Até há três ou quatro anos, costumava o autor destas linhas ser convidado para as chamadas “Conferências de Antalya sobre Segurança e Desenvolvimento”. Durante uns doze anos terá faltado a uma ou duas. Tudo se passava no tempo em que a democracia turca, ressuscitada após a ditadura dos anos 80, florescia, ainda que vigiada pelos militares. Estes, herdeiros privilegiados de Atatürk e da sua revolução democratizante, ocidentalizante e laica, munidos de constitucionais poderes, conseguiam manter à distância as tendências mais ligadas ao islamismo e a formas de legitimidade quiçá piores que as dos miltares. Foi assim que o partido do actual primeiro-ministro foi afastado, mesmo quando terá ganho umas eleições.
Essas conferências, fosse qual fosse o tema que apregoavam, destinavam-se fundamentalmente a pôr alguns políticos e académicos ocidentais – europeus e americanos – perante o “direito” a que achavam que a Turquia fazia jus, de pertencer à CEE, depois UE. Lembro-me das inúmeras vezes em que procurei convencer os meus amigos turcos do falhanço dos seus objectivos, pelo menos pelo que ouvia nos discursos das várias personalidaes presentes, políticos, militares, académicos. É que, para além da “fé” democrátrica e ocidental, os discursos escorregavam sempre para questões que para os oradores, eram (e continuam a ser) inultrapassáveis: a questão grega, a questão curda, a questão arménia, a questão cipriota, por exemplo, tudo memórias, preconceitos e temas que diziam pouco aos presentes mas que os turcos (os moderados, os democratas!) não conseguiam dominar nem disfarçar, nem que fosse só para ocidental ouvir.
Já o IRRITADO estava definitivamente afastado das suas andanças turcas, o partido do actual PM acabou por se instalar no poder. Legitimamente, diga-se. O homem conseguiu dar uma imagem de moderação e, que diabo, ninguém tem nada a ver com a religião de cada um! Tínhamos por cá o exemplo da Democracia Cristã que, sendo de base religiosa no plano dos princípios, tratava de política, não religião. Muito menos de impor fosse que religião fosse. Animados por tal exemplo e pouco dados a hegemonias militares, os ocidentais confiaram no senhor Erdogan.
Veio a chamada primavera árabe, que toda a gente já percebeu ter sido rapidamente transformada em pasto de fundamentalistas, jiadistas e quejandos. Os ocidentais, a princípio, saudaram a viragem, crentes que os países dela protagonistas iam entrar em terreno de liberdade e legitimidade do tipo a que estamos habituados. Estulta ilusão. Assim como acreditámos, ou alguns políticos acreditaram, que era possível “exportar” a democracia para o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Tunísia, também a generalidade das nossas opiniões públicas embarcou na esperança de passar a ter interlocutores que pensassem de maneira parecida ou afim da nossa.
O fenómeno chega agora à Turquia, o que é ainda mais inquietante que o que noutros teatros se passa. É que o retrocesso vem do poder instituído, que começa a mostrar a sua verdadeira face. As bebidas alcoólicas são reprimidas, as mulheres são encorajadas a voltar ao véu, os jornalistas são presos às centenas, o estado laico corre os maiores perigos e ataques. Há pancadaria nas ruas, é certo. Há quem resista. Mas o mal está no poder, parece ser maioritário, e o ocidente arrisca-se a ver “borregar” o país que pensou poder ser o tampão ideal para indesejáveis investidas.
Se se tivesse metido a Turquia na UE, se se tivesse afogado a Turquia nos regulamentos e nas idiotices de Bruxelas, talvez o senhor Erdogan não tivesse o topete que tem. Agora, é tarde. A primavera turca aí está, a saber a inverno.
3.6.13
António Borges de Carvalho

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