Em tempos que já lá vão, passei cinco anos no Liceu Passos Manuel. Morava nos confins de Benfica, no extremo mais extremo da cidade. Saía de casa pelas 7.15, ia a pé os 900 metros que me separavam do terminal do eléctrico, viajava até à Alexandre Heculano, aí apanhava a carreira de São Bento, descia em andamento em frente da Assembleia Nacional, subia a correr as escadinhas da Arrochela, mais uns 500 metros a subir e a descer e, às 8 e 30 em ponto, estava na aula. 6 dias por semana.
No Passos havia de tudo. Fidalgos, meninos ricos, remediados e pobres. Havia quem viesse de Almada, do Barreiro e mais não sei donde, filhos de doutores, de guardas fiscais, de operários, de meretrizes, tipos do Cais do Sodré, tipos da Lapa. Era o que se podia chamar, em termos de hoje, um liceu inter-classista.
Depois, andei no Camões, com grande desgosto meu pela mudança, mas a minha alínea não era ensinada no Passos. Nada mau, menos longe de casa e mais “bem frequentado”.
Quer isto dizer que o critério de admissão, se o havia, era o das vagas. Os pais procuravam o mais perto mas, se não houvesse vaga, ia-se para onde a houvesse.
Os tempos mudaram, e mudaram para muito melhor. Toda a gente tem secundário – com outro nome qualquer – o número de alunos e de escolas aumentou e, com elas, subiu brutalmente a frequência e a oferta.
Entretanto, inventou-se duas coisas, uma a que se poderá chamar o critério da proximidade, outra chamada liberdade de escolha. A primeira dá prioridade na inscrição aos tipos do bairro, a segunda não se aplica porque contradiz a primeira. Os pais, que querem o que acham melhor para os filhos, se não moram no bairro da escola escolhida inventam uma morada pirata e resolvem o problema. O critério da proximidade é mandado às urtigas, isto é, não é tão importante como julgavam os intelectuais da educação. A alegada melhor qualidade do ensino prepondera nas escolhas, independentemente da proximidade.
Quando os dois critérios levam ao mesmo resultado, tudo bem. O pior, ou o melhor, é que a liberdade de escolha segue os seus humaníssimos caminhos.
Parece que, agora, vão perseguir as moradas pirata. Ou seja, volta-se à proximidade, dá-se cabo das fugas para a liberdade de escolha.
Donde, a única conclusão possível é a de que é aconselhável voltar ao antigamente: as escolas têm xis vagas, quem se inscrever primeiro, entra. Quem chegar atrasado, vai tratar da vidinha para outro lado. Trará inconvenientes e chatices a muito boa gente, o que não é dramático e faz parte da vida de cada um. Por outro lado, alargar-se-á o tal interclassismo, tão do agrado de tanta gente, e que nunca fez mal a ninguém.
30.7.17

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