apesar das inevitáveis campanhas negras, e um ocasional gravador subtraído), e ainda foi o visionário do Pooceirão. É realmente um homem capaz de tudo, nisso estamos todos de acordo. Grande abraço, FB

        1. Caro Filipe,Como o Filipe inteligentemente intui antes mesmo de eu expressá-lo, entendemo-nos tão bem, que 2 ou 3 meses de abstinência epistolar entre pessoas em cujos organismos se domiciliam “átomos com ganchos” (que era a forma como o Eça a julgava provar literária/cientificamente) deixa a nossa amizade no mesmo estado – lisa e coruscante – como se nos tivéssemos cumprimentado na véspera.Escrevi ontem a lutar estoicamente contra a fadiga, ao ponto de dar traulitadas na gramática, daquelas que o notável Tecelão não desdenharia ufanamente cometer, como fosse conjugar o infinitivo “haver” na primeira pessoa do plural. Um pouco como o notável Jorge Coelho, esse sorridente político (que saiu da toca da UDP para se acoitar na Mota Engil) um dia soltou um “há-dem” em vez de “hão-de”, fazendo-nos remontar aos idos de Esopo, nessas remotas eras em que os animais falavam.Tem um minuto para aturar as minhas deambulantes associações de ideias?Noto em si um cansado desalento pela “crise”. Não nego o sofrimento de muita gente, absolutamente desnecessário e até inexistente, se não fosse a “engenharia financeira” de Sócrates e a sua chusma de esfaimados ladrões, que roubaram o nosso futuro, como o Soares havia feito com o nosso passado. Claro que do outro lado da barricada estão partidos em tudo iguais ao deles, e nem o facto de em todos haver gente honesta – que a há, sem a menor dúvida – pronta a servir com denodo e mesmo sacrifício. Infelizmente esses são a excepção, sempre derrotada, tal como o cidadão.Vamos ao que lhe gostaria de dizer, que pode parecer nada ter a ver com o assunto, quando é em muito semelhante, não nas circunstâncias mas na atitude com que elas são encaradas, e é isso que verdadeiramente importa. Creio que já poderei ter contado sobre o próprio dia 10 de Maio de 1940, em que Churchill tomou posse, a substituir o débil Chamberlain. Foi nessa primeira comunicação ao Pais que prometeu “nothing but blood, sweat and tears”. O discurso há-de estar aí na net e vale a pena ser lido.Nesse preciso dia e por puro acaso, pois uma e outra operações militares haviam sido logisticamente preparadas com antecedência: os ingleses “invadiram” a Islândia para proteger o seu flanco norte, com cerca de 700 homens (“the invasion force consisted of 746 marines, ill-equipped and only partially trained”); enquanto que por essa hora entravam na Holanda, Bélgica e Luxemburgo mais de 3 milhões de soldados alemães. Como situação de “crise”, uma desproporção assim não está mal de todo…Pois já em fim de vida – se porventura e por ventura conhece a anedota (no sentido que antigamente se emprestava ao termo, o de “episódio”) perdoe a repeticção – Churchill, já para lá de velhinho, ao ponto de por vezes aqueles que o rodeavam duvidarem do seu “good judgement”, aceitou o convite de comparecer na abertura do ano académico numa universidade americana que o acolhera honoris causa. A própria mulher Clementine o desaconselhou de se meter a atravessar o atlântico, de tal forma o achava em baixo, cansado, perto do fim. Ele (olha quem!) persistiu – era filho de uma americana, e das teimosas – e lá foi. Começa a longa cerimónia e o Churchill cai no sono, fardado a rigor, de borla e capelo. Sentado ao lado do reitor, o quebrado Winston ressonou mansamente durante todo o tempo. O anfitrião, um tanto enleado e aflito com a situação, lá ia rezando para que tudo não acabasse mal, logo no começo do ano lectivo. Os discuros sucediam-se e Churchill de cabeça caída sobre o peito, em silêncio e embalado nos braços de Morfeu.(continua)

