IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


ESCOLAS

 

Em tempos que já lá vão, passei cinco anos no Liceu Passos Manuel. Morava nos confins de Benfica, no extremo mais extremo da cidade. Saía de casa pelas 7.15, ia a pé os 900 metros que me separavam do terminal do eléctrico, viajava até à Alexandre Heculano, aí apanhava a carreira de São Bento, descia em andamento em frente da Assembleia Nacional, subia a correr as escadinhas da Arrochela, mais uns 500 metros a subir e a descer e, às 8 e 30 em ponto, estava na aula. 6 dias por semana.

No Passos havia de tudo. Fidalgos, meninos ricos, remediados e pobres. Havia quem viesse de Almada, do Barreiro e mais não sei donde, filhos de doutores, de guardas fiscais, de operários, de meretrizes, tipos do Cais do Sodré, tipos da Lapa. Era o que se podia chamar, em termos de hoje, um liceu inter-classista.

Depois, andei no Camões, com grande desgosto meu pela mudança, mas a minha alínea não era ensinada no Passos. Nada mau, menos longe de casa e mais “bem frequentado”.

Quer isto dizer que o critério de admissão, se o havia, era o das vagas. Os pais procuravam o mais perto mas, se não houvesse vaga, ia-se para onde a houvesse.

Os tempos mudaram, e mudaram para muito melhor. Toda a gente tem secundário – com outro nome qualquer – o número de alunos e de escolas aumentou e, com elas, subiu brutalmente a frequência e a oferta.

Entretanto, inventou-se duas coisas, uma a que se poderá chamar o critério da proximidade, outra chamada liberdade de escolha. A primeira dá prioridade na inscrição aos tipos do bairro, a segunda não se aplica porque contradiz a primeira. Os pais, que querem o que acham melhor para os filhos, se não moram no bairro da escola escolhida inventam uma morada pirata e resolvem o problema. O critério da proximidade é mandado às urtigas, isto é, não é tão importante como julgavam os intelectuais da educação. A alegada melhor qualidade do ensino prepondera nas escolhas, independentemente da proximidade.

Quando os dois critérios levam ao mesmo resultado, tudo bem. O pior, ou o melhor, é que a liberdade de escolha segue os seus humaníssimos caminhos.

Parece que, agora, vão perseguir as moradas pirata. Ou seja, volta-se à proximidade, dá-se cabo das fugas para a liberdade de escolha.

Donde, a única conclusão possível é a de que é aconselhável voltar ao antigamente: as escolas têm xis vagas, quem se inscrever primeiro, entra. Quem chegar atrasado, vai tratar da vidinha para outro lado. Trará inconvenientes e chatices a muito boa gente, o que não é dramático e faz parte da vida de cada um. Por outro lado, alargar-se-á o tal interclassismo, tão do agrado de tanta gente, e que nunca fez mal a ninguém.

 

30.7.17



Uma resposta a “ESCOLAS”

  1. Interclassismo? Isso não soa um bocadinho… comuna? Segundo as leis do capitalismo, cada um tem o que merece – e o que merece é o que consegue comprar. Os meninos pobres não merecem as melhores escolas; estas, tal como os meninos ricos, estão acima da sua bitola. Na Inglaterra tão louvada pelo Irritado, sempre foi: Eton e Oxbridge para a elite, o resto para a ralé. Claro que também lá andam uns pobretanas, aqueles muito marrões, com bolsas e assim, só para fazer vista. Em Portugal, país pobre e pacóvio, não temos Eton nem Westminster. A nossa elite sabe disto, por isso sempre mandou os filhotes para a estranja. Mas já temos uma classe média-alta, e até média, a fazer algo parecido. O plano é este: um bom colégio, um bom liceu, depois faculdade e/ou mestrado fora. Como escolher o colégio e o liceu? Pelos ratings, uma moda à americana, e pela classe social dos que lá andam. Dinheiro atrai dinheiro, logo desde a creche: os papás sonham com belas escolas, cheias de meninos saídos de anúncios da Volvo, longe de proletários e pretos e ciganagem e coisas assim horríveis que dão no telejornal. Até mentem descaradamente para pôr os rebentos na escola X ou Y, com a mesma naturalidade com que depois chamam trafulhas aos pulhíticos, ou corruptos aos funcionários públicos. O curioso é que tendemos a encarar isto com certa tolerância. Só querem o melhor para os filhos, né? É natural, é até bonito, nobre, uma má acção por um bom motivo… tretas. Os filhos, para muita gente, são apenas outra forma de egoísmo: uma extensão do seu eu, um troféu social, uma exibição tribal de conquista, do sucesso dos pais, do triunfo sobre outros. Será de admirar que os filhos se tornem alarves como eles?

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