A fim de “chegar a outro universo (um “nicho de mercado”) de conhecedores e apreciadores”, um senhor muito culto e útil à sociedade acaba de dar à estampa uma “tradução” dos “Lusíadas” em “língua” mirandesa.
Isto porque “há milhares de mirandeses que ao longo de centenas de anos continuam a falar mirandês”.
Notável. Não sei quantos “milhares” (mesmo contando com os mortos) de pessoas falam essa corruptela do português, nem jamais ouvi, mesmo na terra deles, tal falar. Presumo que os “milhares” sejam meia dúzia de carolas, que têm todo o direito de o ser e de falar como quiserem, mas que estão longe de constituir o tal proclamado “universo”. Menos ainda um “nicho de mercado”.
Dando de barato o direito de cada um falar como entender, erigir em “língua” um português pessimamente falado não será a mais louvável das actividades.
Corrompe-se a língua portuguesa, “traduzindo-a” para aquele pobre dialecto, de que não se conhece a gramática nem o “dicionário”, nem jamais foi instrumento de qualquer obra, literária ou oral, digna de nota.
Estropiar uma língua a favor de quem a trata com os pés, seria coisa ridícula se não fosse grave.
10.10.10
António Borges de Carvalho

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