Havia um ministro – não me lembro de quê, nem quem – que, quando aparecia na televisão, tinha sempre atrás, a espreitar, um indivíduo a quem pus, para consumo interno, a alcunha de Drácula. O fulano, de aspecto transsilvânico, ar catacúmbico, tratava de se pôr na imagem, com sorrateiros e profissionais cuidados. Ora estava à esquerda, ora à direita, ora atrás do ministro, de pescocinho meio torto para caber na imagem. Cabia sempre. De tal forma se impunha à minha curiosidade que fixei a tenebrosa cara do rapaz em vez da do ministro.
Agora, com um governo novo, cheio de buracos por recauchutar, o homem ganhou direito de cidade. Não sei se é ministro se quê, sei que aparece quase todos os dias, na TV e nos jornais, a dizer de sua justiça. Só diz disparates mas, no que à imagem diz respeito, subiu uma data de degraus. Já não espreita, é ele quem lá está, sozinho, importante, autónomo.
Entre variadíssimas descobertas, o rapaz comunicou ontem à Nação que essa confusão das portagens – pelos vistos é ele quem manda nessa especiosa matéria – era exclusivamente devida aos malefícios do PSD, que não deixa a coisa andar para a frente como o nosso glorioso governo tanto desejava.
A história das portagens nas SCUTS, se não fosse uma desgraça até tinha graça. Nem eu nem ninguém no seu perfeito juízo a compreende. Mas que tem piada, tem.
Já agora, haverá que lembrar que, há anos, o Dr. Bagão Félix se fartou de bramar contra as SCUTS, demonstrando com números e ideias que a patacoada inventada pela dupla Cravinho/Guterres não tinha pés para andar.
O senhor Pinto de Sousa nem sequer olhou para os cálculos do Bagão. As SCUTS eram território sagrado do PS. Jamais seriam portajadas. Jamais. Jamais, clamava o Lino. Enquanto o senhor Pinto de Sousa fosse PM, nem pensar! E a interioridade? E o povoamento do território? E o progresso das zonas deprimidas? Cais quê! Nem pensar! Isso é o que quer, ansiosa por dinheiro, a maldita da direita. Mas o governo é de esquerda. Nem sonhar com portagens.
Agora, Pinto de Sousa passou a achar que portagens é que é bom. Como ele não é especialista em dar a cara por essas coisas, deve ter encarregado o Drácula do assunto. A circulação nas SCUTS passa a ser paga, pois então. Não tem nada a ver com interioridade, nem com zonas deprimidas. Que raio, então não percebem que as coisas mudaram? Isto é outro governo, o Lino já lá vai com os seus jamais!
Mas o problema não é o de o senhor Pinto de Sousa não ter palavra, nem vergonha. Não vivemos com isso há cinco anos?
O problema é que o Drácula parece que não sabe nem como nem onde nem porquê se deve pagar. Daí, entrou na tal confusão trapalhona e badalhoca que ninguém entende.
A culpa, é evidente, é do PSD. Se o Drácula mete os pés pelas mãos, a culpa é do PSD. Obviamente. Se hoje faz um decreto a dizer que é branco e amanhã outro a dizer que é preto, a culpa é do PSD. Hoje vai cobrar assim, amanhã assado. A culpa é do PSD. Na semana passada cobrava acolá, nesta cobra acoli. A culpa é do PSD. Antes, cobrava a estes, hoje àqueles, amanhã não se sabe. A culpa é do PSD.
O IRRITADO deseja ardentemente que o Drácula continue a ter justificadas razões para aparecer nos jornais e nas televisões. Assim, olhos nos olhos, ele, grande, inteligente, magnífico. Sem precisar de espreitar atrás dos ministros. Parabéns.
9.8.10
António Borges de Carvalho

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