O IRRITADO tem passou uma semana na risota. É que anda para aí um jornal a publicar uma enorme “investigação” sobre a Maçonaria, a irmandade em tempo conhecida, por razões desconhecidas, como dos “filhos da viúva”.
Já lá vão muitos anos, um maçon meu amigo, convidou-me para entrar na organização.
A coisa começaria por ir a uma “sessão branca”. Que é isso? – perguntei. É uma sessão aberta aos “profanos”, em que o “templo” tem os “altares” tapados.
O que é isto? – pensei, a lembrar-me dos tempos em que, no luto da Semana Santa, os altares das igrejas tinham as imagens tapadas com panos roxos. O que é isto? Templo? Altares? Profanos? Uma religião? Mas as religiões – pelo menos a mais comum entre nós – têm as portas abertas e recebem toda a gente!
Metido na enrascada e não querendo ser antipático, pedi ao meu amigo que me desse os estatutos da organização, para que pudesse avaliar dos direitos e deveres que a filiação implicava. Ao que me foi respondido que não, a “constituição” era coisa não pública, coisa de “iniciados”. Saíramos do domínio do religioso para entrar no do esotérico.
A conversa, como é de calcular, ficou por ali.
Agora, às voltas com o jornal, vejo-me mergulhado outra vez em estranhas linguagens, aventais, compassos, olhos a espreitar por triângulos, báculos ou coisa que o valha, bonecada avulsa, outra vez os templos, as iniciações, as cerimónias, o secretismo, os títulos honoríficos, rebuscados, impossíveis, inacreditáveis, os graus, toda uma patética panóplia de símbolos e de linguagens, coisas reservadas aos “irmãos” segundo os decretos da hierarquia da coisa.
Tudo isto, para quem vê de fora, é pelo menos ridículo, patético e idiota. A Idade Média ressuscitada no Bairro Alto.
Ou então será outra coisa, que não pode deixar de ser ilegítima, opaca e inconstitucional, e daí perigosa. Senão pergunte-se em que “Diário da República” vem publicada a respectiva “constituição”.
16.11.11
António Borges de Carvalho

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