Segundo reza a propaganda do Medina, os velhotes que não morrerem até ao fim de 2018 terão à disposição, em 2019, um call center em regime de dedicação exclusiva, gentilmente posto à sua disposição pela CML, obviamente mediante o pagamento de uma taxinha.
O IRRITADO, na sua qualidade de velhote (“idoso”, no linguarejar oficial), desde já apresenta os seus sinceros agradecimentos à generosíssima edilidade, bem como elogia a prontidão do futuro serviço, isto é, a rapidez (ano e meio) com que a CML porá a funcionar uma coisa tão original e tecnologicamente inovadora e complicada como um call center.
Diga-se, com redobrada gratidão, que a nova “infraestrutura comunicacional” não terá funções concretas, isto é, foi anunciado que servirá para reencaminhar os utentes para as agências dedicadas, segundo a natureza dos pedidos ou problemas dos idosos.
Assim, de forma prospectiva, com o aval do INE, da Universidade de Fornos de Algodres e da Comissão de Protecção de Dados, pode ser elaborada a chamada-tipo que virá a ser efectuada por um idoso a braços com a impossibilidade de se entender com o micro-ondas.
– Divisão camarária da assistência a idosos, boa noite.
– Boa noite, minha senhora…
– Se deseja ser atendido em português prima 1, se deseja ser atendido em inglês prima 2.
O idoso põe os óculos, procura no telemóvel a forma de ir buscar o teclado dos números e carrega no 1.
– Se o seu problema é de natureza assistencial prima um, se precisa de atendimeno psicológico, prima 2, se quer apresentar uma queixa prima 3, se é questão de saúde prima 4, se quer falar com um assistente prima 5.
Como o idoso não percebeu nada, prime 5, já que o que queria era falar com alguém. Ao fundo, ouve-se uma canção romântica do Quim Barreiros. O idoso espera, põe o som mais alto e fica a ouvir.
– De momento, os nossos atendedores estão ocupados.
Volta o Quim Barreiros.
– Ainda não foi possível atender a sua chamada, Se quiser que nós lhe liguemos, queira indicar o seu número. Caso contrário, informamos que o tempo de espera é de, aproximadamente, sete minutos.
Entra o Salvador Sobral. O idoso fica mais contente. Passam 9 minutos e quarenta e cinco segundos. Minuete de Boquerini. Até que:
– O meu nome Tânia Vanessa Natacha da Conceição. Queira indicar o número do contribuinte.
O idoso poisa o telefone e vai à mesa de cabeceira buscar o número.
– 999 457 123.
– Morada?
– Rua da Geringonça, 69, quarto esquerdo.
– Código Postal?
– 394700235
– Negativo. Isso não é código postal.
– Tem razão, é o número de telefone da minha cunhada.
– Código postal?
– Um momento, minha senhora… é o 2390-432.
– Idade?
– 83.
– Cartão do cidadão?
– 9786543
– Muito bem. Em que posso ser útil?
– É que, minha senhora, estou cheio de fome e não consigo pôr o micro-ondas a funcionar.
– Pois, mas essa funcionalidade não consta das pretensões elegíveis.
– Ah!
– Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
– Não, minha senhora… olhe, se vir o Medina, mande-o abaixo de Braga.
– Resta-me avisar que esta chamada, dado o tempo gasto, será taxada em 2,35 euros.
Clic.
Prestado tão relevante serviço, dona Tânia Vanessa candidata-se a um prémio de eficiência e assiduidade.
30.7.17

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