          1. (continuação e fim)Até que chegou a vez de lhe darem a palavra. Com uma tossicadela diplomática, o reitor despertou o velho leão adormecido. Este recuperou de imediato a sua “poise” (não confundir com “pose”, isso é para os políticos aborígenes…) e lentamente, num silêncio sepulcral e ansioso, aproximou-se do microfone. Olhou a gigantesca sala, cheia de jovens, e disse só isto, nada mais que isto: “Never, never, never, never – but never! – give in.”Quem assistiu à cena não conseguia conter as lágrimas de comoção, admiração, carinho, tudo junto e mais alguma coisa, por ver ali, ao vivo – tanto quando se podia chamar “vida” àquele fio de força de vontade – toda uma doutrina, tão simples quanto enfaticamente expressa, afinal aquela que sempre cumprira na sua vida, que salvou a Europa e teria evitado a Guerra Fria, se outros poderosos tivessem a sua fibra e visão. Creio até que foi a sua última aparição pública, um grande finale como poucos.Por isso – meu caro Filipe, em quem pressinto tanta juventude como discernimento, ainda que este por vezes condicionado por aquela, ou explicando melhor, algumas das premissas em que se apoia para chegar às suas conclusões vêm já inquinadas da “verdade de Abril”, que em muito pouco se coaduna com a verdade do que foi a Revolução – por isso, dizia, não desespere.Quer um exemplo da “verdade de Abril”? A indústria estava na mão de meia dúzia de famílias. Pois estava, nada é perfeito. Mas muitos mil doutores de hoje devem o seu curso profissional e um bem melhor curso de vida ao Alfredo da Silva, que por muito brutal e monopolista que fosse ergueu, uma após outra, prósperas empresas químicas, metalúrgicas, agrícolas, navais, financeiras, etc. que punham o pão em cima da mesa dos pais, decerto humildes e mesmo algumas vezes explorados, desses doutores – mas a verdade, não “a de Abril” é que o dinheiro que ele ganhava era reinvestido para dar mais lucro à economia e emprego à população – não para ser reencaminhado a “offshores” particulares, com gravações apagadas e mentiras no parlamento.O Cunhal, Soares (que trabalhara para Mellos e Champalimauds), o MFA e outros, uns maus, outros apenas mentecaptos, estoiraram com tudo isso. E agora, exportamos o quê, sem ser o ouro que ainda resta no Banco de Portugal?Enfim, vou longo e maçador. Mas confiado na benevolência com que o Filipe atenderá esses meus dois defeitos, só lhe digo: sursum corda!Um abraço amigo doManel

          2. É redutor tentar justificar o panorama da industria nacional antes do 25 de Abril com o sr Alfredo da Silva.Toda a gente sabe do confrangedor atraso da nossa industria!!!

          3. Caro Manuel, Tem razão, estou cansado, desalentado, e basicamente farto da “crise”. Até porque, vivendo em Portugal há 35 anos, nunca conheci outro estado de coisas. Mesmo no tempo das vacas gordas, do Cavaco e do Guterres, em que chegavam diariamente milhões da estranja, para “projectos” e “formações” que acabavam misteriosamente em stands da Mercedes ou em casas luxuosas de férias, sempre ouvi falar de “crise”. A ter mudado alguma coisa, só terá sido para pior. A nossa crise é como a neve nos Himalaias: constante, eterna. E, tal como nos Himalaias, ninguém é responsável por ela. Simplesmente existe, desde sempre e para sempre. Compreendo o exemplo que me deu (Churchill), mas a Alemanha nazi era um inimigo tangível, tal como a URSS que lhe sucedeu. Ambos tinham bombas, exércitos, e ideologias claras. O inimigo actual não tem rosto, está espalhado por várias corporações transnacionais e casinos financeiros, não tem bombas (nem precisa, pois controla quem as tem), e sobretudo não oferece qualquer ideologia antagónica: este inimigo está em nossa casa, em quase todos os países, e age sempre dentro da Lei, porque esta é feita por ele próprio. Já percebi que o caro Manuel não tem grande interesse nestes temas, e faz muito bem, mas diga-me: num mundo em que TODOS devem, até potências exportadoras como a China e o Japão, qual a lógica? Afinal, onde está o dinheiro? E afinal para que serve, se todos vivem cada vez pior? E se apenas o TRABALHO produz riqueza e cria valor real, através dos bens e serviços necessários à nossa sobrevivência e à nossa civilização, por que é que o CAPITAL é tão mais importante do que ele? Isto não tem nada a ver com Marx, com socialismo ou com comunismo, são questões práticas: por que é que o sistema financeiro deve mandar no país e no mundo? Não são os outros que produzem? Não são os outros que criam valor? Então, por que devem ser os “mercados” a definir esse valor, e a lucrar mais com ele, do que quem o cria? Caro Manuel, não sei o que diria Churchill disto, mas tenho a certeza que um verdadeiro estadista não consentiria em pisar a democracia (a verdadeira, não a dos slogans partidários) e o bem-estar da sua população, para sustentar um sistema que não funciona para ninguém, excepto para uns poucos privilegiados. A vida é demasiado curta, e ainda não descobrimos a fonte da vida eterna. Não temos tempo para soluções comprovadamente falhadas, precisamos de soluções alternativas – enquanto estamos vivos, e não num futuro que não veremos. Um abraço, FB

