Quando se vê uma multidão de militares desfilar nas ruas em manifestação sindical, fica a perceber-se que alguma coisa está muito mal entre nós.
Não, desta vez o que está mal não é a crise, não é o governo, não é o orçamento, nem a oposição, nem a AR, nem o PR, nem a Justiça, nem a Constituição nem a Lei.
Nada disso. O que está mal é o estado de miséria moral e profissional a que os militares chegaram. Todos os militares, já que parecem dividir-se entre os andam na rua e os que não protestam por eles andarem na rua. Ninguém fica de fora.
Parece que as invectivas dos estúpidos – para aplicar um substantivo soft – tipo Otelo ou Vasco, fizeram caminho nas fileiras. Aliás, se nos lembrarmos dos capitães do 25, cujo acto se enraizou, ressalvadas honrosas excepções, mais em descontentamentos sindicais que em sentimentos democráticos, verificamos, clara e tristemente, que o sentido aristocrático e nobre da sua profissão, perdido nos anos do fim da ditadura, em vez de ser recuperado em trinta e tal anos de democracia, está na mesma, ou pior.
Os militares acham-se, como os agulheiros da CP, os motoristas da Carris, os pilotos da TAP e demais chusmas de dependentes do Estado, muito acima dos demais. Os sacrifícios não são para eles. Que se lixem os outros, que se lixe a Nação. Se lhes não tocarem no pote, tudo bem. Se tocarem, vêm para a rua defender os seus intocáveis direitos, sem querer perceber que o que era direito é agora privilégio.
Os que dependem do Estado (é o caso do autor do IRRITADO, via CNP), deviam perceber que não podem deixar de ser os primeiros a valorizar, sem um protesto, a relativa estabilidade de que gozam e que a outros não assiste. Por maioria de razão os militares, já que tanto se gabam dos seus “altos serviços”. Isto se ainda tivessem alguma noção da dignidade do que fazem e do que deles temos o direito de esperar.
16.11.11
António Borges de Carvalho

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