“O amante apanhado nas garras do amor romântico comporta-se como um adicto, seguindo a mesma linha de conduta”.
Esta frase, mais ou menos ininteligível, lead de um artigo de jornal, chamou a atenção do IRRITADO para o que julga ser um neologismo, a palavra “adicto”, inglesismo tão inútil (em português diz-se dependente), quanto desagradável para quem lê ou ouve.
Os dicionários já adoptaram a palavra, ainda que não tenham passado dela, isto é, não tiveram a coragem de fazer o mesmo com adictar ou adicção. Paciência.Não passa o establishment o tempo a falar de implementação?
Esta irritação despertou outras, por todo o lado recorrentes, dos jornais aos livros, das televisões às rádios, dos escritores aos criativos da publicidade, dos analfabetos aos Prof’s.
Senão, vejamos:
– Nos tempos em que o português se prezava da sua lógica interna, ninguém se atreveria a pronunciar pêlo para exprimir a contracção de por com o. Os professores de português, antes da ponteirada no toutiço, costumavam dizer: “Pêlo? Pêlo de quem? Do cão?”, coisa que muito atrapalhava as criancinhas. Hoje há pêlos e pêlas por tudo quanto é sítio e ninguém se importa com isso, a começar pelos professores;
– Se eu dissesse “esta caixa é em ferro”, o professor aplicava directamente a ponteirada. Depois invectivava: “Diga lá o meu menino onde está a caixa. Em Ferro? Não conheço nenhuma terra com esse nome!”. O menino fazia beicinho e, lembrado dos ensinamentos recebidos, diria “desculpe senhor professor, de ferro, a caixa é de ferro”. Hoje, por toda a parte se fala de “motores em alumínio”, “caixotes em madeira”, etc., sem que seja quem for mexa uma palha, a começar pelas escolas;
– Os infinitos antecedidos da preposição a (correspondentes a gerúndios) jamais seriam admitidos no plural. Hoje são o pão nosso de cada dia. “A verem o filme, estavam contentes”, “Eram muitos a ofenderem-se”, e por aí fora. “As luzes a acenderem-se e a apagarem-se” – meu Deus, esta, como muitas iguais, é do António Lobo Antunes, génio que tem um rebanho de catedráticas a rever-lhe os textos!!!
– O mesmo com para, por, sem, etc.: “Foram a exame para passarem”, “Casaram por se amarem”, “Sem saberem as regras do jogo, enganaram-se”…
– O pleonasmo, coisa condenadíssima quando havia gramática, tornou-se hábito e está em plena expansão: “Parece-me a mim”, “Estou confrontado com”, “Antes prefiro”…
– E os verbos a concordar com o complemento directo em vez de concordar com o sujeito? “Vendem-se andares”, “Compram-se jóias”…
Há mais, há muito mais. Irritações para quê? Se calhar vale mais achar que a dona Edite Estrela é uma grande filóloga, que as catedráticas do António são o máximo, que a alma é pequena e já não vale a pena.
26.2.11
António Borges de Carvalho

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