O triste cidadão tem assistido a algumas novidades linguístico-conceptuais, ridículas ou estúpidas, tendentes não se sabe bem a quê, mas que mereceriam, ou que os seus autores as explicassem, ou que os inúmeros especialistas em semântica e outras actividades do estilo as investigassem, por uma questão de respeito pelos ignaros. Por exemplo: os contínuos, empregados de limpeza e outras profissões menos qualificadas passaram a “assistentes operacionais”; os concursos públicos são agora “procedimentos concursais”. E por aí adiante, num mar de charadas e parvoíces.
Os “grupos de trabalho”, as “comissões especializadas” e outras desculpas para empurrar problemas para baixo do tapete e pagar umas senhas de presença estão a ser substituídas por coisa mais fina: as “estruturas de missão”. Lindo, não é? Deve ser óptimo fazer parte de uma “estrutura de missão”. O peito incha, os trocos também, quanto mais tempo a “estrutura” durar melhor. Além disso deve ser prestigiante, bom para pôr no currículo, até é capaz de abrir ares para outros voos. Se não servir para nada, melhor ainda. Virá outra “estrutura de missão”, talvez com um nome diferente, para inglês ver.
Em “estrutural” paroxismo, o extraordinário Centeno e o seu serventuário da saúde alugaram um teatro, sim, um teatro, para pôr em cena mais uma comédia governamental: o lançamento de uma “estrutura de missão” destinada a estudar a forma de pagar as dívidas da saúde, perdão, para “reequilibrar o sistema”. Não, meus amigos, não se trata de alguma crise de honestidade que tenha, repentinamente, assolado as almas da geringonça. Nem pensar. A raiz do problema não são as dívidas, os atrasos dos pagamentos, os problemas que vão dando cabo da cabeça aos credores. Nada disso. Trata-se de evitar que Bruxelas, que anda a pau com estas matérias e faz sentir que não atura as cativações e dívidas anexas por muito mais tempo, se excite. Não é coisa para inglês ver, é para Bruxelas ver. Ver como a geringoncial coisa está preocupada com o assunto e ficar o tempo que for preciso à espera dos relatórios, conferências e outros espectáculos com que a “estrutura de missão” não deixará de a contemplar. Entretanto, os enganados locais ficarão convencidos que o problema está em vias de solução, coisa que não ocorreu, nem ao Centeno nem ao outro. Se tal lhes tivesse ocorrido, pagavam o que devem, caso encerrado. Mas este é como os demais casos que a geringonça encerra, ou seja, não passa de publicidade.
E ainda há quem se queixe do Facebook!
26.3.18

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