          4. Meu estimado Filipe,Amanhã, num estado mais vigil, lhe responderei como sobre lutar para evitar essa sensação de derrota, apesar do que diz – e tem toda a razão nisso – dos perigos de hoje serem “de dentro” (afinal na Guerra Fria “le malheur à quelquer chose était bon…”) mas não permita que eles “entrem” em si.Perdoe que recorra a um artigo antigo de uma jornalista americana com o invulgar nome de Lim. Pode parecer, numa primeira leitura, pouco adequado ao tema, mas a forma e o fundo são uma mesma coisa e tudo está entre si ligado.Many people are afraid of growing old. I’m afraid of growing old and boring.Many people are afraid of growing old, alone. I’m afraid of growing old, insane.Many people are afraid of losing their looks. I’m afraid of losing my dreams.Many people are afraid of losing their youth. I’m afraid of losing my soul.Don’t fear age, it’s a right of person-hood.Don’t fear death – it’s God’s greatest jest.Don’t grow old – you don’t have to.Don’t associate with people you can’t trust. Don’t cheat. Don’t lie. Don’t pretend.Don’t sell yourself, your family or your ideals.Don’t stagnate. Don’t regress. Learn a new skill. Find a new friend. Start a new career.Don’t live in the past. Time can’t bring anything or anyone back.There’s always a mad rush to something, somewhere – but victory does not always belong to those who finish first.To make yourself happy, pursue your passions and be the best of what you can be.Simplify your life. Take away the clutter.Get rid of destructive elements – abusive friends, nasty habits and dangerous liaisons.Don’t abandon your responsibilities, but don’t overdose on duty.Be true to yourself. Don’t commit when you’re not ready.Don’t keep others waiting needlessly.Fall in love – it’s the greatest thing on earth.Write poetry. Love deeply. Walk barefoot. Hold hands.Dance with wild abandon. Cry at the movies.Take care of yourself. Don’t wait for someone to take care of you.You light up your life. You drive yourself to your destination.No one completes you – except you.It is true that life doesn’t get easier with age.It only gets more challenging.Don’t be afraid. Don’t lose your capacity to love.Pursue your passions. Live your dreams.Don’t lose faith in God. Don’t grow old.Just grow up.Creio saber que o Filipe não é muito crente. Estou nos antípodas de ser um beato. A religião não é um ritual, que é o modo como a maioria das pessoas que conheço a entende. É um código de ética interior, que nos torna mais fortes, até sermos invencíveis. Precisamente porque é interior, essa invencibilidade não aparece, mas existe.Nem que seja como exemplo, acredite-se ou não, tanto Pedro como Judas falharam, mas um confiou no arrependimento e salvou-se. O outro, que só tinha o remorso para a “socorrê-lo” enforcou-se.Na famosa frase: “You can’t change the wind, but you always adjust your sails”.Um abraço amigo doManel

          5. “O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. […] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Nas suas acções baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: “Tudo para mim e nada para os outros” é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo. “Arthur Schopenhauer, in “A Arte de Insultar

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