Num gesto bem demonstrativo das ingentes preocupações que o governo socretino tem com a nossa segurança, foi, com magna pompa, anunciado que vamos ter nada mais nada menos que mais dois mil polícias. Dias antes, o senhor Pinto de Sousa tinha, com igual pompa, dito que meter mais polícias seria “uma irresponsabilidade”. Como o homem não costuma dizer verdades, tanto faz. Ninguém poderá saber o que é irresponsável: se metê-los, se não os meter. Trata-se de um mero teasing destinado a manter o povo suspenso das palavras dos fulanos. Nunca se sabe o que sai daquelas privilegiadas cabecinhas. Ou então a coisa é mais sofisticada: o que eles querem é contribuir com dois mil postos de trabalho para a conta dos cento e cinquenta mil que prometeram. É claro que também prometeram diminuir o número de funcionários públicos e que, de uma assentada (dizem que) vão admitir dois mil. Enfim, dentro da lógica socretina, tudo encaixa.
A malta já não liga. Digam lá o que lhes apetecer que nós já sabemos que o que vocês dizem hoje é o contrário do que disseram ontem, duas vezes mentira, sem que, nas vossas altas mentes, isso tenha importância alguma.
O que estaria em causa, se o socretinismo tivesse pensamento em vez de popagandite aguda, seria esta coisa simples de as pessoas, ao contrário do que acontece nalgumas cidades civilizadas, terem que andar feitas Diógenes para descobrir um polícia na rua. E, no entanto, polícias há muitos. O nosso mal é que, ou andam, imponentes, a passear, devidamente motorizados, ou estão nas secretarias a fazer cera ou a preencher formulários. Só se dignam aparecer, parando as suas viaturas aqui e acolá, de preferência nas faixas de rodagem ou em cima dos passeios, quando se trata de caçar multas. Para o cidadão comum, é mais fácil encontrar um perneta que um polícia. A função de vigilância dissuassora e de auxílio público deixou, há muitos anos, de existir. Já não há uma mãe que diga ao filho “se te perderes pede ajuda a um polícia”, pela simples razão que a criancinha iria de Lisboa a Santarém sem encontrar um só que fosse.
Não descansa ninguém que o governo contrate mais dois mil polícias. O que ia coisa significa para o comum dos mortais é que se vai gastar mais uns milhões em vencimentos, subsídios, pistolas, cacetes, algemas, fardamentos, formulários, instalações, escritórios e, sobretudo, motocicletas e automóveis. De maneira nenhuma significa que as condições de segurança de cada um vão melhorar.
É claro que mudar o status quo significaria ver os sindicatos, as associações, o PC e associados na rua, aos gritos que se está a mexer em “direitos”, a dar cabo das “carreiras”, a faltar ao “respeito” à classe, etc. blá blá. Também é claro que o governo se está a encolher todo, borrado de medo da rua. Por conseguinte, minhas senhoras e meus senhores, esta nobre iniciativa tem um só significado: vai ficar tudo na mesma. C’est la vie.
*
Não resisto a contar uma pequena história, a título de apontamento.
Numa aldeia do concelho de Cascais onde costumo passar os fins de semana, a Guarda Republicana, após uma sucessão de assaltos, resolveu, generosamente, colocar um “posto móvel” (uma carripana) na rua, a fim de prover à segurança dos cidadãos. Muito bem.
Vejamos agora como é que a coisa funciona:
Chegado a casa na sexta-feira passada, dou com dois vidros destruídos à pedrada. Os assaltantes não tinham chegado a entrar, felizmente, talvez porque as portadas interiores resistiram à investida.
Ainda bem, pensei eu, ainda bem que temos o “posto móvel”. E lá fui, parvalhão, até à carripana. A coisa tinha uma porta lateral aberta. Lá dentro, uma mesa. Sentados frente a frente dois GNR’s, gordos e bigodaças. Um lia uns papéis. Outro fazia bonecos numa folha A4. Em cima da mesa, uma profusão de telemóveis, walky talkies e outros instrumentos que não identifiquei.
Cumprimentei os senhores e contei a minha história.
– Terá que ir a Cascais apresentar queixa.
– Mas… se os senhores estão aqui…
– Não temos computador, não podemos tomar conta da ocorrência.(!!!)
– Bom, enfim, mas… se quiserem vir ali a casa ver o que se passou… eu agradecia.
– Não vale a pena.
– São só uns trezentos metros!
– Não podemos abandonar o posto.
– Bem, então… mas… não podiam tomar nota, a fim de que as vossas patrulhas, ao menos, passassem pelo local?
– Está bem, vou deixar nota para os meus camaradas da noite.
E o homem garatujou uma coisa qualquer na folha dos bonecos. Não me perguntou, sequer, onde era a casa.
– Mas… o senhor não quer vir ver onde é?
– É ali para cima, não é?
– É, é…
– Então fique descansado. Boa tarde.
– Boa tarde.
E lá ficaram os dois barrigudos, muito bem sentadinhos, um a fazer bonecos num papel, outro a ler as NEP’s (?).
Vêm como é?
António Borges de Carvalho

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