Desiludam-se os amantes da bola. Não vou falar de futebol.
Se titulo vuvuzelas é porque uma obscura coisa que se auto-denomina MUP – Mobilização e Unidade dos Professores (cheira a PC que tresanda) está a planear uma manifestação de protesto contra a precariedade, em que o argumentário se consubstanciará no uso de vuvuzelas.
Ponhamos de lado as insuportáveis cornetas e vejamos o que subjaz ao protesto: a precariedade.
Há quem diga que o IRRITADO tem a mania de ser contra tudo e mais alguma coisa. Não é o caso. O IRRITADO, ao contrário do MUP, é a favor da precariedade. Como já tem dito, acha que um emprego é um passo na vida ou na carreira de cada um, não uma sinecura indestrutível. A chamada garantia do emprego, entendida como o é nesta pobre terra, não passa de (mais) um elemento de paralisia social e económica. Um tipo com emprego garantido para a vida é levado a perder o sentido da responsabilidade, a ambição pessoal, o brio profissional, o interesse pelo seu próprio progresso, coisa que passa a medir em termos de aumentos salariais, não de melhores e mais exigentes funções, e em diuturnidades de vária ordem, não em pró-actividade laboral. O desafio da vida passa-lhe ao lado.
Ao fim de décadas de “estabilidade”, eis onde chegámos: às vuvuzelas.
Segundo o INE, citado nos jornais, mais de 47% dos portugueses (2,4 milhões) tem o mesmo emprego há mais de 10 anos, divididos por 24% há 20 anos ou mais, 9% entre 15 e 19 anos, 14% entre 10 e 14 anos.
Estes números dão-nos uma noção clara da hedionda paralisia laboral em que o país soçobra, vítima da “segurança”, do “estado social”, do socialismo. Se procurarmos razões para a falta de produtividade, aqui temos uma delas. A tal “segurança” criou uma sociedade de desmotivados, de encostados, de vítimas de um sistema que se pretendia salvífico, levadas a encostar-se a vírgulas e invejas, não a procurar valorizar-se.
O sistema tem consequências outras, tão graves como esta, bem expressas na rolha que impede o emprego jovem, na estagnação económica, na mediocridade dos salários, no desemprego galopante.
Quando vemos as “lutas” contra a precariedade, com tanta gente a bramar, com tantos partidos a bolsar teorias num mar de vuvuzelas ideológicas, percebemos até que ponto o socialismo (de direita e de esquerda) criou “o homem novo”: o que acha que tudo lhe é devido e nada lhe é exigível, nem por si próprio.
Não há uma única “luta” que o seja pela dignidade do trabalho, pela produtividade, pela justiça, pela previsibilidade das consequências do marasmo, pelo estímulo, pela lógica das coisas, pela cooperação dentro das empresas, por nada do que pode encaminhar-nos, numa geração que seja, para coisa diferente, mais estimulante, mais responsável, mais estável, mais virada para a vida, que não é coisa fácil, mas pode ser feliz.
Esperança? Praticamente nenhuma. Talvez aconteça alguma coisa (o FMI, a revolta dos mais novos, sei lá) que sacuda os portugueses, que sacuda os partidos políticos, que abra alguma luz, que faça nascer um futuro outro que não o que, cobardemente, a minha geração e a dos que lhe sucederam andam a preparar.
5.9.10
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário