Os nossos pais ensinaram-nos a respeitar a verdade. Mentir é feio, diziam. A verdade dá ao homem dignidade, altura, qualidade. Os mandamentos das bíblicas tábuas também para aí apontam, passando a verdade a ter valor teológico e a estar no caminho da Salvação.
Pela vida fora, porém, vemos a verdade relativizar-se. Olhamos à volta e encontramos estranhas verdades, que o são para uns e não para outros. Damos com pessoas para quem a verdade é o que lhes convém. Até no sistema penal, o acusado é livre de perorar sobre a verdade que mais conveniente lhe for, o que se compreende mas torna a verdade coisa de somenos. Há verdades que o são hoje e deixam de o ser amanhã, ou que eram mentiras ontem e deixaram de o ser. Há verdades que merecem ter consequências, outras a quem não é conferido tal privilégio. Há coisas que são tidas por verdades, outras, iguaizinhas, que, à partida, são aceites como puras mentiras.
O senhor Fernandes, por exemplo, disse na televisão, a propósito das declarações do doutor Sousa sobra a questão da TVI, que, finalmente, se sabia a verdade, isto é que o senhor Pais do Amaral, de opinião oposta à do Sousa, era um aldrabão da pior espécie. O senhor Fernandes escolheu a verdade que mais lhe interessava, e zás!, passou a ser mesmo verdade.
Nos últimos dias, a alternadeira Salgado, filha de uma offshore, como dizem por aí aleivosas más-línguas, escreveu num livro umas coisas que diz serem verdades. Sê-lo-ão ou não, não interessa para o caso. O que interessa é que o povo, de Norte a Sul, se alimenta das verdades da alternadeira, e gasta milhões para as ler. Os poderes públicos, a começar por Sua Excelência o Procurador Geral da República, dão às verdades da alternadeira direito de cidade, tornam-nas motivo de indignação da República, e decidem investigá-las, o que, quer se queira quer não, dá dignidade e credibilidade às verdades da alternadeira.
Muito bem.
Aqui há uns anos, foi publicado um outro livro, desta vez escrito por um senhor que nunca foi alternadeiro, que ensinava em universidades e que até tinha sido ministro sombra do PS e chefe das relações internacionais da mesma organização. O senhor escrevia, sobre Mário Soares e seus amigos, as verdades que achava serem verdades. Ninguém ligou bóia ao homem. O principal atingido actuou, olimpicamente, como se nada fosse. O procurador geral da República manteve um silêncio sepulcral. A opinião pública borrifou no assunto.
Ou seja, as verdades de um são tidas como podendo sê-lo, merecem investigação e produção de prova, as do outro são descartadas como óbvias mentiras.
A verdade transformou-se numa batata, sem ponta por onde se lhe pegue. Mal de quem queira seguir os ensinamentos parentais, ou as bíblicas prescrições. É capaz de ser preso, ou de ir para o inferno.
António Borges de Carvalho

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