O IRRITADO viu o Abrunhosa pela primeira vez em fotografia de jornal. O homem lá vinha escarrapachado, amarrado com correntes ao portão de um teatro que a Câmara queria entregar – em boa hora entregou – à exploração comercial.
Este tipo é parvo, pensou o IRRITADO com carradas de razão.
Em pessoa, o IRRITADO viu-o e ouviu-o, pela primeira e última vez, na passagem de ano 1999/2000, no Estoril, num palco ao ar livre. Achou piada à exibição. Este gajo é parvo, mas tem jeito para estas cantorias meio malucas.
Uns tempos depois, foi ao Porto visitar um casal de amigos – ela já lá vai, ele desapareceu da circulação – que vivia num magnífico casarão, julgo que do séc. XIX, na margem esquerda, com anexos para pessoal, garagens, um enorme jardim, relva a perder de vista, árvores centenárias, obras de arte, etc.
Disseram-lhe que, por razões que não vêm a propósito, iam vender a casa, ou melhor, que a casa tinha sido posta à venda e que já tinha aparecido um comprador. O IRRITADO não perguntou o preço, mas comentou que, para comprar uma casa daquelas, só um milionário, daqueles que, no Porto, há com fartura. Ao que lhe responderam que o comprador era nem mais nem menos que o conhecido badaleiro Pedro Abrunhosa.
O IRRITADO ficou de boca aberta. Esse gajo? Mas esse gajo é um esquerdista do caneco e, pela maneira como se faz aparecer, não deve ser o género de gostar de uma casa destas! E os óculos escuros? Querem mais piroso? O tipo será vesgo, ou é só parvo?
Foi então explicado que o dito rapaz é um “filho família” lá do Norte e que, julgava o casal, cultivava uma imagem pública que nada tinha a ver com o que ele, na verdade, era. E que ganhava bom dinheiro com as badalices.
Afinal o fulano não é tão parvo como eu julgava, cogitou o IRRITADO.
E nunca mais pensou no assunto.
Até hoje. O inigualável “Expresso” abriu uma secção de entrevistas com personalidades da “cultura” parangonando uma data de fotografias da criatura, todas elas a provar à saciedade que, afinal, o tipo é mesmo parvo.
O feroz esquerdista, estranhamente, diz que, para estar informado sobre política, lê o “Economist”, “em viagem”, mas que não sabe o nome dos articulistas que o deliciam. Notável afirmação. É que, como sabe qualquer alma que folheie a revista, os artigos nela publicados não são assinados. Ora se o Abrunhosa falasse verdade sabia que não sabia os nomes dos ditos e não precisava de se desculpar! Prova provada que o que o parvo queria dizer era a) que lia inglês e b) que tinha preocupações intelectuais, as quais satisfazia com a leitura do “Economist”, coisa que, evidentemente, jamais leu. Em boa verdade, não se entenderia que este luminar da nossa cultura e da nossa esquerda se cultivasse com uma revista liberal como há poucas. A não ser que quisesse informar-se sobre a argumentação do inimigo!
A entrevista, valha a sinceridade, põe a nu o tal Abrunhosa de que falavam os meus amigos lhe iam vender a casa.
O homem vendeu boa parte da sua carteira de investimentos em 97, quando começou a cheirar-lhe a crise, via consulta da imprensa, “em Nova Iorque”. Não diz o valor, mas confirma que era de molde a causar-lhe “preocupação”. Não fala no que factura porque prefere “que isso fique reservado”. É normal: segundo diz, tem uma relação conflitual com o fisco.
No meio de uma prudente confissão de fortuna, Abrunhosa continua a defender a “Revolução”, com “cabeças de fora”, “quantos corpos no porão”, coisa que o leve – e às massas, presume-se – a “ser dono do Cristo-Rei”.
Entretanto, como a revolução teima em não vir, o homem, que “investiu no imobiliário” está agora mais virado para “produtos financeiros tradicionais”.
Fiquemos por aqui, embora muito mais lições se pudesse tirar da entrevista. Um esquerdista exemplar!
Aos leitores o desafio de tentar perceber se o homem é parvo ou não, ou até onde é parvo e desde onde deixa de o ser.
15.7.12
António Borges de Carvalho

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