A ditadura consagrou, na Constituição de 1933, o chamado regime corporativo. Segundo ele, a sociedade organizava-se em “corporações”, e estas eram formadas pelos vários corpos sociais de cada sector, reunindo sindicatos, organizações patronais e todas as forças vivas relacionadas com uma mesma actividade. Havia a corporação da indústria, a do comércio, e por aí fora. É evidente que se tratava de uma forma engenhosa de controlar as forças sociais. Os sindicatos e as associações eram comandados por comissários políticos do governo, a greve era um crime. Não havia direito de manifestação, a não ser que fosse a favor do governo. Ao chamado povo era dada a ilusão de uma paz social permanente e desejada. A fictícia construção tinha representação política, na Câmara Corporativa, integrada também pelos inevitáveis comissários políticos de nomeação governamental.
A Democracia, como é óbvio, acabou com tudo isso. Os sindicatos, depois da tentativa de monopolização do PC, passaram a ser livres, a eleger os seus dirigentes, o mesmo se passando, do outro lado, com as associações patronais. A greve passou a ser legal, o direito de manifestação também. Os partidos políticos, sequiosamente, passaram a disputar influência nas organizações profissionais. O PC apoderou-se de uma central que continua a controlar com estalinista mão de ferro, o PS, o PSD e o CDS conseguiram uma influência mais modesta. Nos últimos tempos, assiste-se ao espernear do BE, a querer meter-se onde o PC acha que não é chamado.
As corporações do salazarismo desapareceram. Mas, ao longo dos anos, começaram a surgir, espontâneas, novas corporações. Defendem interesses particularistas por todos os meios e acções, não deixando ou não querendo deixar acabar, ou cair em mãos alheias, qualquer direito ou privilégio, por insignificante que seja.
É vê-las todos os dias, ferozes e influentes, na televisão, nos jornais, na rua, chegando a ultrapassar os partidos sempre que se trate de defender o status quo e de condenar seja que reforma for. Para as corporações todas as reformas são más, todas as mexidas no que consideram “direitos” são condenáveis, tudo o que ofenda as capelinhas corporativas é obra demoníaca.
O que se está a passar com os professores, sob o comando de um feroz leninezinho bigodaças, é bem o exemplo do que acima digo. O homem conseguiu reunir, atrás da sua bandeira, que é a bandeira do “social-fascismo” disfarçada de “justa indignação” e de defesa do direito e do “respeito” virtualmente devido à nobre classe dos “professores”.
É evidente que, se o ensino está como está, e há tantos anos, não pode deixar de haver culpas, e não poucas, dos chamados professores. Isto mete-se pelos olhos dentro. Basta olhar. Basta ouvir “professores” a clamar na televisão, dando horríveis pontapés na gramática, para ajuizar da qualidade geral da classe.
Pode dizer-se, e com razão, que ao alargamento exponencial do número de alunos, de escolas, de cursos, não podia deixar de corresponder alguma desqualificação do ensino. Pode dizer-se, e com razão, que as mitigadas exigências curriculares dos professores têm o mesmo resultado. O que se não pode dizer, ou disfarçar, é a necessidade de pôr alguma ordem na casa, com o mais que legítimo objectivo de elevar o nível da docência em Portugal. Mas a corporação não está para isso. Consegue, para além dos partidos e dos sindicatos, reunir dezenas de milhares de pessoas e uni-las na nobre intenção de conseguir a continuação do sistema de promoções por antiguidade, sem qualquer influência da prestação de cada um na progressão profissional.
Não sei se o sistema inventado pela ministra é bom ou mau. Para o Irritado, o que vem do governo do senhor Pinto de Sousa é, por princípio, mau. Mas, goste-se ou não, o que está em causa não é “esta” avaliação. É toda e qualquer avaliação que passe a condenar o mau trabalho de tantos e a introduzir alguma justiça no sistema.
As outras corporações (médicos, magistrados…) praticam a mesma “religião”, ainda que não consigam a mobilização que o PC e os seus aliados ocasionais vão conseguindo. Não nos toquem, que nos desafinam. As coisas estão muito bem assim. Qualquer mexida pode ser a morte do artista, porque o artista está adaptado ao que existe e não tem disponibilidade a não ser para o imobilismo.
Morreram as corporações salazaristas. A trinta e tal anos de distância, já não se sabe o que é pior, se a ficção político-social da ditadura se a realidade das novas corporações, claramente apostadas em paralisar toda e qualquer evolução da sociedade, assim cortando as pernas ao futuro.
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário