Os governos, por toda a parte, têm sido pródigos em descobrir “remédios” para a crise. Ele é tentar “aguentar” indústrias com subsídios loucos, ele é “parar” falências bancárias, ele é distribuir uns tostões pelos mais pobres, ele é as promessas de suporte às pequenas e médias empresas, ele é os avais do estado postos à disposição destes e daqueles, ele é as nacionalizações dos buracos, ele é…
Pelo menos entre nós, a chuva de milhões prometida não passa disso, isto é, de prometida. Se o Estado viesse a ter que os desembolsar – o que até pode vir a acontecer – faliria de um dia para o outro. E, como as reservas dos que lhe poderiam acudir terão tido destino, não se sabe como se poderia sair do túnel. Possivelmente, teríamos que nos habituar a viver nele, não por um ano ou dois, mas por tempo de gerações.
Estas funéreas impressões talvez mereçam uma reflexão.
Quem já conta uma certa idade lembrar-se-á de ver, nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta, legiões de japoneses que passarinhavam no Ocidente por tudo o que era fábrica, feira, exposição, tudo o que metesse tecnologia e I&D. Munidos de máquinas fotográficas e de blocos de notas, os simpáticos nipónicos, inimigos de ontem, procuravam a todo o custo o aggiornamento com as realizações industriais do seus novos amigos. Tempo passado, os produtos japoneses eram vistos no Ocidente com desconfiança, os automóveis eram feios, as máquinas fotográficas de segunda, e por aí fora. Mas isto durou pouco. Os produtos da tecnologia japonesa impuzeram-se e o Japão tornou-se a potência científica, tecnológica e económica que conhecemos.
Daí não veio mal ao mundo. A Europa de Leste e o seu imperador soviético sofriam os resultados do comunismo, isto é, salvo pontuais excepções estiolavam e não entravam no pace do Ocidente. Não eram concorrentes.
Morta a tirania comunista, exponencialmente desenvolvida a comunicação, abatidas barreiras comerciais, o mundo entrou na chamada globalização, talvez um dos maiores triunfos do capitalismo, que levou dignidade e bem estar a biliões de seres humanos, até aí privados das mais elementares liberdades, incluindo a de produzir e vender.
A lógica do processo, a procura dos meios que permitem a investigação e o desenvolvimento, levou, primeiro, à globalização da mão-de-obra, depois à transferência de tecnologia. O que se passou pelo mundo fora pouco ou nada teve a ver com o processo japonês. Este, baseava o desenvolvimento na sua própria força de trabalho, sem ceder – xenofobamente, se quiserem – à atracção da mão-de-obra estrangeira ou da “deslocalização”.
Actualmente, a I&D ocidental vai procurar realização em mercados longínquos, o Ocidente é invadido pelos seus próprios produtos, fabricados em regiões onde deixa boa parte das suas mais valias. A colossal massa financeira assim gerada além fronteiras tem vindo, em boa parte, a regressar ao Ocidente, sustentando-lhe os défices, públicos e privados, mas não correspondendo a qualquer mais valia económica dos seus receptores.
Mais do que o sub-prime, mais do que os produtos “tóxicos”, fenómenos que correspondem a políticas “sociais” tendentes a levar o “gozo” do capital financeiro a vastíssimos universos de cidadãos que com pouco mais contavam que com o valor do seu trabalho, mais do que a “ganância dos especuladores”, foi a deslocação do centro de gravidade da produção o que motivou a actual crise.
A “supremacia” ocidental, de que os não ocidentais precisavam como mercado de eleição, entrou em declínio, o que “globalizou” a crise.
E agora?
Onde é que o Ocidente (a Europa e os EUA), carentes de matérias-primas, falhos de fontes energéticas, mais preocupados com o “aquecimento global” e com outras patacoadas do género do que com o seu próprio futuro, vão buscar a simples manutenção dos níveis de bem-estar e de protecção social a que estão habituados? Isto se, como começa já a acontecer, a I&D agressiva que era exclusivo do Ocidente começa a ser praticada por outros com iguais resultados, se o capitalismo globalizado produz efeitos equivalentes em paragens onde os factores de produção, a energia, as matérias-primas, estão mais disponíveis, onde a mão-de-obra é abundante e mais barata, onde os custos da protecção social quase não existem?
Onde estão os mercados para os produtos da tecnologia ocidental, se esses mercados passam a produzi-los sem precisar de mais transferências de tecnologia?
Onde vai parar o nosso modus vivendi?
Seja qual for a resposta, ela não tem nada a ver com a manutenção de indústrias em fase de obsolescência (como os automóveis americanos), com o evitar a tout prix a falência de quem está falido, com a cobertura “generosa” do aumento exponencial dos custos do desemprego.
Quando, em Portugal, unanimemente, se fala em combater o desemprego e, ao mesmo tempo, se baseia a erradicação do problema em obras públicas, ou seja, em empregos sem futuro e num endividamento colossal do país, não se estará a cavar a sepultura da nossa sociedade?
Outra unânime mezinha é a de necessidade de produzir bens exportáveis. De acordo. Mas exportáveis para onde? Com que mais valias? Onde estão os clientes?
O nosso problema é o do Ocidente em geral, exponenciado pelo atrazo e o endividamento em que o PS de Guterres nos mergulhou, que os governos PSD/CDS não conseguiram estancar e que a desgraça do governo socialista de Pinto de Sousa multiplicou, atirando-nos a mar de demagogia, de mentira, de incompetência, de falta de visão de futuro e de brutalidade fiscal em que estamos submersos vai para quatro anos.
Donde, a solução será a de manter, custe o que custar, a supremacia científica e tecnológica e o sistema económico que fez do Ocidente a parte mais avançada e mais rica do globo.
Sacrifícios, todos sabemos que temos, ou teremos, que fazer. Mudança de padrões de vida, em princípio, também temos, ou teremos, que suportar. Ao menos que seja em nome de alguma coisa que tenha um fim, um objectivo, um projecto, um futuro.
O avanço que, apesar de tudo, ainda existe no Ocidente, terá que ser exponenciado, a fim de que não sejam os outros a vender-nos o que nós próprios inventámos e que, a prazo, deixaremos de ter, sequer, dinheiro para pagar.
Se levarmos, não à letra, mas a sério, os apelos à produção de “exportáveis”, estaremos, não direi nós, que somos nabos, mas o nosso mundo, no caminho de alguma luz.
Não é com pachos quentes que se cura pneumonias.
3.1.09
António Borges de Carvalho

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