Às vezes, mesmo já muito tendo lido e ouvido, ficamos siderados com a fidelidade de certa gente a cartilhas que se julgaria perdidas na noite dos tempos.
O IRRITADO, de vez em quando, debruça-se sobre uma secção o que o “Avante!” tem no jornal privado chamado “Público”, assinada por um tal António Vilarigues, “especialista em sistemas de comunicação e informação” – seja lá isso o que for – e rebento, julga o IRRITADO, de uma dinastia do mesmo nome desde sempre atarraxada às altas esferas do PC.
O homem não é propriamente um marxista – Marx foi um filósofo sério que, é de supor, se pudesse ver o resultado das suas teorias, pelo menos na versão “interpretativa” que o Vladimir Ilitch e o José Estaline praticaram, seria hoje, pelo menos, um “neo liberal” -, mas sim um estalinista mais ou menos aggiornato, isto é, que procura, através da sua especialidade em “sistemas de comunicação e informação”, vender o podrérrimo peixe que, como a mera existência do PC e do BE bem demonstram, ainda há quem coma.
O distinto “especialista” conta-nos que o actual ciclo de crise do sistema capitalista vai no seu quarto ano e tende a continuar. Porquê? Porque o desemprego é galopante, porque o produto mundial se contraiu, porque o comércio mundial sofreu uma redução de 12%. Porquê? Porque, diz ele, há 280 tipos muito ricos, com mais dinheiro que o dinheiro somado de dois mil milhões de pessoas.
Havendo à face da terra, pensa ele, todos os meios, humanos e materiais para assegurar as condições de vida necessárias ao desenvolvimento das capacidades de cada um dos quase 7 mil milhões de habitantes do planeta, a culpa da fome, do desemprego, da ausência de desenvolvimento, etc., é, evidentemente, dos tais 280 malandros e de mais uns quantos que impedem que se criem as condições objectivas para a transformação da sociedade.
Para remediar o problema é preciso que a questão da propriedade e da apropriação privada das condições de produção seja posta em causa. Ou seja, pôr em causa a relação social (de exploração) que o capital corporiza.
Como se vê, o aggiornamento deste notável filósofo não vai tão longe como a saída das cavernas do bolchevismo para os “sistemas de comunicação” poderia fazer pensar. A fraseologia é a mesma, os fantasmas os mesmos, as fugas à realidade, à vida e à própria natureza humana são as mesmas de sempre.
A chamada “crise do capitalismo”, que é um facto, melhor se poderia chamar crise do “estado social”. O estado social, tal como concebido pelos seus intérpretes encartados, entrou em insolvência com a globalização, com a concorrência “desleal” dos países ditos emergentes e, é evidente, com as suas próprias decorrências e asneiras conceptuais.
O que arruinou ou ia arruinando as nações não foi a prática de um capitalismo verdadeiramente liberal, isto é, de um capitalismo limitado pela Lei e, portanto, saudável. Foram as intromissões “sociais”, como as corporizadas pelas Freddy Mac (é assim que se escreve?) e similares, que introduziram distorções no sistema, distorções que a “socialização” do capitalismo iria aumentar até ao “estouro” final. Os primeiros “produtos tóxicos” foram sempre os de motivação social. O resto veio por simpatia, oportunismo, ganância e desprezo pela Lei.
Por cá, por exemplo, os bancos embarcaram alegremente nas “políticas sociais” que, primeiro, aniquilaram o mercado do arrendamento e, depois, empurraram as pessoas, via isenções fiscais, juros bonificados e outras balelas, para a chamada “casa própria”, ou seja, para um abismo de dívidas vitalícias, para o imobilismo familiar e, no fim da picada, para o crédito mal parado, o desemprego e a pobreza. Foram as “políticas sociais” que puseram milhões de cidadãos a pensar que um emprego não é um passo na vida a caminho de melhor, mas uma coisa que se tem – exista ou não – até à morte ou à reforma. Foram as “políticas sociais” que puseram as pessoas a pensar que haverá sempre dinheiro para, na falta ou na recusa de emprego, escorrer um subsídio, um abono, uma coisa qualquer saída, como coelho da cartola, de um poço sem fundo que se chama Estado, ou “estado social”. Foram as “políticas sociais que, em suma, puseram as pessoas no desemprego, ou as desinteressaram de trabalhar, como é patente nos milhares de postos de trabalho que são ocupados por imigrantes por falta de procura dos portugueses.
Foi a concepção do Estado como produtor e distribuidor de riqueza, inspirada, à la limite, nos Vilarigues da nossa praça, quem atirou a sociedade para uma situação que toda a gente já percebeu ser insustentável, mas que ninguém se atreve a tentar sequer pôr em causa. Foi, entre nós, a concepção do Estado como “nacionalizador”, por “razões sociais”, de bancos bandidos ou falidos, quem, pondo no caixote do lixo os remédios mais duros com que o capitalismo, ou seja, a economia, se castiga a si próprio, mais contribuiu, e contribui, para a falência nacional que, a passos largos, se aproxima.
No meio disto tudo, desgraçadamente, continua a haver quem diga que, se tirarmos aos ricos distribuímos pelos pobres, isto através da abolição da propriedade e do poder absoluto de um Estado omnipresente e omnipotente.
A secção do “Avante” ínsita no jornal privado chamado “Público”, outra coisa não faz senão repetir ad nauseam as patranhas da cartilha. É fácil, está “no disco” e entra em cabeças mais crédulas ou menos prevenidas. É natural.
O que nada tem de natural é que haja tanta gente, até nas mais insuspeitas áreas da política e do pensamento, que ande para aí a insistir na manutenção da filosofia estatista que nos arruína e nos desemprega. Além de cavar, para as novas gerações, um futuro mais negro que o imaginável.
9.8.10
António Borges de Carvalho

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