Aquele tipo de olhos esbugalhados que, em tempos, foi director do jornal privado chamado “Público”, informal protector do PS em geral e do senhor Pinto de Sousa em particular tem, no “Sol” um notável lead, a saber:
Dizer que ao PS cabe governar e só ele deve assumir a iniciativa política do OE – limitando-se os demais a observar, a contestar e a votar – significa o triunfo da gesticulação irresponsável e demagógica. Esperemos que a memória dos eleitores não seja curta.
Conviria que o extraordinário (profissional bem pago) comentador tivesse, ele, alguma memória, a fim de não dizer em tão poucas palavras um tão grande chorrilho de asneiras.
Se tivesse memória lembrar-se-ia, por exemplo, que nas últimas eleições os tais eleitores deram ao país e ao PS a oportunidade de formar pelo menos três coligações maioritárias (PS/PC/BE, PS/PSD e PS/CDS), com isto dizendo, evidentemente, que não queriam ser governados só pelo PS.
Recordaria outrossim que o senhor Pinto de Sousa, logo a seguir a tais eleições, lançou uma palhaçada monumental para convencer as pessoas que estava a “negociar”, sem que nada tivesse querido negociar e preferindo assumir o poder sozinho.
Recordaria que, apesar de acusar terceiros de “não apresentar propostas”, o PS chumbou liminarmente todas as propostas dos tais terceiros.
Vir-lhe-ia à memória que, quando não teve outro remédio, o governo acabou por fazer, ou quere fazer sem que para tal tivesse competência (o caso SCUTS, por exemplo) o que terceiros recomendavam, tendo o cuidado de aldrabar as pessoas dizendo que se tratava de ideias suas.
No que ao Orçamento diz respeito, se a esbugalhada criatura não retorcesse a memória, reconheceria o que o PSD, com a maior das clarezas, anda a dizer há semanas: que, se não houver aumento de impostos, às claras ou disfarçados, e houver ideias claras quanto à redução da despesa pública, o orçamento passará.
Se não retorcesse a memória, não diria que compete a terceiros pensar na solução dos problemas criados pelo governo, o mais solipsista dos governos que Portugal conheceu desde os tempos do Doutor Oliveira Salazar.
Se não fosse um colaborador assíduo desta gente, lembrar-se-ia que o orçamento de 2010, em termos de despesa, em meio ano, já ultrapassou em 5% o que tinha previsto, legislado e prometido.
Se não fosse um colaborador assíduo desta gente, lembrar-se-ia do que os impostos aumentaram para sustentar uma parte de tais despesas, ainda que sem chegar senão para uma parte ínfima delas.
É de esperar que os eleitores não tenham a memória tão curta como a dele, nem entrem no seu jogo – e no do senhor Pinto de Sousa – jogo que consiste, exclusivamente, em tudo fazer para “o triunfo da gesticulação irresponsável e demagógica”.
4.9.10
António Borges de Carvalho

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