IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


UM BERBICACHO

O que se sabe do assunto é simples, mas complicado.

Há uma carga de anos construíu-se, em Viana do Castelo, um prédio com uma carga de andares. Foi posto à venda. Largo número de cidadãos compraram andares e alugaram-nos ou foram para lá viver. Até aqui, tudo normal. Presume-se que a obra estava devidamente licenciada – ou não poderia ser comercializada. Mas acontece que fora implantada, mercê de devida licença camarária, sem respeito pela paisagem urbana e natural envolvente. Não é exemplo único: lembrem-se, por exemplo, do mamarracho, completamente desenquadrado, que surgiu em Cascais, no sítio de outro, o hotel Estoril Sol. O mamarracho lá está, a atirar-se, orgulhoso, à cara de cada um, atestando os altos critérios desse grande autarca que foi António Capucho.

O prédio de Viana não é feio nem bonito, é coisa comum, nada de especial a assinalar a não ser a localização, sem ponta, bem visível, de lógica urbanística. Coisa sem remédio, como o do Estoril. Mas…

Anos passados, os poderosos “estetas” oficiais embirraram com ele. A tal ponto que decidiram demoli-lo, a bem da beleza da cidade. É claro que as pessoas que lá moravam não gostaram da ideia. Anos e anos levaram os estetas, a câmara, os tribunais, os jornais, o diabo, a convencer as pessoas a pôr-se dali para fora, dando lugar ao camartelo municipal. Umas acabaram por chegar a acordo com as brilhantes autoridades, julga-se que indemnizadas a contento, ou realojadas dignamente. Outras não. Há quem alegue que a indemnização oferecida era ridícula, há quem ache que comprou a sua casa, naquele sítio, com aquela vista, pagou, é a sua casa, lá vive a e ninguém tem o direito de lha tirar. Só que as autoridades não são de modas: em vez de chegar a acordo, por caro que fosse, decidem a expulsão.

Como? Aqui é que está o busilis, se é que não há outros do ponto de vista legal. É que os manda-chuva lá do sítio resolveram privar as pessoas de quaisquer meios de sobrevivência. Assim, como matar um câo à fome. Imperialmente, cortaram a água, a electricidade, as comunicações fixas, acabaram com os elevadores, só faltando, que se saiba, entupir os esgotos. O tiranete em funções ameaça com processos-crime e outras martingalas. A polícia, às ordens da lei (que lei?), impede a entrada seja a quem for.

Até quando? Até que as pessoas morram de porcaria acumulada, ou de fome, ou de desespero, por terem decidido defender o que é seu.

Não sei nem me interessa quem, do ponto de vista jurídico, terá razão. Sei que não há lei nenhuma que legitime os meios que o poder vem usando para privar as pessoas de um direito cem por cento legítimo, ou que tenha deixado de ser legítimo por imposição do poder. Aliás, foi esse poder que legitimou a construção do que, agora, acha estéticamente inaceitável.

Quem acode?

 

28.6.19



Uma resposta a “UM BERBICACHO”

  1. Falamos do ‘Prédio Coutinho’ – nome do emigrante que comprou o terreno em Viana do Castelo por cerca de nove mil contos, segundo a internet, e que lá construiu o mamarracho. Isto em 1972. Desde 1975 que o querem demolir. Vendo fotos de então e de hoje, é evidente que o prédio nunca pertenceu ali: parece um elefante numa família de esquilos. Como o Irritado diz, não chega à aberração do Estoril, mas é absurdo. Claro que os moradores não têm culpa disso; nem é admissível serem expulsos por isso, que lhes cortem água e luz, que os tratem como criminosos. Os políticos falam em ‘interesse público’. Quando é que o público validou seja o que for? Quem autorizou o prédio? Quem autorizou o dinheiro público estourado em décadas de processos e tribunais? Como sempre, o Irritado está contra o Estado. Neste caso, sejamos justos, contra a prepotência do Estado. Muito bem. Por outro lado, dizem os jornais que os moradores sabem há quase 20 anos que têm de sair; que a maioria já saiu; que lhes ofereceram casas e indemnizações. Parece que estão por reclamar 1.9 milhões de euros – a dividir por 9 moradores, ~210 mil euros a cada? – mais uma casa nova «logo ao lado». Afinal que querem? Não será a ganância a falar? Por trás do prédio há outra questão, maior que o prédio: quando o interesse público – se realmente fosse público – colide com interesses privados. Neste caso a direita do Irritado está do lado dos moradores; mas na verdade borrifa-se para eles. O que realmente os emociona é o ‘ataque à propriedade privada’. Se os moradores fossem despejados da casa de sempre por um banco ou um senhorio, encolhiam os ombros. Era a vida. O problema, o verdadeiro problema, é ser o Estado.

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